Guerra do Peloponeso foi um conflito armado entre Atenas (centro político e civilizacional do mundo ocidental no ) e Esparta (cidade-Estado de tradição militarista e costumes austeros), de 431 a Sua história foi detalhadamente registrada por Tucídides, na obra História da Guerra do Peloponeso, e por Xenofonte, na obra Helênicas. De acordo com Tucídides, a razão fundamental da guerra foi o crescimento do poder ateniense e o temor que tal despertava entre os espartanos.Superpower and Upstart: Sometimes It Ends Well A cidade de Corinto foi especialmente atuante, pressionando Esparta a fim de que esta declarasse guerra contra Atenas.
Antecedentes e a Primeira Guerra do Peloponeso thumb|308px|O Império Ateniense em
O rancor entre Atenas e Esparta remonta pelo menos ao período das Guerras Médicas, durante as quais alguns eventos geraram eventuais choques de interesses entre as duas póleis, a exemplo do desejo de Esparta e Corinto de construir um muro no Cabo Coríntio, abandonando os atenienses aos persas, que já teriam invadido a cidade de Atenas. Não obstante, a relação entre as duas póleis eram desde então amigáveis, ao menos formalmente. Contudo, o crescimento desenfreado da Liga de Delos, fundada em , fazia do conflito "inevitável", segundo o historiador Tucídides. A partir de , conflitos começaram a acontecer com crescente frequência, levando ao que ficou conhecido como a Primeira Guerra do Peloponeso (460-446 aC).
A Primeira Guerra do Peloponeso foi caracterizada por uma série de conflitos menores. Levaram-na a cabo as facções lideradas por Esparta, a saber, a Liga do Peloponeso, que contava ainda com Tebas entre seus integrantes, e por Atenas, qual seja, a Liga de Delos, entre cujos integrantes constava Argos.
O início do conflito foi marcado por uma série de vitórias atenienses, que conseguiram suplantar as forças lacedemônias tanto pelo mar quanto pela terra. Em , contudo, uma grande parte da frota ateniense que fora enviada ao Egito para apoiar uma revolta líbia contra o Império Aquemênida foi destruída, levando Atenas a declarar uma trégua de cinco anos com Esparta. O conflito foi reacendido em , com a Segunda Guerra Sacra, e desta feita Atenas se viu em desvantagem. Finalmente, no inverno de , foi declarada a Paz dos Trinta Anos, segundo a qual Atenas deveria abrir mão de suas conquistas terrestres, podendo, contudo, preservar o seu domínio marítimo. A ilha de Egina, por sua vez, conquistada por Atenas após ter apoiado Esparta pelo mar, tornar-se-ia um membro autônomo da Liga de Delos, devendo somente lhe pagar tributos. Atenas e Esparta comprometeram-se a não atacar seus aliados recíprocos.
A quebra da paz Em 440 a.C., a ilha de Samos e a cidade de Mileto entram em um conflito pelo controle de Priene. Os milésios, derrotados, buscam ajuda de Atenas, e esta ordena o fim do conflito e a submissão dos adversários à sua arbitragem. Samos, aliado a Atenas, recusa a proposta, e Péricles comanda uma expedição à ilha, dando início ao conflito que ficou conhecido como Guerra Sâmia. Os oligarcas sâmios buscaram apoio persa, e a este ponto Atenas se viu diante da possibilidade de uma série de revoltas na parte oriental de seu Império. O conflito se estendeu por meses, durante os quais os sâmios chegaram a pedir ajuda a Esparta, que convocou um congresso entre cidades aliadas a fim de tomar uma decisão. Notadamente, a cidade de Corinto, uma das mais fortes aliadas de Esparta e cidade tradicionalmente rival de Atenas, não se vendo preparada para engajar-se num conflito naquele momento, votou contrariamente ao apoio a Samos. Atenas acabou por derrotar a revolta, impondo, a seguir, severas penas à ilha de Samos.
