O melro-preto (Turdus merula), vulgarmente conhecido apenas como melro ou mérula, é uma ave pertencente ao género Turdus. Ocorre naturalmente na Europa, Norte de África, Médio Oriente, Ásia Meridional e Ásia Oriental, e foi introduzida na Austrália e Nova Zelândia na segunda metade do século XIX. Dependendo da latitude, pode ser residente, migratória ou parcialmente migratória. A espécie tem numerosas subespécies na sua vasta área de distribuição, algumas das quais são consideradas espécies distintas por alguns autores.

O melro-preto é omnívoro, consumindo uma grande variedade de insetos, vermes, bagas e drupas. Apresenta um forte dimorfismo sexual; o macho adulto da subespécie nominal T. m. merula é completamente preto, com exceção do bico e do anel orbital de cor amarela, e tem um vasto repertório de vocalizações, enquanto que a fêmea adulta e os juvenis são predominantemente de cor castanha. Esta espécie nidifica em bosques e jardins, construindo ninhos em forma de taça com ervas e lama em trepadeiras ou arbustos, e pode ser encontrada tanto em florestas como em campo aberto e zonas urbanas. Ambos os sexos exibem um comportamento territorial nos locais de nidificação, cada qual com comportamentos agressivos distintos, mas é mais gregário durante as migrações e nas áreas onde inverna. Tanto os machos como as fêmeas podem permanecer no seu território durante todo o ano desde que o clima seja suficientemente temperado e haja alimento disponível durante o inverno.

Apesar de poderem ocorrer flutuações locais nas populações devido a ameaças específicas, possui uma grande área de distribuição geográfica e uma grande população global, pelo que não se considera que se encontre globalmente ameaçada. Existem numerosas referências literárias e culturais ao melro-preto, frequentemente relacionadas com o canto melodioso dos machos. O melro-preto é a ave nacional da Suécia.

Taxonomia esquerda|thumb|upright=1.36|Macho adulto de T. m. merula, República Checa. O melro-preto foi descrito em 1758 pelo zoólogo sueco Carolus Linnaeus no seu livro Systema Naturae como Turdus merula, caracterizado como "Turdus ater, rostro palpebrisque fulvis" ("Tordo negro, com bico e pálpebras amarelas"). O seu nome binomial deriva de duas palavras em latim, turdus, "tordo", e merula, "melro". O filósofo e enciclopedista romano Varrão indica um diminutivo de mera, "só", como explicação etimológica para o termo merula, que significaria assim quod mera, "quase só", o que descreve bem o carácter solitário desta ave. Este termo (e a sua forma tardia merulu) deu ainda origem à designação comum para esta espécie não só em português ('melro', com síncope do 'u' e metátese do 'r'), como também noutras línguas românicas como o castelhano ('mirlo'), o francês ('merle') e o italiano ('merlo'). Já em inglês (blackbird, lit. "ave negra") e em sueco (koltrast, lit. "tordo de carvão") a designação comum parece derivar da sua aparência. Em Portugal, é normalmente conhecido como o melro, apesar do termo se referir de forma mais abrangente a diversos membros da família Turdidae, como o melro-de-peito-branco (Turdus torquatus) e o melro-das-rochas (Monticola saxatilis).

A taxonomia desta espécie, particularmente a das subespécies asiáticas, é complexa. As subespécies encontradas no subcontinente indiano, T. m. simillimus, T. m. nigropileus, T. m. bourdilloni, T. m. spencei e T. m. kinnissi, são relativamente pequenas (apenas 19– de comprimento) e possuem um anel orbital largo, para além de terem proporções, formato das asas, cor do ovos e vocalizações diferentes das outras subespécies de melro-preto. Por essas razões, são por vezes consideradas uma espécie separada, Turdus simillimus. A subespécie T. m. maximus dos Himalaias é bastante maior (23– de comprimento) do que o grupo da T. m. simillimus, e difere de todas as outras subespécies de melro-preto pela total ausência do anel orbital e pelas suas vocalizações reduzidas, pelo que é por vezes considerada uma espécie separada, Turdus maximus. As restantes subespécies asiáticas, as relativamente grandes T. m. intermedius e T. m. mandarinus, e a menor T. m. sowerbyi, também diferem em estrutura e vocalizações, e podem também representar uma espécie separada, Turdus mandarinus. Alternativamente, alguns autores sugerem que sejam consideradas subespécies de Turdus maximus, mas diferem desta em estrutura, vocalizações e existência do anel orbital.

