thumb|right|Capa da primeira edição em francês de 1892.A Conquista do Pão (; ; ) é um livro escrito pelo anarcocomunista Piotr Kropotkin. Originalmente, era uma série de artigos escritos nos anos 1880, em francês, para os jornais anarquistas Le Révolté e seu sucessor parisiense, La RévolteG. Woodcock, Anarchism: A History of Libertarian Ideas and Movements. New York: The World Publishing Company, 1962, pp. 199, 202. Foi publicado pela primeira vez como livro no ano de 1892, em Paris, com prefácio de Élisée Reclus (quem explica que o título não se restringe ao "pão", e sim engloba tudo que é necessário à qualidade de vida do homemP. Kropotkin, A Conquista do Pão. Rio de Janeiro: Achiame, 2011, pp. 14). Entre 1892 e 1894, foi em parte publicado na forma de folhetins no jornal londrino Freedom, do qual Kropotkin era cofundador. Em 1898, já havia tradução para o norueguêsPëtr Kropotkin, Erobringen af Brødet, Paulson, 1898., e em japonês, por Kotoku Shusui em 1909Corresponde ao livro "麺麭の略取" na lista de obras anarquistas de Kotoku Shusui. Desde então foi reimpresso diversas vezes em vários idiomas.
Nessa obra, Kropotkin aponta o que considera defeitos nos sistemas econômicos feudal e capitalista, e como ele acredita que eles prosperaram a partir da manutenção da pobreza e da escassez, apesar da abundância graças à tecnologia, enquanto promoviam a manutenção de privilégios sociais, tendo como símbolo a riqueza. Ele propõe um sistema econômico mais descentralizado, baseado no apoio mútuo e na cooperação voluntária, afirmando que as tendências para esse tipo de organização já existem na Evolução e nas sociedades humanas. Ele também detalha as formas de revolução e expropriação que não despertem forças reacionárias. Nas palavras de Kropotkin, se trata de um estudo das necessidades da humanidade, e dos significados da economia que as satisfazem.
Capítulos
Capitulo I: Nossos Ricos Para Kropotkin, desde a Idade da Pedra Lascada, a raça humana tem viajado por um longo caminho e acumulado várias riquezas. O resultado seria que agora as crianças dos homens civilizados encontram-se, desde o seu nascimento, prontas para usar um imenso capital acumulado por seus ascendentes. E este capital possibilitaria que o homem adquirisse, meramente por seu próprio trabalho combinado com o trabalho de outros, riquezas que ultrapassam os sonhos dos contos de fada das 1001 noitesP. Kropotkin, A Conquista do Pão. Rio de Janeiro: Achiame, 2011, pp. 19.
Na verdade, a humanidade seria bem mais rica do que se tem consciência: no que já possui; nas possibilidades de produção advindas do seu respaldo maquinário; e no que se poderia ganhar com o solo, a manufatura, a ciência, o conhecimento técnico, onde se poderia adquirir uma existência de riqueza e facilidade para cada um dos seus membros. No entanto, tantos pobres existem e a labuta dolorosa para as massas persiste. Isto ocorreria porque toda a produção necessária fora apreendida por poucos no curso do que o autor chama de “longa história do roubo”, forçando migrações e guerras de ignorância e opressãoIbid., pp. 19-20.
O autor diz que milhões de seres humanos tem trabalhado para criar esta civilização e outros milhões ao redor do mundo trabalham para mantê-la. Sem eles, nada restaria em cinquenta anos a não ser ruínas. Milhares de inventores, conhecidos ou não, que morreram na pobreza, cooperaram para incorporar a cada uma das máquinas o gênio humanoIbid., pp. 21.
Toda máquina teria tido a mesma história: noites não dormidas e pobreza, de desilusões e prazeres, de melhoramentos parciais descobertos por inúmeras gerações de trabalhadores sem nome, que adicionaram à invenção natural pequenos "nadas", sem os quais a mais fértil ideia permaneceria estéril. A partir disso, Kropotkin questiona com que direito uma pessoa pode se apropriar de um pedaço deste imenso todo e dizer "isto é meu e não seu!". Ele declara que isto surgiu no decorrer dos séculos percorridos pela raça humana, onde tudo o que capacita o homem a produzir e a aumentar seu poder de produção foi apreendido por uma minoriaIbid., pp. 22.
