miniaturadaimagem|350px|Bambata (ao centro) ladeado por guerreiros e mulheres. A rebelião de Bambata, também conhecida como rebelião zulu ou ainda Impi Yamakhanda, é como ficou conhecido o episódio da história da África do Sul ocorrido em 1906 com a insurgência de várias autoridades tradicionais na Colônia de Natal e na Zululândia, capitaneados pelo Chefe (Inkosi) Bambata da comunidade zulu dos amaZondi, contra a cobrança de impostos pelos brancos colonizadores.
Apesar do nome consagrado dessa insurreição nativa relembrar a figura de Bambata, a historiografia vem chamando o evento de "Rebelião Zulu" ou "Revolta Zulu" (ou, ainda: Rebelião de Natal, Rebelião Nativa de Natal e Rebelião da Poll Tax).
O termo rebelião também por vezes é contestado, pois implica na intenção de derrubar o poder constituído, e muitas vezes é utilizado revolta para designar os atos de insurgência ocorridos em vários locais da colônia; contudo, os seus líderes não reconheciam sua legitimidade política ou moral, apesar de reconhecerem a situação colonial, o que caracterizaria a rebelião ou revolução.
Embora tenha resultado na completa vitória do colonizador, a insurreição vem modernamente sendo considerada como um vitória moral dos movimentos nativos, e uma precursora da resistência ao sistema discriminatório do Apartheid na África do Sul. Embora no sistema colonial inglês seja considerada como um evento secundário, ela acelerou a criação da União Sul-Africana em 1910 e foi também a partir desta revolta que Mahatma Gandhi idealizou sua política de resistência pacífica aos opressores, além de ter inspirado Nelson Mandela desde sua infância.
Contexto histórico miniaturadaimagem|esquerda|O Rei Dinuzulu, sua deposição foi um dos motivos da rebelião. Com o fim da Guerra Anglo-Boer, o governo colonial se encontrava com os recursos exauridos; visando diminuir esta situação financeira o governo colonial inglês chefiado pelo Primeiro-Ministro Honorável Charles Smythe instituiu que os nativos deveriam pagar novos tributos (poll tax, ou taxa por habitante maior de 18 anos), gerando revolta entre as várias tribos zulus, chegando a um clímax com a mobilização da Zululândia sob a liderança de chefes como Bambata, aliados ao rei Dinuzulu, que ameaçaram uma invasão da Colônia de Natal.
Se o estopim da rebelião foi a cobrança do tributo, outros fatores vinham alimentando a insatisfação dos nativos: a grande imigração de brancos e de indianos mudava drasticamente o modo de vida tradicional da população negra; o estabelecimento de fazendas dos brancos na Zululândia para a produção de açúcar gerou insatisfação e humilhações e, em alguns casos, resultou na cobrança de aluguéis sobre as cabanas dos nativos nestas fazendas, disfarçada de imposto sobre as moradias.
Além desses fatores, também a obrigatoriedade do registro civil dos nascimentos e mortes, imposta pelo governo de Natal, contrariava os costumes dos negros; finalmente, o censo realizado em 1904 havia gerado muita desconfiança.
Bambata havia ascendido ao trono de chefe do povo AmaZondi, em 6 de junho de 1890, sucedendo ao seu pai e ao tio, contando então 25 anos de idade, e logo granjeou a simpatia de seu povo e o respeito dos anciãos.
Dinizulu, filho do rei Getshwayo e seu sucessor legítimo, fora deposto pelo governo de Natal e os brancos passaram a impor seus costumes no lugar dos hábitos tradicionais nativos, considerados repugnantes pelos "civilizados"; além disto os negros tiveram limitado o uso de armas de fogo, foram proibidos de beberem destilados europeus e não tinham quaisquer direitos políticos.
Finalizando os motivos de insatisfação, outros vieram a se somar para aumentar o estado de espírito rebelde dos nativos: uma febre dizimara boa parte do gado, seu principal símbolo de riqueza e status; uma corrente religiosa dissidente do wesleyanismo pregava uma nova religião cristã totalmente formada por negros, então denominada de "etiopismo", onde se defendia uma "África para os africanos" em suas mensagens, que ganharam força quando Natal foi assolada pelo granizo em maio de 1905, sendo considerado o fenômeno como um sinal dos céus.
