Dinastia Bagrationi () é uma dinastia real que governou a Geórgia da Idade Média até o início do e uma das mais antigas dinastias reais cristãs ainda existentes no mundoThe Curious Case of Ms. Orange, E.J. Edwards, p50Caucasus: The Paradise Lost, Piera Graffer, LoGisma, p85More moves on an Eastern chequerboard, Sir Harry Luke, p71Handbook for Travellers in Russia, Poland, and Finland, John Murray, p322The Chautauquan, Volume 22, Theodore L. Flood, Frank Chapin Bray, 1895, p698. Na terminologia moderna, a linhagem real é geralmente chamada de Bagrátidas georgianos (uma forma helenizada do nome dinástico).

A origem da dinastia Bagrationi é tema de muita disputa. A origem comum com a dinastia Bagratúnio de etnia armênia tem sido aceita por muitos estudiososToumanoff, Cyril, "Armenia and Georgia", in The Cambridge Medieval History, Cambridge, 1966, vol. IV, p. 609. Disponível online em . A família, na pessoa de , conseguiu o Principado da Ibéria no final do . Seus descendentes restauraram, em 888, a monarquia georgiana e reuniram vários estados nativos no Reino da Geórgia, que prosperou entre os séculos XI e XIII. Este período, principalmente os reinados de David IV e de sua bisneta, Tamara , é celebrado como uma "era de ouro" na história da Geórgia, com avanços militares e diversos marcos culturais importantesMontgomery-Massingberd, Hugh. "Burke’s Royal Families of the World: Volume II Africa & the Middle East, 1980, pp. 56-67 ISBN 0-85011-029-7.

Depois da fragmentação do Reino da Geórgia no final do , os ramos da dinastia Bagrationi reinaram os três reinos georgianos resultantes, o Reino de Cártlia, Reino da Caquécia e o Reino de Imerícia até a anexação russa no início do . Apesar do 3º artigo do Tratado de Georgievsk ter garantido a soberania da dinastia Bagrationi e a sua continuidade no trono, a coroa russa posteriormente violou o tratado e transformou o ato numa anexação ilegal. A dinastia persistiu dentro do Império Russo como uma família nobre até a Revolução de Fevereiro de 1917. A fundação da União Soviética e a criação da República Socialista Soviética da Geórgia em 1921 forçou alguns membros da família a aceitar um status inferior e a perda de propriedades na Geórgia enquanto outros fugiram para a Europa Ocidental, com alguns voltando para sua terra natal depois da independência da Geórgia em 1991.

Origens thumb|300px|Sinete de , um vassalo bizantino do que pode ser um dos antepassados dos Bagrationi

A dinastia Bagrationi reivindica ser a mais antiga dinastia real da Europa, embora o livro "Monarchs-in-Waiting", de Walter Curley, atribua esta honra a Casa Real da França assim como "Les Prétendants aux Trônes d'Europe", de Joseph Valynseele.

De acordo com a lenda familiar, escrita no pelo cronista georgiano Sumbat Davitis-DzeSumbat Davitis-Dze, The Life and Tale of the Bagratids (ცხოვრებაჲ და უწყებაჲ ბაგრატონიანთა ჩუენ ქართველთა მეფეთასა), see Suny (1994), p. 349; Rapp (2003), p. 337 e ampliada muito depois pelo príncipe Vacusti Bagrationi com informações cronológicas, os ancestrais da dinastia remontam ao bíblico rei e profeta David e sua origem é a Palestina por volta de 530. Conta a tradição que, de sete irmãos fugitivos da linhagem de David, três se assentaram na região da Armênia e quatro chegaram na Ibéria, onde se casaram com mulheres das casas reais locais e conseguiram terras por sucessão hereditária. Um dos quatro irmãos, Gurgenes (m. 532) teria supostamente dado origem a uma linhagem que depois seria chamada de "Bagrationi" em homenagem ao seu filho Bagrate.

Um sucessor, , foi instalado como príncipe presidente da Ibéria durante o período do protetorado bizantino, recebendo, na ocasião, o título de curopalata em 575Vacusti Bagrationi (c. 1745), History of the Kingdom of Georgia (აღწერა სამეფოსა საქართველოსი); um tradução para o russo está disponível em ArmenianHouse.org.. Assim, de acordo com esta versão, iniciou a dinastia dos Bagrátidas, que reinaram até 1801.