O autor critica duramente o capitalismo ao dizer que, em virtude deste sistema, o qual ele denomina "monstruoso", o filho de um trabalhador, ao nascer, não encontra terra em que possa permanecer, máquina, ou mina, sem aceitar dar uma grande parte do que ele irá produzir para o "dominador". Por isso, ele deverá vender seu trabalho por um salário incerto e seus herdeiros serão ainda mais pobres que a geração anterior. Enquanto isso, os capitalistas cresceriam. O resultado deste estado de coisa seria que toda a produção tende a uma direção errada. Empresas tomam os bens da comunidade, pois seu único objetivo seria aumentar seus ganhos com especulação. Os trabalhadores não podem se beneficiar da riqueza que eles mesmos produziramIbid., pp. 23.
A humanidade teria acostumado a si e suas crianças a serem hipócritas, a praticar uma moralidade de dupla face. E uma vez tão acostumado com mentiras, a humanidade enganaria-se com retórica sofisticada. Assim, a hipocrisia e o sofisma teriam se tornado a segunda natureza do homem civilizadoIbid., pp. 24. Entretanto, a sociedade não poderia viver assim; ela deveria retornar à verdade ou cessar sua existência. Isso significa que, para o autor, a produção pertence à toda a comunidade, e a apropriação individual não seria justa, nem benéficaIbid., pp. 25.
Capítulo II: Bem-estar para todos Bem-estar para todos não seria um sonho, o autor explica que é possível, realizável, graças a todos os nossos ancestrais que aumentaram os poderes de produçãoIbid., loc. cit.. No entanto, ao invés de o capital ir gradualmente se concentrando nas mãos de poucos, de modo que só seria necessário que a comunidade desapropriasse alguns milionários para obter sua legítima herança, ocorre que o enxame de parasitas é cada vez maiorIbid., pp. 26.
Haveria uma limitação indireta que consistiria em gastar esforços humanos em objetos absolutamente inúteis, ou destinados apenas a satisfazer a vaidade monótona dos ricos. Deveria-se levar em conta todo o trabalho que vai para o lixo, mantendo-se estábulos, canis, favorecendo os caprichos da sociedade e os gostos depravados dos ricos, forçando o consumidor a comprar o que não precisa. O que é desperdiçado dessa maneira seria suficiente para dobrar a produção de coisas úteis, ou então para completar as fábricas e usinas com máquinas que em breve inundariam as lojas com tudo o que agora está faltando à nação. Sob o sistema atual, não haveria melhores resultados, apenas a diversão dos ricos e a exploração do públicoIbid., pp. 27.
Portanto, o autor defende que deveria haver expropriação. O bem-estar de todos, como fim; desapropriação, como meio. Mas este problema não poderia ser resolvido por meio de legislação. Os pobres, bem como os ricos, entendem que nem os governos existentes, nem os que poderiam surgir de possíveis mudanças políticas, seriam capazes de chegar a tal solução. Eles sentem a necessidade de uma revolução social; e ricos e pobres reconhecem que esta revolução é iminenteIbid., pp. 27-29. E enquanto isso o povo sofre. As fábricas estão ociosas, as oficinas fechadas; o comércio está parado. O trabalhador nem sequer ganha o mísero salário de antes. A alimentação sobe de preçoIbid., pp. 29-30. Para que cada um, seja qual for seu grau na sociedade, seja forte ou fraco, capaz ou incapaz, tenha, antes de tudo, o direito de viver, deveria-se reconhecer e proclamar que a sociedade é obrigada a compartilhar entre todos, sem exceção, os meios de existência que tem à sua disposiçãoIbid., pp. 30-31.
