thumb|300px|O núcleo urbano primitivo de Caxias do Sul em torno de 1880, mostrando a abertura da Rua Grande e da futura Praça Dante Alighieri.

O Centro Histórico é um Setor Especial da cidade de Caxias do Sul, Brasil, contemplado em seu Plano Diretor e sujeito a legislação específica. Compreende a região que primeiro foi urbanizada, localizada no entorno da praça Dante Alighieri, na definição legal limitada pelas ruas Os 18 do Forte, Bento Gonçalves, Alfredo Chaves e Moreira César.Prefeitura Municipal de Caxias do Sul. Plano Diretor. Zoneamento Área Urbana. Anexo 10, junho de 2010 O Centro Histórico foi desde sua origem o núcleo vital da urbe e transformou-se profundamente desde os primeiros tempos, mas ainda preserva seu traçado urbano original e uma série de edificações de grande interesse arquitetônico e histórico. Por outro lado, tem sofrido com os frequentes engarrafamentos de trânsito e com a degradação de alguns trechos.

História

Origens thumb|Primeira Matriz de Caxias, em torno de 1890. thumb|Trecho da Rua Grande em torno de 1880-90.

O atual Centro Histórico de Caxias iniciou sua formação junto com a própria cidade. Concebida como uma colônia, Caxias fez parte de um projeto do Governo Imperial para o povoamento de vazios demográficos, para a formação de uma mão-de-obra não-escrava e para o branqueamento da população brasileira, sendo escolhidos colonos europeus para essa empreitada. A colônia foi fundada em 1875 com uma sede em Nova Milano, ocupando terras devolutas. Para lá iriam grandes levas de estrangeiros, principalmente italianos.Adami, João Spadari. História de Caxias do Sul 1864-1970. Edições Paulinas, 1971, pp. 19-37Giron, Loraine Slomp. “O Corpo Estranho: imigrantes italianos e escravos”. In: Suliani, Antônio (org.). Etnias & Carisma: poliantéia em homenagem a Rovílio Costa. EdiPUCRS, 2001, pp. 647-652

Em 1876 a sede colonial foi transferida para a região do Centro Histórico, organizando-se em torno de um largo, mais tarde batizado de Praça Dante Alighieri, onde foi erguida a Igreja Matriz. A área escolhida era cruzada por antigas rotas indígenas e em certo ponto havia um grande descampado com fontes de água, que foi chamado de Campo dos Bugres pelos exploradores que haviam antes percorrido essa região. Na época da fundação de Caxias o Campo dos Bugres estava sendo usado como pouso de tropeiros que transitavam entre os Campos de Cima da Serra, onde floresciam as vacarias, e São Sebastião do Caí, principal entreposto comercial do centro do estado e ponto de passagem obrigatória para os imigrantes. Na serra a ideia foi criar uma colônia rural, com uma pequena sede administrativa urbana. Pretendia-se que a urbanização principal dessa região ocorresse onde hoje é Flores da Cunha, mas ela acabou se concentrando em torno do centro caxiense, que cresceu rápido estabelecendo-se como um importante entreposto comercial, auxiliando no abastecimento das colônias vizinhas e através de si escoando grande parte da produção regional até São Sebastião, que tinha um porto fluvial e por ele fazia a ligação com os mercados da capital e do centro do estado.Buchebuan, Terezinha de Oliveira. "Caxias do Sul: entre o regional e o local". In: Anais do XVII Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional. São Paulo, 22-26/05/2017Nascimento, Roberto R. F. do. Campo dos Bugres-Sede Dante: a formação urbana de Caxias do Sul (1876-1884). Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: PUCRS, 2009

Depois de alguns projetos abandonados, em 10 de janeiro de 1879 a Diretoria da Comissão de Terras e Povoamento aprovou uma planta de Luiz Manoel de Azevedo para o centro urbano, idealizado de acordo com a malha romana, um traçado de ruas retas que se cruzam na perpendicular, configurando um xadrez. Várias casas e negócios a esta altura já haviam sido construídos no centro, criando um núcleo edificado de pouca ordem, mas com a implantação do traçado oficial muitas dessas primeiras construções foram demolidas. Desde logo apareceu como a espinha dorsal do nascente povoado a então chamada Rua Grande, hoje a Avenida Júlio de Castilhos. Em torno de 1884 a retificação dos arruamentos principais havia sido concluída. Neste mesmo ano a colônia foi transformada em distrito de São Sebastião do Caí.Centro de Memória da Câmara Municipal de Caxias do Sul [Geni Salete Onzi (org.)]. Palavra e Poder: 120 anos do Poder Legislativo em Caxias do Sul. Ed. São Miguel, 2012, pp. 11-13 thumb|esquerda|O Cine Juvenil, o primeiro cinema de Caxias, em 1910. Note-se o trabalho de decoração da fachada de madeira.

A mudança administrativa foi impopular. Para pagarem suas taxas e se comunicarem com as autoridades os colonos agora precisavam se deslocar quase 60 km até a sede municipal, perdendo com isso uma semana de trabalho, num tempo de estradas muito precárias. Depois de longas negociações com o governo estadual, e demonstrando ter crescido o bastante para poder se autogovernar, em 1890 o distrito foi emancipado, tornando-se a Vila de Santa Teresa de Caxias, posta sob a direção de uma Junta Governativa. A junta organizou o novo município servindo como um corpo executivo e também legislativo, outorgando as primeiras leis: um Código de Posturas, o Regimento Interno e a Lei Orgânica. Essas leis definiram as regras da administração pública e delimitaram a abrangência dos Poderes, mas no que toca ao Centro Histórico a junta deve ser lembrada por estabelecer as primeiras normas referentes à urbanização e edificação no centro.

