miniatura|220px|Busto de Anthony Ashley-Cooper, o sétimo Conde de Shaftesbury, por F. Winter, 1886. Da coleção do Dorset County museum, Dorchester. "Uma terra sem povo para um povo sem terra" é uma frase amplamente citada e associada com o movimento para estabelecer uma pátria judia na Palestina durante os séculos XIX e XX. A sua historicidade e significado são motivo de controvérsias.

Embora geralmente seja assumido ter sido um slogan sionista, a frase foi usada já em 1843 por um clérigo restauracionista cristão e continuou a ser usada por quase um século por restauracionistas cristãos.

É considerado por alguns estudiosos que a frase nunca entrou em uso generalizado entre os judeus sionistas.Alan Dowty, The Jewish State, A Century Later (Berkeley: University of California Press, 2001), p. 267. Por outro lado, Anita Shapira escreveu que "O slogan 'A terra sem povo para um povo sem terra' era comum entre os sionistas, no final do século XIX e início do século XX".

História miniatura|right|Rev. Dr. Alexander Keith Um primeiro uso da frase por um clérigo cristão e restauracionista, o Rev. Alexander Keith, surgiu em 1843, quando escreveu que os judeus são "um povo sem um país, mesmo que a sua própria terra, como, posteriormente será mostrado, seja em grande medida um país sem um povo."

A sua paráfrase mais comum, "uma terra sem povo para um povo sem terra", apareceu pouco depois na imprensa em 1844 numa revisão do livro de Keith na revista da Scottish Free Church.

Anthony Ashley-Cooper, sétimo Conde de Shaftesbury, em julho de 1853, quando foi presidente da Sociedade Londrina para Promoção do Cristianismo entre os Judeus escreveu ao primeiro-ministro Aberdeen dizendio que a Grande Síria era "um país sem uma nação" que necessitava de de "uma nação sem um país ... Existe tal coisa? Com certeza que sim, os antigos e legítimos senhores do solo, os judeus! "Garfinkle, Adam M., "On the Origin, Meaning, Use and Abuse of a Phrase". Middle Eastern Studies, London, Oct. 1991, vol. 27 Em Maio do ano seguinte, ele escreveu em seu diário "A Síria é 'desperdiçada sem um habitante '; estas regiões vastas e férteis em breve estarão sem um governante, sem um poder conhecido e reconhecido para reivindicar o domínio. O território deve ser atribuída a um ou outro... Existe um país sem uma nação, e Deus agora, em Sua sabedoria e misericórdia, nos direciona para uma nação sem um país". Shaftesbury's allusion is to Isaiah 6:11, "Until the cities be wasted without inhabitant, and the houses without man, and the land be utterly desolate". Em 1875, Shaftesbury disse na reunião geral anual do Fundo de Exploração Palestina: "Temos ali uma terra repleta de fertilidade e rica em história, mas quase sem um habitante - um país sem povo, e vejam! espalhado pelo mundo, um povo sem um país".

As expressões variantes em uso nas eras pré-sionistas e pré-estatal incluem "um país sem povo para um povo sem país", ou "uma terra sem nação para uma nação sem terra". De acordo com Edward Said, a frase era "uma terra sem povo para um povo sem terra".Said, Edward, (New York: Times Books, 1979), The Question of Palestine, p. 9.

Uso da frase

Uso por defensores cristãos de um Estado judeu no Oriente Médio miniatura|220px|William Eugene Blackstone William Blackstone Eugene (nascido em 1841) tornou-se um evangelista com a idade de 37 anos. Uma viagem para a Terra Santa em 1881 fez dele um apaixonado restauracionista. Como a maioria das pessoas na década de 1880 e 90, ele ficou horrorizado com os progroms instigados pelo governo e realizados contra os judeus russos.

