Travis Hirschi (1935-) é um criminólogo americano conhecido pela sua teoria do controle social (Causes of Delinquency) e do auto-controle (General Theory of Crime). Um dos criminólogos mais citados do fim do século XX e começo do XXI, Hirschi deixou um legado transformador para a criminologia ao substituir a pergunta fundamental “por que alguns cometem crimes?”, por “por que todos não cometem crimes?”. Com seus estudos desenvolvidos inicialmente na sociologia, seus trabalhos se mostram metodologicamente estruturados, com clara visibilidade de referências, dados coletados, suposições iniciais e as interpretações derivadas delas, de modo a apresentar uma combinação da questão central discutida com teoria e análise empírica.

Hirschi cultivava uma grande preocupação empírica e acreditava que uma teoria que não refletia os dados ou que não se aplicasse empiricamente era uma mera crença política pessoal. Sua produção intelectual sempre foi classificada como sociologia, todavia de maneira errônea, uma vez que suas pesquisas melhor se encaixam na criminologia, inclusive com ele próprio se sentindo deslocado na sociologia e se mudando para a School of Criminal Justice, em um período de sua vida.

Hirschi toma como base de sua teoria, os pensamentos de Durkheim e Hobbes e desenvolve uma teoria do crime e da criminalidade nos quais estes são produto de falhas do controle social e do autocontrole, este ensinado ao individuo durante a sua formação, pela família e pela escola. Apesar de ser influenciado por Durkheim no que concerne ao controle social exercido sobre o indivíduo, Hirschi diverge dele, pois afirma que o crime é causado por características presentes nos indivíduos, como a ausência de autocontrole, e Durkheim acredita que o crime é socialmente construído e não podemos culpar a mente de cada indivíduo pela sua realização. Hayward, K., Maruna, S. and Mooney, J. (2010) Fifty Key Thinkers in Criminology. New York.

Biografia Travis Hirschi nasceu em 15 de abril de 1935, em Rockville, Utah, EUA. Seu avô era fazendeiro e cowboy; e seu pai via nele o ideal de vida, todavia se mantinha trabalhando em setores urbanos por eles serem sua fonte de sustento. Hirschi inicialmente pensava em ser engenheiro civil e continuar o processo de construção de estradas como seu pai. Contudo, quando se casou bem jovem, aos 20 anos, ele e sua esposa decidiram-se pela sociologia e pela carreira acadêmica.

A história pessoal de Hirschi é tida por ele como irrelevante na sua teoria, que se basearia apenas em sua observação do mundo. Essa suposição, assim como sua trajetória pessoal, ensejam críticas de Patricia Williamns, que defende, ao contrário dele, que a observação e interpretação do mundo são influenciadas pela posição do indivíduo na sociedade e pela sua trajetória pessoal. Hirschi enxerga a experiência americana do ponto de vista da narrativa dos brancos, de uma vida no campo livre e sem restrições à construção de uma vida na cidade mais controlada e ordenada. Seguindo a ideia de Willians, tem-se que essa perspectiva de Hirschi leva a que as estruturas institucionais americanas sejam admitidas e aceitadas como fato, sem examinar sua justiça ou normatividade. Hirschi enxerga o crime como lhe é posto e sua teoria explica os crimes diários ocorridos na sociedade americana, e dentro da sociedade ocidental desenvolvida, sem questionar a própria definição do que é crime ou a justiça social. Travis Hirschi inicia seus estudos na Universidade de Utah, em crime e relações raciais. Em 1957-1958, ele se torna mestre em Sociologia e Psicologia Educacional pela Universidade de Utah. Entre 1958-1960 trabalha nas forças armadas americanas em análise de dados, interpretando pesquisas acerca da disposição, estado de ânimo, do exército.

Após esses dois anos nas forças armadas, ele inicia seus estudos de doutorado em Barkely antes de se mudar para o departamento de Sociologia da University of Washington Seattle. No leste do país, suas ideias, baseadas em dados, foram consideradas contrárias aos fatos e ultrapassadas, o que ensejou nele um desejo de provar suas ideias através de uma relevante pesquisa empírica. Esta foi realizada em conjunto com Alan Wilson, em um projeto seu denominado Richmond Youth Project. A partir dessa pesquisa, Hirschi obteve como resultado seu trabalho Causes of Delinquence (1969), que trazia sua teoria do controle social.

Hirschi foi professor do Departamento de Sociologia na Universidade da California, em Davis, e tinha uma carreira estável em sociologia pela frente, todavia, se sentia deslocado nesse ramo, o que o fez mudar para a School of Criminal Justice na University at Albany, State University of New York. No fim da década de 80 foi para a Universidade do Arizona, na qual ficou até sua aposentadoria. Na University at Albany, colaborou com Michael Gottfredson, com o qual desenvolveu uma parceria que deu resultado ao trabalho A General Theory Of Crime (1990). Nele, desenvolveram uma teoria que combina criminologia clássica com criminologia positivista. O crime é tido sob a perspectiva clássica, de ser motivado pelo auto-interesse, enquanto a criminalidade é definida como algo que todos compartilham, mas variam de acordo com o autocontrole, este construído na formação do indivíduo.

Essa parceria também levou à produção de The Generality of Deviance (1994), no qual se trabalha a ideia de que todo comportamento criminoso, desviante, temerário e pecaminoso compartilha uma tendência de busca imediata de benefícios sem considerar os custos a longo-prazo, em uma lógica de falta de autocontrole.