Esta tradição era amplamente aceita até o início do Suny (1994), 349. Apesar da origem judaica e a ascendência bíblica dos Bagrátidas já terem sido descartadas pelos estudos modernos, a origem da dinastia permanece controversa. Diversos historiadores soviéticos da Geórgia desenvolveram uma visão sumarizada por N. Berdzenishvili (et al) em seu livro-referência sobre a história da Geórgia:

A pesquisa de Cyril Toumanoff concluiu que os bagrátidas georgianos se separaram dos bagrátidas armênios na pessoa de , cujo pai, Vasaces, que era filho de , o príncipe presidente da Armênia entre 732 e 748, mudou-se para Ibéria depois de uma fracassada revolta contra o domínio árabe em 772. O filho de Adanarses, , tornou-se príncipe da Ibéria em 813 e fundou assim a última casa real da Geórgia. Ainda de acordo com esta tese, a leda de origem davídica dos bagrátidas georgianos seria uma expansão sobre uma reivindicação anterior defendida pelos bagrátidas armênios, como se pode comprovar na obra do autor armênio Moisés de CoreneToumanoff, C Iberia on the Eve of Bagratid Rule, p. 22, cited in: Suny (1994), p. 349. Uma vez que o ramo georgiano, que se aculturou rapidamente em seu novo ambienteRapp (2003), p. 169, assumiu o poder real, o mito de sua origem bíblica ajudou-os a consolidar sua legitimidade e emergiu como um importante pilar ideológico do domínio de mais de mil anos dos Bagrationi sobre a GeórgiaRapp (2003), p. 234.

Embora só se conheça a história de geração por geração dos Bagrationi com certeza apenas a partir do , Toumanoff defende que o primeiro ramo dos bagrátidas pode remontar até o , quando, segundo ele, os bagrátidas reinaram sobre um principado em Odzrkhe, no que é hoje o sul da GeórgiaToumanoff, C Studies in Christian Caucasian History, p. 316, cited in: Rapp (2003), p. 145. A linhagem de Odzrkhe, conhecida nos anais medievais como "Bivritianis", se extinguiu no e, segundo a maioria dos autores, não podem ser considerados ancestrais diretos dos bagrátidas, que só depois recuperariam a autoridade realRapp (2003), pp. 218, 249.

História Primeira dinastia thumb|300px|Tao-Clarjécia, o primeiro reino unificado da Geórgia

A família Bagrationi ganhou proeminência na época que a monarquia georgiana (Reino da Ibéria) foi conquistada pelo Império Sassânida no e as mais importantes famílias principescas da região se exauriram frente aos ataques dos persas. A ascensão de uma nova dinastia foi possibilitada pela extinção dos guarâmidas e a quase extinção dos cosroidasSuny (1994), p. 29 (as duas dinastias georgianas anteriores com cujos membros os bagrátidas se casaram extensivamente) e também pela preocupação dos abássidas com suas próprias guerras civis e com seu conflito com Império Bizantino. Embora o sultão árabe não lhes tenha permitido manter uma presença na antiga capital de Tiblíssi e na Ibéria Oriental, os bagrátidas conseguiram defender com sucesso seus domínios mais antigos em Clarjécia e Mesquécia e, como protetorado bizantino, estendeu suas posses para o sul em direção ao noroeste da Armênia para formar um grande estado conhecido na historiografia moderna como Tao-Clarjécia. Em 813, a nova dinastia conseguiu, na pessoa de Asócio I, o título hereditário de erismtavari ("príncipe presidente") da Ibéria, a quem depois o imperador bizantino acrescentou o título de curopalata.

Apesar da revitalização da monarquia, as terras georgianas permaneceram divididas entre autoridades rivais, com Tiblíssi ainda nas mãos de um emirado árabe. Os filhos e netos de Asócio I fundaram três ramos distintos — as linhagens de Ibéria, Tao e Clarjécia — frequentemente em guerra uma com a outra e com os vizinhos. A linha de Ibéria prevaleceu; em 888, com , se restabeleceu a autoridade real georgiana que estava dormente desde 580. Seu descendente, Pancrácio III conseguiu consolidar sua herança em Tao-Clarjécia e o Reino da Abecásia, principalmente por meios diplomáticos e pelas conquistas de seu padrasto David III de Tao.

