thumb|direita|500px|Ressurreição dos mortos.1499-1502. Afresco de Luca Signorelli na Catedral de Orvieto, na Itália.

Ressurreição dos mortos, a crença de que os mortos serão trazidos de volta à vida, é um componente comum de diversas escatologias, principalmente a cristã, islâmica e judaica.

Judaísmo

Bíblia hebraica

A mais antiga referência na Bíblia hebraica de alguém "subindo" do sheol está na Canção de Ana (). Porém, os comentaristas bíblicos geralmente indicam que este trecho deve ser lido de forma figurativa e não enxergam nele uma expectativa literal de Deus "descendo e subindo" ao Sheol.The International Standard Bible Encyclopedia: 4 p145 Geoffrey W. Bromiley - 1995 Passagens sobre a ressurreição antes do Livro de Daniel lidam principalmente da "ressurreição nacional", como é o caso de .Theological Dictionary of the Old Testament: 9 p156 G. Johannes Botterweck, Helmer Ringgren, Heinz-Josef Fabry - 1998 Esta passagem em Isaías tornou-se depois um ponto de discussão rabínica sobre a ressurreição.Theological Dictionary of Rabbinic Judaism: Part Three p293 Jacob Neusner - 2005 "26:20); B. Objected R. Abba bar Mammal, '"Your dead shall live, my dead bodies shall arise' (Isa." Ressurreições temporárias de indivíduos estão por toda a Bíblia, como é o caso de Elias e o filho da viúva em Sarepta: Eliseu e a mulher sunamita: ou o contato com os ossos de Eliseu revivendo uma mulher: . thumb|direita|300px|Profeta Ezequiel tem uma visão do "Vale dos Ossos" em , uma possível referência à crença da ressurreição no judaísmo que passou depois para o cristianismo através do Antigo Testamento.1630. Por Francisco Collantes, atualmente no Museu do Prado, em Madrid. De acordo com a Enciclopédia Judaica, o tópico aparece ainda em , , e .

Período do Segundo Templo (530 a.C. – 70 d.C.) No período do Segundo Templo, há uma ampliação das doutrinas judaicas. O conceito de ressurreição do corpo físico aparece em II Macabeus, segundo o qual o evento irá ocorrer pela recriação da carne (). A ressurreição dos mortos também aparece em detalhes nos livros não-canônicos de Enoque (I Enoque 61:2, 5), o Apocalipse de Baruque (II Baruque 50:2; II Baruque 51:5) e II Esdras. De acordo com o estudioso do judaísmo antigo, o britânico Philip R. Davies, há "pouca ou nenhuma evidência clara... seja para a imortalidade ou para a ressurreição dos mortos" nos Manuscritos do Mar Morto.Philip R. Davies. “Death, Resurrection and Life After Death in the Qumran Scrolls” in Alan J. Avery-Peck & Jacob Neusner (eds.) Judaism in Late Antiquity: Part Four: Death, Life-After-Death, Resurrection, and the World-To-Come in the Judaisms of Antiquity. Leiden 2000:209.

Tanto Flávio Josefo quanto os registros do Novo Testamento relatam que os saduceus não acreditavam numa vida após a morte,Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 18.16;

; ; ; . mas as fontes divergem sobre as crenças dos fariseus. O Novo Testamento alega que eles acreditavam na ressurreição, mas não especifica se o conceito incluía o corpo, a alma ou ambos (). De acordo com Josefo, que era fariseu, os fariseus defendiam que apenas a alma era imortal e somente as almas dos bons serão reencarnadas e "passarão para outros corpos" enquanto que "as almas dos maus irão sofrer a punição eterna".Flávio Josefo, A Guerra dos Judeus 2.8.14; cf. Antiguidades 8.14-15. O apóstolo Paulo, que também era fariseu (; ), acreditava na ressurreição apenas de um corpo "espiritual", negando que o evento incluisse carne e osso (, , ). O Jubileu parece fazer referência à ressurreição da alma apenas ou a uma ideia mais geral de uma alma imortal (Jubileu 23:31).

Período rabínico A ressurreição é uma crença centra da MishnáJacob Neusner World Religions in America: An Introduction 2009 Page 133 e é expressada em diversas ocasiões na liturgia judaica, como na oração matinal (Elohai Neshamah), na Shemoneh 'Esreh nos serviços funerários. Para Maimonides, o décimo-terceiro e último de seus artigos de fé era: "Eu acredito firmemente que irá ocorrer um reavivamento dos mortos no momento que agradar o Criador, louvado seja Seu nome".

