Papagaio-das-mascarenhas (nome científico: Mascarinus mascarin) é uma espécie extinta de papagaio que era endêmica de Reunião, uma das ilhas Mascarenhas. É o único membro do gênero Mascarinus, termo que faz referência ao arquipélago onde habitava. Sua origem evolutiva não está clara, e duas hipóteses têm competido desde meados do . Alguns cientistas classificam a espécie na subfamília Coracopsinae (de origem africana) devido a sua plumagem escura, já outros acham que descende de aves asiáticas por causa do bico vermelho, uma característica dos Psittaculinae.
A ave media 35 centímetros de comprimento e possuía um grande bico vermelho e uma área de pele nua, também vermelha, ao redor dos olhos e narinas. Sua cabeça tinha uma máscara facial preta e aveludada. A coloração do corpo, asas e cabeça é controversa. Descrições de papagaios vivos indicam que sua plumagem era cinza, e que a cauda era composta por 12 penas escuras com a base branca, exceto as duas penas medianas, que não tinham esse detalhe na base. Em contraste, as descrições baseadas em espécimes empalhados afirmam que o corpo era marrom e a cabeça azulada, mas não mencionam que as penas centrais da cauda eram completamente escuras. Esta divergência pode ser devido à mudança de cor dos exemplares empalhados, como resultado do envelhecimento e exposição à luz. Muito pouco se sabe sobre o comportamento da ave em vida.
O papagaio-das-mascarenhas foi mencionado pela primeira vez em 1674, e indivíduos vivos foram posteriormente levados à Europa, onde viveram em cativeiro. A espécie foi descrita cientificamente em 1771 pelo famoso naturalista Carlos Lineu. A data e a causa da extinção do papagaio não estão claras. A última menção da ave foi escrita em 1834, e apesar de aceita pela Lista Vermelha da IUCN, é considerada duvidosa por alguns especialistas. É provável que a espécie se extinguiu em cativeiro antes de 1800, e pode ter desaparecido na natureza ainda mais cedo. Apenas dois espécimes empalhados existem hoje, um no Museu de História Natural de Paris, e o outro no Naturhistorisches Museum, em Viena.
Taxonomia miniaturadaimagem|esquerda|200px|Imagem da ave na obra Histoire Naturelle, do conde de Buffon O papagaio-das-mascarenhas foi mencionado pela primeira vez pelo viajante francês Sieur Dubois em seu diário de viagem de 1674, e apenas algumas poucas descrições foram feitas antes de ser extinto. Pelo menos três espécimes vivos foram levados para a França no final do e mantidos em cativeiro, dois dos quais foram descritos ainda em vida. Atualmente existem dois exemplares empalhados. O holótipo, espécime MNHN 211, está no Museu de História Natural de Paris, enquanto o outro, espécime NMW 50.688, está no Naturhistorisches Museum, em Viena. Este último exemplar foi comprado do Museu Leveriano durante um leilão em Londres em 1806. Um terceiro exemplar empalhado existiu até por volta da virada do .
A espécie foi descrita cientificamente como Psittacus mascarinus (abreviado depois para "mascarin") pelo naturalista sueco Carlos Lineu em 1771. Este nome havia sido usado antes pelo zoólogo e filósofo natural francês Mathurin Jacques Brisson em 1760, mas na época não foi concebido como um nome científico. O termo é uma referência às ilhas Mascarenhas, arquipélago nomeado em homenagem a seu descobridor, o português Pedro Mascarenhas.
Os primeiros escritores afirmaram que o papagaio-das-mascarenhas era encontrado em Madagascar, uma ideia que levou o naturalista e ornitólogo francês René Primevère Lesson a cunhar o sinônimo júnior Mascarinus madagascariensis em 1831. Esse novo nome de gênero prevaleceu e, em 1891, quando Tommaso Salvadori o combinou com o epíteto específico, tornou-se um tautônimo (um nome científico que tem as duas partes idênticas). Lesson também incluiu as espécies dos gêneros Tanygnathus e Psittacula nos Mascarinus, mas essa proposta não foi aceita por outros especialistas. No ano seguinte, o herpetologista alemão Johann Georg Wagler criou o gênero Coracopsis para o papagaio-das-mascarenhas (que se tornou Coracopsis mascarina) e o papagaio-preto (Coracopsis nigra). O zoólogo inglês William Alexander Forbes, alegando que mascarinus era um nome específico inválido, uma vez que era idêntico ao nome do gênero, cunhou um novo nome, Mascarinus duboisi, em 1879, em homenagem a Sieur Dubois. O nome binomial foi corrigido de M. mascarinus para M. Mascarin em 2014.
miniaturadaimagem|Partes do crânio extraído do espécime de Paris Um papagaio de plumagem escura não identificado, visto vivo pelo naturalista sueco Fredrik Hasselqvist na África, recebeu o nome de Psittacus obscurus por Lineu em 1758. Mais tarde, em 1766, o próprio Lineu tornou o termo sinônimo do papagaio-das-mascarenhas. Devido a esta associação, alguns autores acreditavam que a ave também vivia nas ilhas Mascarenhas mas a descrição deste papagaio escuro difere daquela do papagaio-das-mascarenhas. Esta discordância levou alguns cientistas a usar combinações, agora inválidas, dos nomes científicos, como Mascarinus obscurus e Coracopsis obscura. O papagaio não identificado pode ter sido, na verdade, um papagaio-cinzento africano (Psittacus erithacus).
