Teodulfo de Orleães (; Aragão, 750/760 – Angers, ) foi um escritor, poeta e bispo de Orleães (entre cerca de 798 e 818) durante os reinados de Carlos Magno e Luís, o Piedoso. Foi um dos protagonistas do chamado Renascimento carolíngio e uma figura importante durante as muitas reformas realizadas na Igreja durante o Império Carolíngio. Além disso, é quase certo que ele seja o autor do "Libri Carolini", "em grande medida a mais completa afirmação da atitude ocidental frente à arte representacional que nos legou a Idade Média".Dodwell, C.R.; The Pictorial arts of the West, 800–1200, p. 32, 1993, Yale UP, ISBN 0-300-06493-4
Finalmente, Teodulfo é lembrado também por que seu oratório privado (ou capela), construído em sua villa em Germigny-des-Prés, sobreviveu e nele se pode admirar um mosaico datando, provavelmente, de 806.Dodwell,49
Vida thumb|300px|direita|Placa citando Teodulfo (Theodvlfe, Ev.D'Orleáns) em Germigny-des-Prés Teodulfo nasceu na Hispânia, provavelmente em Saragoça, entre 750 e 760, e era de ascendência visigótica. Foi obrigado a fugir por causa da invasão moura da região e viajou para uma província do sudoeste da Gália chamada Aquitânia, onde foi educado.Freeman & Meyvaert 2001, p. 125. Em seguida, Teodulfo se juntou ao mosteiro perto de Maguelonne, no sul da Gália, liderado pelo abade Bento de Aniane. Durante uma viagem a Roma em 786, Teodulfo ficou admirado com as escolas que viu e enviou cartas para muitos abades e bispos por todo o Império dos francos encorajando-os a fundar escolas públicas.Baunard 1860, p. 54.
Carlos Magno reconheceu a importância de Teodulfo incluindo-o em sua corte e nomeando-o simultaneamente bispo de Orleães ( 798) e abade de muitos mosteiros, principalmente a abadia beneditina de Fleury-sur-Loire.Freeman & Meyvaert 2001, p. 126. Logo ele começou a fundar escolas nas regiões que agora estavam em sua jurisdição e rapidamente tornou-se um dos teólogos favoritos de Carlos Magno juntamente com Alcuíno da Nortúmbria, envolvendo-se profundamente nas reformas que o imperador começou a realizar na Igreja.
Nesta função, envolveu-se na edição de diversos traduzidos que Carlos Magno acreditava estarem incorretos e passou a traduzi-los novamente diretamente do grego antigo e do hebraico.Baunard 1860, p. 77. Em 814, o imperador morreu e foi sucedido por seu filho, Luís, o Piedoso.Baunard 1860, p. 296.
O sobrinho dele, o rei Bernardo da Itália declarou independência dos francos e se preparou para uma guerra. Porém, foi convencido a se render e acabou punido severamente por Luís, que mandou cegá-lo. O procedimento deu errado e Bernardo morreu em decorrência das complicações.Baunard 1860, p. 300. Luís acreditava que sua corte estava repleta de conspiradores e aliados de Bernardo, incluindo Teodulfo, que foi acusado de traição. Ele foi forçado a abandonar sua sé em 817 e foi exilado para um mosteiro em Angers no ano seguinte, onde passou os dois anos seguintes de sua vida.Baunard 1860, p. 301. Em 820, foi solto e tentou retornar para Orleães, mas não conseguiu chegar lá, pois, acredita-se, morreu no caminho ou logo que chegou. A data era 18 de janeiro de 821 e seu corpo foi levado de volta para Angers, onde está enterrado.Baunard 1860, p. 322.
De acordo com uma fonte, é possível que Teodulfo tenha se casado no início de sua carreira e da relação tenha nascido uma filha chamada Gisla.Smith - Wace, p. 985.
Villa em Germigny-des-Prés thumb|direita|300px|Mosaico no oratório de Germigny-des-Prés, o único mosaico carolíngio sobrevivente. Representa a Arca da Aliança e os querubins que a guardam O oratório de Germigny-des-Prés, um exemplo da arquitetura carolíngia, foi construído por Teodulfo em 806 como parte de sua villa galo-romana em Germaniacus, onde era também abade do mosteiro de Saint-Benoît-sur-Loire. O complexo foi, de maneira geral, foi modelado no Palácio de Aachen, de Carlos Magno, a sede do poder no Império Carolíngio na época.
