O Banco Halles foi uma instituição financeira brasileira. Fundado em 1967, foi um dos bancos de investimento de maior crescimento do Brasil até apresentar graves problemas financeiros e sofrer uma intervenção do Banco Central por insolvência em 1974. Para evitar pânico no mercado bancário, o Banco Central fez com que o Halles fosse adquirido pelo Banco do Estado da Guanabara em um negócio controverso. A formação e crescimento do Halles foi estimulada pela Lei de Reforma Bancária do governo Castelo Branco que estimulou fusões e aquisições de bancos menores por outros maiores, permitindo uma concentração bancária. Para a formação e crescimento do Halles, seus sócios adquiriram o controle de quatro outros bancos que acabaram fundidos em curto prazo. O crescimento desestruturado em meio ao Milagre econômico brasileiro fez com que o banco atravessasse uma crise de liquidez que culminou com a intervenção do Banco Central do Brasil na instituição e sua posterior liquidação em 1974.
História
O Banco Halles de Investimento foi aberto em 1967 através da carta-patente nº A-67/1107 conferida pelo Banco Central do Brasil em 28 de março de 1967. Segundo Benedito Ribeiro e Mário Mazzei Guimarães:
Ao mesmo tempo Ribeiro e Guimarães destacaram a evolução do capital do Halles. Em dezembro de 1964, quando ainda era um fundo de investimentos, o Halles possuía um capital de 400 milhões de cruzeiros novos. Um ano depois o capital do fundo havia sido multiplicado quase sete vezes, chegando a 2,7 bilhão de cruzeiros novos. Quando o banco foi formado (1967), o capital do fundo Halles era de 8 bilhões de cruzeiros novos.
Associação com Jabour
Em 1971 Francisco Pinto Junior (fundador do Halles) se associou a João Jabour (então maior acionista individual do Banco do Brasil), formando a holding JJH, com a qual Jabour passou a ser o maior acionista individual do Halles, com 50% das ações enquanto os demais acionistas do Halles ficaram com os outros 50%.
A JJH passou a adquirir ações do Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais para tentar tomar o controle acionário do banco (takeover). A especulação sobre a compra de ações do banco fez quadruplicar o valor de suas ações na Bolsa do Rio. Em janeiro de 1971 a JJH detinha 16% das ações do banco e tencionava alcançar 20% a 22% para obter o controle acionário. A direção do banco era contrária ao takeover e chegou a oferecer a vice-presidência da instituição a Jabour, que a recusou. A JJH alcançou 20,3% das ações do Banco Comércio e Indústria de Minas, sendo 19,87% de ações próprias e 0,43% de ações de Custódio Braga Filho. Filho havia assinado uma procuração para a JJH representa-lo no conselho do banco. No dia 31 de março de 1971 ocorreu a Assembleia Geral Ordinária do Banco Comércio e Indústria de Minas. Prestes a tomar o controle da instituição, Jabour foi surpreendido pela desistência de Braga Filho que compareceu na assembleia e anulou a procuração, impedindo a JJH de assumir o banco. Quatro meses depois a JJH se desfez das ações do Banco Comércio e Indústria de Minas, vendendo-as para o grupo então controlador do banco. A briga pelo seu controle acionário acabou custando caro ao Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais que entrou em crise e acabou adquirido pelo Banco Nacional em 1972.
Sem o Comércio e Indústria de Minas, a JJH adquiriu o controle de quatro outros bancos ainda em 1971: Lowndes, Intercâmbio Nacional, Mineiro de Descontos e Auxiliadora do Paraná.
Em 1972 o Halles incorporou o Banco Andrade Arnaud (cinco vezes maior que o próprio Halles) por 300 milhões de cruzeiros (em valores de setembro de 1973) em uma das maiores aquisições da época. Para adquirir o controle do Banco Andrade Arnaud, o Halles teve de recorrer a Jabour que financiou parte da aquisição oferecendo como garantia suas ações no BB. A outra parte dos recursos foi obtida através de um empréstimo com o Chase Manhattan Bank.
No primeiro semestre daquele ano, o Banco Halles de Investimento anunciou um lucro líquido de 16 milhões de cruzeiros, sendo 81,9% superior ao lucro obtido no primeiro semestre do ano anterior. Já o recém criado Banco Halles de Indústria e Comércio obteve lucro líquido de 24,1% superior ao apresentado no semestre anterior, quando foi fundado. No final de 1972 o Sumitomo Group adquiriu 5% do controle acionário do Halles.
Descontentes com o controle exercido por Jabour, os acionistas Stanislaw Szaniecki e Carlos Lino Matos passaram a lutar pelo controle acionário do Halles. Em dezembro de 1972 surgiram os primeiros boatos sobre o interesse de Jabour em vender suas ações no Halles.
