Quando o assunto é o surgimento do pensamento ilustrado e da ciência empírica no Brasil, a trajetória da Academia Científica do Rio de Janeiro — registrada também sob os nomes de Academia das Ciências e da História Natural do Rio de Janeiro ou Academia de Medicina e História Natural — desponta como um capítulo fundamental e frequentemente subestimado. Trata-se da primeira associação de cunho estritamente científico a fincar bases em territórios sob o domínio do Império Português. Ativa entre os anos de 1772 e 1779 na então capital do Vice-Reino, a agremiação marcou a transição de uma cultura colonial meramente contemplativa para um esforço prático de secularização e investigação da natureza.
Diferenciando-se das academias brasileiras precedentes (como a dos Esquecidos, em 1724), cujas atividades possuíam caráter essencialmente literário, poético ou histórico e duração efêmera , o grupo carioca fixou suas atenções na observação direta, nos ensaios químicos e farmacêuticos e no fomento agroindustrial. O objetivo maior não era a teorização abstrata, mas a transformação da ciência em um motor de progresso material e utilidade pública.
Contexto Histórico e Fundação A criação da instituição respondeu diretamente aos novos rumos políticos da metrópole. Na segunda metade do Setecentos, as reformas pombalinas e a subsequente contratação do naturalista italiano Domenico Vandelli, em 1764, para reorganizar a Universidade de Coimbra, elevaram a História Natural ao nível de prioridade de Estado. Havia um entendimento urgente na Coroa de que as terras ultramarinas guardavam riquezas botânicas e minerais que precisavam ser catalogadas racionalmente para otimizar as rendas do Reino.
Em meio a esse cenário reformista, no dia 18 de fevereiro de 1772, ocorreu a assembleia inaugural da Academia Científica do Rio de Janeiro. Um dado cronológico relevante é que a fundação deste núcleo no Brasil antecedeu em oito anos a própria instauração da Academia das Ciências de Lisboa, que só iniciaria seus trabalhos em 1780. O projeto ganhou vida graças ao patrocínio decisivo do governador e vice-rei Dom Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão, o Marquês do Lavradio. Lavradio percebia nitidamente que seus planos de fomento econômico e diversificação de culturas agrícolas na colônia careciam do suporte técnico de uma agremiação científica permanente.
Uma Filosofia Pautada no Pragmatismo Econômico Os cientistas reunidos no Rio de Janeiro compartilhavam de uma postura crítica em relação à tradicional obsessão da Coroa Portuguesa pela extração imediata de metais e pedras preciosas, um modelo que historicamente sufocou o avanço da agricultura e de manufaturas locais. O médico e filósofo natural José Henriques Ferreira, figura central na fundação da sociedade, sintetizou esse descontentamento ao analisar o cenário agrícola do Brasil:"As preocupações da natureza e da arte ou são de primeira necessidade e estas são as que nos sustentam, nutrem, curam das doenças e vestem, ou da segunda; que nos servem de lucro, divertimento, deleite. De ambas produzem o Brasil com liberalidade se bem que as de primeira necessidade estão esquecidas; e perdidas porque a cobiça arrasa a pós [sic]... Cuida-se porventura na agricultura daquele país? Não, o ouro e os diamantes são os atrativos dos seus habitadores..." .Partindo desse diagnóstico, as diretrizes da Academia concentraram-se em metas bem definidas:
O mapeamento e a análise minuciosa dos reinos vegetal, animal e mineral em solo americano. O esforço de substituição de importações, desenvolvendo insumos básicos que a metrópole era forçada a comprar de outras potências europeias, a exemplo de queijos, manteigas, trigo e fibras têxteis. A quebra da dependência intelectual externa, visando produzir conhecimento original para que os portugueses superassem o que o próprio vice-rei chamava de "vergonha de que os estrangeiros sejam só os que nos instruam".
Organização Interna e o Corpo Técnico Por se tratar de uma proposta que exigia manipulação prática e reconhecimento de propriedades terapêuticas ou químicas, a composição da Academia congregou majoritariamente profissionais da medicina, cirurgia e farmácia, indivíduos que lidavam cotidianamente com os recursos naturais na cura de enfermidades .
Na sessão de abertura, o médico José Henriques Ferreira assumiu a presidência, assessorado pelo cirurgião Luís Borges Salgado como secretário. O quadro de sócios fundadores incluiu os clínicos Gonçalo José Muzzi e Antônio Freire Ribeiro ; os cirurgiões Maurício da Costa, Idelfonso José da Costa Abreu e Antônio Mestre ; o agrônomo prático Antônio José Castrioto ; além do experiente boticário Antônio Ribeiro de Paiva (diretor de História Natural) e seu filho, o também boticário Manoel Joaquim Henriques de Paiva, encarregado da diretoria de Farmácia.
Os trabalhos da sociedade dividiam-se de forma equilibrada em duas frentes de atuação:
Atividades das Quintas-feiras: Encontros realizados na sede da Academia, dedicados à leitura crítica de dissertações eruditas, correspondências internacionais e revisão de debates taxonômicos. Atividades dos Sábados: Trabalhos eminentemente práticos de campo desenvolvidos no Horto Botânico da instituição, uma área de testes localizada junto às instalações do antigo Colégio dos Jesuítas. O horto funcionava como um laboratório vivo voltado para a introdução de espécies raras, exames de solo e aprimoramento de técnicas agrícolas.