Nesta época poucas eram as edificações de alvenaria, quase todas eram casarões de madeira, e mesmo grandes pavilhões industriais eram erguidos em madeira, sendo preferida a araucária, então abundante na região. A pavimentação do centro tardaria muito. Até chegar à intendência o coronel José Pena de Moraes, o centro teria ruas de terra batida com cascalhos, e apenas algumas ruas com passeios calçados nas laterais. O principal foco da atenção oficial nas primeiras décadas foi a organização da Praça Dante e da Rua Grande, iniciando-se obras para o aplainamento e rebaixamento do terreno, processo retardado e complicado pela existência de uma grande pedreira na área.Bisol, Letícia Eloisa. "As formas e suas relações do espaço arquitetônico: um estudo de Caxias do Sul". In: XX Encontro de Jovens Pèsquisadores. Caxias do Sul, Cidade Universitária, 23 a 25 de outubro de 2012

Essa urbanização desenvolveu-se ao longo de linhas originais, resultado da criação de uma cultura nova na região colonial, que incorporava a herança cultural dos imigrantes e revelava sua adaptação aos recursos e usos específicos da tradição luso-brasileira. Os colonos eram em geral hábeis na edificação em pedra, mas não conheciam as madeiras nacionais, cujas propriedades levaram algumas décadas a conhecer e dominar a pleno, aplicando esses conhecimentos a um estilo vernacular tipificado pela casa unifamiliar de um ou dois pisos, muitas vezes usada como comércio no térreo e residência no segundo piso. Em geral construções espaçosas e confortáveis, embora bastante rústicas, podiam possuir detalhes ornamentais em balcões, lambrequins e caixilharia.

Consolidação e crescimento thumb|O Clube juvenil em 1909. Esta sede foi demolida. thumb|Quermesse de Santa Teresa na Praça Dante Alighieri com a Catedral de Caxias ao fundo, em 1910. thumb|Sede do Banco Nacional do Comércio. Demolida. Apesar da sua precariedade urbanística, no início do século XX o centro possuía 3 mil residentes, com 426 casas térreas e 76 sobrados, incluindo aqueles com uso comercial. O centro, mais do que uma zona de habitação, se tornava o principal polo econômico, político e religioso da colônia, e em torno da Praça Dante ocorriam os principais eventos e festividades públicas. Em 1900 a antiga Matriz já havia sido substituída por uma imponente edificação nova em alvenaria, e havia uma quantidade de casas comerciais, oficinas, manufaturas e 36 indústrias em atividade. Em poucos anos os edifícios industriais multiplicariam sua presença na região central.

Um salto de crescimento foi dado entre 1909 e 1910 com a consolidação da passagem para os Campos de Cima da Serra através da construção da Ponte do Korff e com a chegada da via férrea à cidade, ligando-a diretamente a Porto Alegre e contornando os intermediários de São Sebastião do Caí. A abertura desses caminhos deu um grande impulso ao desenvolvimento comercial. No mesmo dia da chegada do trem a vila foi elevada à condição de cidade. Caxias nesta época já tinha uma produção agrícola e vinífera expressiva, a indústria se diversificava rápido, e a cidade se capacitava para incrementar ainda mais seu antigo papel de dinâmico entreposto comercial, tornando-se uma das principais economias do estado. Cumpriam-se assim as expectativas dos antigos administradores do estado, que viam na colonização uma salvação para o declínio da cultura do charque, que no século XIX fizera a riqueza gaúcha.Giron, Loraine Slomp & Herédia, Vania Beatriz Merlotti. Identidade, Trabalho e Turismo. Universidade de Caxias do Sul, 2006Machado, Maria Abel. “Empresários na busca do poder político: acordos e conflitos. Caxias do Sul, 1894-1935”. In: Primeiras Jornadas de História Regional Comparada. Porto Alegre, 23-25/08/2000

Com o crescimento econômico acelerado, em pouco tempo formou-se uma elite colonial de ricos comerciantes e industriais, que passaram a fomentar uma cultura erudita cosmopolita, mas ainda pesadamente dependente da cultura italiana, e tornaram-se orgulhosos de suas realizações.Beneduzzi, Luis Fernando. “Festa da Uva e política fascista: narrativa de operosidade e resgate de italianidade”. In: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho de 2011 Nas primeiras décadas do século XX aparecem jornais, teatros, associações literárias, artísticas, políticas, sociais, esportivas e beneficentes, e esse florescer foi acompanhado de uma renovação arquitetônica e urbanística no centro. As ruas começam a ser pavimentadas, a Praça Dante vai ganhando sua forma clássica, e mudanças nas normas de edificação vão coibindo a construção em madeira e incentivando a alvenaria. Uma série de palacetes elegantes passa a pontilhar o centro, e edifícios suntuosos são erguidos para sediar bancos, grandes casas comerciais e os principais clubes e associações. Neste processo, as classes baixas vão sendo empurradas para fora do centro, e logo as indústrias também o seriam, iniciando-se a especulação imobiliária.Stormowski, Marcia. Crescimento econômico e desigualdade social: o caso da ex-colônia Caxias (1875-1910). Dissertação de Mestrado. UFRGS, 2005Costa, Ana Elísia da. A evolução do edifício industrial em Caxias do Sul: 1880-1950. Dissertação de Mestrado. UFRGS, 2001Wiggers, Monica Marlise; Kormann, Tanice Cristina & Robaina, Luis Eduardo de Souza. “Evolução da ocupação urbana de Caxias do Sul e os assentamentos subnormais”. In: Anais do XVI Encontro Nacional dos Geógrafos: Crise, práxis e autonomia: espaços de resistência e de esperanças: espaço de diálogos e práticas. Porto Alegre, 25 a 31 de julho de 2010