Comércio de escravos no Atlântico ou comércio transatlântico de escravos, também chamado de tráfico negreiro, caracterizou-se por negociar seres humanos como mercadoria e ocorreu em todo o Oceano Atlântico entre os séculos XVI e XIX. A grande maioria dos escravos que foram levados para o Novo Mundo — a maior parte pela rota de Comércio Triangular —, eram membros de povos da África Ocidental, nas partes central e ocidental do continente, vendidos por outros africanos ocidentais para os comerciantes de escravos da Europa Ocidental ou capturados diretamente pelos europeus.
O número de pessoas trazidas foi tão grande que, antes do final do , os africanos que vieram por meio do comércio de escravos tornaram-se os mais numerosos membros oriundos do Velho Mundo tanto no Norte quanto no Sul da América. Uma quantidade muito maior de escravos foi levada para a América do Sul em relação ao norte. O sistema econômico do Atlântico Sul era centrado na produção de culturas de commodities e produtos têxteis para vender na Europa. Aumentar o número de escravos africanos trazidos para o Novo Mundo foi crucial para os países da Europa Ocidental que, nos séculos XVII e XVIII disputavam entre si a criação de impérios ultramarinos.
Estima-se que 15% dos africanos morreram no mar, com taxa de mortalidade consideravelmente maior na própria África no processo de captura e transporte de povos indígenas para os navios.Mancke, Elizabeth e Shammas, Carole. The Creation of the British Atlantic World, 2005, pp. 30–31. O número total de mortes africanas diretamente atribuíveis à viagens do período chamado de "Passagem Média" é estimado em até dois milhões; um olhar mais amplo em africanos mortos diretamente atribuíveis à instituição da escravidão entre 1500 e 1900 sugere até quatro milhões de mortes de africanos.Rosenbaum, Alan S., and Israel W. Charny, Is the Holocaust Unique?, 2001, pp. 98–99. Por duzentos anos, 1440-1640, traficantes de escravos portugueses tiveram um quase monopólio sobre a exportação de escravos da África. Durante o , quando o tráfico de escravos transportou cerca de 6 milhões de africanos, os traficantes britânicos carregaram quase 2,5 milhões.About.com: O comércio de escravos transatlânticos O comércio de escravos é às vezes chamado de Maafa por estudiosos afro-americanos, o que significa "grande desastre" em suaíli. Outros, como Marimba Ani e Maulana Karenga, usam os termos Holocausto Africano ou Holocausto da Escravidão para se referir ao período.
O Império Português foi o primeiro a se engajar no comércio de escravos para o Novo Mundo no e outros logo o seguiram.História da colonização - África (Séc. XVII-XX) Os donos dos navios negreiros consideravam os escravos como uma carga que deveria ser transportada para a América da maneira mais rápida e barata possível, para então serem vendidos para o trabalho escravo em lavouras de café, tabaco, cacau, açúcar e algodão, nas minas de ouro e prata, campos de arroz, de indústria de construção, corte de madeira e como empregados domésticos. Os primeiros africanos importados para as colônias inglesas eram classificados como "servos contratados" e também como "aprendizes para toda a vida". Em meados do , a escravidão tinha se consolidado como uma casta racial; os escravos negros e seus descendentes eram oficialmente uma propriedade de seus proprietários e as crianças nascidas de mães escravas também eram consideradas escravas. Enquanto uma propriedade, as pessoas eram consideradas um tipo de mercadoria ou unidades de trabalho e eram vendidas em mercados populares, ao lado de outros produtos e serviços. Os principais comerciantes de escravos do Atlântico, ordenados por volume de comércio, foram: os impérios Português, Britânico, Francês, Espanhol e Neerlandês, além dos Estados Unidos (especialmente a região sul). Eles estabeleceram postos avançados na costa africana onde adquiriram escravos de líderes africanos locais.Klein, Herbert S. and Jacob Klein. The Atlantic Slave Trade. Cambridge University Press, 1999, pp. 103–139. As estimativas atuais são de que aproximadamente 12 milhões de africanos foram enviados através do Atlântico,Ronald Segal, The Black Diaspora: Five Centuries of the Black Experience Outside Africa (New York: Farrar, Straus and Giroux, 1995), ISBN 0-374-11396-3, p. 4. "It is now estimated that 11,863,000 slaves were shipped across the Atlantic." (Original: Paul E. Lovejoy, "The Impact of the Atlantic Slave Trade on Africa: A Review of the Literature", in Journal of African History 30 (1989), p. 368.) embora o número de pessoas compradas pelos comerciantes de escravos seja consideravelmente maior.Eltis, David and Richardson, David, "The Numbers Game". In: Northrup, David: The Atlantic Slave Trade, 2nd edn, Houghton Mifflin Co., 2002, p. 95.Basil Davidson. The African Slave Trade.
