thumb|direita|300px|Feira Livre Uma feira livre, também chamada de mercado popular, mercado ambulante e mercado municipal, é um centro de comércio e cultura popular, não necessariamente formal ou com estrutura definida, que reúne vendedores independentes, de origem urbana ou campesina, para comercializar alimentos e outros produtos, atuando como um centro de troca comercial e convívio social entre o urbano e o rural. Esses espaços, geralmente de grande importância cultural e econômica para as localidades, promovem a interação entre diferentes grupos sociais e valorizam os saberes e sabores regionais.
No aspecto das relações sociais, estes locais fortalecem relações sociais e comunitárias, além de desempenhar um papel importante no abastecimento de localidades e na manutenção de tradições culturais. São locais de interação social, onde as pessoas observam, pechincham e procuram algo específico, além de serem espaços de criação e manutenção de laços de afetividade comunitária, que rompem com a relação comerciante-freguês, e que sustentam em grande parte a tradição de ir a feira toda semana, alimentar-se ou comprar alimentos frescos, além da variedade e qualidade dos produtos ali encontrados.
Etimologia A palavra "feira" teve origem na palavra em latim feria, que significa "dia santo ou feriado” e a palavra freguês, usada para tratamento dos consumidores de feira livre, originou-se também do latim filiu ecclesiae que significa "filhos da igreja". Assim, no início, as pessoas ou fiéis aproveitavam as festas religiosas para se reunirem e para trocarem mercadorias.
Breve histórico miniaturadaimagem|Esta vista da cidade de Turim foi provavelmente gravada por Romeyn de Hooghe (1645-1708). Na antiguidade as feiras tinham o objetivo de promover trocas de mercadorias entre as pessoas de diferentes lugares e com diferentes itens. Com a queda do feudalismo e o surgimento do capitalismo, esse modo de comércio ganhou força e importância econômica. Inicialmente foram impulsionadas pelas Cruzadas, uma vez que naquela época as atividades comerciais deveriam atender as necessidades dos viajantes e com o tempo, as necessidades foram aumentando e se diversificando, bem como a população foi crescendo e as feiras, então, passaram a ter importância social, promovendo a comunicação e interação dos povos.
Com a expansão marítima (Séc. XV e XVI), a tradição das feiras foi levada para as colônias, no Brasil trazidas por imigrantes europeus, tendo papel fundamental no desenvolvimento das cidades, não somente como um meio de aquisição de produtos, mas também local de encontro, de confraternização, onde pessoas de uma mesma comunidade e de comunidades vizinhas se encontravam, desempenhando assim um assim papel importante na interação social e intercâmbio cultural.
Não há provas acerca da criação da primeira feira no Brasil, mas há registros de regimentos escritos por D. João III em 1548 e D. Afonso em 1677, ordenando a criação de feiras semanais na colônia para trocas entre os portugueses e nativos.
Partindo do princípio que os mesmos já estavam acostumados a reunir seus artigos em troca na praia para a posterior negociação, estas feiras acabaram por não se realizar, as feiras ordenadas por D. João III não ocorriam e por conta disso, não realizaram feiras na colônia durante um bom tempo, e a partir do Séc. XVII, as feiras de gado trazido da zona rural, intensificaram-se e naquela época, no Brasil, havia dois tipos de feiras. A feira de Mercado - como eram conhecidas as feiras livres - aos sábados, abasteciam a população, enquanto que a Feira Franca - feira de gado - ocorria duas vezes ao ano, destinada a comercialização de bens regionais, atraindo compradores e vendedores de diversas regiões (TREVISAN, 2008). Já no final do Séc. XIX, as feiras livres estavam instaladas nas ruas, oferecendo itens básicos de alimentação aos habitantes de suas comunidades.
Características da feira livre A feira livre é uma manifestação da cultura urbana brasileira que se mantém apesar do crescente avanço do desenvolvimento do comércio, pois cada vez mais o consumidor tem acesso a hipermercados e sacolões, inclusive as compras virtuais (internet), com todo conforto e comodidade que inclui o horário flexível e até mesmo facilidades de pagamento, mesmo assim, a feira livre se mantém viva, tanto nas pequenas como nas grandes cidades, em todos os bairros, seja na periferia ou em bairros nobres.
thumb|direita|300px|Feira Livre de Casa Amarela em Recife
A feira livre tem caráter diversificado, onde circulam pessoas de todos os tipos, sejam vendedores, compradores ou simples transeuntes, surgindo não apenas o comércio de frutas, legumes, verduras ou outros itens alimentícios, surgindo ainda ambulantes, transportadores, comércio e prestação de serviços de outros itens que visam atender diversas demandas. É ainda um dos poucos espaços existentes onde há contato direto com a comunidade.
Há também a característica democrática, já que encontram-se todos os tipos de comerciantes nas feiras, desde o grande feirante, distribuidor de alimentos, como pequenos produtores que veem nas feiras livres única forma de distribuir seus produtos, bem como as pessoas que a frequentam, já que a feira é acessível e frequentada por pessoas de diferentes origens, independente de classe econômica ou social. Cabe a cada município legislar sobre feiras livres.
As feiras livres, além dos aspectos culturais de sua tradição, com suas inúmeras características exclusivas, tem fundamental importância inclusive para o abastecimento de comunidades carentes, já que estão localizadas em diversos bairros dos municípios, sejam eles de baixa renda ou não, ressaltando-se a importância econômica da feira.