O Memorial de Blackstone, uma declaração de 1891 de apoio à criação de um Estado judaico na Palestina, foi assinado por várias centenas de americanos proeminentes, e recebeu grande atenção. Embora o Memorial não contivesse a frase "terra sem povo", pouco depois de voltar de sua viagem para a Palestina em 1881 Blackstone escreveu também, no contexto de sua preocupação com o destino dos judeus russos: "E agora , neste preciso dia, estamos face a face com o terrível dilema de que esses milhões não podem permanecer onde estão, e no entanto não têm outro lugar para ir ... Esta fase da questão apresenta uma anomalia surpreendente - uma terra sem povo, e um povo sem terra ".

John Lawson Stoddard, um orador popular e autor de livros de viagem, publicou um relato de viagens em 1897 no qual exorta os judeus: “Sois um povo sem país; há um país sem povo. Unam-se. Realizem os sonhos dos vossos velhos poetas e patriarcas. Voltai, voltai à terra de Abraão"John L. Stoddard. Lectures: Illustrated and Embellished with Views of the World's Famous Places and People, Being the Identical Discourses Delivered During the Past Eighteen Years under the Title of the Stoddard Lectures, Vol. 2. 1897, as cited in Garfinkle

De acordo com Adam Garfinkle o que Keith, Shaftesbury, Blackstone, Stoddard e os outros cristãos do século XIX que usaram esta frase queriam dizer era que a Terra Santa não era a sede de uma nação tal como o Japão é a terra dos japoneses e Dinamarca é a terra dos dinamarqueses. Os povos muçulmanos e cristãos de língua árabe da Terra Santa não pareciam, na visão dos cristãos europeus e americanos daquela época, constituir um povo ou nação definida pela sua ligação à Palestina, pareciam antes fazer parte dum conjunto mais vasto de povos árabes, arménios ou gregos.Garfinkle, Adam M., "On the Origin, Meaning, Use and Abuse of a Phrase". Middle Eastern Studies, London, Oct. 1991, vol. 27

Uso por judeus sionistas miniatura|right|Israel Zangwill Israel Zangwill, que inicialmente era sionista, e que depressa se tornou um proeminente antissionista e defensor do assimilacionismo, foi um dos mais prolíficos utilizadores da frase. Em 1901, Zangwill escreveu na New Liberal Review que "A Palestina é um país sem povo, os judeus são um povo sem país". Garfinkle, Adam M., "On the Origin, Meaning, Use and Abuse of a Phrase". Middle Eastern Studies, London, Oct. 1991, vol. 27Israel Zangwill, "The Return to Palestine", New Liberal Review, Dec. 1901, p. 615 Num debate no Article Club, em Novembro do mesmo ano, Zangwill disse que "a Palestina não tem mais do que uma pequena população de árabes e fellahin e tribos beduínas errantes, sem lei e chantagistas." Disse ainda: "Restaurai o país sem um povo para o povo sem país. (...) Porque nós temos tanto para dar como para receber. Podemos varrer o chantagista - seja ele paxá ou beduíno , - nós podemos fazer o deserto florescer como a rosa, e construir no coração do mundo uma civilização que possa ser mediadora e intérprete entre o Oriente e o Ocidente". Em 1902, Zangwill escreveu que a Palestina “permanece, neste momento, um território turco quase desabitado, abandonado e em ruínas”.

No entanto, passados poucos anos, as opiniões de Zangwill mudaram e a sua utilização da frase assumiu um tom muito diferente. Tendo “tomado plena consciência do perigo árabe”, disse a uma audiência em Nova Iorque, “a Palestina propriamente dita já tem os seus habitantes. O pashalik de Jerusalém já tem o dobro da densidade populacional dos Estados Unidos”, deixando aos sionistas a escolha entre expulsar os árabes ou lidar com uma "grande população alienígena".I. Zangwill, The Voice of Jerusalem, MacMillan, 1921, p. 92, reporting 1904 speech. Passou a apoiar o projeto do Uganda, levando a uma ruptura com o movimento sionista dominante em 1905.H. Faris, Israel Zangwill's challenge to Zionism, Journal of Palestine Studies, Vol. 4, No. 3 (Spring, 1975), pp. 74–90 Em 1908, Zangwill disse a um tribunal de Londres que tinha sido ingênuo quando proferiu o seu discurso de 1901 e que desde então se tinha "apercebido da densidade da população árabe ", ou seja, o dobro da dos Estados Unidos. Em 1913, ele foi ainda mais longe, atacando aqueles que insistiam em repetir que a Palestina estava "vazia e abandonada" e que o apelidavam de traidor por ter dito o contrário.Simon (1937), pp. 313–314. "Ele continuou: 'Bem, a consistência pode ser uma virtude política, mas não vejo virtude na mentira consistente' ".

