thumb|350px|Hércules encontrando seu filho Télefo, afresco romano na Basílica de Herculano, bom exemplo do cânone clássico, formulado pela primeira vez na Grécia Antiga e até hoje uma das referências estéticas mais constantes na pintura ocidental.Department of Medieval Art and The Cloisters. "Classical Antiquity in the Middle Ages". In Heilbrunn Timeline of Art History. The Metropolitan Museum of Art, 2000
A pintura europeia constitui a base da tradição ocidental de pintura. Uma das formas de arte mais consistentemente prestigiadas e populares desde a Antiguidade, o acervo que sobrevive é vasto e extremamente diversificado, resultado de diferentes fatores estéticos, culturais, sociais e econômicos, próprios de cada região e de cada fase cronológica. A trajetória da pintura europeia cobre um período de quase 40 mil anos, se estendendo da Pré-História à Contemporaneidade, mas neste artigo limita-se o estudo até a Idade Média, quando são lançadas e consolidadas algumas das principais bases estéticas e técnicas da pintura como ela é praticada até hoje em todo o mundo, sendo a contribuição europeia uma das mais relevantes em escala global.
Muitos foram os motivos que levaram o homem a pintar, e muitas foram as capacidades atribuídas a esta forma de expressão. Seus primeiros praticantes provavelmente a consideravam um veículo de poderes sobrenaturais, e desde então ela incorporou outros atributos, principalmente o de instrumento didático, usada maciçamente na doutrinação religiosa, na propaganda política e na educação pública, sendo neste intervalo uma arte na maior parte das vezes eminentemente utilitária, ainda que os critérios estéticos não fossem negligenciados. Para cumprir bem esta importante função social, num tempo em que a maioria da população era analfabeta, naturalmente a pintura assumiu um caráter predominantemente figurativo e narrativo, sendo essencial que a mensagem fosse compreendida de maneira clara e correta. Foram variadas as técnicas empregados na sua execução, podendo ser citadas como tradicionais a têmpera, o afresco, a encáustica e, última a aparecer, o óleo.
A pintura da Europa neste período tem sido exaustivamente estudada e interpretada pelos especialistas e é fonte da conhecimentos inestimáveis sobre a história, a sociedade, a cultura e o modo de vida de pessoas e grupos de todos os perfis, sendo um material didático regularmente presente nas atividades escolares e acadêmicas, mas muito ainda está para ser conhecido ou melhor esclarecido, havendo considerável controvérsia e incerteza sobre uma variedade de aspectos. Inumeráveis museus públicos e privados se dedicam a preservar este grande legado, que tem sido identificado como um dos mais representativos da cultura do ocidente.
Pré-História
thumb|esquerda|Animais representados na Caverna de Chauvet, em geral consideradas as mais antigas pinturas rupestres
Os mais antigos registros de pintura se encontram em cavernas e abrigos rochosos habitados por homens pré-históricos, conhecidos como registros rupestres. Espalham-se por quase todas as regiões do globo, com características e datação variáveis. Acredita-se que os mais antigos possam ter cerca de 40 mil anos de idade, mas sua datação é muito problemática, persistindo grande controvérsia sobre os resultados, devido à facilidade com que as amostras são contaminadas por materiais de épocas diferentes.Pettitt, Paul & Pike, Alistair. "Dating European Palaeolithic Cave Art: Progress, Prospects, Problems". In: Journal of Archaeological Method and Theory, 2007; 14 (1):27-47Russ, Jon et al. "Radiocarbon dating of prehistoric rock paintings by selective oxidation of organic carbon". In: Nature, 1990; (348):710-771
