thumb|direita|Localização aproximada dos crátons do Mesoproterozóica (com mais de ) na América do Sul e África. O São Luís e os fragmentos cratônicos do Luis Alves (Brasil) são mostrados, mas o cráton Arequipa-Antofalla e alguns crátons africanos menores não são. O Cráton do São Francisco, também chamado Cráton São Francisco-Congo, é um cráton situado na parte oriental da América do Sul. Aflora nos estados brasileiros de Minas Gerais, Bahia e Sergipe. Em torno de 1,0 gigaannum atrás, ele estava localizado no sul do supercontinente Rodínia e depois da fragmentação deste no final do Proterozoico (700 megaannum) tornou-se parte do supercontinente Gonduana até sua fragmentação no Jurássico (cerca de 180 megaannum). A abertura posterior do Oceano Atlântico deixou o sul da África no Cráton do Congo e Cráton do São Francisco na América do Sul.

Descrição

De forma simples, crátons são entendidos como porções da litosfera continental de longa estabilidade e resistência mecânica. Além disso, apresentam raízes espessas e antigas, de espessuras crustais ligeiramente superiores à média dos continentes.ALKMIM, F. F. 2004. O que faz de um cráton um cráton? O cráton do São Francisco e as revelações almeidianas ao delimitá-lo. In: MANTESSO-NETO, V. et al. (ed.) Geologia do Continente Sul-Americano: Evolução da Obra de Fernando Flávio Marques de Almeida, p. 17-34, São Paulo, Beca, 647p. O Cráton do São Francisco situa-se no centro-leste do Brasil. Abrangindo mais de 1 bilhão de quilômetros quadrados, inclui parte dos territórios de Minas Gerais (MG), Bahia (BA), Goiás (GO), Piauí (PI), Sergipe (SE), Pernambuco (PE) e Tocantins (TO), principalmente dos dois primeiros estados.Monica Heilbron; Umberto G. Cordani; Fernando F. Alkmim;. 2017. São Francisco Craton, Eastern Brazil: Tectonic Genealogy of a Miniature Continent. Editora Springer Nature. 1 Ed. 331 p.

Juntamente com os crátons do Amazonas, de São Luís e Rio de La Plata, o Cráton do São Francisco corresponde às porções internas das placas tectônicas, que foram aglutinadas no final do Proterozoico, formando a porção oeste de Gonduana.ALKMIM, F. F., MARTINS NETO, M. A. 2012. Proterozoic first-order sedimentary sequences of the São Francisco craton, eastern Brazil. Marine and Petroleum Geology, 33: 127-139, maio 2012. Assim, a geologia de domínios cratônicos e seus cinturões marginais fornecem informações de longos períodos da história da Terra, um dos motivos pelo qual o Cráton do São Francisco e suas margens sejam a porção Pré-Cambriana mais estudada da placa Sul-Americana.Monica Heilbron; Umberto G. Cordani; Fernando F. Alkmim;. 2017. São Francisco Craton, Eastern Brazil: Tectonic Genealogy of a Miniature Continent. Editora Springer Nature. 1 Ed. 331 p.

O Cráton do São Francisco é bordejado por cinturões orogênicos Brasilianos por todos os lados (Figura 1) – Faixa Araçuaí a sudeste; Faixa Ribeira a sul; Faixa Brasília a oeste; Faixa Rio Preto a noroeste; Faixas Riacho do Pontal e Sergipana a norte - com exceção da costa Atlântica, a leste, onde o cráton está subjacente às bacias Camamú, Almada e Jacuípe e Jequitinhonha, na margem continental.Monica Heilbron; Umberto G. Cordani; Fernando F. Alkmim;. 2017. São Francisco Craton, Eastern Brazil: Tectonic Genealogy of a Miniature Continent. Editora Springer Nature. 1 Ed. 331 p.

O embasamento do cráton constitui um bloco estável arqueano de orientação norte-sul, aflorante em suas porções sul e nordeste. É formado por rochas mais antigas que 1.8 gigaannum, incluindo gnaisses TTG arqueanos, granitoides e greenstone belts, além de plútons e sequências supracrustais paleoproterozóicas.Monica Heilbron; Umberto G. Cordani; Fernando F. Alkmim;. 2017. São Francisco Craton, Eastern Brazil: Tectonic Genealogy of a Miniature Continent. Editora Springer Nature. 1 Ed. 331 p.

