Elmo de Araújo Camões (Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 1927 — São Paulo, 25 de janeiro de 2022) foi um administrador brasileiro que exerceu cargos de relevância na administração pública e no setor financeiro do Brasil, sendo notavelmente conhecido por sua atuação como presidente do Banco Central do Brasil entre 1988 e 1989.
Origem e Formação
Nascido em Rio de Janeiro, Elmo de Araújo Camões era filho de Martinho Leal de Camões e Angélica de Araújo Camões. Infância e juventude transcorreram em Copacabana, tradicional bairro da capital carioca. Formou-se em administração e construiu trajetória de destaque no setor financeiro nacional, particularmente ao longo dos anos 1960 a 1980.
Carreira no Banco do Brasil
Aos dezoito anos, em 1946, Camões aprovado em concurso, começou trabalho como funcionário do Banco do Brasil. Sua primeira designação o levou à filial de São Borja, em Rio Grande do Sul, onde trabalhou durante vinte e quatro meses. Subsequentemente retornou ao Rio de Janeiro, recebendo lotação na agência de Copacabana com funções de chefe de serviço. Depois foi enviado à agência Central da instituição, onde permaneceu durante aproximadamente um ano, sendo depois convidado novamente para Copacabana. Durante essa época inicial, Camões mostrou interesse em atividades desportivas, participando em basquetebol pela seleção do Banco e em futebol de areia, inclusive ajudando a fundar o clube Ouro Preto, que viria a ser um dos principais campeões da modalidade no Rio.
A carreira de Camões no Banco do Brasil estendeu-se por diversas décadas, durante as quais ocupou posições de responsabilidade crescente. Trabalhou como secretário de gabinete do Departamento de Redesconto até 1960, período em que teve oportunidade de atuar sob a direção de Tancredo Neves.Descrito no livro virtual - HISTÓRIA DO BANCO DO BRASIL 1906 a 2011 de Fernando Pinheiro Sua atuação na esfera de operações cambiais levou-o a ocupar o cargo de gerente de câmbio da agência de Assunção, no Paraguai, entre 1960 e 1963, onde desenvolveu especialização em operações de comércio exterior e câmbio.
Entre 1963 e 1967, Camões atuou como gerente de câmbio na agência de Montevidéu, no Uruguai, onde aprofundou seus conhecimentos sobre mercados financeiros internacionais. Nesse período, também exerceu funções de assessor da delegação brasileira na Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC). A partir de 1967, foi convocado para integrar a equipe de organização da Área Internacional do Banco Central do Brasil, então recém-constituído, sendo designado operador de câmbio e participando dos trabalhos de reorganização da administração de câmbio na instituição.
Paralelo à atuação inicial no Banco Central, Camões transferiu-se, em 1972, para o Banco do Estado de São Paulo (Banespa), onde exerceu o cargo de gerente-geral da agência de Nova Iorque, inaugurando as operações internacionais daquela instituição nos Estados Unidos. Entre 1972 e 1976, teve papel de destaque como presidente da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos e integrou o corpo diretivo do Institute of Foreign Bankers of New York. Sua expertise em negociações financeiras internacionais permitiu-lhe auxiliar na estruturação de linhas de crédito com instituições financeiras estrangeiras, conforme as regulamentações vigentes, particularmente a Resolução 63 de 1967 e a Instrução Sumoc 289 de 1965.
De 1976 a 1981, Camões exerceu cargos de relevância na estrutura do Banespa: diretor da área internacional com reeleição posterior, membro participante do conselho de administração, representante da instituição no Brasilvest, além de presidente da Câmara Brasil/Paraguai entre 1978 e 1982. Sua permanência no Banespa incluiu abertura de aproximadamente vinte agências espalhadas por diferentes nações, nas quais se incluem Buenos Aires, Santiago, Assunção e várias cidades europeias.
Atuação no Banco Société Générale
Em 1981, teve oportunidade de ocupar posição executiva em instituição privada pela primeira ocasião, assumindo cargo de diretor-presidente do Société Générale (Sogeral) no momento de seu lançamento no Brasil. O Société Générale era então a segunda maior instituição bancária francesa, superado apenas pelo Crédit Agricole, e sua entrada no mercado brasileiro significava considerável investimento internacional. Ao longo de sua permanência no Sogeral entre 1981 e 1987, acumulou múltiplas responsabilidades administrativas, na qualidade de integrante do conselho de administração, presidente do Forex Clube Brasileiro e presidente da comissão que tratava de câmbio e negócios externos na Federação Brasileira de Bancos (Febraban). A partir de 1983, participava também como membro do comitê de coordenação das operações financeiras do Grupo Sogeral e como diretor responsável pelo setor cambial e de operações internacionais da Febraban. Em 1985, passou à presidência do conselho de administração dessa instituição.
Ainda como membro da direção do Sogeral, Camões integrou também o Conselho Monetário Nacional como representante do sistema financeiro, tendo sido nomeado para tal cargo pelo presidente José Sarney. Sua participação no Conselho refletia sua percepção de que instituições de menor porte necessitavam de acompanhamento e supervisão para se desenvolveram adequadamente, posição que manteria durante sua presidência no Banco Central.
