Campos, Fábricas e Oficinas ou Indústria Combinada com Agricultura, Trabalho Intelectual e Trabalho Manual (; ; ) é uma obra da autoria de Piotr Kropotkin. Originalmente, era uma série de artigos escritos entre 1888 e 1890Kropotkin, Piotr. Kropotkin's revolutionary pamphlets: a collection of writings. Roger N. Baldwin, editor. Mineola: Dover, 1970, pp. 305.. Foi publicada pela primeira vez na forma de livro em 1898 na língua francesa e, no ano seguinte (1899), em inglêsGregory Claeys, editor. Encyclopedia of Nineteenth-century Thought. New York: Routledge, 2005, pp. 263.
Nesta obra, Kropotkin dedica-se a analisar questões relevantes à época (e ainda atualmente), como o caso da condição de vida da população proletária, o descaso com relação ao campo em razão de uma repentina supervalorização das cidades após a revolução industrial, o pavor espalhado no mundo após a divulgação das teorias de Malthus, o mito de que o surgimento de grandes indústrias representou o fim das pequenas e a cultura de que a divisão do trabalho significa uma separação entre o trabalho manual e o intelectual.
Inicialmente, o autor aborda a questão da descentralização industrial. O pensamento dominante era o da especialização, no sentido de que cada país possuía uma especialidade e deveria dedicar-se apenas e tão somente a ela. Dentro dessa lógica, países desenvolvidos ficaram responsáveis pela produção de manufaturados, cada um dentro de sua especialidade interna, enquanto aos subdesenvolvidos caberia a produção agrícola para sustentar os primeiros.
Sem dúvidas, essa divisão do trabalho resultou em um aumento da produção e também teve seus benefícios, mas o autor posiciona-se progressivamente, visando a uma situação das relações internacionais em que a lógica seja a da integração. O que se verifica, na realidade, é que os países se recusam a perpetuar a ordem da especialização, que já reinou absoluta, mas resta ultrapassada. Cada vez mais as nações dedicam-se a ter dentro do seu território a produção dos mais variados produtos; cada território é a combinação de diversos fatores, que devem e são utilizados nos seus pontos positivos como propulsores do crescimento e fortalecimento do desenvolvimento dos mais diversos ramos produtivos, e é um senso comum equivocado afirmar que a lógica manufatureiros/agricultores subsiste em termos absolutos como já foi um dia.
A análise crítica do autor acerca das indústrias não deixa passar o fato de que a construção do modelo industrial tal qual se observava criou-se a duras penas. As condições de vida dos trabalhadores eram miseráveis, crianças que deixaram de ser crianças porque forcadas a trabalhar sob tais condições, tudo isso para proporcionar a acumulação de riquezas nas mãos das classes privilegiadas, que continuava a crescer em uma velocidade impressionante.
A França, apesar de ter perdido a Alsácia, progressivamente deixava de ser uma devedora da Inglaterra, tendo em vista que no período de cerca de 60 anos em que dedicou-se a desenvolver sua indústria interna, reduziu suas importações e caminha para o estágio de autossuficiência que, segundo o autor, deve ser o objetivo de todas as nações, e representa a produção interna para o mercado interno de tudo o que a população precisa.
Diante desta mudança paradigmática, a tese sustentada pelo autor é a de que cada nação é capaz de produzir o todo, ou pelo menos a maior parte, daquilo que consome internamente, seja no ramo agrícola quanto no manufatureiro.
Um exemplo relevante citado na obra é o da Rússia, que buscava se emancipar da dependência dos produtos manufaturados que importava da Alemanha e da Inglaterra, desenvolvendo internamente suas próprias manufaturas para produzi-los. De fato, esta transição se deu lenta e progressivamente e não se pode afirmar que tal país adquiriu uma independência absoluta, mas dados relevantes são apresentados, demonstrando que em um curto período de tempo a quantidade de importações diminuiu drasticamente, e continuava a diminuir.
De extrema relevância é a quebra do senso comum feita pelo autor, ao afirmar que o declínio dessas importações não tem muita relação com a alta de impostos como medida protetiva. A principal razão deste declínio é, justamente, o desenvolvimento das indústrias nacionais. Além disso, traça-se um paralelo importante com relação ao tempo necessário para o desenvolvimento industrial: enquanto que à época da revolução industrial a consolidação e o desenvolvimento da indústria levou meio século nos primeiros países a realizá-la, agora levava apenas alguns anos, que foi o que se observou com a Rússia (dentre tantas outras nações), para aproveitar o exemplo.
Em seguida, dedica-se a analisar o caso da Alemanha, também emblemático por suas peculiaridades com relação aos países mais tradicionalmente industriais, como França e Inglaterra. Curioso é o dado de que é um equívoco supor que a razão do sucesso industrial de um país é a mão de obra barata, uma vez que restou comprovado que baixos salários e longas jornadas de trabalho não necessariamente significam produção barata; pelo contrário, o que se observa é que nas industrias mais bem desenvolvidas a produção mais barata é obtida por altos (para os padrões da época e do trabalho, claro) salários, curtas jornadas e boas máquinas.
A principal razão do sucesso industrial da Alemanha é a mesma que se observou nos Estados Unidos: apesar de terem tido uma industrialização tardia, ambos gozavam de uma educação técnico-científica muito disseminada, de modo que as fábricas eram construídas de acordo com o que havia de mais recente e novo que havia sido feito em outro lugar. O grande mérito talvez tenha estado na força de sua juventude, e na “coragem” de aproveitar aquilo que já estava feito e que havia de melhor e mais moderno, entrando no mercado em condições de competir com nações como a Grã-Bretanha, que há muito tempo já participavam desse ramo.
