Action Comics #1 é a edição de estreia da revista em quadrinhos americana Action Comics, publicada originalmente nos Estados Unidos em 18 de Abril de 1938 pela "Detective Comics, Inc", uma empresa que posteriormente seria incorporada à DC Comics, uma subsidiária do grupo Time-Warner. Apresentando em sua capa uma famosa imagem de Superman carregando com as mãos um automóvel, a revista é considerada o "marco zero" das histórias em quadrinhos americanas de super-herói e é um dos, se não "o" mais valioso item colecionável de todo o mercado, sendo uma das edições mais procuradas e valorizadas por aficcionados. Um exemplar original em bom estado dessa primeira edição já chegou a ser leiloado por 1,5 milhões de dólares em 2010 — e sua capa já foi alvo tanto de homenagens quanto de debate.

A revista seguiu sendo publicada pela editora, e se tornaria cada vez mais associada à Superman, embora ele seja o protagonista de apenas uma das várias histórias publicadas na primeira edição da revista, que então se caracterizava como uma antologia. Embora registros indiquem que o personagem existia desde 1933 em versões preliminares, Action Comics #1 trouxe a primeira história de Superman escrita e desenhada por seus criadores, Jerry Siegel e Joe Shuster, a ser oficialmente publicada e comercializada. Além desta, a revista trouxe também as primeiras histórias de Zatara e Tex Thompson, outros dois personagens que posteriormente se popularizariam como parte do elenco de super-heróis da editora.

Antecedentes e contexto

No início da década de 1930, os estudantes Jerry Siegel e Joe Shuster se aproximaram e começaram a desenvolver uma amizade motivada pelo interesse mútuo em ficção científica.Daniels (1998), p. 11. À época, Siegel trocava correspondências com outros fãs de ficção científica, como Julius Schwartz e Mort WeisingerDaniels (1998), p. 12. e havia criado em 1929, aos 14 anos, um dos candidatos a primeiro fanzine de ficção científica dos Estados Unidos, Cosmic Stories, uma publicação produzida de forma amadora pelo próprio Siegel usando uma máquina de escrever e um hectógrafo. Como os demais fanzines, a revista era distribuída através dos correios, para outros fãs de ficção científica, numa época em que essas histórias ainda eram consideradas um gênero inferior e marginalizado da literatura.

Em 1932, ele e Shuster produziriam a revista amadora Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization, que trazia em seu interior várias histórias produzidas por Siegel, sempre acompanhadas por ilustrações de Shuster. No início de 1933 seria publicada a terceira edição de Science Fiction, e fazendo parte do conteúdo dessa edição, uma história curta, intitulada The Reign of the Superman.Gerard Jones. Homens do Amanhã - geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. [S.l.]: Conrad Editora, 2006. 85-7616-160-5Daniels (1998), p. 13. A história marca a primeira vez que uma publicação, ainda que não uma publicação profissional, trazia um personagem com nome "Superman". Alguns dos elementos que posteriormente seriam associados à mitologia do personagem já se faziam presentes: o vilão era careca, como Lex Luthor seria; uma rocha alienígena com propriedades extraordinárias alterava a fisiologia das pessoas, como a kryptonita faria; e o papel do herói era desempenhado por um repórter, o personagem "Forrest Ackerman", que aparecia brevemente na história para confrontar um cada vez mais poderoso Dunn. Ackerman era um repórter aparentemente pacato, mas que não era tão indefeso quanto parecia - características que seriam posteriormente associadas a Clark Kent - e seu nome era uma homenagem ao autor de mesmo nome, na época, ainda um fã de histórias de ficção científica como Siegel.Daniels (1998), p. 14-15.

