thumb|Mosaico satírico da primeira metade do encontrado em Tisdro (atual El Jem), no que era a África Proconsular, que faz lembrar um cartoon, onde nem sequer faltam os balões escritos em latim

O e o foram as principais línguas no Império Romano, mas houve outros idiomas que também tiveram relevância a nível local. A língua nativa dos antigos romanos era o latim, que servia como "língua de poder" e que era muito usado em todo o Império Romano, nomeadamente pelos militares e nos tribunais do Ocidente. Após ter sido concedida a cidadania romana a todos os habitantes nascidos livres do império, em , teriam passado a existir muitos cidadãos romanos que não falavam latim, apesar de supostamente deverem ter um conhecimento pelo menos simbólico dessa língua, a qual continuou a ser uma marca da "romanidade".

O grego koiné tinha-se tornado uma língua franca no Mediterrâneo Oriental e na Ásia Menor como consequência das conquistas de Alexandre, o Grande no A "fronteira linguística" que dividia o ocidente latino e o oriente grego passava pela península dos Bálcãs. Os romanos cultos, particularmente os da elite governante, estudavam grego e frequentemente adquiriam uma grande fluência nessa língua, a qual era útil para as comunicações diplomáticas no Oriente inclusivamente para lá das fronteiras do império. O uso internacional do grego foi uma das condições que possibilitou a expansão do cristianismo, o que é patente, por exemplo, na escolha do grego como língua em que foram escritas as epístolas de São Paulo e o seu uso nos concílios ecuménicos. Quando o Império do Ocidente se dissolveu, o grego passou a ser a língua dominante no Império Oriental, mais tarde conhecido como Império Bizantino.

Devido à comunicação nas sociedades da Antiguidade ser predominantemente oral, é difícil determinar até que ponto as línguas regionais ou locais continuaram a ser faladas ou usadas para outros propósitos sob o domínio romano. Há algumas menções a outras línguas em inscrições e em textos gregos e romanos, bem como da necessidade de intérpretes. No que toca ao púnico, copta, aramaico ou siríaco, chegou aos nossos dias uma quantidade significativa de registos epigráficos e literários. As línguas celtas estavam disseminadas por grande parte da Europa Ocidental e apesar da oralidade da cultura celta, que está na origem da raridade de registos escritos, existem algumas inscrições que, não sendo abundantes, também não são raras. As línguas germânicas do império praticamente não deixaram vestígios epigráficos ou textuais, à exceção do gótico. O multilinguismo contribuiu para a "triangulação cultural" pela qual quem não fosse grego nem romano podia construir uma identidade através de processos de romanização e helenização.

Após a descentralização do poder político na Antiguidade Tardia, o latim desenvolveu-se localmente nas províncias em diversos ramos que se tornaram as línguas românicas, como o , , , ou , entre outras. No início do , a primeira ou segunda língua de mais de mil milhões de pessoas era derivada do latim. O latim propriamente dito permaneceu um meio de expressão internacional na diplomacia e desenvolvimento intelectual, identificado com o humanismo do Renascimento, até ao . Ainda é usado atualmente em direito e pela Igreja Católica.

Latim thumb|upright=0.9|esquerda|Latim cursivo em terra sigillata de La Graufesenque na Gália romana

O latim foi a língua dos romanos desde o período mais antigo que se conhece. Escrevendo durante o reinado de Augusto , o primeiro imperador romano, Virgílio salienta que o latim era uma fonte da unidade e tradição romanas. Na sua obra épica Eneida, sobre a fundação de Roma, o deus supremo Júpiter ordena que os refugiados troianos que se estabeleceram em Itália usem a língua dos nativos latinos como forma de unificação — «irão manter a fala (`sermo´) e costumes dos seus pais [...] e eu os farei todos latinos com um modo de expressão (`uno ore', literalmente: "com uma boca")». Os imperadores da dinastia júlio-claudiana , que se reclamavam descendentes do herói virgiliano Eneias, promoveram padrões elevados de latim correto (latinitas), um movimento linguístico identificado modernamente como latim clássico, além de favorecerem o latim na burocracia oficial e negócios.

O latim tornou-se a língua das áreas conquistadas porque as populações locais começaram a falá-lo e não porque tivesse havido expulsão de pessoas por falantes de latim. O latim não era imposto oficialmente às pessoas que viviam sob o domínio romano. Santo Agostinho observou que os romanos preferiam que o latim fosse adotado "per pacem societatis", ou seja, através de um pacto social. Esta política em relação à língua contrastava com a de Alexandre, que quis impor o grego em todo o seu império como língua oficial. Saber latim não era um requisito para a cidadania romana e não havia escolas suportadas pelo estado que privilegiassem o latim como meio de educação. No entanto, era conveniente ser fluente em latim devido ao seu elevado valor cultural, político, legal, social e económico. O latim era obrigatório no serviço imperial e era a língua usada no funcionamento interno do governo. Os éditos e comunicações oficiais do imperador eram em latim, incluindo regulamentação de leis locais que pudessem estar escritas noutra língua.

