thumb|256px|Octóbulo do rei epirota Pirro thumb|256px|Soldo do imperador bizantino , o reconstrutor de Búlis após o saque pelos visigodos de Alarico
Búlis ou Bílis () foi uma cidade antiga da região da Ilíria localizada 25 km a noroeste de Vlora próximo às localidades de Balshi e Hekal, no distrito de Malacastra, na Albânia. Fundada na primeira metade do por colonos gregos e/ou ilírios, esteve várias vezes sob controle de reis ilírios. Foi tomada em pelo rei Cassandro da Macedônia, mas logo retornou para controle ilírio. No , foi brevemente tomada por Pirro e talvez por seu filho do Epiro . Mais tarde tornou-se sede da liga dos biliões.
Ao longo das Guerras Ilírias, aliou-se a Roma e em foi incorporada na província de Ilírico. Durante as guerras civis romanas rendeu-se a Júlio César e sob o imperador romano Augusto tornou-se uma colônia. No foi saqueada pelos visigodos de Alarico . Reconstruída pelo imperador bizantino , permaneceu próspera até o quando, entre 547 e 551, foi atacada pelos esclavenos. Foi novamente reconstruída pelo imperador Justiniano , porém foi atacada e definitivamente abandonada em 586, sob Maurício
Seu sítio foi descoberto no pelo viajante britânico Henry Holland, que o descreveu e identificou, embora a confirmação tenha ocorrido somente décadas depois, através dos trabalhos do estudioso de Claubry. Durante boa parte do passou por uma série de intervenções arqueológicas que revelaram todas as estruturas remanescentes, assim como puseram a descoberto vários artefatos que vão desdes moedas até estátuas e instrumentos musicais. Em 2005, por determinação duma lei nacional albanesa, Búlis foi integrada, juntamente com outros sítios do país, no sistema de parques arqueológicos.
História
Estêvão de Bizâncio menciona Búlis erroneamente como uma cidade à beira-mar na Ilíria e sua fundação lendário é atribuída aos mirmidões sob Neoptólemo após retornarem da Guerra de Troia, uma tradição confirmada pelos numismatas. Búlis, como uma cidade falante de grego, foi entendida por como a mais setentrional cidade grega não colonial na região. Foi sugerido que foi fundada por gregos, embora a presença duma população mista seja atestada por nomes ilírios de oficiais. Os biliões, uma tribo ilíria helenizada mencionada pela primeira vez em meados do na descrição do geógrafo Pseudo-Cílax, estiveram provavelmente envolvidos com a construção da cidade como sugerido por seu nome. Apesar disso, N. G. L. Hammond argumenta que não faz sentido propor um rótulo ilírio para uma cidade na qual língua, instituições, oficiais, onomásticas, planejamento físico e fortificações eram gregas.
Búlis foi fundada na primeira metade do , talvez entre 370 e Desde , a região depois atribuída aos biliões era governada pelo rei dardânio . Em , durante o reinado do rei Cassandro , foi conquistada pela Macedônia e após a morte dele foi tomada pelo rei taulâncio Gláucias . Continuou em controle dos ilírios até durante reinado de Monúnio , que estabeleceu residência em Gurazeza, nas proximidades de Búlis. Depois disso, foi brevemente controlada por Pirro e talvez por seu filho do Epiro . Após , a cidade e região podem ter sido governadas pelo rei ilírio Mitilo .
Em algum momento durante o , Búlis foi dotada de um estádio e de um teatro Desde cerca de , tornou-se o centro duma liga bilíngue dos biliões, como atestado após . Essa liga englobava as cidades de Búlis e Niceia, com a primeira considerando a segunda como seu demo. À época, ficou famosa por abrigar artesãos habilidosos, que tornar-se-iam sua marca, e por possuir sua própria cunhagem em bronze, diferente da dos biliões, que operou até . Em , quando romanos aportaram em Apolônia, Búlis aliou-se a eles contra a rainha ilíria Teuta . No início do , recebeu embaixada dos teoros. Em , novamente aliou-se aos romanos, dessa vez contra o rei ilírio Gêncio e no ano seguinte, com a conclusão das Guerras Ilírias, foi incorporada à província de Ilírico.
