Nils Christie (Oslo, 24 de fevereiro de 1928; 27 de maio de 2015.) é um sociólogo e criminologo norueguês, professor emérito de Criminologia na Faculdade de Direito da Universidade de Oslo. É autor de mais de 30 livros relacionados à criminologia e sociologia. Os principais temas abordados pelo autor referem-se ao conceito de crime e ao controle de criminalidade, tendo uma perspectiva de análise social: para entendermos o crime, devemos compreender a sociedade como um todo e vice-versa. Nessas obras, também aborda temas como educação, controle de drogas e comunidades alternativas. No final de sua vida, se manteve ativo profissionalmente como um intelectual público, provedor de pesquisa e participante ativo de debates.

Vida Nascido em Oslo, capital da Noruega, filho de Ragnvald Christie (1895-1957) e Ruth Hellum (1900-87), Christie graduou-se em Berg Gymnas, na sua cidade de origem, em 1946. Tornou-se magistério de sociologia em 1953 e tornou-se doctor philos em 1960. Tornou-se o primeiro professor de Criminologia da Noruega, sendo nomeado no ano de 1966.http://www.jus.uio.no/ikrs/english/people/aca/christie Durante seu tempo como professor, foi diretor do Departamento de Criminologia e Sociologia do Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Oslo. É membro da Academia de Ciências e Letras da Noruega e ganhou o prêmio Fritt Ord de Liberdade de Expressão pelas suas contribuições originais e independentes ao debate social e internacional norueguês. Christie é Doutor pelas Universidades de Sheffield e Copenhagen e membro da Academia Norueguesa de Ciências e Letras. É professor convidado em diversas universidades, como em Berkeley, Jerusalém e Oxford. Nils Christie recebeu um diploma de honra na Universidade de Copenhagen.https://nbl.snl.no/Nils_Christie

Teoria Ideias Centrais Não existe crime O crime, segundo Christie, não existe. Existem atos. O modo como classificamos atos é uma construção social: são decisões político-culturais que determinam o que vemos ou não como crimes. As definições de criminalidade dependem de configurações da sociedade e relações entre os envolvidos no processo. Assim, crime não é algo preexistente. O conceito de crime é criado por um grupo de pessoas, aplicando-se a certas circunstâncias escolhidas como ilícitas. Nesse sentido, condutas podem ser criminalizáveis ou não, dependendo da positivação, a qual pode ser alterada, conforme a os anseios à época. Christie explica o crime de maneira coletiva e não individual, encontrando suas razões na forma como organizamos nossa sociedade.

Justiça participativa / alternativa Participativa porque trata da interação entre as partes, entre vítima e infrator. O diálogo é uma chance de as pessoas compreenderem a posição, as características e as circunstâncias de cada indivíduo. É criada, então, a oportunidade de o infrator contar o motivo pelo qual agiu de determinada forma; assim como uma oportunidade de a vítima contar como se sentiu em relação ao ocorrido.

Podem todos os casos ser resolvidos por mediação ou pela solução alternativa? Todos os casos podem ser tentados a ser resolvidos assim. A sociedade demanda punição, mas particularmente aqueles que se sentiram feridos são melhores contemplados se tem uma chance de conversar, mesmo que em seu estado de fúria, de angústia.

Fornecer um canal de comunicação é evitar o pensamento comum, que dirige todo o ódio para o infrator, que não enxergar em nenhum momento a real situação. É buscar uma medida que possa trazer respostas muito mais satisfatórias a vítima do que simplesmente a punição, como também criar uma possibilidade de consciência e um arrependimento bem maior do que aquele proporcionado pelo encarceramento. Nesse sentido, Nils Christie afirma que talvez a participação seja mais importante que as soluções pouco representativas.

Não existem monstros Nas suas obras, Christie reitera que nunca encontrou um monstro. Afirma que em tanto tempo na criminologia, nunca encontrou um monstro. Não estamos rodeados de monstros, estamos rodeados de pessoas que fazem coisas erradas, sim, mas não de monstros irracionais com quem não se é possível nem manter um diálogo.

As ideias centrais de Christie têm como argumento que os infratores são como a maioria das pessoas, mesmo aqueles que cometeram atrocidades. O que existe atualmente é um afastamento entre vítima e infrator, que resulta em um não conhecimento íntimo. A falta de informação do outro, somado a pressões sociais e da própria mídia, cria a distância onde se constrói a visão daquele que cometeu o crime como um ser não humano, um monstro.

Linguagem Christie é diferente da maioria dos teóricos. É um autor que preza pela acessibilidade do conteúdo que disponibiliza, e defende essa facilidade de entendimento partindo da ótica de uma linguagem simples e comum. Assim, uma característica marcante dos seus livros é explicar ideias partindo de histórias, em sua maioria vividas por ele mesmo, que ajudam não só na compreensão como na identificação do leitor com o texto.

Christie enxerga na linguagem um método de dominância da classe mais intelectual que pretende manter esse status a partir de um vocabulário de difícil compreensão para aqueles com menos estudo. É necessário para uma sociedade democrática criar o sentimento de que todos participam da discussão social. Para chegar a esse objetivo, temos de ser cuidadosos para não usar palavras que apenas uma minoria de pessoas entenderá.Reflections on deviance and social control – Nils Christie, 20/02/2009

Obras Uma quantidade razoável de crimeNils Christie. A suitable amount of crime. Editora: Routledge, 2004. Nils Christie compara o crime a uma esponja. Quando um conceito é muito amplo, ele permite sua modelagem a diversos tipos de situação. O crime é um conceito amplo. Conclui-se, então, que é possível adequar a definição de crime aos mais diversos tipos de controle. Como uma esponja, portanto, permite absorver um alto número de atos e pessoas, mas com um simples aperto, por aquele com a mão na esponja, pode ser reduzido. Assim, o grande desafio é entender como os detentores da esponja se utilizam do conceito nos mais diferentes tipos de sociedade.

