thumb|Povos indígenas brasileiros A culinária indígena no Brasil é fruto de uma mistura de ingredientes de mais de duzentas etnias indígenas oficialmente reconhecidas no Brasil.
Os povos indígenas passam por modificações nos costumes alimentares nativos em sua contínua resistência contra a ocidentalização de seus hábitos alimentares. São transformações nutricionais que levam ao empobrecimento da dieta, crescimento da ingestão de gorduras e açúcares e simplificação da diversidade alimentar. Por consequência, a quantidade de vitaminas e minerais ingeridos pelos indígenas brasileiros tem diminuído significativamente.
Identificam-se atualmente carências nutricionais, quadro de desnutrição, anemia, sobrepeso e a obesidade entre eles.
Contraditoriamente, a culinária do Brasil é resultante da mistura de sabores das culinárias ameríndia, europeia, africana, oriental e, ainda que pouco valorizada e ofuscada pela cultura alimentar trazida pelos imigrantes, a dieta indígena está passando por um processo de ocidentalização.
Hábitos alimentares indígenas De acordo com o escritor paraense Abguar Bastos, podemos dividir os alimentos consumidos pelos índios em seis categorias: mágicos, de resguardo, interditos, compensatórios, privativos e sagrados. As explicações abaixo foram todas baseadas no livro A pantofagia ou as estranhas práticas alimentares na selva, de Bastos.
Alimentos indígenas mágicos São aqueles reservados para os espíritos. Em diferentes aldeias, o pajé separa uma parte do alimento que está sendo preparado e a deposita em um determinado local, a fim de que os espíritos também se alimentem daquela comida. Essa porção de alimentos para os espíritos é de partes específicas de uma caça, por exemplo.
Também são considerados, por Abguar Bastos, mágicos os alimentos que os índios consomem a fim de obterem algo, os Kraó, por exemplo, ingerem infusões de certos vegetais antes de saírem para caçar, e a escolha do vegetal depende da espécie de animal que desejam obter.
Alimentos indígenas de resguardo São os que devem ou não ser consumidos durante um determinado período, em que há um rito de passagem. Ritos de passagem são cerimônias que determinam a passagem de um estado social de um grupo ou pessoa para outro, como funeral, nascimentos, matrimônios, gestação.
Os índios acreditam que o consumo de alimentos em um período inapropriado pode trazer graves consequências para a pessoa que os ingeriu e/ou para seus familiares. Entre os índios Bororo, que vivem no Mato Grosso, por exemplo, as mulheres, após darem à luz, não comem carne de tatu ou de tartaruga, pois acreditam que esses alimentos tornam seus bebês raquíticos, e os pais devem ficar de três a cinco dias após o parto sem comer ou beber água fresca. No Maranhão, as índias Urubu-Kaapor que estão próximas de terem a menarca tomam sopa de aipim e podem comer apenas tartaruga branca, os peixes mandi e aracu e chibé, que é uma farinha seca diluída em água. Entre os índios Tupinambá, quando nascia um bebê, o pai ficava proibido de comer carne, peixe ou sal durante três dias, alimentando-se apenas de uma espécie de farinha nesse período.
Alimentos indígenas interditos São os alimentos proibidos de serem ingeridos por toda uma comunidade indígena. No sul do Brasil há os índios Kaingang, que, assim como os Rikbaktsa, do norte do Mato Grosso, não comem tamanduás. Para os Kaingang foi o tamanduá quem ensinou a eles cantos e danças e, por isso, devem gratidão a esse animal. Os índios Xirin, do Pará, não comem o jaú (peixe); os Karajá, do Tocantins, não comem tatu; os Tapirapé, do Mato Grosso, não comem bicho-preguiça. De uma maneira geral, o que impede uma comunidade indígena de consumir a carne de determinado animal são as lendas que contam que determinado ser já foi um humano em tempos remotos, por exemplo.