Judaísmo moderno De acordo com Herbert C. Brichto, escrevendo para o Hebrew Union College Annual, do judaísmo reformador, o túmulo familiar é um conceito central para entender a visão da Bíblia judaica sobre a vida após a morte. Ele afirma que "não é meramente um respeito sentimental pelos restos físicos que é... a motivação da prática, mas, ao invés disso, uma conexão assumida entre a sepultura adequada e a condição de felicidade do morto na vida após a morte".

De acordo com Brichto, os primeiros israelitas acreditavam que os túmulos da família ou da tribo, unidos, e que esta coletividade unida é o que o termo hebraico sheol significa, o "túmulo coletivo dos humanos". Embora o termo não seja bem definido na Tanakh, o sheol seria um mundo subterrâneo para onde as almas dos mortos iriam depois que o corpo morre. Os babilônios tinham um mundo subterrâneo similar chamado Aralu e os gregos também, o Hades.Herbert Chanon Brichto "Kin, Cult, Land and Afterlife – A Biblical Complex", Hebrew Union College Annual 44, p.8 (1973)

Cristianismo

Novo Testamento Nos textos mais antigos do Novo Testamento, as epístolas paulinas, Paulo insiste que a ressurreição não envolve "carne e osso", argumentando, em , que os cristãos serão ressuscitados com um corpo espiritual ou "pneumático" (do grego , "sopro"). Diversos estudiosos da Bíblia notaram que, de acordo com Paulo, a carne não tem papel nenhum na ressurreição, pois os cristãos são todos feitos imortais.Archibald Robertson & Alfred Plummer. A Critical and Exegetical Commentary on the First Epistle of St Paul to the Corinthians. Edinburgh 1914:375–76; Oscar Cullmann. “Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead” in Krister Stendahl (ed.) Immortality and Resurrection. New York 1965 :35; Gunnar af Hällström. Carnis Resurrection: The Interpretation of a Credal Formula. Helsinki 1988:10; Caroline Walker Bynum. The Resurrection of the Body in Western Christianity, 200-1336. New York 1995:6. Porém, nos Evangelhos, a ressurreição, como no caso da ressurreição de Jesus, é apresentada com uma ênfase cada vez maior na ressurreição da carne: o túmulo vazio em Marcos, as mulheres agarrando os pés de Jesus ressuscitado em Mateus, a insistência do Jesus ressuscitado de que ele era de "carne e osso" e não apenas um espírito ou "sopro" em Lucas até finalmente Jesus encorajar os discípulos que lhe toquem os ferimentos em João.Cf. Dag Øistein Endsjø. Greek Resurrection Beliefs and the Success of Christianity. New York: Palgrave Macmillan 2009:159-180. thumb|direita|300px|Vitral da ressurreição dos mortos no Musée national du Moyen Âge, em Paris. Além disso, em Mateus 16 e Lucas 11, Jesus cita o Sinal de Jonas, uma alusão à ressurreição dos mortos. Nos Atos dos Apóstolos, capítulos 4, 17, 23 e 24, os apóstolos argumentam em defesa desta doutrina.

Credo de Niceia e o cristianismo primitivo Os Padres da Igreja Ireneu e Justino Mártir, no século II, escreveram contra a ideia de que apenas a alma sobreviveria. Justino insiste que uma pessoa é tanto corpo quanto alma e que Cristo prometera reviver ambos, da mesma forma que Seu próprio corpo foi ressuscitado.