A Criminologia de Travis Hirschi Hirschi, T. (1969). Causes of Deliquency. Berkeley, Los Angeles, London: University of California Press; Gottfredson, M. R., & Hirschi, T. (1990). A general theory of crime. Stanford, CA: Stanford University Press; Hayward, K., Maruna, S. and Mooney, J. (2010) Fifty Key Thinkers in Criminology. New York.; e http://www.lawteacher.net/criminology/essays/gottfredson-and-hirschi-a-general-theory-of-crime-criminology-essay.php Travis Hirschi é um criminólogo americano que se baseia na teoria do controle social e do autocontrole. Busca causas dentro dos indivíduos que os levam à prática do crime, dentro de um padrão estabelecido: sujeitos que têm menor vínculo com seus pais e escola tendem a cometer mais crimes do que aqueles que têm maior vínculo. Aqueles que têm maior comprometimento com a escola tendem a cometer menos crimes do que aqueles que têm menor comprometimento. Estes são exemplos do caminho que a sua teoria segue. O autor também afirma que o crime é causado por sujeitos que não são bem sucedidos no que concerne ao autocontrole. Suas principais obras são Causes of Delinquency e General Theory of Crime, esta escrita em conjunto com Michael Gottfredson. Sua teoria se insere dentro de uma perspectiva criminológica da etiologia individual e social, ora mais acentuada em uma, ora mais acentuada em outra. Para ele, a criminalidade surge do rompimento de laços sociais (teoria anômica), o que o insere dentro da criminologia etiológica social. Entretanto, no livro General Theory of Crime, Hirschi afirma que a criminalidade não pode ser revertida, como se fosse uma característica imutável adquirida pelos indivíduos. Ou seja, apesar de o crime ser estimulado por causas sociais, o que faz as pessoas cometerem crimes são as suas características individuais, o que também o insere dentro da perspectiva da criminologia etiológica individual.

Hirschi apresenta muitos avanços em sua teoria, tanto na alteração do questionamento inicial de "por que alguns cometem crimes?" para "por que todos não cometem crimes?"; até no estudo empírico que o leva a concluir que raça e classe sociais não são fatores que geram criminalidade por si só. Apesar deste avanço em sua teoria, Hirschi não analisa o porquê de haver mais negros e pobres encarcerados. Detecta que qualquer um tem chances iguais de cometer crimes no que concerne às diferenças de classe e raça, mas não se questiona sobre o motivo de determinada classe social e determinada raça contar com mais pessoas presas. Caso procedesse a essa análise, encontraria pontos falhos em sua teoria, como o fato de imputar a um indivíduo as causas do crime. Mesmo quando busca compreender a influência que diversos fatores podem ter na prática do que é considerado crime, Hirschi olha para esses elementos enquanto fatores que influenciam o indivíduo e o transformam em um delinquente, sem nunca olhar para o crime e para a figura do delinquente como algo socialmente construído, cujo papel de fato na sociedade acaba por ser ensejar a aplicação do direito penal, que se expressa predominantemente no encarceramento de um setor da população.

A teoria de Hischi parte do crime já cometido e dos indivíduos que já foram autores de crimes e procura características comuns entre estes que a sociedade identifica como criminosos. Posto isso, busca analisar, a partir de estatísticas, eventuais relações entre a prática de crimes e essas características. Identificar características que compõe frequentemente o perfil do criminoso mas que não parecem guardar qualquer relação de causa e consequência com a prática de crimes em si, se abstém de investigar a razão para que a figura do criminoso, da pessoa mais frequentemente identificada como tendo cometido práticas criminosas, inclui essas características. Escapam à sua teoria, assim, fatos que restam inexplicados pelos fatores que influenciariam os indivíduos de forma a levá-los a cometer práticas criminosos, como por exemplo a marcante predominância de setores pauperizados da população no cárcere, e dependendo do local a predominância de setores identificados com determinada raça ou etnia no cárcere. Desta forma, pode-se considerar que a ausência da consideração de explicações ligadas à formação e composição da sociedade, dando lugar apenas a elementos que induziriam indivíduos isoladamente a cometer crimes, afetando cada um deles, sem a cogitação de explicações maiores e estruturais do que o que levaria cada indivíduo à ação tida como criminosa, é algo a ser problematizado nas teorias elaboradas por Hirschi.

A Teoria do Controle Social em Causas de Delinquencia Hirschi, T. (1969). Causes of Deliquency. Berkeley, Los Angeles, London: University of California Press. Em seu livro Causes of Delinquency, Travis Hirschi apresenta sua Teoria do Controle Social. A teoria criminológica apresentada pelo autor busca explicar as causas do crime, alocando-as na sociedade, o que insere sua teoria em uma linha de Criminologia Etiológica Social. A teoria do autor traz muito do pensamento do Durkheim, uma vez que considera que o indivíduo comete o delito quando há uma ruptura ou afrouxamento dos laços sociais. Do pensamento durkheimeano também traz para sua teoria os grupos que considera mais essenciais para se estar vinculado: família, nação e humanidade. Metodologia Hirschi desenvolveu seu trabalho nesse livro a partir de um estudo empírico denominado Richmond Youth Project, no qual tinha como amostra 17,500 estudantes, divididos em 130 grupos de acordo com critérios de raça, sexo, escola e série escolar em que se encontrava. Os dados coletados foram: registros escolares dos estudantes, registros policiais e questionários aplicados a esses estudantes. Control Theory A teoria do controle social apresentada por Hirschi postula que os crimes ocorrem em decorrência do rompimento ou afrouxamento de laços sociais. Um dos grandes avanços do pensamento do autor foi a retirada do foco do caráter desviante do comportamento criminoso, uma vez que não parte da pergunta “por que o criminoso comete o crime?”, mas sim analisa a questão a partir de uma homogeneidade dos seres humanos e da sociedade, ao buscar responder a pergunta “por que nem todos cometem crimes?”