Em uma entrevista concedida em 1983, Siegel declararia que The Reign of the Superman havia sido integralmente escrita em 1932, e tinha como objetivo brincar com a temática dos homens considerados "super", como Sansão ou Hércules, colocando esse tipo de personagem como um vilão, diferentemente dos "super-homens" até então estabelecidos. A partir de 1933, o personagem passaria por uma série de reformulações nas mãos dos dois autores, que passariam a oferecê-lo a diversas empresas, sempre com resultados negativos Siegel reescreveria a personagem como um herói, mantendo pouca ou nenhuma semelhança com o vilão de mesmo nome, e começou a procurar uma editora que o publicasse. Paralelamente, trabalhava em outros conceitos e personagens ao lado de Shuster, com o objetivo de produzir não mais contos, mas uma tira de jornal. O primeiro desses projetos foi a série Interplanetary Police, que chegara a ser elogiada por editoras, mas não era contratada. Uma crítica comum ao trabalho dos dois era de que seus conceitos não eram sensacionais o suficiente para chamar a atenção do público - e era justamente isso que eles pretendiam fazer com a segunda versão de Superman que elaborariam nos anos seguintes.Daniels (1998), p. 15.

Em dezembro de 1935, a então "National Allied Publications" lançou sua segunda série mensal, sob o título New Comics. Tal qual a revista em formato tabloide New Fun, publicada pela editora desde fevereiro daquele ano, a revista se dedicava à publicação de histórias cômicas e de aventura. Em sua décima-segunda edição, publicada em janeiro de 1937, o título foi alterado para New Adventure Comics e assim seguiria até novembro de 1938, quando seu título foi novamente alterado para Adventure Comics, o qual manteria por todo o restante de sua publicação. Nesse ínterim, Malcolm Wheeler-Nicholson, proprietário da National, visando quitar um débito com Harry Donenfeld, um dos donos da distribuidora de revistas Independent News, tornou-se sócio de Jack Liebowitz, contador de Donenfeld, formando a empresa "Detective Comics". A fusão com Liebowitz possibilitou o lançamento, em março de 1937, de uma terceira revista, intitulada Detective Comics e a continuidade de dois títulos publicados até então pela National. No início do ano seguinte, Donenfeld assumiu o controle da editora e foi sob a sua gestão que fora lançada aquela que se tornaria a mais emblemática série da editora — Action Comics. A segunda versão de Superman, desenvolvida a partir de 1933, nunca chegou a ser publicada, mas Siegel e Shuster descreveram essa versão da personagem como sendo comparável a Slam Bradley, uma personagem que a dupla criou em 1937 para a primeira edição de Detective Comics.Daniels (1998), p. 17.Daniels (1998), p. 18.

Produção

thumb|left|Jack Liebowitz, em um registro familiar. Ao lado de Harry Donenfeld, o contador foi uma peça-chave na reestruturação da National Publications, editora que viria a se tornar a DC Comics, e o sucesso de Action Comics #1 foi primordial nessa iniciativa.

O lançamento da revista Detective Comics em 1937 se mostrou uma decisão acertada comercialmente, mas a National ainda possuía muitos débitos a serem quitados. Donenfeld era um dos maiores credores da editora, e objetivava que esta se tornasse um negócio lucrativo. Jerry Siegel e Joe Shuster já vinham tentando por seis anos encontrar uma editora para seu personagem, originalmente concebido para ser publicado como uma tira de jornal.STERANKO, p. 39

Existem divergências quanto à ordem dos eventos que levaram Superman a figurar dentre as histórias publicadas em Action Comics #1. Em seu livro History of Comics, o renomado autor e desenhista Jim Steranko apresentaria uma pesquisa que mostraria que Siegel e Shuster tiveram as histórias de Superman rejeitadas por diferentes editores, incluindo M.C. Gaines, que à época trabalhava para a empresa McClure Syndicate. Gaines teria sido contatado por Donenfeld, que planejando uma nova publicação, buscava sugestões de tiras de jornal que poderia aproveitar no formato de histórias em quadrinhos, ao que Gaines sugeriria Superman, de uma dupla conhecida de Donenfeld: Siegel e Shuster