As pinturas rupestres exibem grande diversidade de motivos e técnicas. A maior parte traz figuras de animais, mas também é frequente encontrar figuras de pessoas, plantas, objetos, com variados graus de realismo e às vezes organizadas em cenas complexas, além de existir um grande acervo de representações abstratas e gráficas, que podem ou não ser combinadas às figuras. Muito já se discutiu sobre o significado dessa produção, e como ela se inseria no cotidiano daquelas sociedades, mas nada se concluiu com segurança. Em geral, contudo, se pensa que possam ter função mágica e propiciatória, atraindo boa caça, favorecendo a fertilidade e afastando perigos, por exemplo; também podem representar cenas simples do cotidiano; podem ser uma linguagem simbólica, veiculando ideias, sentimentos e conceitos abstratos, ou podem ser apenas fruto de passatempo descompromissado. Devido a esta grande incerteza, muitos pesquisadores resistem à ideia de que esses registros sejam obras de "arte" como hoje ela é entendida.Parkington, John. "Symbolism in Palaeolithic Cave Art". In: The South African Archaeological Bulletin, 1969; 24 (93)Lewis-Williams, David J. & Clottes, Jean. "The Mind in the Cave — the Cave in the Mind: Altered Consciousness in the Upper Paleolithic". In: Anthropology of Consciousness, 1998; 9 (1):13–21 Alguns estudos sugerem que grande parte do acervo foi produzido por crianças e jovens.Bednarik, Robert G. "Children as Pleistocene Artists". In: Rock Art Research, 2008; 25 (2):173-182
Também é incerta a maneira de produção dessas pinturas. Os pigmentos (cores) são mais facilmente identificáveis, sendo em geral argilas coloridas, minerais triturados e carvão, mas os veículos ou meios por onde eram fixados, provavelmente materiais orgânicos e facilmente perecíveis como sangue, clara e gema de ovos, saliva, urina, excrementos, gorduras e ceras, deixaram poucos rastros identificáveis após tantos milênios de exposição.Bednarik, Robert G. "A taphonomy of palaeoart". In: Antiquity, 1994; 68 (258):68Mello, V. M. & Suarez, P. A. Z. "As Formulações de Tintas Expressivas Através da História". In: Revista Virtual de Química, 2012; 4 (1):2-12. Entre os mais famosos relicários dessa arte na Europa podem ser citados as cavernas de Altamira, na Espanha, a primeira a ser descoberta, gerando imediatamente grande interesse e controvérsia,Leroi-Gourhan, André. The Dawn of European Art: An Introduction to Palaeolithic Cave Painting. CUP Archive, 1982, pp. 7-8 Chauvet e Lascaux na França, e a Anta Pintada de Antelas, em Portugal.Cruz, Domingos J. da. "Dólmen de Antelas (Pinheiro de Lafões, Oliveira de Frades, Viseu). Um sepulcro templo do Neolítico final". In: Estudos Pré-históricos, 1995; 3:263-264
Antiguidade Creta, Micenas e Cíclades
thumb|Fragmento de mural do palácio minoico de Cnossos, Creta, com a famosa cena de acrobatas com um touro thumb|Ânforas micênicas encontradas na Argólida decorados com pintura de animais marinhos
No período neolítico a tradição da pintura rupestre começa a declinar em função do desenvolvimento da agricultura e da progressiva sedentarização e urbanização das sociedades. Os primeiros assentamentos europeus urbanizados não trazem evidências de terem transportado a arte rupestre para o ambiente das habitações construídas nos primeiros povoados, ao contrário de assentamentos orientais, como Çatal Hüyük, onde foram descobertos murais de mais de 8 mil anos de idade. Por outro lado, inicia-se uma tradição de pintura sobre artefatos de cerâmica, como vasos e potes, que permanece viva até hoje. Em torno de começam a surgir pequenos povoados nas ilhas e no continente do leste da bacia do Mediterrâneo, dando origem a três grandes culturas: a minoica, em Creta, a cicládica, nas ilhas do mar Egeu, e a micênica, na Grécia continental. Suas sociedades, baseadas na agropecuária de subsistência, ganhavam crescente complexidade, desenvolvendo variadas formas de manufaturas