Como já dito, Christie diz que os crimes não existem. São os atos que existem, e eles que são classificados subjetivamente dependendo da visão atribuída por cada sociedade. Entretanto, independentemente da sociedade, a maneira prudente de agir seria estabelecer crimes como o último nível de uma escala de atos.

A ideia de Christie é que a definição de crime está relacionada com a proximidade das relações sociais dentro de um sistema. O conhecimento limitado torna a conduta que vemos como criminosa mais tangível.

Para exemplificar isso, é elaborada uma situação em que um homem está em uma praça comum tomando uma cerveja. Rodeado de pessoas, incluindo crianças, o homem se levanta e vai para um canto da praça onde abre o zíper da sua calça para urinar. Vendo essa cena, existem duas famílias em casas distintas. Uma é a casa da perfeição e a outra a casa da turbulência. Na casa da perfeição, nada na vida daquelas pessoas deu errado. Na casa da turbulência, houve diversos percalços, que entre outras coisas contribuíram para a aproximação dos moradores desta casa e seus vizinhos que tiveram o mesmo problema. Assim, a casa da perfeição enxerga o homem do parque abrindo o zíper como um criminoso sexual, um pervertido, enquanto que a casa da turbulência enxerga o homem como ‘Peter’, que sofreu um acidente quando criança, uma boa pessoa e que, quando bebe, basta ligar para sua casa que alguém vem busca-lo. Portanto, os moradores da Casa da Perfeição tinham um conhecimento nulo do homem, do pervertido, enquanto aqueles que possuíam relações, que o conheciam, o viam apenas como um jovem que as vezes bebia demais. Um ato criminoso, da perspectiva daquele que não conhece, e um ato reprovável, mas não criminoso, daquele que conhece. A Casa da Perfeição é a sociedade moderna. Ela não conhece, é isolada, só vê como alternativa chamar a polícia, pois onde não há informação, não há conhecimento social, só resta o controle social.

Antes da sociedade moderna, existia uma ideia de pluralidade institucional, assim as pessoas pautavam-se segundo diversas ideias de diferentes instituições como religião, posição social, cultura. A sociedade moderna possui um único objetivo, o dinheiro. Os indivíduos não buscam a recompensa intelectual, a recompensa do seu trabalho, apenas a recompensa material. Essa mudança, advinda e fomentada principalmente dos Estados Unidos, afasta as relações sociais, na medida em que busca fortalecer as relações de produção e consumo. Estabeleceu-se um padrão de sucesso, propagado pelo cinema e pela televisão.

Em contraposição a essa ideia de sucesso e de sociedade, Christie apresenta os vilarejos, na Noruega, para pessoas extraordinárias, onde houve a quebra da relação dinheiro e trabalho, pois são pautados por quatro instituições: trabalho, cuidado uns com os outros, cultura e religião. Neles, as pessoas trabalham de acordo com as necessidades do próprio vilarejo, naquilo que são boas e capazes. O dinheiro todo ganho pelo vilarejo é colocado em um chapéu, administrado por todos de forma conjunta. Além de pessoas extraordinárias, muitas pessoas comuns escolheram viver nesses vilarejos. Para Christie, o motivo seria os desafios alternativos que proporcionam, além da quebra com o padrão da sociedade de fora. Assim, partindo desse exemplo, o autor faz um diagnóstico do dinheiro como fator prejudicante das relações sociais.

Voltando a sociedade moderna, não atingir o padrão determinado de sucesso e dinheiro é falhar. Entretanto, quem atingiu esse padrão precisa ser protegido daqueles que não conseguiram. Assim, cria-se a ideia do isolamento, a partir de elementos como condomínios fechados, seguranças nas portas, padrões de vestimenta. A separação criada por aqueles que têm dinheiro, através de paredes, daqueles que não têm é comparada, pelo autor, às fronteiras entre os países.

Além de enfraquecer as relações sociais, o estabelecimento da mono-instituição do dinheiro criou uma situação em que, muitas vezes, a única coisa que os políticos têm a oferecer são propostas sobre o controle do crime. As propostas são sempre no sentido de endurecer as penas, aumentar a punição. Existem consequências de adotar essa política, sendo a mais notória a pressão exercida sobre os juízes. Os juízes perdem poder, têm sua posição enfraquecida pelos interesses políticos, e são incentivados a sempre ter como objetivo capturar o maior número de criminosos e encarcerá-los. As medidas mais brandas devem ser a exceção, e uma exceção mínima.

A pressão pela máxima criminalização, tão fomentada pela sociedade, ainda é reiterada pela mídia. A mídia raramente busca a situação do infrator ou da vítima. Busca a polêmica, demonizar o acusado, colocá-lo como um monstro. Alguns conceitos bastante consagrados, como máfia e crime organizado, embora extremamente abstratos, ajudam a entender este problema. São conceitos que não possuem utilidade intelectual alguma, não dizem nada, são imprecisos, mas colaboram para o aumento do poder do Estado. O modo como se nomeia algo influencia no seu entendimento. Na criminologia, o uso mais comum é o de psicopatas. Quando ouvimos esse termo, não conseguimos pensar em um ser humano, em alguém que pode ter vivenciado experiências similares a nossa. Pensamos em um monstro. Entretanto, torna-se mais difícil entendermos como monstros quando os conhecemos e entendemos suas motivações, possivelmente nos enxergamos no comportamento e nas experiências dessas pessoas. O Direito Penal e os tempos atuais (distância social) servem um ao outro.