Todo o complexo, com exceção do oratório, foi destruído pelos normandos (que estavam emergindo dos viquingues) antes de completar cem anos. A villa tinha afrescos sobre as sete artes liberais, as quatro estações e o mappa mundi,Beckwith, 13–17 além de um mosaico no oratório que é praticamente o único mosaico carolíngio a sobreviver - ainda que muito restaurado na década de 1860, quando o edifício recebeu o que hoje se considera uma desastrosa reforma, repleta de restauros exagerados. O tema do mosaico, a Arca da Aliança com os típicos anjos, só se encontra em Bíblias judaicas antigas (geralmente como única ilustração) e provavelmente tem relação com o "Libri Carolini", no qual a arca, com seus querubins de ouro, é mencionada como uma prova importante da aprovação divina das imagens religiosas (vide iconoclasma para a controvérsia que sacudia o mundo cristão na época).
Obras Capitulárias Como bispo de Orleães (798-818), Teodulfo escreveu dois importantes capituláriosde Clercy 1930, p. 8.: Capitula ad presbyteros parochiae - um lembrete aos sacerdotes de sua diocese sobre a importância do trabalho manual, do estudo, da oração e da castidade. Capitula altera Theodulpho episcopo Aurelianensi adscripta - com foco em seu código penitencial, Teodulfo lista as consequências do assassinato, adultério, fornicação, incesto, roubo, usura e outras infrações.
Hinos Teodulfo compôs também muitos hinos e o mais famoso deles é "Gloria, laus et honor".
Libri Carolini É quase certo que Teodulfo seja o autor dos "Libri Carolini" (ca. 793), uma obra que serviu de refutação a uma má tradução dos atos do Segundo Concílio de Niceia (787) que acabou sendo erroneamente interpretada como afirmando que a "adoração de imagens" seria aceitável.Freeman 1957, pp. 663–664. Os atos de fato ordenavam o fim do período iconoclástico, que levou à destruição de muitas imagens sagradas das igrejas, especialmente em Constantinopla, mas não defendia a idolatria. Esta tradução incorreta seguiu de Roma para a corte de Carlos Magno, que, juntamente com seus teólogos, incluindo Teodulfo, ficou furioso. Teodulfo recebeu ordens de escrever uma resposta em nome de Carlos Magno de forma a representá-lo como único representante do mundo ocidental e defensor da Igreja contra a idolatria.Freeman 1957, p. 665.
De acordo com os "Libri Carolini", imagens podem ser utilizadas em ornamentos eclesiásticos para fins educativos e para relembrar eventos passados. Seria tolice, porém, queimar incens ou acender velas para elas, apesar de ser igualmente errado retirá-las das igrejas e destruí-las. A obra nega veementemente a "adoração" das imagens - um reflexo da tradução incorreta do que determinou o concílio em Niceia - afirmando que adoração se reserva a Deus apenas, enquanto que a veneração se dedica aos santos e uma reverência é corretamente aplicada à cruz, às Escrituras, aos vasos sagrados e às relíquias. A palavra grega que aparecem nos atos do concílio significa nada mais do que esta reverência numa posição de prostração.
Bibliografia
Smith, William & Wace, Henry, A Dictionary of Christian Biography, vol. 4. , London, 1887, p. 985 Monsignor Louis Baunard, Théodulfe, évêque d'Orléans et Abbé de Fleury-sur-Loire. Orléans, 1860. C. de Clercy, Quelques Status Diocésains de L'époque de Charlemagne. Anvers, 1930. A. Freeman, "Theodulf of Orleans and the Libri Carolini," Speculum Vol. 32, No. 4 (Oct., 1957), pp. 663–705.
A. Freeman, Theodulf of Orléans: Charlemagne's Spokesman Against the Second Council of Nicaea (Aldershot, Ashgate, 2003). N. Staubach, "Zwischen Mythenallegorese und Idolatriekritik. Bischof Theodulf von Orléans und die heidnischen Götter," in Christine Schmitz und Anja Bettenworth (hg.), Menschen – Heros – Gott: Weltentwürfe und Lebensmodelle im Mythos der Vormoderne (Stuttgart, Franz Steiner Verlag, 2009), 149–166.
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