e iniciando o trabalho com o cobre. Inicialmente apenas a corrente cretense mostrou um interesse apreciável na decoração pintada de vasos, mas logo ambas as outras também passaram a desenvolver uma fértil tradição neste sentido. Pouco se sabe sobre o significado desta forma de expressão, mas seus motivos aparentemente imitavam padrões usados em têxteis e em cestaria, com figuras esquematizadas e formas geométricas. Em Creta, que no desenvolveu uma sociedade monárquica com sofisticada urbanização, contando até com palácios, aparecem os primeiros sinais de pinturas murais, mas poucos restos sobrevivem. Esta região do Mediterrâneo no final da Idade do Ferro começou a se tornar densamente povoada e intensamente transitada, tornando-se uma encruzilhada de povos asiáticos, europeus e africanos, um grande entreposto de trocas comerciais e culturais e uma zona de importância estratégica vital na geopolítica regional, desenvolvendo a escrita e uma rica cultura que viria a se tornar a base da civilização do ocidente.Klindt-Jensen, Ole & Callaghan, Peter John. "European Stone Age". In: "Painting: Western". Universalium, 2010 Department of Greek and Roman Art. "Greek Art in the Archaic Period". In Heilbrunn Timeline of Art History. The Metropolitan Museum of Art, 2000Hemingway, Colette and Seán Hemingway. "Minoan Crete". In Heilbrunn Timeline of Art History. The Metropolitan Museum of Art, 2000
Os modelos cretenses de pintura mural se tornaram um padrão para toda esta área, surgindo palácios e grandes edificações decoradas em vários pontos insulares e continentais. Tinham um estilo figurativo mesclado a uma rica decoração geometrizante, representando pessoas em variadas atividades, como cenas de culto, jogos, cerimônias palacianas, além de animais e paisagens. O tratamento das figuras é elegante mas esquemático, em geral com um contorno firmemente desenhado delimitando áreas preenchidas com cores planas, sem sombreados e sem perspectiva, o que dá a esta produção um marcado caráter gráfico e decorativo, que parece devedor da pintura em cerâmica. Sobrevivem exemplos importantes em Acrotíri, na ilha de Tera, por exemplo, e também no palácio de Cnossos, em Creta, em um monumento em Pilos, e em um santuário de Micenas, ambos na Grécia continental. Em torno do ocorre um súbito eclipse das civilizações egeias. As causas ainda são desconhecidas, mas os resultados foram uma grande redução populacional, a desestruturação das cidades e o declínio acentuado de todas as atividades culturais e artísticas, a ponto de até a escrita deixar de ser praticada. Foi o período conhecido como Homérico, onde nada foi produzido em pintura mural.Hemingway, Colette and Seán Hemingway. "Mycenaean Civilization". In Heilbrunn Timeline of Art History. The Metropolitan Museum of Art, 2000
Grécia
thumb|esquerda|Afresco na Tumba de Kalanzak thumb|esquerda|Detalhe do afresco Rapto de Perséfone, de autor anônimo, na Pequena Tumba Real em Vergina,
Em torno do inicia uma rápida recuperação da sociedade grega, sedimentando as bases de um grande florescimento. Sua história é dividida em sub-períodos, começando com o proto-geométrico, passando pelo geométrico, orientalizante, arcaico e clássico e encerrando com o período helenístico. Cada fase tem suas próprias características, mas a tendência geral foi uma progressiva sofisticação na representação ilusionística da natureza, dando-lhe mais fidelidade ao mundo real, ao mesmo tempo tentando-se expurgar as imperfeições naturais dos indivíduos em busca do seu protótipo ideal. Isso estava ligado a grandes avanços na ciência, na filosofia, na tecnologia e outras áreas, e a um espírito inquisitivo, audaz, que colocava o homem como a nova medida das coisas.Boardman, John & Callaghan, Peter John. "Ancient Greek". In: "Painting, Western". Universalium, 2010