Experimentos Científicos e Contestações Taxonômicas A profundidade das pesquisas levadas a cabo no Rio de Janeiro permitiu que o grupo frequentemente dialogasse com a produção científica europeia, por vezes validando ou retificando teses de autoridades internacionais, incluindo o sistema de classificação biológica desenvolvido por Carl von Linné (Lineu).
O Caso da Cochonilha: A cochonilha, inseto utilizado na produção de um valioso corante vermelho muito disputado pelas indústrias têxteis da época, operava sob um rígido e lucrativo monopólio espanhol. O cirurgião Maurício da Costa identificou espécimes nativos na região meridional de São Pedro do Rio Grande. Sob as ordens do vice-rei, plantas hospedeiras foram transportadas em caixões de terra até o horto da capital. Após estudos minuciosos sobre o ciclo reprodutivo do inseto, José Henriques Ferreira produziu uma memória onde propôs uma reclassificação taxonômica do organismo, demonstrando falhas no arranjo ordenado anteriormente por Lineu. A Jalapa Brasileira: A raiz de jalapa, um dos fitoterápicos purgativos mais requisitados da medicina setecentista, era comprada a preços proibitivos do México espanhol. Em um discurso analítico proferido na sessão de 6 de abril de 1772, Manoel Joaquim Henriques de Paiva provou, por meio de ensaios laboratoriais e clínicos, a bioequivalência e a qualidade superior da jalapa nativa do Brasil. Na mesma ocasião, Paiva demonstrou que os padres jesuítas já conheciam perfeitamente o recurso e o comercializavam de maneira oculta sob o rótulo de jalapa mexicana. Substituição do Linho de Riga por Fibras Locais: Em cooperação com o empresário holandês João Hopman — designado pelo vice-rei como inspetor de novas plantações —, a Academia realizou testes industriais com a fibra da planta guaxima. O projeto comprovou a viabilidade técnica de utilizar o insumo nativo para substituir integralmente o linho de Riga importado pela Real Armada para a confecção de cordoarias e velas navais. O Gênero Botânico Lavradio: Durante os inventários botânicos realizados na agremiação, Henriques de Paiva isolou e descreveu uma nova leguminosa americana detentora de potentes efeitos terapêuticos (o mucuná). Em sinal de prestígio e reconhecimento à salvaguarda institucional oferecida pela administração colonial, Paiva batizou formalmente o novo gênero botânico como Lavradio.
Conexões Internacionais e Redes de Sociabilidade Embora estivessem inseridos em uma estrutura colonial geograficamente isolada e submetida a restrições de trânsito de informações, os intelectuais cariocas souberam articular canais diretos de comunicação com a Europa.
O principal intermediário desse intercâmbio foi o influente médico luso-francês Antônio Nunes Ribeiro Sanches, que vivia exilado em Paris devido à sua origem cristã-nova. Sanches trocava cartas densas com os irmãos Henriques de Paiva, enviando compêndios atualizados, sugerindo metodologias de exploração racional e comentando os achados vindos da colônia. Foi justamente por intermédio de Ribeiro Sanches que a Academia Real das Ciências da Suécia tomou ciência dos experimentos conduzidos no Rio de Janeiro, o que possibilitou a filiação formal da agremiação fluminense à instituição sueca e abriu caminho para que amostras da flora brasileira fossem examinadas diretamente por Lineu.
Fechamento e Desdobramentos Históricos O encerramento das atividades da Academia Científica deu-se de forma abrupta em 1779, motivado pelo fim do mandato governamental do Marquês do Lavradio e seu retorno definitivo à Europa. Sem o escudo político e a dotação de recursos fornecidos pelo vice-rei, o grupo perdeu sua coesão institucional e suspendeu as sessões ordinárias.
A despeito da breve existência de sete anos, a agremiação semeou bases profundas. Os métodos empíricos consolidados ali e parte de seus membros remanescentes reorganizaram-se anos mais tarde para constituir a Sociedade Literária do Rio de Janeiro, preservando a investigação da natureza na pauta intelectual da capital. Além disso, a compilação e publicação das memórias científicas do Rio de Janeiro a partir de 1790 serviram de suporte teórico para os planos de fomento econômico implementados pela administração de D. Maria I.
No âmbito individual, destaca-se a trajetória do acadêmico Manoel Joaquim Henriques de Paiva. Após regressar a Portugal, converteu-se em um dos mais prolíficos autores de tratados de química, medicina e farmácia do império. Décadas depois, ao ser forçado a retornar ao Brasil por conta das guerras napoleônicas na Península Ibérica, Paiva foi nomeado por decreto régio como o primeiro professor da cadeira de Farmácia do Brasil, lecionando no Curso Médico-Cirúrgico da Bahia.
Ver também Academia dos Renascidos Academia dos Esquecidos
Ligações externas SCIELO "Escola de homens de ciências: a Academia Científica do Rio de Janeiro, 1772-1779", por Vera Regina Beltrão Marques MAPA - Memória da Administração Pública Brasileira - "Museu Real" "As primeiras sociedades médicas do Estado do Pará, Brasil"
Categoria:Sociedades nacionais Categoria:Academias e sociedades científicas do Brasil