Era de Ouro

thumb|esquerda|130px|Rainha Tamara, a Grande , que reinou no auge do poder dos Bagrationi

Esta monarquia unificada manteve sua precária independência dos bizantinos e dos turcos seljúcidas durante todo o e floresceu no reinado de David IV, o Construtor , que repeliu os ataques seljúcidas e essencialmente completou a unificação da Geórgia com a reconquista de Tblisi em 1122. Com o declínio do poder bizantino e a dissolução do Império Seljúcida, a Geórgia tornou-se uma das mais importantes nações do oriente cristão, com seu império caucasiano se estendendo, no ápice de sua expansão, do norte do Cáucaso até o norte do Irã e, para o oeste, até a Ásia Menor.

Apesar de repetidos incidentes de brigas dinásticas, o reino continuou a prosperar durante os reinados de Demétrio I , Jorge III e especialmente a filha dele, Tamara, a Grande . Com a morte de Jorge III, a principal linha patrilinear se extinguiu e a dinastia continuou através do casamento da rainha Tamara com o príncipe alano David Soslan, a quem se reputava uma ascendência bagrátida.

Declínio thumb|300px|Fragmentação do Reino da Geórgia depois de 1490

As invasões do Império Corásmio em 1225 e dos mongóis em 1236 encerraram a era de ouro georgiana. A luta contra o jugo mongol criaram uma diarquia, com um ambicioso ramo lateral da dinastia Bagrationi estendendo seu domínio sobre a Geórgia ocidental (Imerícia). Houve um breve período de reunião e renascimento cultural no reinado de Jorge V, o Brilhante (r. 1299–1302 e 1314–1316), mas as oito devastadores invasões do conquistador turco-mongol Tamerlão entre 1386 e 1403 infligiram um severo golpe ao reino georgiano. Por volta de um século depois, sua união foi finalmente estilhaçada pelas agressivas federações turcas baseadas na Pérsia, Confederação do Cordeiro Negro e Confederação do Cordeiro Branco. Já em 1490/1, a antes poderosa monarquia se fragmentou em três reinos independentes — Cártlia (do centro para o leste da Geórgia), Caquécia (Geórgia oriental) e Imerícia (Geórgia ocidental) — cada um liderado por um ramo rival da dinastia Bagrationi, e em cinco principados semi-independentes — Odishi, Mingrélia, Gúria, Abecásia, Suanécia e Mesquécia — dominados por clãs feudais locais.

Durante os três séculos subsequentes, os monarcas georgianos mantiveram sua frágil autonomia como súditos dos turcos otomanos e dos persas safávidas, afexáridas e cajáridas, embora muitas vezes não passassem de marionetes nos jogos de seus poderosos suseranos.

A linha de Imerícia, incessantemente envolvida em guerras civis, continuou com muitas quebras na sucessão e o reino foi apenas relativamente poupado das intrusões de seus suseranos otomanos, ao passo que Cártlia e Caquécia sofreram muitas invasões diretas de seus senhores persas, cujos esforços para aniquilar os seus divididos reinos vassalos foram em vão; os dois reinos, embora tendo ocasionalmente perdido sua independência completa no decurso de suas histórias, sobreviveram para serem reunificados em 1762 sob o rei Heráclio II (Erekle), que uniu em sua pessoa tanto a linha de Cártlia quanto de Caquécia.

Últimos monarcas Tendo conquistado a independência de facto da Pérsia, Heráclio II conseguiu alguma estabilidade em seu país, consolidando sua hegemonia política na Transcaucásia oriental. No Tratado de Georgievsk, de 1783, Heráclio colocou seu reino sob a proteção do Império Russo, que não conseguiu, porém, fornecer uma ajuda adequada quando o governante persa Aga Maomé Cã Cajar saqueou e destruiu Tiblíssi em 1795 para tentar forçar os georgianos a abandonarem sua aliança com os russos.