Nova gestão
O primeiro sinal de que algo não ia bem no Halles foi em dezembro de 1972 quando ocorreu a não quitação da primeira parcela de empréstimo do Chase Manhattan Bank para a compra do Andrade Arnaud. O Halles admitiu não ter todo o recurso para quitar a parcela no prazo. Com o atraso consumado, o Chase Manhattan tentou acionar uma cláusula contratual para assumir o controle acionário do banco brasileiro. Instado pelo Halles, o governo brasileiro interferiu e impediu a troca do controle acionário. Pouco tempo depois desse episódio, Jabour e Pinto venderam suas ações no Halles para Szaniecki e Matos.
Ao assumir a gestão do Halles, Szaniecki e Pinto substituíram Jabour por José Sílvio Magalhães. A nova gestão resolveu diversificar os negócios do Halles e passou a investir em comércio, importação, construção civil, educação, entre outros ramos. Sem expertise nessas áreas, o Halles passou a perder recursos. A malsucedida entrada no mercado de exportação de soja através da subsidiária All Trade foi o maior deles, causando mais de 125 milhões de cruzeiros em prejuízos ao banco.
O Banco Central vetou a aquisição do Banco da Lavoura de Minas Gerais pelo Halles por problemas na incorporação do Banco Andrade Arnaud ao seu conglomerado. No fim, o Minas Gerais foi adquirido pelo Banco Real.
Liquidação
Enquanto todos os bancos brasileiros apresentaram seus relatórios financeiros ao mercado e ao governo em fevereiro de 1974, o Banco Halles não apresentou o relatório. Até então o governo Médici evitava intervenções reais no sistema financeiro, optando pela chamada "intervenção branca", onde o governo federal reunia empresários e forçava aquisições, fusões e incorporações de empresas em dificuldade. No início de 1974 o trio acionista do Halles (Szaniecki, Pinto e Magalhães) escreveu uma carta para o Banco Central do Brasil em 14 de março de 1974 para ser entregue ao presidente Ernane Galvêas. Na carta, o trio acionista majoritário informava que o Banco Halles de Investimentos se encontrava insolvente naquele momento e listava medidas tomadas para sanear o banco. Além disso, os dirigentes do Halles esperavam uma intermediação do governo brasileiro na resolução dos problemas do grupo e pediam para publicar o relatório de 1973 do Banco Halles sem os números reais do prejuízo, pois acreditavam que ele poderia ser recuperado em 1974. Por razões desconhecidas, a carta jamais foi entregue para Galvêas, que deixou o cargo no dia seguinte. Seu sucessor Paulo Hortêncio Pereira Lira leu a carta e a apresentou ao ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen. O novo governo, liderado por Ernesto Geisel, optou por uma intervenção no Banco Halles e tomou a carta como confissão de insolvência por parte de seus acionistas. Para evitar pânico no mercado financeiro, o Banco Central lançou uma operação confidencial para intervir discretamente no Halles. Apesar do cuidado do Banco Central, a operação e a proposta de liquidação do Halles havia vazado para alguns empresários dez dias antes da intervenção.
A intervenção foi realizada em 16 de abril de 1974 através da aplicação da então recém promulgada Lei Federal 6024/1974. Naquele momento o Halles era o oitavo maior conglomerado bancário do Brasil, com mais de cem agências, duzentos mil correntistas, mais de cinco mil funcionários e cerca de trinta mil acionistas. No momento da intervenção, os acionistas do Halles negociavam a venda do banco para o empresário português António de Sommer Champalimaud. Apesar da tentativa do Banco Central em não causar pânico no mercado, a intervenção no Halles causou queda nos pregão da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro de 3,5% em 17 de abril, enquanto o presidente Geisel recebeu do ministro Simonsen um informe confidencial sobre a insolvência iminente de três outras instituições bancárias (BUC, Aúrea e Crecif).
O Halles também chegou a ser oferecido ao empresário Sebastião Camargo, dono do Grupo Camargo Corrêa. A proposta era que Camargo incorporasse o Halles ao Banco Geral do Comércio. Camargo se recusou a participar da aquisição e o negócio não foi adiante. Posteriormente o novo governo português empossado após a Revolução dos Cravos proibiu Champalimaud de adquirir o Halles.
No final de maio, sem opção, o Banco Central acabou patrocinando a encampação do Halles pelo Banco do Estado da Guanabara (BEG). Segundo o jornalista José Carlos de Assis, no livro A Chave do Tesouro, em junho o Banco Central do Brasil já havia gasto Cr$ 8 bilhões (cerca de US$ 1,2 bilhão pelo câmbio de 6 de junho de 1974) com a crise do Halles.
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Categoria:Bancos extintos do Brasil Categoria:Bancos de investimento