O parente mais próximo em termos evolutivos do melro-preto aparenta ser o Turdus poliocephalus, presente no Sudeste Asiático e em algumas ilhas do sudoeste do Pacífico, que provavelmente divergiu do melro-preto recentemente.

Características thumb|esquerda|upright=1.36|Fêmea adulta de T. m. merula. A subespécie nominal T. m. merula tem – de comprimento, uma envergadura de 34– e um peso de 80-, dependendo do sexo e das estações do ano. O macho adulto possui plumagem totalmente negra e lustrosa, patas de tamanho médio castanho-escuras, bico curto amarelo-alaranjado e um anel orbital amarelo. O bico e o anel orbital tendem a escurecer um pouco no inverno. A fêmea adulta possui plumagem castanha, ventre malhado de castanho-claro, garganta e peito com malhas esbranquiçadas, patas castanho-escuras, bico amarelo-acastanhado e um anel orbital castanho. Os juvenis são semelhantes às fêmeas, mas possuem manchas pálidas na parte superior do corpo. Os tons de castanho da plumagem dos juvenis varia de indivíduo para indivíduo, sendo os mais escuros presumivelmente machos. A plumagem juvenil dura até à primeira muda, que ocorre entre agosto e outubro. Os jovens machos adquirem então uma plumagem semelhante à dos adultos, mas o seu bico é mais escuro, o anel orbital amarelo é mais esbatido e as asas quando dobradas são castanho-escuras. Os machos só adquirem a aparência adulta ao fim do primeiro ano de vida.

Na Europa, os machos podem ser confundidos com o melro-de-peito-branco (Turdus torquatus), mas este último possui um crescente branco no peito e as asas são ligeiramente prateadas,Guia de Campo das Aves de Portugal e da Europa, op. cit., pp.348 e são superficialmente semelhantes ao estorninho-comum (Sturnus vulgaris). No Sri Lanka, a subespécie T. m. kinsii é semelhante a uma espécie local, o Myophonus blighi, e ao tordo-unicolor (Turdus unicolor), nativo do subcontinente indiano. No entanto, o primeiro apresenta sempre azul na sua plumagem, e o segundo possui o ventre mais pálido. As fêmeas podem ser confundidas com o tordo-comum (Turdus philomelos), mas este último possui a parte inferior do corpo mais pálida e com malhas negras. Existem ainda algumas espécies do género Turdus, de aparência similar ao melro-preto, mas que vivem fora da sua área de distribuição geográfica, como por exemplo o Turdus chiguanco da América do Sul.

