A origem da linguagem entre os humanos, sua relação com a evolução humana e suas consequências têm sido tema de discussões acadêmicas há alguns séculos. Apesar disso, não há consenso sobre a definitiva origem ou a idade da linguagem humana. Um problema faz com que o tema seja difícil de ser estudado: a óbvia ausência de evidências diretas. Consequentemente, os especialistas que desejam estudar as origens da linguagem precisam inferir a partir de outros tipos de provas, tais como registros fósseis, evidências arqueológicas, a atual diversidade linguística, estudos sobre aquisição de linguagens e comparações entre a linguagem humana e sistemas de comunicação existentes entre outros animais, particularmente o que foi pesquisado em relação a outros primatas. Há quem argumente que as origens da linguagem provavelmente se relacionem estreitamente com as origens da modernidade comportamental, havendo porém pouco consenso sobre as implicações e o direcionamento dessa conexão.
A carência de evidências empíricas levou muitos estudiosos a encararem todo esse assunto como inadequado para um estudo sério. Em 1886, a “Société de Linguistique de Paris” baniu todos os estudos existentes e futuros sobre o assunto, uma proibição que se manteve influente na maior parte do mundo ocidental até o fim do século XX.Stam, J. H. 1976. Inquiries into the origins of language. New York: Harper and Row, p. 255. Hoje, há muitas hipóteses sobre como, por que, quando e onde a linguagem deve ter começado a emergir. Entretanto, o cenário atual não é muito diferente daquele observado há cem anos, quando a teoria da evolução de Charles Darwin com seu conceito de seleção natural provocou uma onda de especulações acadêmicas sobre o tema.Müller, F. M. 1996 . The theoretical stage, and the origin of language. Lecture 9 from Lectures on the Science of Language. Reprinted in R. Harris (ed.), The Origin of Language. Bristol: Thoemmes Press, pp. 7-41. Desde o início dos anos 1990, porém, houve um crescimento do número de profissionais de linguística, arqueologias, psicologia, antropologia etc. que procuraram se alinhar a novos métodos para solucionar o que alguns consideram o "mais difícil problema da ciência".
Abordagens miniaturadaimagem|Postura final do sinal ASL wikt As abordagens para a origem da linguagem podem ser divididas de acordo com suas suposições subjacentes. As "Teorias da continuidade" são baseadas na ideia de que a linguagem é algo tão complexo que não se pode imaginar que simplesmente tenha surgido do nada na sua forma final: o idioma deve ter evoluído a partir de sistemas pré-linguísticos anteriores presentes entre nossos ancestrais primatas. Já as "Teorias da descontinuidade" são baseadas na ideia oposta, de que a linguagem é uma característica única de modo que não pode ser comparada a qualquer coisa encontrada entre os não humanos e deve, portanto, ter aparecido subitamente durante o curso da evolução humana. Algumas teorias enxergam a linguagem principalmente como uma faculdade inata - que é em grande parte geneticamente codificada, enquanto outras a consideram um sistema principalmente cultural - ou seja, algo aprendido através da interação social.
Noam Chomsky é proeminente defensor da teoria da descontinuidade. Chomsky argumenta que uma oportunidade única de mutação ocorreu em um indivíduo por volta de 100 mil anos atrás, tendo sido instantaneamente instalada a faculdade de linguagem (um componente da mente-cérebro) numa forma "perfeita", "quase perfeita".Chomsky, N, 1996. Powers and Prospects. Reflections on human nature and the social order. London: Pluto Press, p 30.
