Gilberto Foliot (; ) foi um monge e prelado inglês da Idade Média que atuou como abade de Gloucester, bispo de Hereford e bispo de Londres. Nascido numa família de tradição eclesiástica, tornou-se monge na Abadia de Cluny, na França, aos vinte anos. Depois de passar pelas posições de prior da da ordem, foi nomeado abade na Abadia de Gloucester em 1139, uma promoção influenciada pelo seu parente Miles de Gloucester. Durante seu mandato como abade, adquiriu ainda mais terras para a abadia e pode ter ajudado a falsificar algumas escrituras — documentos que atestam a propriedade de terras — para tirar vantagem numa disputa com o arcebispo de Iorque. Embora Foliot tenha reconhecido Estêvão como rei da Inglaterra, é possível que ele também tenha tido simpatia pela reivindicação da imperatriz Matilde ao trono. Ele se juntou a ela depois da captura de Estêvão e continuou a escrever cartas apoiando a imperatriz depois que ele foi solto.
Foliot acompanhou Teobaldo de Bec, o arcebispo de Cantuária, para um concílio papal realizado em Reims em 1148. Neste período, foi nomeado para a Diocese de Hereford pelo papa Eugênio III. Apesar de uma promessa feita em Reims de não reconhecer Estêvão, Foliot, já de volta à Inglaterra, jurou fidelidade ao rei, o que provocou uma rixa temporária com Henrique de Anjou, filho de Matilde, que, em 1154, tornar-se-ia rei Henrique II da Inglaterra. Quando Teobaldo morreu, em 1160, todos acreditavam que ele seria substituído por Foliot, mas Henrique nomeou seu lorde chanceler, Thomas Beckett, ao invés deles. Foliot depois alegou ter sido contra a nomeação e apoiou Henrique na disputa contra o novo arcebispo. Foliot foi transladado para a Diocese de Londres em 1163, provavelmente um prêmio de consolação por ter perdido Cantuária.
Durante a grande disputa entre Becket e o rei, Foliot foi difamado por Becket e seus aliados. Ele atuava na época como enviado do rei em diversas missões diplomáticas relacionadas à disputa e escreveu diversas cartas contra Becket que circularam por toda a Europa. Becket excomungou Foliot duas vezes, a segunda resultando em seu próprio martírio. Por um breve período depois da morte da Becket, o papa manteve a excomunhão, mas Foliot foi rapidamente absolvido e recebeu permissão para reassumir suas funções episcopais. Além de seu papel na controvérsia de Becket, Foliot também atuou como juíz real, era um hábil administrador e escreveu muitas obras, que, juntamente com suas correspondências, foram publicadas depois de sua morte.
Primeiros anos Foliot era provavelmente filho de Robert Foliot — steward de David, conde de Huntingdon (earl), herdeiro do trono da Escócia — com sua esposa Agnes, irmã de Roberto de Chesney, bispo de Lincoln. Seja como for, Gilberto era certamente sobrinho deste Roberto.Greenway Fasti Ecclesiae Anglicanae 1066–1300: Volume 3: Lincoln: Bishops Outro tio, Reginaldo, era monge na Abadia de Gloucester e abade da Abadia de Evesham.Knowles, et al. Heads of Religious Houses p. 47 Entre outros membros do clero em sua família estão Roberto Foliot, um bispo de Hereford posterior, talvez oriundo de um ramo da família em Oxford, e dois bispos de Londres anteriores a ele, Ricardo de Beaumis, o Velho, e Ricardo de Beaumis, o Moço.Brooke "Foliot, Gilbert" Oxford Dictionary of National Biography Gilberto também fez referências a Ricardo de Ilchester, que foi bispo de Winchester depois, como parente, mas a relação exata entre eles é desconhecida.Knowles Episcopal Colleagues p. 38 Guilherme de Chesney, um proeminente partidário do rei Estêvão em OxfordshireCrouch Reign of King Stephen pp. 222–223 era outro tioKing "Anarchy" Transactions of the Royal Historical Society p. 153 e Miles de Gloucester, conde de Hereford (earl), um primo.Crouch Reign of King Stephen p. 302 Por volta de 1145, Foliot interveio para soltar um cavaleiro que estava preso e de quem era parente, confusamente conhecido também como Rogério Foliot, mas cuja relação precisa também não é conhecida.Stacy "Henry of Blois" English Historical Review p. 24
Nascido por volta de 1110,Knowles Monastic Order pp. 293–297 Foliot tornou-se monge em ClunyKnowles, et al. Heads of Religious Houses p. 53 cerca de vinte anos depois. Foi prior na Abadia de Cluny e depois na Abadia de Abbeville, uma casa cluníaca.Barrow Fasti Ecclesiae Anglicanae 1066–1300: Volume 8: Hereford: Bishops Há indícios que ele teria estudado direito em BolonhaTurner "Roman Law" Journal of British Studies p. 9 e é possível que tenha sido aluno de Robert Pullen um teólogo inglês, em Oxford ou Exeter,Barlow English Church 1066–1154 p. 247 & footnote 169 provavelmente de exegese bíblica.Taliadoros "Law & Theology" Haskins Society Journal 16 p. 79 Ele conhecia também retórica e as artes liberais. Os nomes de dois de seus primeiros professores são conhecidos, mas nada mais se sabe sobre eles.