Entende-se que a longo prazo, motivados pela rotina efervescente do “mundo moderno”, onde as pessoas cada vez mais exigem conforto, dinamismo e qualidade, torna-se evidente que a feira livre realmente sofre ameaça dos grandes supermercados, porém pode-se tratar de um simples princípio da economia - livre concorrência. Uma vez que a feira livre tem um público fiel, além das vantagens econômicas, ou seja, a diversidade de produtos oferecidos, qualidade e preço.
As feiras livres ainda possuem seus encantos, visto que ainda sobreviveram mesmo após o surgimento dos supermercados, enquanto que algumas demonstram-se enfraquecidas, outras permanecem fortes e com movimento indicativo de autossuficiência econômica, inclusive tornando-se evento turístico, voltando a reforçar a importância sociocultural da feira livre no Brasil.
A feira livre pode se transformar, adequar-se aos novos tempos, devendo manter sua tradição e prestígio de sua identidade, preservando assim sua tradição popular urbana, mantendo ainda viva a necessidade da relação humana, a importância social de seus aspectos como uma manifestação da cultura brasileira e sua diversidade, que deve de alguma forma ser preservada.
Desta forma, o que faz as feiras livres, enquanto fenômeno cultural tradicional, sobreviverem ao tempo e às investidas da modernidade é justamente a relação humana existente nesse ramo comercial, evidenciando a necessidade do brasileiro em manter e procurar manter uma relação intimista, que cada vez mais, nos “ tempos modernos”, são suprimidas e tão necessárias: “Você quer segurança? Abra mão de sua liberdade, ou pelo menos de boa parte dela. Você quer poder confiar? Não confie em ninguém de fora da comunidade. Você quer entendimento mútuo? Não fale com estranhos, nem fale línguas estrangeiras. Você quer essa sensação aconchegante de lar? Ponha alarmes em sua porta e câmeras de tevê no acesso. Você quer proteção? Não acolha estranhos e abstenha-se de agir de modo esquisito ou de ter pensamentos bizarros. Você quer aconchego? Não chegue perto da janela, e jamais a abra. O nó da questão é que se você seguir este conselho e mantiver as janelas fechadas, o ambiente logo ficará abafado e, no limite, opressivo“ (BAUMAN, 2003).
O acesso a grandes comércios da atualidade ameaçam a existência das feiras livres, no que concerne a também necessidade de dinamismo e exigência de conforto para gerações mais novas, de forma que as feiras livres sofrem ameaça dos grandes comércios, contudo ainda é forte em sua tradição e defendida por aqueles envolvidos em sua relação, além de sempre haver a necessidade humana em resgatar e preservar suas memórias, isto é, tradição cultural é muito mais que tentar preservar antigas manifestações culturais, somos capazes de criar o novo sem negar o passado, “(...) como forma de sobrevivência a milhares de famílias de baixa renda, a feira livre vem persistindo, resistindo ao processo acentuado de negação da rua, do espaço público de pouco acesso, que vem marcando a urbanização brasileira nas últimas décadas. Trata-se não apenas de garantir aos pobres uma forma de geração de emprego e renda, ou de oferecer ao consumidor urbano uma alternativa a mais para aquisição de uma gama de produtos. Trata-se de preservar a rua como lugar de encontro. De preservar uma tradição popular urbana. Uma questão de cidadania.” (DOLZANI, 2008).
A feira livre como ponto turístico
thumb|direita|300px|Feira de São Joaquim - na parte interna da Feira.
Reconhecidamente patrimônio da cultura, a visita a diversas feiras no Brasil tornaram-se quase que obrigatórias.
A feira do Pacaembu em São Paulo, por exemplo, localizada na Pça. Charles Muller, de frente ao Estádio de Futebol “Paulo Machado de Carvalho”, é extremamente tradicional e recebe visitantes de toda a região e de modo geral atrai pessoas de outras localidades. Uma feira com algumas peculiaridades, tais como, espaço, inúmeras vagas de estacionamento, é uma feira reconhecida como “silenciosa”, onde não há a gritaria típica de uma feira livre, bem como na Feira do Pacaembu, não há “xepa”. Famosos, inclusive recebendo prêmios, os pastéis daquela feira são de degustação “obrigatória” aos frequentadores e visitantes, principalmente os das barracas “Pastel da Maria” e “Barraca do Zé”, além do caldo de cana e água de coco.
A feira de Arapiraca, segundo a história, tem origem em meados de 1884, tratando-se de uma expressão da cultura genuinamente nordestina, sendo a manifestação cultural mais antiga e mais importante daquela região, comercializa comidas típicas e variadas, além de um forte comércio de mercadorias. Estando ela em um ponto estratégico da cidade, também é turisticamente forte.
Em Curitiba, as feiras são tradicionais desde o Séc. XIX, sendo a que ocorre no bairro Rebouças, aos Domingos, uma das mais famosas de toda aquela região.
Outras feiras brasileiras, são pontos de visitação turística pela importância histórica e cultural de suas localidades, tais como: Feira de São Cristovão-RJ, Feira de Caruaru-PE, Feira da Epatur (Porto Alegre-RS), Feira de São Joaquim (Salvador-BA), o que evidencia o patrimônio da cultura, histórica e social que a feira livre tem no Brasil.
Em Campo Grande MS, as diversas feiras livres proporcionam a geração de emprego e renda a mais 4.000 pessoas diretamente, assim como cerca de 10.000 empregos indiretos em seus diversos seguimentos.
Perfil dos fregueses O fator econômico das feiras livres é levado em consideração pelo consumidor, já que os preços dos produtos são menores, a qualidade e variedade é bem maior que os encontrados nos supermercados ou sacolões, destacando o poder de negociação, conseguir pechinchar, discutir diretamente com o feirante o preço, ressaltando que em função da concorrência, as negociações são sempre frutíferas.