Sua cobertura é representada por unidades mais novas que 1.8 Ga, dispostas em três grandes unidades morfotectônicas, que são a Bacia Sanfranciscana, o Aulacógeno do Paramirim e parte do Rifte Recôncavo-Tucano-Jatobá, além da bacias antepaís do Rio Pardo e da Faixa Sergipana.ALKMIM, F. F. 2004. O que faz de um cráton um cráton? O cráton do São Francisco e as revelações almeidianas ao delimitá-lo. In: MANTESSO-NETO, V. et al. (ed.) Geologia do Continente Sul-Americano: Evolução da Obra de Fernando Flávio Marques de Almeida, p. 17-34, São Paulo, Beca, 647p.

Evolução geológica Algumas simplificações e/ou generalizações são necessárias para produzir esse material. Ressalta-se que várias questões acerca das definições, evolução e significado geológico são temas de controvérsias científicas. Recomenda-se, deste modo, consulta às referências bibliográficas no final do texto para maior aprofundamento nas questões científicas do Cráton do São Francisco.

Arqueano O Cráton do São Francisco apresenta informações da geologia do Arqueano, importantes para entender a geodinâmica inicial terrestre.ALKMIM, F. F. 2004. O que faz de um cráton um cráton? O cráton do São Francisco e as revelações almeidianas ao delimitá-lo. In: MANTESSO-NETO, V. et al. (ed.) Geologia do Continente Sul-Americano: Evolução da Obra de Fernando Flávio Marques de Almeida, p. 17-34, São Paulo, Beca, 647p.

Seu embasamento Arqueano é uma extensão do Cráton do Oeste do Congo e aflora nas porções sul e norte do Cráton do São Francisco, com ocorrências menores em janelas estratigráficas na Bacia Sanfranciscana e um bloco delimitado por falhas no Aulacógeno do Paramirim.ALKMIM, F. F. 2004. O que faz de um cráton um cráton? O cráton do São Francisco e as revelações almeidianas ao delimitá-lo. In: MANTESSO-NETO, V. et al. (ed.) Geologia do Continente Sul-Americano: Evolução da Obra de Fernando Flávio Marques de Almeida, p. 17-34, São Paulo, Beca, 647p.

A sul, as rochas de idade arqueana correspondem aos complexos Bação, Belo Horizonte, Caeté, Santa Bárbara e Bonfim, que são granito-gnáisses expostos em formato dômico no Quadrilátero Ferrífero,LANA C., ALKMIM F. F., ARMSTRONG R., SCHOLZ R., ROMANO R., NALINI Jr H. A. 2013. The ancestry and magmatic evolution of Archean TTG rocks of the Quadrilátero Ferrífero Province, southeast Brazil. Precambrian Research, 231: 157-173. onde também encontra-se o Supergrupo Rio das Velhas, uma típica sucessão metavulcanossedimentar que constitui o greenstone belt Rio das Velhas,ALKMIM, F. F. 2004. O que faz de um cráton um cráton? O cráton do São Francisco e as revelações almeidianas ao delimitá-lo. In: MANTESSO-NETO, V. et al. (ed.) Geologia do Continente Sul-Americano: Evolução da Obra de Fernando Flávio Marques de Almeida, p. 17-34, São Paulo, Beca, 647p. além do complexo Campo Belo, a oeste do Quadrilátero Ferrífero.FERNANDES R.A., CARNEIRO M.A. 2000. O Complexo Metamórfico Campo Belo (Cráton São Francisco meridional): unidades litodêmicas e evolução tectônica. Rev. Bras. Geoc., 30(4):671-678. thumb|Mapa geológico simplificado da porção meridional do Cráton do São Francisco. Modificado de Teixeira et al. (2017)

No Quadrilátero Ferrífero, as rochas do embasamento ocorrem em grandes depressões do relevo, contrastando com as serras formadas pelas rochas do Supergrupo Minas e com o as escarpas e morros intermediários moldados sobre o Supergrupo Rio das Velhas.VARAJÃO C. A. C. 1991. A questão da correlação das superfícies de erosão do Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais. Revista Brasileira de Geociências, 21(2): 138-145. Esse conjunto de rochas arqueanas divide-se em complexos de rochas tonalíticas-trondjhemíticas-granodioríticas (TTG’s), sendo eles: Bação, Belo Horizonte, Caeté, Santa Bárbara e Bonfim . A mineralogia dessa assembleia TTG varia de hornblenda-biotita-plagioclásio-quartzo tonalitos a plagioclásio-K-feldspato-biotita-quartzo granodioritos e, em termos evolutivos, esses complexos mostram diversas fases de implantação de magmas TTG, que por sua vez são intrudidos por corpos graníticos potássicos.LANA C., ALKMIM F. F., ARMSTRONG R., SCHOLZ R., ROMANO R., NALINI Jr H. A. 2013. The ancestry and magmatic evolution of Archean TTG rocks of the Quadrilátero Ferrífero Province, southeast Brazil. Precambrian Research, 231: 157-173.