Alimentos indígenas compensatórios São aqueles que os índios recebem como recompensa antes ou após uma tarefa árdua, como a caça ou a construção. Os índios Bakairi têm o hábito de pedir e ganhar alimentos de toda a aldeia antes e depois de saírem para caçar. No grupo Krahò, localizado no Tocantins, cada homem oferece para uma mulher, que não seja esposa, um alimento que encontrou na mata, e, em retribuição, essa mulher oferece uma comida por ela preparada. Dessa forma, a amizade entre as famílias é constantemente fortalecida.
Alimentos indígenas privativos Alguns alimentos podem ser consumidos exclusivamente por determinados indivíduos ou grupos. No Mato Grosso, entre os índios Suyá, apenas os homens podem comer os miúdos da anta. Entre os Erigpagtsá, somente os homens podem comer a cabeça de macacos e de porcos-do-mato.
Alimentos indígenas sagrados Os alimentos que são influenciados espiritualmente antes do consumo, Abguar Bastos define como sagrados. Kariana é um rito de passagem feminino relativo à puberdade, nele o beiju com molho de pimenta, o peixe cozido e a cabeça de peixe a serem consumidos pelas meninas são benzidos e defumados pelos pajés. O leite materno dos índios Wanana, habitantes da parte noroeste da Amazônia, também é benzido por pajés para ser oferecido para as crianças durante o batismo. Entre os índios Marubo, no sudoeste do Amazonas, quando alguém do grupo está doente, os pajés cantam sobre um pote de mingau, que será oferecido ao enfermo. Esse canto é considerado sagrado e capaz de curar doenças. A mesma situação pode ser observada entre os índios Baniwa, do norte do Amazonas.
Costumes alimentares e receitas indígenas Existem, atualmente, mais de duzentos povos indígenas conhecidos no território brasileiro. Cada um com seus hábitos alimentares, preferências gastronômicas e alimentos que não conseguem ingerir. Iguarias para alguns são alimentos repulsivos para outros.
Das larvas e insetos vivos Aos povos da Amazônia, como em partes da África e da Ásia, há comidas que não se encontram tipicamente nas culinárias de povos de descendência europeia ou africana. Porém, isso não significa selvageria, falta de civilização ou falta de higiene.
As larvas e lagartas são, por isso mesmo, amplamente provisionadas como alimento, não só entre os índios, como entre as populações rurais. Nas regiões altas, as larvas do gorgulho dos buritizeiros eram muito apreciadas (Martius). Muito requisitadas por outros grupos humanos eram as larvas de um inseto que contaminava as frutas da palmeira uauaçu (Attalaya espertabilis Mart.).
Cabe aqui uma referência pitoresca. Entre os Atché do rio Uruguai, a larva chamada "coró" constitui, para quem a encontra minando algum pau podre, verdadeiro tesouro, de vez que, só por esse fato, a mulher de outro poderá largá-lo para viver com o felizardo que descobriu uma nova fonte de coró.
As larvas de besouros colhidos em paus ocos são fritas na própria gordura, quando não comidas cruas thumb|Gafanhoto
Dos anopluros (Piolhos) Parasitas também fazem parte de algumas dietas indígenas;. De acordo com Abguar Bastos os viajantes não indígenas, com suas diferenças culturais, ficavam estupefatos ao verem as mulheres aborígenes mastigarem piolhos, escrevendo: "[...] os cabelos [...] muito maltratados e cheios de piolhos, que mutuamente se catam, com uma faca da ponta, trincando-os, depois, nos dentes, como vimos".
Os Crichaná, segundo Barbosa Rodrigues, consideram essa prática "vulgar": "O costume de comer bichos de cabeça é vulgar entre eles, como em muitas outras tribos da região amazônica".
Diz Stradelli que o piolho do indígena (Kiyua-rana) é diferente do que infesta a cabeça dos brancos. São mais gordos e munidos de palpos "com que se seguram".
É possível que os índios observassem o comportamento de certos pássaros e os imitassem quanto ao aproveitamento de anopluros, como o carrapato.