thumb|left|As principais ações em cada fase da guerra
Corinto foi a principal protagonista dos atritos com Atenas que levaram ao início da Guerra do Peloponeso. Um destes atritos diz respeito à cidade de Epidamno, uma colônia da Córcira localizada ao norte da Ilíria. A Córcira, por sua vez, era uma cidade fundada por Corinto numa ilha que possuía uma localização estratégica, uma vez que constituía uma ponte natural entre as cidades que ladeam o Mar Egeu e a Magna Grécia, e não era aliada nem a Esparta nem a Atenas. Em , Epidamno, tendo visto estourar uma guerra civil, pediu ajuda à Córcira, que nega apoio à colônia. Epidamno voltou-se, então, a Corinto, e esta enviou uma expedição para pôr fim aos confrontos. A Córcira intervém contra Corinto, julgando que esta havia feito uma ingerência indevida, expulsando então os coríntios e sitiando Epidamno. Quando Corinto se prepara para contra-atacar, a Córcira busca integrar-se à Liga de Delos, que já possuía interesse na aliança com a ilha, a fim de expandir as suas redes comerciais. Atenas envia à Córcira um número ínfimo de navios, e a frota coríntia se engaja em combate com os córciros, dando início à Batalha de Sibota, enquanto os navios atenienses que se encontravam na ilha observam a batalha, tendo sido ordenados a não interferir exceto diante da clara derrota dos córciros, a fim de não quebrar o acordo assinado com Esparta. Diante da chegada de novos navios atenienses, os coríntios, temendo o conflito, desistem do ataque.
Logo em seguida, o conflito passa a girar em torno de Potideia, cidade que, sendo colônia de Corinto, era aliada de Atenas, o que a deixava em posição instável. A cidade decidiu sair da liga de Delos em , mas Atenas recusou-lhe a saída, ordenando-lhe ainda pôr abaixo as suas muralhas, enviar reféns a Atenas, destituir magistrados coríntios de seus cargos e a recusar os que Coríntio enviasse no futuro. Corinto encoraja Potideia a recusar as exigências de Atenas, que atacou a cidade. Corinto não interferiu explicitamente no conflito, embora tenha enviado homens para lutar em meio ao contingente dos sitiados, o que constituiu a primeira ofensa à Paz dos Trinta Anos.
Uma outra fonte de atrito foi um decreto imposto em por Atenas à cidade de Mégara, cidade aliada à Liga do Peloponeso desde o fim da Primeira Guerra do Peloponeso, acusada por Atenas de receber escravos fugitivos e de sustentar Corinto, bem como a explorar o Hiera Hogas, espaço de terra destinado a Deméter e Perséfone. Atenas impôs severas restrições a Mégara, se bem que os historiadores antigos desconheçam a natureza destas restrições.
A pedido dos coríntios, Esparta conduziu uma assembleia entre os aliados da Liga do Peloponeso em Nesta assembleia, foram ouvidas queixas dos coríntios e dos megários contra Atenas. Tucídides reporta mesmo que os espartanos foram acusados de negligência pelos coríntios. Uma delegação ateniense que acontecia de estar presente durante a condução da assembleia afirmou que em momento algum Atenas havia rompido a Paz dos Trinta Anos, lembrando os espartanos ainda do poderio ateniense, demonstrado nas Guerras Médicas, e recomendando-os a buscar uma saída diplomática. Por fim, Esparta decide que os atenienses quebraram a Paz dos Trinta anos, e declara guerra contra Atenas e seus aliados, dando início à Guerra do Peloponeso.
Primeiro período: a Guerra Arquidâmica 431-421 a.C.
thumb|As alianças da guerra
O primeiro período da Guerra do Peloponeso é chamado de Guerra Arquidâmica, devido ao rei espartano Arquídamo II.
As cidades de Esparta, Corinto, Tebas e Mégara aliaram-se contra Atenas e seus aliados. Na primavera de - no Outono e no Inverno não se combatia -, Tebas, aliada de Esparta na Grécia Central, atacou Plateia, antiga aliada de Atenas, dando início à Guerra do Peloponeso, que durou 27 anos e envolveu quase todas as cidades-estados gregas, provocando o enfraquecimento da Grécia. De 431 a , os beligerantes devastaram reciprocamente seus respectivos territórios sem chegarem a alcançar êxitos decisivos.