Foliot esteve presente ao Segundo Concílio de Latrão convocado pelo papa Inocêncio II. As sessões se iniciaram em 4 de abril de 1139 e lá, entre outros temas, foi ouvido um apelo da imperatriz Matilde sobre sua reivindicação ao trono da Inglaterra. Matilde era filha e única herdeira legítima do rei Henrique I, mas, depois que seu pai morreu no final de 1135, o primo dela, Estêvão, filho da irmã de Henrique, tomou-lhe a coroa. Já em 1139, Matilde conseguiu arregimentar bastante apoio e passou a contestar o direito de Estêvão ao trono.Huscroft Ruling England pp. 71–73
Por volta de 1143, Foliot escreveu um relato dos procedimentos do concílio numa carta para um dos aliados de Matilde. Nada foi decidido sobre a reivindicação e nenhuma conclusão se chegou sobre a validade dele. O papado continuou a aceitar Estêvão como rei e o papa ordenou que a Igreja da Inglaterra nada fizesse para alterar o status quo.Chibnall Empress Matilda pp. 75–76 De acordo com a carta de Foliot, as deliberações se concentraram na legitimidade do casamento dos pais de Matilde. A mãe dela, Edite-Matilde, havia sido educada num convento e havia alguma incerteza sobre se ela já teria ou não professado seus votos antes do casamento com Henrique I. Na época do concílio, a questão provocava preocupações, mas a maioria finalmente se convenceu que o casamento era válido por ter a cerimônia sido celebrada por Anselmo de Cantuária. Foliot parece ter tido dúvidas em 1139, mas, antes de escrever sua carta em 1143, já havia concluído que Matilde era de fato a herdeira legítima e passou a apoiar a causa angevina, o nome pelo qual ficou conhecida a reivindicação de Matilde.Matthew King Stephen pp. 88–89
Abade
Em 1139, Foliot foi eleito abade de Gloucester, com a benção do bispo diocesano em 18 de junho de 1139. A causa da nomeação teve o apoio de um parente de Foliot, Miles de Gloucester, que era, na época, conde de Hereford.Knowles Monastic Order pp. 284–286 Foliot era bem relacionado na corte, pois era provavelmente filho de um steward de David I da Escócia antes de ele ter sido coroado. David, por sua vez, era tio tanto da imperatriz quanto da esposa de Estêvão. Depois de sua elevação a abade, Foliot reconheceu Estêvão como rei, mesmo tendo até então apoiado Matilde.