A origem dos piolhos estaria no velho Krã-Kamdjuáre (mito kaiapó), que mandava as moças catá-los e, como tinha dentes na cabeça, mordia-lhes os dedos e chupava o sangue e as matava, pois era antropófago. Um dia conseguiram matá-lo, mas ficaram os piolhos como praga para atormentar os mortais. O costume de consumir piolhos não se encontra somente entre povos indígenas brasileiros, mas também em outros povos: "As mulheres de Java, diz Bristowe, catam a cabeça das amigas, trincando os piolhos com os dentes".
Das lagartas e insetos expostos ao fogo Segundo o relato de Bastos, não somente as larvas miúdas, de frutas ou não, eram procuradas como alimento. As maiores (lagartas) tinham, igualmente, grande aceitação: "Larvas e lagartas só os vi comer de determinadas espécies, que possivelmente vêm das grandes castanheiras. Cozinhavam-nas em pratos compostos, misturados com cará e castanha da Amazônia (Bertholletia excelsa) ralada. Às vezes juntavam bananas maduras e carne de aves".
O mesmo autor refere-se aos Erigpagtsá (Canoeiros), índios que habitam o alto Juruena, em Mato Grosso. Sobre os pratos com variadas misturas, o autor volta a falar: "Preparavam-nos, juntando farinha de mandioca, castanhas raladas, batata doce ou cará cozido e pilado, misturando com grande punhado de lagartas (de borboleta) de castanheira que os homens traziam da mata, embrulhadas em folhas verdes. Era um prato muito apreciado. Estas lagartas estavam presas numa teia de fios finos como seda, da qual tinham de ser retiradas. Lavavam as lagartas e juntavam, quando os outros ingredientes já estavam quase cozidos".
Como vemos, as lagartas consumidas eram colhidas em seu estado de crisálida e, quanto ao seu sabor, só os Erigpagtsá saberiam explicar, porquanto as ditas lagartas também eram misturadas ao inambu-galinha cozido, pelo que pareciam entrar nos alimentos como condimento especial.
Não se diga, no caso dos Canoeiros, que havia falta de outros alimentos. Tinham, além da caça e da pesca, grande variedade de vegetais: castanhas, bananas, cará, abóbora, feijão, mandioca, milho, de vez que exercitavam a agricultura. De onde se conclui que as larvas deviam representar um pitéu especial.
Entre os Tukano do rio Tiquiê, afluente do Uaupés, as lagartas também eram petisco bem festejado, como relata Bastos:
"Nas cabeceiras do rio Tiquié, Papuri e outros afluentes onde escasseiam os peixes, os índios alimentam-se também de lagartas, que aparecem de agosto a novembro nas árvores cumuri, da família das euforbiáceas. São lagartas de cor escura, com pontos brancos e do tamanho de um dedo. Para apanhá-las, limpam a mata embaixo da árvore, cobrem o chão com folhas de bananeira da mata, a modo de lençol, depois sacodem os galhos, fazendo-as cair em grande quantidade. Apanham-nas, torram-nas e guardam-nas em paneiros como a farinha de mandioca. Quando aparecem lagartas, os índios largam os trabalhos e lá vão famílias inteiras a cata desses bichos. Se as lagartas já se encerraram no casulo, ao redor dos galhos e na bifurcação dos mesmos, bem apinhadas, como os bichos da seda, os índios cortam os galhos e os levam, para comer as crisálidas torradas ou cruas. Vêm, então, homens, mulheres e crianças, cada qual com um galho na mão, a rasgar com as unhas os casulos e a comer as crisálidas com a maior avidez". Quanto às lagartas, há certas regras, como a de se lhes arrancar a cabeça e tirar os intestinos, sem o que pode resultar envenenamento.
thumb|Mangaba Das frutas e legumes De uma maneira geral, as hortaliças não fazem parte dos hábitos alimentares dos indígenas.