Outro exemplar de papagaio sem identificação, de plumagem marrom e alojado na Coleção Real Francesa, foi descrito pelo naturalista conde de Buffon em 1779 na seção do papagaio-das-mascarenhas, na qual ele apontou semelhanças e diferenças entre os dois. O paleontólogo inglês Julian Hume sugeriu a possibilidade de que ele pode ter sido um papagaio-preto, ou então um velho e descolorido papagaio-cinzento-de-maurício (Psittacula bensoni). O espécime está perdido atualmente. O zoólogo e escritor George Robert Gray classificou algumas subespécies de Eclectus roratus, das ilhas Molucas, no gênero Mascarinus em seu livro A List of the Genera of Birds (1840), mas essa proposta foi logo recusada por outros pesquisadores.
Restos subfósseis de papagaios foram posteriormente escavados de grutas na ilha da Reunião. Através de radiografias dos papagaios-das-mascarenhas empalhados que ainda existem, foi possível comparar os ossos desses exemplares com os subfósseis. A análise mostrou que estes tinham dimensões intermediárias, em comparação com os modelos modernos. O papagaio-preto foi introduzido na ilha da Reunião já em 1780, mas, apesar dos ossos do papagaio subfóssil serem semelhantes à espécie em alguns aspectos, eles eram mais parecidos com os do papagaio-das-mascarenhas e considerados como pertencentes a este último.
Evolução miniaturadaimagem|Um papagaio-das-mascarenhas (abaixo) e um papagaio verde sem identificação. Desenho de Jean-Baptiste Massard, 1850 A origem do papagaio-das-mascarenhas não está clara. Duas hipóteses têm competido desde meados do . Alguns autores classificam a espécie na subfamília Coracopsinae (de origem africana) devido a sua plumagem escura, e outros com os papagaios da subfamília Psittaculinae (de origem asiática) com base no grande bico vermelho, que é uma característica distintiva desse grupo. O seu padrão de plumagem era marcantemente atípico para um Psittaculinae, embora outros membros têm padrões faciais pretos.
miniaturadaimagem|O papagaio-preto de Madagascar é um dos "primos" mais próximos do papagaio-das-mascarenhas O nível do mar era mais baixo durante o Pleistoceno, de modo que foi possível que algumas espécies colonizassem determinadas ilhas, menos isoladas na época. Embora a maioria das espécies extintas de papagaios das Mascarenhas sejam pouco conhecidas, restos subfósseis mostram que eles compartilhavam algumas características, como cabeças e mandíbulas alargadas, ossos peitorais reduzidos e ossos robustos nas pernas. Hume sugeriu que todos têm uma origem comum, oriunda da radiação da tribo Psittaculini. Essa teoria é baseada nas características morfológicas e no fato de que os papagaios Psittacula conseguiram colonizar muitas ilhas isoladas no Oceano Índico. Os Psittaculini podem ter invadido a área várias vezes, visto que muitas das espécies estavam tão especializadas que podem ter evoluído significativamente em ilhas de pontos quentes antes das Mascarenhas terem emergido do mar.
A ilha vulcânica de Reunião tem três milhões de anos, tempo suficiente para que novos gêneros pudessem evoluir. Contudo, muitas espécies endêmicas podem ter sido dizimadas pela erupção do vulcão Piton des Neiges, que ocorreu entre 300 e 180 mil anos atrás. A maioria das espécies recentes, portanto, provavelmente descende de animais que recolonizaram a ilha a partir de Madagascar ou da África, após este evento. Se o papagaio-das-mascarenhas evoluiu em um gênero distinto antes da erupção, pode ter sido um dos poucos sobreviventes dessa catástrofe.
No entanto, um estudo genético de 2011 concluiu que o papagaio-das-mascarenhas deve ser alocado entre as subespécies do papagaio-preto de Madagascar e ilhas próximas e, portanto, não está relacionado com os papagaios Psittacula. A análise também descobriu que sua linhagem divergiu há 4,6 a 9 milhões de anos, antes da formação da ilha da Reunião, indicando que tal processo deve ter acontecido em outro lugar. O cladograma que acompanha o estudo é mostrado abaixo:
Outro grupo de cientistas reconheceu mais tarde tais resultados, mas ressaltou que a amostra usada pode estar danificada e que são necessárias mais análises antes desse tema ser considerado totalmente esclarecido. Eles também observaram que se for confirmada a incorporação do Mascarinus dentro do gênero Coracopsis, este último deve se tornar um sinônimo júnior, uma vez que o primeiro nome é mais velho. O paleontólogo Julian Hume expressou surpresa com estes resultados devido às semelhanças anatômicas entre o papagaio-das-mascarenhas e outros papagaios das ilhas apontados como membros dos Psittaculinae. Ele também frisa que não há nenhuma evidência fóssil de outras ilhas para apoiar a hipótese de que a espécie evoluiu em outros lugares antes de chegar à ilha da Reunião.
Descrição miniaturadaimagem|Ilustração de François-Nicolas Martinet (1779) mostrando a cabeça azulada e o corpo marrom O papagaio-das-mascarenhas media 35 centímetros de comprimento. As asas tinham 21,1 centímetros, a cauda 14,4 a 15,2 centímetros, o cúlmen (comprimento dorsal do bico, da base até a ponta) 3,2 a 3,6 centímetros, e o tarso 2,2 a 2,4 centímetros. Seu bico era grande e vermelho, e as penas da cauda arredondadas e moderadamente longas. Possuía uma máscara facial preta e aveludada sobre a parte frontal da cabeça. As cores do corpo, asas, penas da cauda e da cabeça foram descritas e representadas de diversas maneiras ao longo da história. Em 1674, Dubois descreveu espécimes vivos como sendo "petit-gris", que é a tonalidade da pelagem de inverno (mais escura) do esquilo-vermelho. Tal cor é descrita como marrom escuro ou cinza-enegrecido.
Em 1760, o francês Mathurin Jacques Brisson publicou a seguinte descrição com base em um papagaio cativo (que pode ter sido o exemplar preservado atualmente em Paris):