Teorias com base na continuidade dominam os estudos atuais, mas a forma como isso é encarado varia. Dentre aqueles que veem a linguagem como sendo principalmente inata, alguns - notadamente Steven Pinker — evitam a especulação sobre precursores dentre primatas não humanos, com forte insistência na teoria de que a faculdade da linguagem teria evoluído de forma gradual. ref name="Pinker 1994"> Outros nesse mesmo campo de pensamento – em especial Ulbæk — dizem que a linguagem evoluiu não da comunicação entre primatas, mas da capacidade cognitiva primata, a qual é significante. Aqueles que veem a linguagem como uma ferramenta de comunicação aprendida socialmente (como Michael Tomasello), a veem desenvolvendo-se a partir dos aspectos controlados pela forma cognitiva da comunicação dos primatas, os quais são basicamente gestuais, opostos às vocais. Onde precursores vocais são considerados, muitos teóricos da continuidade defendem que essa evolução teria origem na precoce capacidade humana para a canção.The Economist, "The evolution of language:Babel or babble?", 16 April 2011, pp. 85-86.
Transcendendo essa divisão entre continuidade e descontinuidade, há aqueles que veem o surgimento da linguagem como a consequência de algum tipo de transformação social, que, ao gerar níveis sem precedentes de necessidade de confiança pública, liberou um potencial até então adormecido para a criatividade linguística. A "teoria da coevolução ritual/fala" é um exemplo dessa abordagem. Estudiosos desse campo intelectual apontam o fato de que mesmo chimpanzés e bonobos têm capacidades simbólicas latentes que, na vida selvagem, raramente usam, se é que as usam. O argumento é que, se uma mutação surgisse abruptamente habilitando a capacidades de linguagem em um primata individual, essa mutação não proveria nenhum benefício adaptável, a menos que o sistema social já houvesse mudado de forma muito radical. Uma estrutura social muito específica - capaz de preservar níveis anormalmente elevados de confiança e responsabilidade pública - deveria ter evoluído antes ou concomitantemente com a linguagem para fazer de uma dependência de "sinais simples '(palavras) uma estratégia evolutivamente estável.
Como o surgimento da linguagem ocorreu há tempo na pré-história humana, os estágios relevantes de desenvolvimento não deixaram vestígios históricos diretos e nem pode haver comparação com processos evolutivos das linguagens observados hoje. Mesmo assim, o surgimento de novas línguas de sinais nos tempos modernos – a língua de sinais nicaraguense, por exemplo - pode potencialmente oferecer pistas sobre os estágios de desenvolvimento e processos criativos necessários para tal evolução.Kegl, J., A. Senghas and M. Coppola (1998). Creation through Contact: Sign language emergence and sign language change in Nicaragua. In M. DeGraff (ed.), Language Creation and Change: Creolization, Diachrony and Development. Cambridge, MA: MIT Press. Outra abordagem tem sido a de inspecionar os primeiros fósseis humanos, procurando por traços de adaptação física ao uso da língua.Lieberman, P. and E. S. Crelin (1971). On the speech of Neandertal Man. Linguistic Inquiry 2: 203-22. Em alguns casos, quando o DNA de seres humanos extintos pode ser recuperado, a presença ou ausência de genes supostamente relevantes para a linguagem - Foxp2 é um exemplo - pode se provar bastante informativa. Uma outra abordagem, essa arqueológica, é procurar nos comportamentos simbólicos (como em atividades rituais repetidas) que tivessem deixado traços arqueológicos, tais como coleta de minerais e a modificação de pigmentos ocre para pintura corporal, argumentos teóricos para justificar inferências de simbolismo em geral para linguagens propriamente ditas.
O intervalo de tempo para a evolução da linguagem e/ou de seus pré-requisitos anatômicos se estende, pelo menos em princípio, a partir da divergência filogenética do gênero Homo (entre 2,3 milhões e 2,4 milhões de anos atrás) do gênero Pan (entre 5 milhões e 6 milhões de anos atrás) até o surgimento de grande modernidade comportamental, cerca de 150.000 a 50.000 anos atrás. Poucos negam que ao Australopithecus provavelmente faltou uma comunicação vocal significativamente mais sofisticada do que a dos Hominidae em geral, mas opiniões acadêmicas variam quanto aos desenvolvimentos ocorridos desde o aparecimento do gênero Homo cerca de 2,5 milhões de anos atrás. Alguns estudiosos assumem o desenvolvimento de sistemas de linguagem primitivos (protolínguas) desde o Homo habilis, enquanto outros colocam o desenvolvimento da comunicação simbólica apenas a partir de Homo erectus (1,8 milhão de anos atrás) ou Homo heidelbergensis (600 mil anos atrás) e o desenvolvimento de uma linguagem adequada com Homo sapiens, há menos de 200 mil anos.
