A popular frase só sei que nada sei ou sei uma coisa: que eu nada sei, por vezes compreendida como um paradoxo socrático, é um dizer muito conhecido, derivado da narrativa de Platão sobre o filósofo Sócrates. No entanto, a frase não é mencionada em nenhum texto grego antigo que nos tenha sido legadoFINE, 2008, p. 51..

Acredita-se que tenha surgido originalmente em textos escritos em latim, como em "" de Cícero., ou em Nicolau de Cusa com "" e ""Uma variante encontra-se em . É possível que seja, então, uma paráfrase de um texto grego antigo, encontrada apenas em latim e vertida na contemporaneidade para o grego catarévussa como "", (lê-se: [hèn oîda hóti] oudèn oîda). . Logo, esse problema teria surgido já na época da tradução latina, muito provavelmente por utilizarem apenas o verbo scire (saber, entender) para traduzir palavras distintas do grego, como (syn)eidénai, epístamai, gignṓskein, sophía e sophósBaseado em FINE (2008) e desenvolvido no capítulo 2.11 O PARADOXO EPISTEMOLÓGICO DO “SÓ SEI QUE NADA SEI”, p. 113-117, em CARVALHAR, C. A caça à sabedoria: a sophía a partir d’Apologia de Platão. Mestrado—Rio de Janeiro: UFRJ, 2020..

O dizer está relacionado com o relato de Querefonte sobre a resposta da sacerdotisa (pítia), no Oráculo de Delfos, em relação à questão "quem é o homem mais sábio da Grécia?". Essa consulta foi narrada por Platão em sua Apologia (21a) e por outro discípulo de Sócrates, Xenofonte, em um outro texto também chamado Apologia (14). No entanto, nesse último relato é dito apenas que ninguém seria mais justo, livre e sensato que Sócrates, não aparecendo a palavra 'sábio'Apologia (14) de Xenofonte: "Certo dia, Querefonte dirigiu-se ao oráculo de Delfos para o interrogar a meu respeito, na presença de grande número de testemunhas, e Apolo respondeu-lhe que nenhum homem era mais livre, nem mais justo, nem mais sensato [σωφρονέστερον] do que eu". Ver p. 159 em Pinheiros, Ana. Xenofonte. Apologia de Sócrates: Introdução, tradução do grego e notas. Máthesis, v. 12, p. 133–164, 2003..

No contexto da Apologia de Platão, em 20d, essa questão se relaciona, portanto, à condição humana, detentora de uma sabedoria limitada e ignorante de muitas coisas. Logo a anthrōpínē sophía (sabedoria humana) seria a consciência da sua própria limitação quanto ao saberCARVALHAR, 2020, p. 109..

Em Platão Essa frase é frequentemente atribuída ao Sócrates de Platão, nos tempos antigos e modernos, não ocorre tal como ela é em nenhuma das obras de Platão.. Dois proeminentes académicos estudiosos de Platão argumentaram recentemente que a frase não deve ser atribuída ao Sócrates de Platão.

No entanto, Platão relata, em sua Apologia de Sócrates, que:.

A imprecisão da paráfrase como 'só sei que nada sei''' deriva do fato de o autor não estar a dizer que ele nada sabe, mas sim que não pode saber nada com absoluta certeza, mas pode se sentir confiante acerca de certas coisas. Além disso, autores como Gail FineFINE, 2008., Thomas Brickhouse e Nicholas SmithVer p. 31, 38 e 72 em BRICKHOUSE, T.; SMITH, D. Plato’s Socrates. Oxford: Oxford University Press, 1994. e Gregory VlastosVLASTOS, G. Socrate’s Disavowal of knowledge. In: The Philosophical Quarterly. v. 35, n. 138, jan, 1985. ressaltam, cada um dentro de sua perspectiva e com suas diferenças, que o “só sei que nada sei” não seria realmente um paradoxo, pois haveria uma distinção entre o que Sócrates se referiria por conhecimento ou sabedoria, havendo uma diferença de nível epistêmico, entre um conhecimento mais alto e completo e outro mais baixo e relacionado à vida cotidianaCARVALHAR, 2020, p. 114..

Uma curiosidade é que Sócrates já afirmou em mais de uma passagem das narrativas conhecer algum assunto além da própria ignorância:Cimakasky, Joseph J.. All of a Sudden: The Role of Ἐξαίφνης in Plato's Dialogues. Doctor of Philosophy Dissertation. Duquesne University. 2014.Além dos exemplos acima, David WolfsdorfWOLFSDORF, D. Socrates’ Avowals of Knowledge. Phronesis, v. 49, n. 2, p. 75-142, 2004. agrupou mais de trinta alegações de conhecimento (knowledge claims), onde Sócrates diz saber alguma coisa, com valor epistêmico variando desde coisas simples até questionamentos éticos e filosóficos.

Notas

Ver também

Ceticismo Cogito Conhece a ti mesmo Sabedoria Sapere aude'' Superioridade ilusória Ceticismo acadêmico Humildade epistêmica Metamemória

Categoria:Conceitos de epistemologia Categoria:Citações da filosofia Categoria:Palavras, frases e expressões em grego Categoria:Sócrates Categoria:Ignorância