Apesar de a doutrina cristã da ressurreição ser baseada nas crenças judaicas, a ênfase no quanto disto envolvia o corpo terreno aumentou conforme o cristianismo se espalhava por entre as populações gregas, como notou pela primeira vez o estudioso Dag Øistein Endsjø, que relacionou o fenômeno às tradicionais crenças gregas sobre a verdadeira imortalidade, que envolvia tanto o corpo quanto a alma.Dag Øistein Endsjø (2008). “Immortal Bodies, Before Christ. Bodily Continuity in Ancient Greece and 1 Corinthians” in Journal for the Study of the New Testament 30 (2008):417-36; Dag Øistein Endsjø. Greek Resurrection Beliefs and the Success of Christianity. New York: Palgrave Macmillan 2009:21-158. Embora o gregos acreditassem que uns poucos indivíduos teriam sido ressuscitados para uma imortalidade corporal]] e que este era, na verdade, o melhor destino possível, não havia uma crença grega numa ressurreição geral dos mortos. De fato, eles defendiam que, uma vez que o corpo tenha sido destruído, não haveria mais possibilidade de retorno à vida, pois nem mesmo os deuses poderia recriar o corpo. Como também foi demonstrado pela primeira vez por Endsjø, diversos Padres da Igreja mais antigos, como Pseudo-Justino, Justino Mártir, Tatiano, Ireneu e Atenágoras de Atenas, discutem sobre as crenças cristãs sobre a ressurreição dos mortos e tentaram encontrar formas de responder a este tradicional ceticismo grego à continuidade física pós-morte. O corpo humano não podia ser aniquilado, somente dissolvido — ele não poderia nem mesmo ser integrado ao corpo dos que o devorassem. Assim, Deus só teria, segundo eles, que remontar as pequenas partes dos corpos dissolvidos na ressurreição.Dag Øistein Endsjø. Greek Resurrection Beliefs and the Success of Christianity. New York: Palgrave Macmillan 2009:159-217.

A maior parte das denominações cristãs professam acreditar no Credo de Niceia, que afirma a "ressurreição dos mortos". Elas continuam a defender a crença de que haverá uma ressurreição universal e geral dos mortos "no fim dos tempos", como disse Paulo: e .

Catolicismo romano De acordo com a Enciclopédia Católica, "Nenhuma doutrina da fé cristã, diz Santo Agostinho, é tão veementemente e obstinadamente refutada como a doutrina da ressurreição dos corpos... Esta oposição começou bem antes dos dias de Santo Agostinho".

De acordo com o Catecismo da Igreja Católica, o corpo depois da ressurreição é alterado para um corpo espiritual, imperecível:

De acordo com a Suma Teológica, de Tomás de Aquino, seres espirituais que foram restaurados aos seus corpos glorificados terão as seguintes qualidades básicasThe Catholic Catechism by Father John A. Hardon, p. 265: Impassibilidade — imunidade à morte e à dor; Sutileza (permeabilidade) — liberdade em relação à matéria; Agilidade — obediência ao espírito com relação ao movimento e espaço (habilidade de mover-se através do espaço e do tempo com a velocidade do pensamento); Clareza — beleza resplandecente da alma manifestada no corpo (como quando Jesus foi transfigurado no Monte Tabor)

Luteranismo Embora Martinho Lutero acreditasse na ressurreição dos mortos e ensinasse a doutrina combinada com a do sono da alma, esta não é a visão majoritária do Luteranismo e a maior parte dos luteranos tradicionalmente acreditam na ressurreição do corpo em combinação com uma alma imortal.Evangelical Lutheran intelligencer: Volume 5 -1830 Page 9 Evangelical Lutheran Synod of Maryland and Virginia.

De acordo com o Sínodo de Missouri da Igreja Luterana (LCMS), no último dia, todos os mortos serão ressuscitados. Suas almas então serão reunidas aos mesmos corpos que tinham antes de morrer. Os corpos serão então alterados, o dos injustos para um estado de eterna vergonha e tormento, o dos justos para uma estado de eterna glória celestial.

Anglicanismo thumb|direita|300px|Almas às margens do Aqueronte, o rio que levava ao Hades na mitologia grega. Segundo os gregos, a alma era imortal e ia para o Hades depois da morte do corpo. Esta crença era a principal adversária do cristianismo primitivo e da doutrina da ressurreição dos mortos.1898. Por Adolf Hirémy-Hirschl, atualmente no Österreichische Galerie Belvedere, na Áustria. thumb|direita|300px|Alma sendo levada ao céu. Segundo alguns estudiosos, a mudança de foco da ressurreição para a ida da alma para o céu é um retorno à antiga crença greco-romana da alma imortal.Por William-Adolphe Bouguereau. Há muitos teólogos, como Thomas Oden, escritores cristãos muito populares, como Randy Alcorn, e estudiosos cristãos, como o bispo anglicano de Durham, N.T. Wright, que defenderam a primazia da ressurreição para a fé cristã.