Em , no transcurso da Guerra Civil Cesarina, rendeu-se a Júlio César e tornou-se base de suprimentos a seu exército. Mais adiante, durante a última guerra civil republicana, esteve, segundo Cícero, sob controle do pessoal de Marco Antônio. Sob Augusto tornou-se colônia romana que segundo chamava-se Colônia Júlia Augusta Bulidense (). Com sua mudança de estatuto, suas instituições políticas igualmente alterar-se-iam: estabeleceu-se o conselho dos deuriões, os diúnviros e dois augustais. Pelo , foi saqueada pelos visigodos de Alarico , mas foi reconstruída por . Entre 547-551, sofreu um ataque eslavo, e foi reconstruída por Justiniano entre 552-565. Em 586, sob Maurício , foi atacada pelos eslavos e então abandonada.
Associação com Apolônia
Um dos participantes do Concílio do Éfeso em 431 foi certo Félix que assinou uma vez como bispo de Apolônia e Búlis, e outra como bispo de Apolônia. Alguns assumem que ambas formaram uma única sé episcopal, enquanto outros supõem que ele foi, a rigor, bispo apenas da primeira, mas esteve temporariamente no comando de Búlis durante a vacância daquela sé. No Concílio da Calcedônia de 451, Eusébio assinou simplesmente como bispo de Apolônia. Nas cartas bispais do Novo Epiro a de 458, um indivíduo chamado Filócaro assinou como bispo do que os manuscritos chamam "Valido", e que editores pensam que deveria ser variação do nome Búlis. Se Filócaro é também considerado bispo de Apolônia, depende da interpretação quanto a posição de Félix em 431. O Anuário Pontifício lista Apolônia como sé titular, assim reconhecendo que foi certa vez uma diocese residencial, diocese sufragânea do arcebispo de Dirráquio. Ela não garante tal reconhecimento a Búlis.
Arqueologia
thumb|esquerda|upright=1|Soldo de Justiniano , o reconstrutor de Búlis após o ataque esclaveno thumb|upright=1|esquerda|Planta de Búlis
O sítio de Búlis foi identificado pela primeira vez no começo do pelo viajante britânico Henry Holland, que descreveu-o em seu livro Viagens nas Ilhas Jônias, Albânia, Tessália, Macedônia publicado em Londres em 1815. Esta publicação despertou o interesse de inúmeros estudiosos estrangeiros e albaneses que para lá dirigiram-se para investigá-lo. Em 1850, François Pouqueville, o cônsul francês junto de Ali Paxá, mencionou o teatro bulidense na sua Viagem na Grécia (). No mesmo ano, de Claubry reforçou a identificação da cidade após visitar o local. Em 1881, E. publicou suas observações dos muros, teatro e inscrições em O Oriente, Grécia e Turquia e, em 1904, o tcheco Carl Patsch publicou os primeiros dados científicos do sítio em seu Das Sandschak Berat in Albanien, no qual descreveu inscrições e esculturas, além de ter elaborado um catálogo de moedas. Entre 1916 e 1918, em plena Primeira Guerra Mundial, o austríaco Camillo Praschniker conduziu as primeiras escavações arqueológicas que revelaram partes das muralhas, do Grande Estoa e do teatro.
Estas descobertas atraíram a atenção de outros arqueólogos, como , L. Ugolini e C. Sestieri, que realizaram escavações superficiais entre 1920 e 1977. Entre 1978 e 1991, novos trabalhos foram realizados pelo Centro de Pesquisa Arqueológica da Academia de Ciências da Albânia sob a direção de Neritan Ceka e Skënder Muçaj, com ajuda do time de restauradores do Instituto de Monumentos (sob a direção de L. Papajani). Nessa temporada foram descobertos edifícios helenísticos (teatro, o Grande Estoa, o estádio, o estoa do teatro, a entrada a ágora e o espaço público entre ela, a cisterna sobre o estádio, o ginásio, as residências A e B) e edifícios romanos clássicos e tardios (basílicas A, C D e E, complexo episcopal, Termas de Justiniano, residências, etc.); o resultado destas prospecções foi publicado em Bílis: História e Monumentos. Desde 1999, uma missão albano-francesa liderada pelos professores Skënder Muçaj (time albanês) e Jean Pierre Sodini (time francês) dedicou-se ao estudo dos edifícios da Antiguidade Tardia; em 2003 Sodini foi substituído por Pasquale Chevaliere.