Usando métodos estatísticos para estimar o tempo necessário para atingir a atual difusão e diversidade de línguas modernas, Johanna Nichols - linguista da Universidade da Califórnia, Berkeley - argumentou em 1998 que as línguas vocais devem ter começado a se diversificar em nossa espécie há pelo menos 100 mil anos.Johanna Nichols, 1998. The origin and dispersal of languages: Linguistic evidence. In Nina Jablonski and Leslie C. Aiello, eds., The Origin and Diversification of Language, pp. 127-70. (Memoirs of the California Academy of Sciences, 24.) San Francisco: California Academy of Sciences. Usando diversidade fonêmica, uma análise mais recente que provém de base diretamente linguística, chega-se a datas entre 150 mil e 300 mil anos atrás. As estimativas desse tipo são embasadas de forma independente pela genética, arqueologia, paleontologia e muitas outras evidências, sugerindo que a linguagem surgiu provavelmente em algum lugar na África sub-saariana durante a Idade da Pedra Média, mais ou menos contemporaneamente ao advento do Homo sapiens.
Os linguistas concordam que, com a exceção de idiomas propositalmente simplifcados como o Pidgin, não há línguas "primitivas": Todas as populações humanas modernas falam línguas de poder expressivo comparável, apesar de muitos estudos recentes terem explorado como a complexidade linguística varia entre as línguas ao longo do tempo histórico. Este foi um debate sério e desafiante na linguística contemporânea até o início do século XXI. O consenso atual de que nenhuma das línguas modernas é realmente primitiva é a última grande mudança nas abordagens linguísticas sobre o assunto.
Hipóteses Primeiras ideias Em 1861, Charles Darwin escreveu “Não posso duvidar que a linguagem deva sua origem à imitação e modificação, com apoio de sinais e gestos, de vários sons naturais, vozes de outros animais, e gritos instintivos do próprio homem".. "The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, 2 vols. London: Murray, p. 56. No mesmo ano, o linguísta Max Müller publicou uma lista especulativa de teorias referentes às origens da linguagem falada.Müller, F. M. 1996 . The theoretical stage, and the origin of language. Lecture 9 from Lectures on the Science of Language. Reprinted in R. Harris (ed.), The Origin of Language. Bristol: Thoemmes Press, pp. 7-41. Bow-wow. A teoria bow-wow ou cuckoo, que Müller atribuiu ao filósofo alemão Johann Gottfried Herder, diz que as primeiras palavras seriam como imitações de sons de animais e pássaros. Pooh-pooh. A teoria pooh-pooh vê a Teoria Interjeicional de Demócrito - primeiras palavras sendo interjeições e exclamações emocionais motivadas por prazer, dor, surpresa, etc. Ding-dong. Müller sugeriu no que ele chamou de teoria ding-dong, que todas as coisas têm uma ressonância de vibração natural, as quais ecoaram de alguma forma no homem em suas primeiras palavras. Yo-he-ho. A teoria yo-he-ho via a linguagem emergindo do trabalho rítmico coletivo, a tentativa de sincronizar o esforço muscular, resultando em sons como vamos (heave) alternado com sons como ho. Ta-ta. Isso não figurava na lista de Max Müller, tendo sido proposto em 1930 por Sir Richard Paget.Paget, R. 1930. Human speech: some observations, experiments, and conclusions as to the nature, origin, purpose and possible improvement of human speech. London: Routledge & Kegan Paul. De acordo com a teoria ta-ta, os humanos fizeram as primeiras palavras por movimentos da língua que imitavam gestos manuais, tornando-os audíveis.