Pelo lado dos brancos colonizadores havia um forte temor de que o movimento se alastrasse: na época os europeus compunham 8,3% da população, ao passo em que os nativos eram quase 82% dos habitantes; isto levou o governo colonial a uma rápida e violenta reação.
Incidentes precursores miniaturadaimagem|esquerda|Mapa de localização dos principais eventos da Rebelião de Bambata. O primeiro momento da revolta ocorreu no sul da província de Natal, quando em fevereiro e março a polícia entrou em choque contra manifestantes que protestavam contra as taxas impostas.
O governo colonial então decretou a lei marcial e promoveu uma mobilização parcial do efetivo das milícias coloniais, realizando então demonstrações que objetivavam dissuadir os protestos.
Ao norte, quando chegou a hora de pagar o imposto (22 de fevereiro de 1906) Bambata estava inicialmente predisposto a quitar a nova obrigação (ele já havia antes sido condenado por dívidas, acusações de roubo de gado e, logo no começo do ano, por disputas com grupos rivais - algo comum ainda nos tempos atuais, naquela região). Nhlonhlo, um de seus indunas (chefes de terras e conselheiro), porém, o informou que a maioria da comunidade estava disposta a não pagar e a resistir com armas se fosse preciso.
O magistrado de Greytown, J. W. Cross, recebeu um relatório informando-o de que seria morto caso fosse a Mpanza efetuar o recolhimento dos tributos; ele então convocou Bambata para que fosse até lá mas o líder, em vez disso, temendo fosse preso ali chegando, enviou um grupo de anciãos em seu lugar.
O resultado é que Bambata foi deposto como Inkosi dos amaZondi, e fugiu para os domínios do Rei Dinuzulu kaCetshwayo (mais tarde a esposa de Bambata, Siyekiwe, declarou que o rei o incentivara a voltar, para iniciar a rebelião, acusação que foi negada por este). Uma força da Polícia de Natal, capitaneada pelo Major W. J. Clark, reforçada por 170 homens da Polícia Montada da colônia, tentaram conter os dissidentes e prender Bambata - forçando sua fuga para o território vizinho da Zululândia.
Dinuzulu, apesar de deposto, era considerado como verdadeiro rei pela maioria do povo Zulu. Embora estivesse ciente de que não poderia voltar a ser rei, almejava ser o chefe supremo da Zululândia, para onde retornara em 1898; desde então ele exercia uma forte campanha diplomática e tinha que relatar ao magistrado residente em Nongoma todas as visitas importantes que recebia. Neste sentido informou ao colonizador a visita de Bambata feita em março, mas não a que este chefe fizera em maio, junto ao chefe Mangathi.
A rebelião começa miniaturadaimagem|Sir Henry Edward McCallum, governador de Natal, em 1907. Em 17 de janeiro um primeiro incidente demonstrou que as coisas seguiriam violentas, quando um fazendeiro levou seus trabalhadores para Camperdown a fim de pagarem seus impostos, e foi assassinado por um deles. Cinco dias depois o magistrado de Mapumulo foi ameaçado por centenas de pessoas que só não o mataram por conta da intervenção do seu chefe, Ngobizembe; outros incidentes similares ocorreram em Nsuze, Umvoti e outros locais. Em 7 de fevereiro o magistrado de Umgeni, Sr. T. R. Bennett foi ameaçado por 27 negros quando efetuava a cobrança do imposto em Henley; no dia seguinte 14 policiais brancos de Natal foram ao local para prender os suspeitos mas acabaram cercados e seus comandantes foram mortos; o comando recaiu então ao Sargento F. W. Stephens que, prudentemente, retornou a Pietermaritzburg.