Os romanos davam um grande valor à palavra escrita, como se pode constatar pela sua obsessão por documentação e inscrições públicas. A burocracia imperial era tão dependente da escrita que o declarava que «se todos os mares fossem tinta, todas as canas fossem canetas, todos os céus pergaminho e todos os homens escribas, eles seriam incapazes de responder a todas as exigências do governo romano.» As estimativas da taxa de literacia média no império variam entre 5 e 30% ou mais, dependendo da definição de "literacia". O facto do estado não intervir na educação era uma barreira para a literacia, pois a educação formal só era acessível às crianças cujos pais tinha meios para a pagar.

thumb|upright=1|Voto grego num altar a Esculápio pelo cônsul IG 14.1125

As certidões de nascimento e testamentos dos cidadãos romanos eram obrigatoriamente escritos em latim até ao reinado de Alexandre Severo . Os romanos analfabetos recorriam a alguém, como escribas do governo (scriba), para ler ou escrever os seus documentos oficiais. As leis e éditos eram publicados por escrito e também eram anunciados oralmente. A arte pública e as cerimónias religiosas eram formas de comunicar a ideologia imperial, independentemente da língua falada ou da capacidade de leitura. Os artistas gregos levaram para Roma uma forma primitiva de dança narrativa (pantomimo) que se tornou popular por todo o império multilíngue, em parte porque se baseava mais em gestos do que na expressão verbal.

O latim foi a língua oficial do exército romano até meados do e permaneceu a língua mais comum para uso militar, inclusivamente no Império do Oriente, até à década de 630. Pelo contrário, só há registo de dois bispos terem falado latim nos concílios ecuménicos realizados durante o reinado de .

Grego

miniaturadaimagem|350x350px|A divisão linguística do Império Romano, com o latim predominando no Ocidente e o grego predominando no Oriente. Na sequência das conquistas de Alexandre, o Grande no , o grego koiné tornou-se a língua franca do Mediterrâneo Oriental e da Ásia Menor. Luciano de Samósata vai ao ponto de imaginar que o grego é a língua universal dos mortos no mundo inferior. Na Antiguidade Tardia, o grego era o idioma falado pela maior parte dos habitantes da península e ilhas gregas, das maiores cidades do Oriente, da Anatólia ocidental e de algumas áreas costeiras no Mediterrâneo Oriental. O grego persistiu como a língua do Império Bizantino e evoluiu para uma variante distinta da clássica, o grego medieval, que daria origem ao grego moderno.

Bilinguismo greco-latino e tradução

thumb|upright=1|esquerda|Um papiro com texto em latim e em grego de um discurso de CíceroCicero, In Catilinam 2.15, P.Ryl. I 61 "recto".

Não obstante o latim ser apresentado por Virgílio como uma fonte unificadora de identidade, o bilinguismo em grego teve um papel primordial na tradição literária romana. Os romanos que recebiam educação de elite estudavam grego como língua literária e muitos dos membros da classe governante sabiam falar grego. Um desultor litterarum (literalmente: "acrobata literário"), figura caraterística do meio cultural conhecido como Segunda Sofística, era alguém que tinha a capacidade de saltar de trás para a frente entre as duas línguas. Por seu turno, aqueles para quem o grego era a língua materna e pertenciam à elite intelectual eram capazes de praticar crítica literária de textos em latim.

O imperador Cláudio tentou limitar o uso do grego e a certa altura chegou a revogar a cidadania de quem não falasse latim. No entanto, ele próprio ostentava o seu bilinguismo até quando se dirigia ao senado romano quando comunicava com embaixadores que falavam grego. Suetónio cita Cláudio referindo-se às "nossas duas línguas" e de como tinha dois secretários imperiais, um para grego e outro para latim. A interpenetração das duas línguas do dia a dia é indicada por inscrições bilingues, que por vezes misturando as duas línguas. Por exemplo, o epitáfio de um soldado que falava grego podia ser escrito primariamente em grego, mas com o seu posto e unidade militar escritos em latim.

No Império do Oriente, as leis e documentos oficiais era regularmente traduzidos para grego a partir do latim. Ambas as línguas era usadas ativamente por funcionários governamentais e pela igreja durante o . A partir do século seguinte, a cultura grega passou a ser estudada no Ocidente quase exclusivamente através de traduções em latim. Em textos gregos da Antiguidade Tardia e período bizantino é frequente o uso de termos emprestados do latim em tópicos técnicos.

Movimentos de reforma linguística

thumb|upright=1.3|Mapa das línguas regionais do império por volta do ano 150 EC

O aticismo foi uma moda da Segunda Sofística. Intelectuais como Élio Aristides procuraram restaurar os padrões do grego clássico caraterístico do dialeto ático, representado por Tucídides, Platão, Demóstenes e outros autores do período clássico. Estilistas de prosa que aspiravam o aticismo tentaram evitar os vulgarismos do koiné, um objetivo impraticável, mas este purismo linguístico refletiu igualmente o florescimento de gramáticos e lexicógrafos no . O conhecimento da língua e da literatura contribuíram para preservar a cultura helenística no mundo romano.

Entre outras reformas, o imperador Diocleciano procurou reforçar a autoridade do latim e a expressão grega ἡ κρατοῦσα διάλεκτος (hē kratousa dialektos), "dialeto do estado", atesta a continuidade do status do latim como a "língua do poder". O académico do Libânio achava que o latim causava o declínio da qualidade da retórica em grego. No início do , o imperador Justiniano empreendeu um esforço quixotesco para impor novamente o latim como língua de lei, apesar de nesse tempo o latim já não qualquer relevância como língua viva no Oriente.

Línguas regionais O predomínio do latim e grego na elite letrada pode ter obscurecido a continuidade de outras línguas faladas, pois todas as culturas do Império Romano eram essencialmente orais. Em áreas onde o siríaco, copta, hebreu e aramaico eram falados, esses idiomas coexistiram com o grego.

Aramaico e siríaco

thumb|upright=0.9|esquerda|Busto funerário () de Acmat, uma mulher síria, com uma inscrição no dialeto palmireno do aramaico