Períodos miniatura|upright=1.3|Diagrama de um navio negreiro britânico (1822) upright=1.3|miniatura|Maquete do interior de um navio negreiro A escravidão passou a ser justificada por razões morais e religiosas. Ela é baseada na crença da suposta superioridade racial e cultural dos europeus. O tráfico de escravos africanos se dividiu em quatro fases:
Ciclo da Guiné (); Ciclo de Angola (): traficou congos, ambundos, benguelas e ovambos; Ciclo da Costa da Mina, hoje chamado Ciclo de Benim e Daomé (- 1815): traficou iorubás, jejes, minas, hauçás, nupés e bornus; período de tráfico ilegal, reprimido pela Inglaterra (1815-1851).BUENO, E. Brasil: uma história. 2ª edição revista. São Paulo. Ática. 2003. pp. 112-116.
+ Distribuição dos escravos africanos (1519–1867)Stephen D. Behrendt, David Richardson, and David Eltis, W. E. B. Du Bois Institute for African and African-American Research, Universidade Harvard. Based on "records for 27,233 voyages that set out to obtain slaves for the Americas". Destino PorcentagemAmérica Portuguesa38,5%América Britânica (exceto a América do Norte)18,4%América Espanhola17,5%América Francesa13,6%América do Norte Britânica6,45%América Inglesa3,25%Antilhas Neerlandesas2,0%Índias Ocidentais Dinamarquesas0,3% O número de africanos que desembarcou em cada área pode ser calculado levando-se em consideração que o total de escravos foi próximo de 10 milhões.Curtin, The Atlantic Slave Trade, 1972, p. 88.
Regiões
África miniatura|esquerda|upright=1.3|Principais regiões de comércio de escravos na África entre os séculos XV e XIX A escravidão foi praticada em algumas regiões de África, Europa, Ásia e AméricaHistorical survey > Slave societies Britannica. durante muitos séculos antes do início do comércio de escravos pelo Atlântico. Há evidências de que havia escravização de pessoas de alguns Estados africanos e que elas eram exportadas para outros Estados de África, Europa e Ásia, antes do início da colonização europeia da América.Ferro, Mark (1997). Colonization: A Global History. Routledge, p. 221, ISBN 978-0-415-14007-2. O comércio de escravos africanos forneceu um grande número de escravos para os europeus e muitos mais para países muçulmanos.Adu Boahen, Topics In West African History, p. 110.Kwaku Person-Lynn, African Involvement In Atlantic Slave Trade.
O comércio de escravos no Atlântico não foi o único comércio de escravos da África, embora tenha sido o maior em volume e intensidade. Como Elikia M'Bokolo escreveu no Le Monde diplomatique: "O continente africano foi sangrado dos seus recursos humanos através de todas as rotas possíveis. Do outro lado do Saara, através do Mar Vermelho, a partir dos portos do Oceano Índico e do outro lado do Atlântico. Pelo menos dez séculos de escravidão para o benefício dos países muçulmanos (do nono para o décimo nono) .... Quatro milhões de pessoas escravizadas exportadas através do Mar Vermelho, outra de quatro milhões através dos portos suaíli do Oceano Índico, talvez até nove milhões ao longo da rota de caravanas transaarianas e de onze a vinte milhões de negros (dependendo do autor) através do Oceano Atlântico."Elikia M’bokolo, "The impact of the slave trade on Africa", Le Monde diplomatique, 2 de abril de 1998.