Esparta invadiu a Ática com seus aliados em Péricles, avaliando corretamente a superioridade do exército terrestre de Esparta, convenceu os atenienses a refugiar a população do território da pólis ateniense dentro das longas muralhas que ligavam Atenas a seu porto, o Pireu, e a evitar uma batalha em terra com o superior exército espartano. Atenas confiava em sua frota de trirremes para invadir o Peloponeso e proteger seu império e suas rotas comerciais, mas foi gravemente surpreendida pela deflagração de uma epidemia, conhecida como Peste do Egito em , que matou cerca de um terço da população da superpopulosa Atenas, inclusive Péricles. Isso afetou o moral dos aliados de Atenas e provocou uma frustrada rebelião da ilha de Lesbos contra a hegemonia da cidade ática. Apesar disso, a frota teve boa performance e foi estabelecida uma trégua de um ano, em
O resultado das lutas foi variável nos anos seguintes. Na batalha de Anfípolis, no ano , morreram os chefes dos dois exércitos inimigos, o ateniense Cléon e o espartano Brásidas. A Cléon, defensor da continuidade da guerra a todo custo, sucedeu Nícias. A guerra estava equilibrada e as cidades beligerantes desgastadas. Por isso, esse primeiro período foi encerrado em pelo Tratado de Nícias, que garantia a paz durante cinquenta anos. Aproveitando-se disso, as cidades aliadas a Atenas procuraram se libertar de sua opressão, ameaçando todo o sistema democrático que se apoiava na cobrança de tributos.
Segundo período: 415-413 a.C. thumb|A expedição à Sicília
thumb|As longas muralhas que ligavam Atenas a seu porto, o Pireu
O segundo período foi de 415 a A trégua, que deveria se prolongar durante 50 anos, durou somente seis. Alcibíades liderou um movimento de oposição a Esparta no Peloponeso; suas esperanças esvaneceram-se com a vitória de Esparta em Mantineia, em A saída para a crise do sistema democrático era uma grande vitória militar contra a Liga do Peloponeso. Assim, em foi preparada uma grande e poderosa esquadra, comandada por Alcibíades, para atacar a cidade siciliana de Siracusa (na Magna Grécia) e outras regiões da península Itálica, colônias de onde provinham os alimentos para Esparta e seus aliados. Alcibíades, principal defensor da expedição à Sicília foi acusado de impiedoso por seus adversários políticos em Atenas. Alcibíades, então, fugiu para Esparta e traiu os atenienses.
Esparta enviou então um poderoso exército para a Sicília, o que resultou num completo desastre para Atenas. A frota e o exército atenienses foram desbaratados pelas forças espartanas diante de Siracusa. Dá-se aí o ponto de viragem da Guerra do Peloponeso, apesar da derrota ter acontecido por um triz, mercê de uma chefia fraca aquando da invasão da Sicília, traduzindo o claro declínio político e militar surgido com a morte de Péricles. Os historiadores vêem no desaparecimento deste a razão do desastre ateniense, gorando-se a união da Hélade em torno de Atenas. Na cidade de Atenas, tomou o poder um grupo oligárquico partidário da paz. Mas a sublevação da armada de guerra, desejosa de reiniciar o conflito, forçou o restabelecimento da democracia e, com ela, a continuação da guerra.
Na invasão de Siracusa pelas forças atenienses, não foi um exército espartano que iniciou a derrocada da frota, mas sim, apenas um general, Gilippo, pois os espartanos não tinham força naval suficientes para transportar um exército para o além-mar de Siracusa. Portanto, a tática espartana não foi enviar forças armadas para seus aliados, mas enviar um exemplo de coragem e habilidade bélica. O general Gilippo treinou e disciplinou a grandiosa força siracusana com estratégias militar, sendo possível expulsar os atenienses e encurralá-los, sem suprimentos e com a frota avariada, no litoral.
Terceiro período: 412-404 a.C.
thumb|Trirreme grego