Dentro desta ideia de desenvolvimento e crescimento industrial em nações que antes estavam excluídas dessa possibilidade em razão da preponderância da lógica da especialização, o autor cita, ainda, os casos da Áustria, da Austrália, da Hungria, da Finlândia, da Espanha e até mesmo do Brasil, que aos poucos deixaram de ser preponderantemente importadores de produtos manufaturados para tornarem-se produtores de boa parte deles.
Ainda na questão do desenvolvimento industrial contradizendo a lógica da especialização, merece destaque o caso da Índia. Durante muito tempo, este país era o maior consumidor dos produtos britânicos, especialmente em razão da colonização e da dependência econômica que se estabeleceu com relação a este país. A indústria indiana, que inicialmente não obteve sucesso, de repente ganhou forca e firmou-se. A relevância de citar tal exemplo e que tratou-se de uma situação em que, a partir de uma mudança paradigmática, uma nação que "nasceu" dependente firmou suas próprias raízes e dentro de muito pouco tempo diminuiu significativamente as importações britânicas, tornando-se inclusive atrativa do capital estrangeiro para manter o progresso desse desenvolvimento. A mão de obra era definitivamente mais barata, e o conhecimento técnico inicialmente incipiente, mas isto foi apenas um obstáculo inicial a ser superado, e os produtos indianos em nada deixam a desejar em qualidade.
O autor afirma claramente a sua teoria, que é a de que a solução para os problemas que se observavam era que os países dedicassem-se a produzir internamente tudo aquilo que consumiam, de modo a tornarem-se autossuficientes, deixando para trás a posição que ocupavam na especialização, primordialmente importadora/exportadora. Dentro desta questão, argumento relevante é o de que quando um país sobrevive primordialmente do lucro que obtém em decorrência de suas exportações, ele fica inteiramente suscetível a crises que decorrem de fatores externos. Explico: Se, por razões alheias à sua vontade aquele país não conseguir vender no mercado externo o seu produto por pelo menos o dobro do valor gasto para produzi-lo, isso implica prejuízo interno. A lógica capitalista baseia-se na obtenção do lucro, e uma vez que ele não é obtido procede-se a uma reação em cadeia que prejudica primariamente a própria população interna; se uma companhia não obtém lucro, ela diminui o salário dos trabalhadores, ou a quantidade de dias trabalhados por eles, ou até demite parte do seu pessoal; em consequência disso, aumenta a miséria interna e esse aumento implica na redução também do consumo interno, o que, em última análise, prejudica ainda mais a própria indústria. Diante disso, ter como objetivo produzir primordialmente para o consumo interno mostra-se como a solução mais racional, tendo em vista que encerraria a lógica da miséria e desabastecimento, o consumo seria sempre garantido, interrompendo essa reação em cadeia.
A consequência direta do nascimento e crescimento da indústria em países que eram, antes, apenas consumidores, em que se destaca aqui os chamados países subdesenvolvidos, que eram primordialmente agrícolas e passaram a ser também manufatureiros, levaram ao fim da hegemonia da Grã-Bretanha neste aspecto, e afirma o autor que isso deveria ter sido previsto. Progressivamente os produtos por eles produzidos perdem espaço no mercado, enquanto aqueles produzidos por estes países, ganham. Ainda que o valor total das exportações do Reino Unido, em proporção ao crescimento de sua população, tenha permanecido quase que inalterado, os altos preços que podiam cobrar e, consequentemente, os altos lucros que obtinham já não existem mais. A maior competitividade que existe em decorrência do surgimento de novos produtores representou o fim dessa hegemonia e, mais, a possibilidade de distribuição de um capital que antes concentrava-se no país pioneiro na revolução industrial. Claramente isso não significa a quebra da economia britânica, até porque ela se mantém até hoje, mas representa uma mudança significativa e que foi bastante sentida a época.
Para o autor, o progresso está em produzir para o mercado interno, tendo em vista que os verdadeiros consumidores dos produtos de um país são os seus próprios cidadãos, e com a mudança da lógica produtiva, com a descentralização industrial e o desenvolvimento de novos polos produtores, esse progresso tornou-se mais tangível, ficou cada vez mais próximo, porque agora possível. O que deve ser feito, portanto, é a destinação desses produtos para o mercado interno, para que os países tornem-se autossuficientes.
Uma vez estabelecida sua principal teoria, e dentro disso, explicitado o seu principal elemento que é a difusão da produção industrial pelos mais diversos países, dedica-se o autor ao segundo elemento primordial para a consolidação de tal objetivo, que é a agricultura.
A ideia da autossuficiência a ser atingida pelos países implica na sua capacidade interna de produção de tudo aquilo que a sua população precisa para viver (e a ambição do autor não está só em afirmar que não só são os países capazes de se manter sozinhos, mas em afirmar que ao fazê-lo, os países têm condições de dar um padrão de vida e de consumo para a sua população muito bom - e muito melhor do que aquele que se observa na lógica do momento). Assim, uma vez explicitada a possibilidade de produção industrial interna, mesmo naqueles países sem qualquer tradição no ramo, ou mesmo desacreditados por fatores históricos, dedica-se o autor a exemplificar a questão agrícola envolvida na busca da realização de sua teoria, tendo em vista que este aspecto está necessariamente incluído nesta nova característica.