De acordo com Ze'ev Jabotinsky, Zangwill lhe disse em 1916 que: "Se quisermos dar um país a um povo sem pátria, é tolice absoluta permitir que ele seja o país de dois povos. Isso só pode causar problemas. Os judeus vão sofrer e os seus vizinhos também. Só teríamos duas soluções: um lugar diferente deve ser encontrado ou para os judeus ou para os seus vizinhos".

Em 1917, ele comentou: " 'Dêem o país sem povo’, pediu magnanimamente Lord Shaftesbury, ‘ao povo sem país’. Infelizmente, foi um erro enganador. O país tem 600 mil árabes".I. Zangwill, The Voice of Jerusalem, MacMillan, 1921, p. 96 Em 1921 Zangwill voltou ao assunto: "Se Lord Shaftesbury foi literalmente inexato ao descrever a Palestina como um país sem povo, estava essencialmente correto, pois não existe um povo árabe a viver em íntima fusão com o país, utilizando os seus recursos e imprimindo-lhe um cunho caraterístico: existe, quando muito, um acampamento árabe, cujo desmembramento lançaria sobre os judeus o trabalho manual de regeneração e os impediria de explorar os fellahin, cujo número e salários mais baixos são, além disso, um obstáculo considerável à imigração proposta da Polónia e de outros centros de sofrimento judaico”.

Em 1914, Chaim Weizmann, mais tarde presidente do Congresso Sionista Mundial e o primeiro presidente do Estado de Israel, afirmou: "Na sua fase inicial, o sionismo foi concebido por seus pioneiros como um movimento totalmente dependendo de fatores mecânicos: há um país que se chama Palestina, um país sem um povo, e, por outro lado, existe o povo judeu, que não tem país. Que mais é necessário, então, senão encaixar a gema no anel, para unir este povo a este país? Os donos do país [os turcos otomanos?] devem, portanto, ser persuadidos e convencidos de que este casamento é vantajoso, não só para o povo [judeu] e para o país, mas também para eles próprios".Weizmann, 28 March 1914, in Barnet Litvinoff, (ed.), The Letters and Papers of Chaim Weizmann, Vol.I, Series B (Jerusalem: Israel University Press, 1983), pp.115–6 Uso por opositores ao sionismo

A frase tem sido amplamente citada por políticos e ativistas políticos se opondo às reivindicações sionistas, incluindo o mufti de Jerusalém, Mohammad Amin al-Husayni, que afirmou que "a Palestina não é uma terra sem povo para um povo sem terra"Islamic Awakening Between Rejection and Extremism, Yusuf Al-Qaradawi, Nancy Roberts, 2006, p. 78 Em 13 de novembro de 1974, o líder da OLP, Yasser Arafat declarou nas Nações Unidas: "Custa muito ao nosso povo testemunhar a propagação do mito de que a sua pátria era um deserto, até ser feita florescer através do trabalho de colonos estrangeiros, que era uma terra sem povo (...)". Na sua declaração de independência de 14 de novembro de 1988, o Conselho Nacional Palestino acusou "forças locais e internacionais" de "tentativas de propagar a mentira de que 'a Palestina é uma terra sem povo', uma falsificaçao da História. Salman Abu Sitta, fundador e presidente da Palestine Land Society , chama a frase de "uma mentira perversa, a fim de tornar o povo palestino sem teto." Hanan Ashrawi chamou esta frase a evidência de que os sionistas "procuraram negar a própria existência e a humanidade dos palestinos".