Capítulo III: Anarco-comunismo Toda a sociedade, ao abolir a propriedade privada, seria forçada a organizar-se nas linhas do anarco-comunismo. A anarquia levaria ao comunismo, e o comunismo à anarquia, ambas as expressões seriam, para Kropotkin, semelhantes à tendência predominante nas sociedades modernas: a busca da igualdadeIbid., pp. 31.
O autor diz que as novas organizações, com base no mesmo princípio de "a cada um segundo a sua necessidade", surgem sob mil formas diferentes, pois sem um certo fermento do comunismo as sociedades atuais não poderiam existir. Apesar da virada para o egoísmo, dado a mente dos homens pelo sistema comercial, a tendência para o comunismo estria constantemente aparecendo, e isso influenciaria as atividades da sociedade de várias maneiras (quando se pensa em bens públicos, por exemplo)Ibid., pp. 33.
Capítulo IV: Expropriação O autor pretende uma organização das coisas de tal forma que todo ser humano tenha assegurada a oportunidade de, em primeira instância, aprender alguma ocupação útil, e segundo, de tornar-se hábil na mesma; ao lado disto, que ele seja livre para trabalhar em seu comércio sem pedir licença de qualquer mestre ou proprietário, sem precisar entregar ao senhorio ou capitalista a maior parte do que ele produz. Desta forma, ninguém teria de vender sua força de trabalho por um salário que só representasse uma fração do que produzIbid., pp. 38. Kropotkin sustenta que o dono de terras possui suas riquezas à custa da pobreza dos camponeses, e a riqueza do capitalista vem do mesmo recurso. Este seria o segredo da riqueza: fazer com que os esfomeados trabalhem e ganhem apenas um quinto do que produzem, utilizando-se desse lucro para produzir mais lucro, através da especulação com a ajuda da lei e do EstadoIbid., pp. 39.
Portanto, a expropriação seria fundamental para a formação de uma sociedade igualitária e ela deverá ser geral, pois os diversos setores da economia são solidários. Para Kropotkin, se a expropriação for parcial e restrita, ela causará desequilíbrios, impedindo a construção da sociedade sobre novas basesIbid., pp. 42-43. Porém, a expropriação deveria limitar-se aos meios de produção, enquanto os objetos de consumo deveriam ser mantidos como propriedade privada. Isto seria o real significado de uma revolução para o autor. E assim que as pessoas fizessem uma limpeza geral do governo, procurariam com certeza, antes de tudo, garantir a si as mesmas comida suficiente, habitações e vestuário decentesIbid., pp. 43-44.
Capítulo V: Comida Kropotkin explana que se a revolução for de cunho social, esta será distinta de todos os levantes já formados, não só em relação aos seus objetivos, mas também aos seus métodos. Para se chegar a um novo objetivo, novos meios seriam necessários. Sempre teria sido uma ideia da classe média enfeitar a revolução com o que ele chama de "bons princípios" e "boas mentiras", mas a ideia do povo seria prover alimento para todos, por isso o autor clama:"Pão! A revolução precisa de pão!". E enquanto a classe média formularia sua própria retórica, a verdadeira meta deveria residir no fato de todos terem o suficiente para sobreviver. Tendo isto em mente, Kropotkin acredita que a revolução deve triunfarIbid., pp. 45-46.
A característica mais proeminente do nosso capitalismo atual seria o sistema de salários: a revolução que está por vir deveria tornar o sistema de salários impossível, negando o que o autor considera escravidão. Na visão de Kropotkin, em qualquer caso, um sistema que brote espontaneamente, sob o estresse da necessidade imediata, seria infinitamente preferível a qualquer coisa inventada por teóricos alheios à realidadeIbid., pp. 48-49. Em seguida, ele questiona em que base deve a sociedade ser organizada, a fim de que todos possam ter a sua quota-parte da produção de alimentos e conclui que há apenas uma maneira em que o comunismo-anarquista pode ser estabelecido de forma equitativa, satisfazendo os instintos de justiça e sendo prático ao mesmo tempo: o sistema já adotado pelas comunas agrárias da EuropaIbid., pp. 50-53.