Subespécies thumb|upright=1.25|Juvenil de T. m. merula, República Checa. Como seria de esperar numa espécie com uma área de distribuição tão vasta, existem numerosas subespécies de melro-preto geralmente aceites, algumas das quais são consideradas como espécies separadas por alguns autores. Este artigo segue o tratamento de Clement et al. T. m. merula, a subespécie nominal, reproduz-se comummente na maioria da Europa, desde a Islândia, as ilhas Feroe e as Ilhas Britânicas a oeste até aos Montes Urais a este, e até à latitude 70º N, onde é bastante menos comum. Uma pequena população reproduz-se no vale do Nilo. As aves do norte da Europa migram, invernando mais a sul do continente e ao redor do Mediterrâneo, incluindo o Chipre e o Norte de África. As aves introduzidas na Austrália e na Nova Zelândia descendem de indivíduos desta subespécie importados do Reino Unido. T. m. azorensis, descrita por Ernst Hartert em 1905, pequena subespécie residente nos Açores. A plumagem dos machos é mais escura e lustrosa do que a da subespécie nominal, enquanto que a das fêmeas é castanha-fuliginosa. T. m. cabrerae, descrita por Ernst Hartert em 1901, e batizada em honra do zoólogo espanhol Ángel Cabrera, semelhante à T. m. azorensis, é residente na Madeira e no oeste das Canárias. thumb|esquerda|upright=1.25|Macho adulto de T. m. cabrerae, Gran Canaria, Espanha. T. m. mauretanicus, pequena subespécie residente no norte e centro de Marrocos, na costa da Argélia e no norte da Tunísia. Os machos possuem plumagem mais escura e lustrosa do que a da subespécie nominal, enquanto que a das fêmeas é negro-acinzentada. T. m. aterrimus, subespécie de menor porte que se reproduz na Hungria, sul e este da Grécia, Creta, norte da Turquia e norte do Irão; e inverna no sul da Turquia, norte do Egito, Iraque e sul do Irão. A plumagem dos machos é menos lustrosa e a das fêmeas mais pálida do que a da subespécie nominal. T. m. syriacus, subespécie que se reproduz ao longo da costa mediterrânica desde o sul da Turquia até à Jordânia, Israel e norte do Sinai; é essencialmente residente, apesar de algumas aves migrarem para sudoeste ou oeste para invernarem no vale do Jordão e no delta do Nilo. Ambos os sexos desta subespécie apresentam uma plumagem mais escura e acinzentada do que os da subespécie nominal. T. m. intermedius, grande subespécie asiática que se reproduz desde a Rússia central ao Tajiquistão, norte e oeste do Afeganistão e China oriental; é parcialmente residente, apesar de algumas aves serem migrantes altitudinais e invernarem no sul do Afeganistão e do Iraque. A plumagem dos machos é negra-fuliginosa, enquanto que a das fêmeas é castanho-escura. thumb|upright=1.25|Macho juvenil, presumivelmente T. m. aterrimus, Hungria. T. m. maximus, grande subespécie de montanha encontrada no este do Afeganistão, Himalaias (entre os e os ), Siquim, Assam, sul do Tibete e oeste de Sichuan. É um migrante altitudinal, descendo no inverno até aos no sudeste do Tibete, mas nunca abaixo dos mais a ocidente. Os machos possuem plumagem negra, enquanto que a das fêmeas é de um castanho muito escuro. É a única subespécie que não possui um anel orbital amarelo ou laranja.Handbook of the Birds of the World v.10: Cuckoo-shrikes to Thrushes, op. cit., pp.646 T. m. mandarinus, grande subespécie que se reproduz na maioria da China meridional, central e oriental; é essencialmente residente, apesar de algumas aves migrarem para sul para invernarem em Hong Kong, Laos e Vietname. Os machos possuem plumagem negra-fuliginosa; as fêmeas são similares mas mais castanhas, e a parte inferior do seu corpo é mais pálida. T. m. sowerbyi, batizada em honra do naturalista e ilustrador britânico James Sowerby, subespécie que se reproduz desde o este de Sichuan até Guizhou; é parcialmente residente, apesar de algumas aves invernarem no sul da China e norte da Indochina. É semelhante à T. m. mandarinus, mas é menor e a parte inferior do seu corpo é mais escura. thumb|esquerda|upright=1.25|Fêmea adulta de T. m. maximus, Himachal Pradesh, Índia. T. m. nigropileus, subespécie residente na Índia, encontrada até aos nos Gates Ocidentais e no norte e centro dos Gates Orientais; apesar de residente, algumas aves migram mais para sul no inverno. Os machos possuem plumagem cor de ardósia-acastanhada com um barrete escuro, enquanto que as fêmeas são castanhas e possuem a parte inferior do corpo mais pálida. É de menor porte e possui um anel orbital amarelo mais largo do que a subespécie nominal. T. m. spencei, batizada em honra do entomólogo britânico William Spence, subespécie residente nos Gates Orientais da Índia. É muito semelhante à T. m. nigropileus, mas possui um barrete escuro menos distintivo. Dadas as incertezas sobre a validade desta subespécie, ela é muitas vezes incluída na T. m. nigropileus, com a qual coabita nos montes Nallamala. T. m. simillimus, subespécie residente na Índia, comum nos montes em Kerala e Tamil Nadu. É semelhante à T. m. spencei, mas é mais escura.