Estêvão foi capturado pelas forças de Matilde em 2 de fevereiro de 1141Chibnall Empress Matilda p. 95 e ela convocou um concílio em Westminster para angariar apoio para assumir finalmente o trono. Foliot esteve presente e foi dos mais fervorosos apoiadores da causa angevina nos meses seguintes.Chibnall Empress Matilda pp. 97–99
Foi nesta época como abade que Foliot escreveu sua resposta a Brien FitzCount, um dos mais antigos aliados de Matilde, discutindo as deliberações do Segundo Concílio de Latrão sobre a causa da imperatriz. FitzCount, numa carta perdida, apresentou suas razões para apoiar Matilde e a resposta de Foliot proôes uma defesa à causa de Matilde.Chibnall Empress Matilda pp. 84–87 Foliot também escreveu que Estêvão havia "desonrado o episcopado" com seu comportamento em 1139,Quoted in Crouch Reign of King Stephen p. 101 quando o rei prendeu Rogério de Salisbury, o bispo de Salisbury, e o sobrinho dele, Alexandre, que era bispo de Lincoln, além de tentar prender outro dos sobrinhos de Rogério, Nigel, bispo de Ely. Depois da prisão, Estêvão forçou os bispos a entregarem seus castelos e seus cargos seculares.Crouch Reign of King Stephen pp. 93–101 A maioria dos historiadores entendem que a carta de Foliot defende firmemente a causa de Matilde, embora um dos biógrafos recentes de Estêvão, Donald Matthew, alegue que o apoio de Foliot era "morno" na melhor das hipóteses, motivado principalmente por causa da localização de sua abadia, que ficava numa das fortalezas de Matilde. Matthew lembra que a Abadia de Gloucester não devia nenhum serviço militar como imposto feudal, o que permitia que Foliot não fosse obrigado a escolher um dos lados de forma irrevogável. Ele também lembra que, depois de 1141, Foliot assinou apenas uma das escrituras de Matilde.Matthew King Stephen p. 122 Foliot, por outro lado, avaliou a defesa dos direitos de Matilde feita por Roberto de Gloucester e a reforçou com seus próprios argumentos. Roberto argumentou que a Bíblia apoiava a sucessão feminina e citou Números 36, que permitia que mulheres recebessem heranças, mas proibia que elas se casassem fora de suas tribos. Em sua resposta, Foliot alegou que Roberto havia na realidade citado Números 27, que não fazia restrições ao casamento de herdeiras.Crouch Reign of King Stephen p. 124
Durante seu mandato como abade, Foliot iniciou uma amizade com Elredo de Rievaulx, um escritor e, futuramente, santo,Knowles Monastic Order p. 263 que dedicou-lhe um livro de sermões. Outro amigo e aliado desta época foi Teobaldo de Bec, o arcebispo de Cantuária, que, durante o reinado de Estêvão, tentou reunir a Igreja da Inglaterra sob seu comando. Foliot ajudou Teobaldo como ponto de ligação entre o arcebispo e o partido de Matilde.
Foliot se interessou pelo mosteiro da Abadia de Cerne, em Dorset, que, em 1145, recebeu o prior da Abadia de Gloucester, Bernardo, como abade.Knowles, et al. Heads of Religious Houses p. 37 Um reformador ativo, Bernardo recebeu o apoio de Foliot, mas os monges de sua nova abadia resistiram e o expulsaram do mosteiro.Matthew King Stephen p. 121 Os dois lados apelaram ao papa, que deu razão ao abade. Embora Matilde tenha escrito para Foliot e intercedido em nome dos monges, Foliot lembrou que não lhe era possível desobedecer uma ordem do papa.Chibnall Empress Matilda pp. 140–141
Ainda enquanto abade, Foliot supervisionou a aquisição de um priorado dependente na cidade de Hereford para o mosteiro. A maior parte dos edifícios da abadia são anteriores ao mandato de Foliot e não há evidências sólidas de que ele tenha construído qualquer um deles. Uma disputa que se arrastou entre Gloucester e a Arquidiocese de Iorque sobre algumas mansões foi finalmente resolvida na época em favor de Gloucester. A vitória, porém, só se deu pela utilização de escrituras falsas que Foliot pode ter ajudado a forjar, uma prática comum entre os mosteiros da época Foliot também entrou em conflito com um bipo galês Uhtred, bispo de Llandaff, sobre o Priorado de Goldcliff e uma igreja em LlancarfanDavies Book of Llandaf p. 55 cobrança de dízimos e a construção de novas capelas sem autorização da abadia.Davies Book of Llandaf p. 107
Bispo de Hereford