Em face de tais incidentes, o governador Sir Henry McCallum, decretou o estado de sítio no dia 9 de fevereiro, mobilizando cerca de mil homens (o Carabineiros de Natal, dois esquadrões da Polícia Montada, um esquadrão do Regimento Real de Natal, duas seções da Artilharia, além dos destacamentos médico e do serviço telegráfico), que então prenderam dois homens acusados pelos assassinatos, e ambos foram executados após rápida corte marcial, na presença do seu chefe Mveli, que ajudara a capturá-los; dias depois mais 24 membros da comunidade também foram presos e 12 foram condenados mas, quando a notícia desses fatos chegou à Inglaterra, houve fortes protestos e o Secretário de Estado para as Colônias, Lorde Elgin, ordenou a McCallum que suspendesse as execuções e fizesse investigações mais aprofundadas; logo em seguida o gabinete do Primeiro Ministro e administrador de Natal Charles J. Smythe renuncia e o Secretário Elgin dá a McCallum poderes para levar adiante a execução, que ocorreu em um vale nos arredores de Richmond.
A crise continuou com incidentes ao sul da colônia e ao norte, em especial em Mapumulo e Greytown mas, em março, pareceu ter estabilizado a ponto de as forças sob o comando do Coronel McKenzie ser desmobilizada, o mesmo ocorrendo com outras tropas.
Foi então que surgiu a figura de Bambata, então um chefe menor do Vale do Mpanza, situado entre Greytown e Drift Keate, que tentava sem sucesso dissuadir seu induna Nhlonhlo a não resistir à cobrança do imposto, e ocorreu o incidente com o magistrado de Greytown.
miniaturadaimagem|esquerda|Mahatma Gandhi (sentado, ao centro, com seus maqueiros indianos) serviu como voluntário contra a Rebelião. O pânico se instalou em Greytown onde as autoridades interpretaram a recusa de Bambata em comparecer pessoalmente ao distrito (ele alegara problemas estomacais), junto ao fato de não ter relatado a resistência de Nhlonhlo, como sua anuência ao conluio com os dissidentes. Perseguido, Bambata cruza o rio Tugela e, seguindo as tradições zulus, recebe abrigo nos domínios de Dinuzulu.
A 31 de março Bambata retorna a Mpanza, acompanhado do assistente pessoal de Dinuzulu, Cakijana. Ali ele ordena a prisão de Magwababa, seu tio que fora nomeado regente, enquanto a esposa de seu irmão Funizwe se refugia junto a um fazendeiro branco, de nome Botha, que imediatamente relata os fatos às autoridades.
Em 4 de abril uma força de 173 policiais da colônia marchou rumo a Mpanza, chegando à fazenda de Botha, a cerca de 10 km da comunidade rebelada e promoveu o resgate dos brancos, retornando; no caminho sofrem uma emboscada e tem quatro homens mortos, enquanto nenhum dos rebeldes é sequer ferido, dando origem à crença nos poderes do feiticeiro, Malaza, de torná-los imunes às armas dos brancos.
Em 8 de abril as forças sob comando do Coronel Leuchars cercam a aldeia e disparam contra a cabana de Bambata, que fugira pelo Desfiladeiro de Mome (Mome Gorge), alcançando o poderoso clã de amaCube, na Zululândia, onde todos simpatizavam com Bambata e sua resistência ao pagamento dos impostos, recebendo então apoio do importante chefe Sigananda; em 14 de abril o governo oferecera uma rica recompensa por Bambata e em 17 de abril toda amaCube havia se rebelado
Como reação, em 16 de abril o Comissário para Assuntos Nativos, Charles Saunders, havia recomendado a mobilização de uma grande força imperial capaz de conter a disseminação da revolta, mas a ideia foi rejeitada e o governo preferiu reunir suas próprias milícias e fez um apelo pelo reforço aos países vizinhos, sendo respondido pelo Transvaal (reforço de cerca de 500 homens), e o Coronel Duncan McKenzie foi nomeado comandante de todas as tropas.
O plano geral era enviar as tropas para as cercanias da Floresta Nkandla (terreno bastante acidentado com vales, montanhas, matas, palco de muitos eventos históricos para o zulus, onde está a sepultura do heroico rei Cetshwayo) patrulhar as margens do Tugela e conter as ações de outro chefe rebelado, o poderoso Kula.
A participação de Gandhi: nascimento da Satyagraha
miniaturadaimagem|direita|Gandhi, quando morando na África do Sul