De acordo com John K. Thornton, os europeus geralmente compravam pessoas escravizadas que eram capturadas em guerras endêmicas entre os Estados africanos.Thornton, p. 112. Alguns africanos negociavam outros africanos capturados de grupos étnicos vizinhos ou prisioneiros de guerra e vendia-os para os europeus.Thornton, p. 310. Um lembrete desta prática é documentado em Slave Trade Debates of England no início do : "Todos os antigos escritores ... concordam em afirmar não só que as guerras são celebradas com o único propósito de fazer escravos, mas que eles são fomentadas pelos europeus, com vista a esse objetivo".Slave Trade Debates 1806, Colonial History Series, Dawsons of Pall Mall, Londres 1968, pp. 203-204. Os povos que viviam em torno do rio Níger foram transportados a partir desses mercados para o litoral e vendidos em portos comerciais europeus em troca de mosquetes e de produtos manufaturados, como roupas ou álcool.Thornton, p. 45. No entanto, a demanda europeia por escravos proporcionou um grande e novo mercado para o comércio já existente. Enquanto aqueles mantidos em escravidão em sua própria região da África podiam tentar escapar, aqueles enviados para fora tinham pouca chance de voltar para a sua terra natal.Thornton, p. 94.
América
O uso de mão de obra africana no Caribe e no sul das colônias inglesas da América do Norte formou uma grande rede empresarial que comprava escravos já apresados no litoral de Angola e Guiné, trazendo-os para a América. O tráfico de escravos causou verdadeira sangria na África: alimentou guerras internas, abalou organizações tradicionais, destruiu reinos, tribos e clãs e matou criminosamente milhões de negros.
Os primeiros escravos negros chegaram ao Brasil entre 1539 e 1542, na Capitania de Pernambuco, primeira parte da colônia onde a cultura canavieira desenvolveu-se efetivamente. Foi uma tentativa de solução à "falta de braços para a lavoura", como se dizia então. Os principais portos de desembarque de cativos africanos foram, entre os séculos XVI e XVII, os do Recife e de Salvador, e entre os séculos XVIII e XIX, os do Rio de Janeiro e de Salvador — de onde uma parte seguiu para as Minas Gerais e para as plantações de café do Vale do Paraíba. A distância entre os portos de embarque (na África) e desembarque (no Brasil) era um fator determinante.
Na América do Sul, o tráfico foi muito intenso, principalmente na América portuguesa. Os portugueses já usavam o negro como escravo antes da colonização do Brasil, nas ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde. Para Portugal continental deixou de haver tráfico de escravos com a proibição de recurso a escravos neste território pelo Marquês de Pombal em 1761. O tráfico para o Brasil, embora ilegal a partir de 1830, somente cessou em torno de 1850, após a aprovação de uma lei de autoria de Eusébio de Queirós, depois de intensa pressão do governo britânico, interessado no desenvolvimento do trabalho livre para a ampliação do mercado consumidor. Note-se que no Brasil os britânicos pagavam menos impostos de comércio que os próprios locais e chegaram até a ter um sistema judicial paralelo. Exportar bens britânicos para o Brasil era mais lucrativo que investir no negócio da escravatura.
Viagem
miniatura|esquerda|Diagrama de um navio negreiro do tráfico de escravos do Atlântico. (De um resumo da evidência entregue antes de um comitê seleto da Câmara dos Comuns em 1790 e 1791.)
A duração da viagem transatlântica variou amplamente, de um a seis meses, dependendo das condições climáticas. A jornada tornou-se mais eficiente ao longo dos séculos; enquanto uma viagem transatlântica média do início do durou vários meses, no final do , a travessia exigia menos de seis semanas.Eltis, David. The Rise of African Slavery in the Americas, 2000, pp. 156–157.