A história da evolução da geração de magmas TTG, abordados como produto de arcos magmáticos arqueanos,LANA C., ALKMIM F. F., ARMSTRONG R., SCHOLZ R., ROMANO R., NALINI Jr H. A. 2013. The ancestry and magmatic evolution of Archean TTG rocks of the Quadrilátero Ferrífero Province, southeast Brazil. Precambrian Research, 231: 157-173. traz interessantes implicações para o entendimento da geração primordial de crosta continental na América do Sul. Nesse sentido, o Complexo de Santa Bárbara possui a idade mais antiga, mostrando idades de cristalização de zircões em torno de 3.210 Ma pelo método de U-Pb.LANA C., ALKMIM F. F., ARMSTRONG R., SCHOLZ R., ROMANO R., NALINI Jr H. A. 2013. The ancestry and magmatic evolution of Archean TTG rocks of the Quadrilátero Ferrífero Province, southeast Brazil. Precambrian Research, 231: 157-173. Essa seria a única evidência encontrada no Quadrilátero Ferrífero da existência de uma crosta Paleoarqueana.FARINA F., ALBERT C., MARTÍNEZ DOPICO C., AGUIAR GIL C., MOREIRA H., HIPPERT J. P., CUTTS K., ALKMIM F. F., LANA C. 2016. The Archean-Paleoproterozoic Evolution of the Quadrilátero Ferrífero (Brazil): Current models and open questions. Journal of South American Earth Sciences, 68: 4-21.

Segundo,LANA C., ALKMIM F. F., ARMSTRONG R., SCHOLZ R., ROMANO R., NALINI Jr H. A. 2013. The ancestry and magmatic evolution of Archean TTG rocks of the Quadrilátero Ferrífero Province, southeast Brazil. Precambrian Research, 231: 157-173. a evolução da crosta TTG do paleo ao neoarqueano no sul do Cráton do São Francisco deu-se a partir de três principais eventos: (i) Santa Bárbara: formação de um núcleo TTG paleoarqueano em 3.212 – 3.210 Ma com adição de rochas félsicas em rochas máficas-ultramáficas; (ii) Rio das Velhas I: Crescimento da crosta paleoarqueana com adição de TTG juvenil e acresção tectônica do terreno greenstone belt máfico-ultramáfico entre 2930 e 2900.(iii) Rio das Velhas II: Último evento de produção de crosta TTG, marcado por magmatismo relacionado a convergência, coincidente com vulcanismo félsico e deposição de grauvacas e turbiditos do greenstone belt entre 2800 e 2770 Ma.

O Complexo Campo Belo é um terreno de médio a alto grau metamórfico, composto por ortognaisses TTG, dioritos, enderbitos e plútons graníticos em fácies anfibolito, datados entre 2904 e 2881 Ma pelo método Rb-Sr.ALKMIM, F. F. 2004. O que faz de um cráton um cráton? O cráton do São Francisco e as revelações almeidianas ao delimitá-lo. In: MANTESSO-NETO, V. et al. (ed.) Geologia do Continente Sul-Americano: Evolução da Obra de Fernando Flávio Marques de Almeida, p. 17-34, São Paulo, Beca, 647p.

De idade Arqueana, determinada pelo método U-Pb utilizando zircões detríticos porNOCE, C.M., ZUCCHETTI, M., BALTAZAR, O.F., ARMSTRONG, R., DANTAS, E.L., RENGER, F.E., LOBATO, L.M., 2005. Age of felsic volcanism and the role of ancient continental crust in the evolution of the Neoarchean Rio das Velhas greenstone belt (Quadrilátero Ferrífero, Brazil): UePb zircon dating of volcaniclastic graywackes. Precambrian Research, 141:67-82. - 2751 Ma, 2774 Ma e 2792 Ma o Supergrupo Rio das Velhas foi reconhecido como uma típica sequência Greenstone Belt, metamorfizada em condições de fácies xisto verde a anfibolito baixo e comumente hidrotermalizada.

O Grupo Nova Lima, base da sequência greenstone belt, é formado predominantemente por rochas básicas, grauvacas e quartzitos, com intercalações de formação ferrífera bandada, de rochas quartzo-dolomíticas e quartzo-ankeríticas, além de conglomerados e filitos carbonosos.BALTAZAR O. F., ZUCCHETTI M. 2007. Lithofacies associations and structural evolution of the Archean Rio das Velhas greenstone belt, Quadrilátero Ferrífero, Brazil: A review of the setting of gold deposits. Ore Geology Reviews, 32: 471-499.