Outros autores omitem a participação de Gaines, e apontariam Donenfeld como o responsável direto por convidar a dupla para contribuir com a revista, oportunidade em que teriam mostrado Superman para apreciação, e uma vez aprovado, passaram a recortar e colar as tiras de jornal da amostra que tinham preparado no formato de páginas de uma revista em quadrinhos.JONES, p.124 O suposto recorte das tiras também é citado por Steranko e é amplamente aceito como sendo verdade. Uma das "evidências" a reforçar esse entendimento é o fato da trama das histórias publicadas em Action Comics #1 e #2 possuírem uma forte relação de continuidade, um traço típico das tiras de jornal.

A escolha de Superman como o personagem que figuraria na capa, em meio aos vários personagens que também apareceriam, seria posteriormente citada por Liebowitz como "quase acidental", em razão do escasso prazo de fechamento da revista, mas se mostraria acertada: toda a tiragem seria vendida rapidamente e, a partir de sua quarta edição, Action já começaria a apresentar um significativo aumento em suas vendas, em comparação com os demais títulos da National: entre 1938 e 1939, já possuía uma tiragem de mais de 500 mil exemplares - mais que o dobro da tiragem inicial da primeira edição, de 200 mil exemplares.

Em meio à disputa pelos direitos de Superman, maiores detalhes sobre a produção da capa seriam revelados: o autor da arte não fora Shuster, mas um funcionário da editora, instruído por Vin Sullivan a usar um quadro produzido por Shuster para a história como inspiração.

Histórias publicadas Além da história protagonizada por Superman, a revista possuía outras oito histórias:

"Chuck Dawson" (p. 14–19), história escrita e desenhada por H. Fleming. "Zatara Master Magician" (p. 20–31), história escrita e desenhada por Fred Guardineer. "South Sea Strategy" (apenas texto, p. 32–33), creditada ao "Capitão Frank Thomas". "Sticky-Mitt Stimson" (p. 34–37), tira cômica creditada a "Alger". "The Adventures of Marco Polo" (p. 38–41), história escrita e desenhada por Sven Elven. "'Pep' Morgan" (p. 42–45), história escrita e desenhada por Fred Guardineer. "Scoop Scanlon the Five Star Reporter" (p. 46–51), história escrita e desenhada por Will Ely. "Tex Thompson" (p. 52–63), história escrita e desenhada por Bernard Baily.

Impacto cultural thumb|Arte de Ed McGuinness para a capa de Superman #201, uma das inúmeras homenagens à Action Comics #1. O personagem Mr. Majestic, criado como uma analogia a Superman pela editora WildStorm, é retratado em seu lugar na imagem.

Ainda em 1939 já se percebia o impacto do sucesso de Action Comics com Superman: Bob Kane foi contratado pela editora para criar "um novo combatente do crime", que veio a ser publicado na 27ª edição de Detective Comics. Batman, inicialmente chamado de "Bat-Man", posteriormente viria a se tornar o herói mais popular da revista, e de forma similar ao que ocorria com Superman em Action, passaria a figurar na maioria das capas da publicação.

Se no final da década de 1930 a revista já vendia cerca de 500 mil exemplares, na década de 1940 esse número já havia quase dobrado, com cada exemplar vendendo 900 mil cópias, uma tiragem à época superada apenas pela revista Superman, lançada em 1939. Action passaria a focar-se majoritariamente nas histórias de Superman, e as tramas iriam evoluindo, refletindo o cotidiano dos Estados Unidos: Se nas suas primeiras aparições Superman enfrentava criminosos comuns e políticos corruptos, com o tempo suas histórias passariam a ganhar um viés mais "extraordinário" com o surgimento dos primeiros "supervilões" a enfrentar o personagem. O Ultra-Humanoide já havia aparecido numa história isolada em 1939, mas seria na década seguinte que personagens dessa categoria se tornariam mais populares: Lex Luthor, o Galhofeiro e o Homem dos Brinquedos surgiriam nos anos seguintes.