O sítio de Búlis localiza-se próximo as localidades de Balshi e Hekal, no distrito de Malacastra, ao sul da moderna Albânia. Está sobre uma colina chamada Gradichta e Hecaliti, a 524 metros acima do nível do mar, na margem direita do rio Vjosa. Mediante uma lei aprovada em abril de 2003 e regulamentada em 2005, Búlis e outros sítios arqueológicos foram classificados como parques arqueológicos. Segundo essa legislação, o sítio de Búlis é administrado pelo Gabinete de Gerenciamento de Búlis. O testemunho arqueológico local mais antigo remonta a , quando a cidade é fundada e recebe suas primeiras muralhas. A ágora é construída em e entre recebe um teatro, um estádio e seus muros são fortificados. O teatro foi renovado em À época que tornou-se uma colônia romana, os veteranos do exército construíram residências luxuosas e custearam edifícios públicos. No , a cidade foi reconstruída pelo imperador Teodósio II e recebeu basílicas e um complexo episcopal. Entre 552 e 565, quando é novamente construída sob ordens de Justiniano, ganhou uma nova muralha batizada de Muralha de Vitorino.
Ágora
A ágora da cidade foi construída na primeira metade do e cobre uma área de 4 hectares. Tem o formato dum retângulo regular e é dividida em dois terraços interligados entre si. Sua entrada tem a largura de 8,30 metros e abre-se num muro decorativo feito com blocos quadrados que a separa da área habitada da cidade. À esquerda há degraus que levam para o estádio e à direita há um edifício com dimensões de 20,20 x 5,80 metros, construído próximo ao muro. Ainda há dois edifícios e um pórtico com colunatas de madeira que poderiam ter servido como o pritaneu de Búlis, a sede dos altos magistrados (prítanes) da liga. No decurso de escavações desse monumento foram descobertas duas estátuas, a primeira com uma inscrição latina do período de Augusto e a outra com uma inscrição do , dedicada a Triteutas, a forma ilíria de Ártemis.
Algumas colunas dóricas e jônias estão agrupadas na praça, pertencendo todas elas a um monumento construído na parte ocidental. Deste monumento provém uma inscrição "César", assim como estelas que eram transportadas para a necrópole situada fora da zona murada original, próximo ao portão VI. Várias destas estelas datam do , e muitas foram reutilizadas no após o achatamento de antigas inscrições e a gravação de novas. A oeste do pritaneu situa-se um espaço fechado sem janelas e com apenas uma entrada, construído 3 metros menor contra a parede de trás da ágora com tamanho de 18,20 x 6,20 metros. Provavelmente um arsenal para armas, nele ainda há restos de suas colunas octogonais que serviram para manter o piso do primeiro andar, que levava para a ágora. Há também um espaço retangular de tamanho 5,88 x 7 metros que provavelmente serviu como um altar imperial, talvez de Augusto.
Teatro e estádio
thumb|esquerda|Teatro de Búlis
O teatro foi construído em meados do , no canto sudoeste da ágora, ao lado da seção sul das muralhas e próximo ao portão V, permitindo uma conexão direta com o território campestre da liga, de onde muitos dos espectadores provinham. Podia acomodar até espectadores que, segundo as suposições dos historiadores, deveriam permanecer em pé devido ao formato dos degraus da arquibancada. Ao todo havia 40 degraus, cada um com 40 centímetros de altura. O teatro possuía uma área para exposição de esculturas e a seu lado há um estoa, parcialmente preservado, com dimensões de 60 x 11,40 metros. Nele há restos dum tanque para armazenamento de água do telhado e uma fornalha. Ele abria-se para a ágora com uma colunata dórica embaixo e uma colunata jônia encima. No período helenístico, o cenário do teatro era uma plataforma de 3 metros suportada sobre colunas; quando Búlis tornou-se uma colônia, foi substituído por uma base de pedra e por um muro de fundo feito com tijolos.