Presidência do Banco Central do Brasil
Nomeação e Posse
Em 1988, durante o governo do presidente José Sarney, Elmo de Araújo Camões foi nomeado para presidir o Banco Central do Brasil, assumindo o cargo em 9 de março daquele ano. A nomeação refletia sua posição de amigo pessoal de Sarney e sua trajetória consolidada no setor financeiro, sendo bem recebida pelos agentes do mercado financeiro brasileiro.Galeria de ex-presidentes do Banco Central do Brasil. Esta galeria registra aqueles que foram presidentes titulares ou interinos, nomeados pela Presidência da República.
No momento de sua posse, a situação econômica do país apresentava-se crítica, com inflação mensal aproximada de 18% ao mês, deficit público elevado, crescimento econômico baixo, e contração do Produto Interno Bruto naquele exercício. Ao tomar posse, Camões pronunciou discurso enfatizando a necessidade de redução dos gastos governamentais e proposição de taxas de juros associadas a índices reais positivos, descartando expressamente a adoção de juros negativos nas operações de overnight. Tais posicionamentos sinalizavam sua preocupação com o controle das despesas públicas e a manutenção do equilíbrio das operações financeiras de curto prazo.
Imediatamente após sua entrada no cargo, Camões foi confrontado com uma greve geral dos funcionários do Banco Central, que recém-se haviam organizado sindicalmente. Diante da impossibilidade de negociação com os grevistas, Camões, após análise do estatuto institucional da autarquia juntamente com os diretores e o Departamento Jurídico, autoriza o processo de demissão de 24 funcionários líderes do movimento paredista, estratégia que permitiu acalmar a greve. Os funcionários demitidos foram posteriormente absolvidos em processo administrativo, retornando aos seus postos.
Reformas Institucionais
Durante sua gestão, Camões implementou reformas estruturais no Banco Central do Brasil visando aproximar a instituição aos padrões e procedimentos adotados por bancos centrais de países desenvolvidos, buscando modernizar os processos internos e a eficiência operacional da autarquia. Camões empreendeu revisão profunda nas estruturas operacionais, refazendo a organização das unidades administrativas, revendo as normas que regiam as operações e reformulando as diretorias da instituição. Segundo seu próprio relato, objetivava criar um Banco Central equiparável àqueles que funcionavam em nações desenvolvidas.
Dentre as reformas implementadas, figurava a extinção da Diretoria de Crédito Rural e Industrial (Dicri), cuja existência Camões considerava prejudicial ao equilíbrio das discussões da Diretoria. Com aprovação dos demais diretores e do Ministério da Fazenda, procedeu-se à transferência das operações de crédito rural para o Banco do Brasil, instituição que mantinha histórico nessa área desde sua fundação. Realizou aprimoramentos no Sistema de Informações do Banco Central (Sisbacen), promovendo melhorias na transmissão de dados contábeis de instituições financeiras conforme o Plano Contábil das Instituições Financeiras do Sistema Financeiro Nacional, além de incrementar as condições de segurança e conectividade com a rede internacionalde telecomunicações financeiras. Implementou também a participação das instituições do sistema financeiro nacional na utilização do Sisbacen, permitindo maior acompanhamento das operações realizadas no mercado.
Política de Dívida Externa
Na esfera da política de dívida externa, Camões defendeu a adoção de mecanismo de conversão de dívidas em papéis de risco, promovendo leilões que permitissem ao Brasil negociar com seus credores internacionais sob condições mais favoráveis ao país. Essa estratégia buscava reduzir o impacto do serviço da dívida sobre as contas públicas brasileiras. Camões entendia que o país necessitava de corpo técnico dedicado à negociação da dívida externa, e que a conversão de títulos de dívida em investimentos de risco abria possibilidades vantajosas para o Brasil.
Política Cambial
Em matéria de câmbio, Camões privilegiava adoção de taxa cambial flexível acompanhada de minidesvalorizações periódicas, afastando-se da estratégia anterior de câmbio fixo ou fortemente administrado, na busca por maior equilíbrio do setor externo da economia. Considerava fundamental que o exportador brasileiro recebesse o custo real do dólar em cada momento, permitindo que a taxa de câmbio acompanhasse a inflação do país sem artificialidades que prejudicassem o setor externo.
Liberalização do Mercado Financeiro
Camões defendia também que o mercado financeiro brasileiro fosse menos concentrado, com participação de número maior de instituições de crédito, de forma a torná-lo mais ágil e criativo. Essa visão refletia sua observação acerca do desenvolvimento do banco Bradesco, que havia começado como instituição de pequeno porte e havia conseguido expandir significativamente seu capital e operações através de apropriado acompanhamento e supervisão. Considerava que a excessiva concentração bancária representava risco ao país, sendo necessário atrair capital, recursos e experiência técnica para desenvolver um sistema financeiro saudável e equilibrado.
Em matéria de autorização de novas instituições, Camões autorizou a licença para operação do Deutsche Bank no Brasil, primeiro banco estrangeiro a receber tal autorização durante o governo Sarney. Tratava-se da reabertura do Banco Alemão Transatlântico, que havia sido fechado durante a Segunda Guerra Mundial, sendo posteriormente transformado em Deutsche Bank. A operacionalização dessa licença representava significativa abertura do mercado financeiro brasileiro, devendo ocorrer com cautela e medidas preparatórias adequadas.
Questões Controversas
Caso Sogeral (1988)