miniaturadaimagem|Pintura de um típico sans-culotte, óleo sobre madeira, por Louis-Léopold Boilly. |245x245px Sans-culotte foi a denominação dada pelos aristocratas aos artesãos, trabalhadores e até pequenos proprietários participantes da Revolução Francesa, principalmente em Paris. Livremente traduzido da língua francesa como "sem calção", o culote era uma espécie de calções justos que se apertavam na altura dos joelhos, vestimenta típica da nobreza naquele país à época da Revolução. Em seu lugar, os sans-culottes vestiam uma calça comprida de algodão grosseiro, traje tipicamente utilizado pelos burgueses. Estes eram, normalmente, os líderes das manifestações nas ruas.
Pode se dizer que os sans-culottes eram uma camada popular urbana que atuou principalmente em Paris durante a Revolução Francesa. Eles pertenciam a um movimento heterogêneo em sua formação, SOBOUL, Albert. The Sans-culottes: The Popular Movement and Revolutionary Government, 1793-1794. Princeton University Press, 1980. mas eram, no geral, compostos por populações subalternas,PERROT, Michelle (org.). História da vida privada: Da Revolução Francesa à Primeira Guerra. Tradução Denise Bottmann, Bernardo Joffily. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. que incluía os artesãos, trabalhadores especializados, lojistas, dentre outros, que foram fortemente ativos durante o processo revolucionário.HOBSBAWM, Eric John. A era das revoluções, 1789-1848. Tradução de Maria Tereza Teixeira e Marcos Penchel. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013. Além do mais, pode-se também afirmar que alguns desses se situavam entre a burguesia e os novos proletários.HOBSBAWM, Eric John. 2013. Alguns sans-culotte também poderiam emergir das camadas mais prósperas dos serviços e profissões artesanais da época,SCHAMA, Simon. Cidadãos: uma crônica da Revolução Francesa. Tradução de Miguel Mata. Porto: Civilização Editora, 2011. com condições de se elevar como mestre no seu ofício ou de se transformar num pequeno patrão.HIGONNET, Patrice. Sans-Culottes. In: Dicionário Crítico da Revolução Francesa / François Furet e Mona Ozouf. Tradução de Henrique Mesquita. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989
Pertencentes a uma parcela desfavorecida do Antigo Regime na França, estavam sujeitos às constantes crises de abastecimento e fomes que caracterizaram as grandes cidades do período.PERROT, Michelle (org.). 2009. Adotaram uma ideologia radical no movimento em oposição à aristocracia para garantir seus direitos e melhoria no modo de vida, tornando-se, durante a Revolução Francesa, a base política dos jacobinos.PERROT, Michelle (org.).2009.
Os sans-culottes passaram a ser diferenciados por esse termo vindo da aristocracia francesa, cuja vestimenta marcava a distinção social. Desse modo, diferente da nobreza que possuía trajes de tecidos com alta qualidade, bordados a ouro e calças apertadas que seguiam a moda da época,PERROT, Michelle (org.). 2009. os sans-culottes utilizavam um vestuário modesto: casacos curtos e estreitos, sapatos de madeira e suspensórios junto com suas calças largas — fato que os denominou como sans-culottes.HIGONNET, Patrice.1989. Além dessas peças de roupas, havia a utilização do barrete vermelho, uma espécie de chapéu com abas largas e topo achatado com uma insígnia tricolor (simbolizava o nacionalismo), demarcando a vestimenta do verdadeiro patriota.SCHAMA, Simon.2011.
A vestimenta simples e modesta dos sans-culottes, durante o processo da Revolução Francesa, seria um símbolo, um instrumento políticoPERROT, Michelle (org.).2009 e um fator histórico para representar luta revolucionária.KIEVEL, Gustavo Luiz. Moda e Política na Revolução Francesa: Maria Antonieta e Sans-Cullotes. Novo Hamburgo: ESPM - Sul, 2015. Seu vestuário, junto com suas ideias e atitudes, expressaram a busca por igualdade.LAFIT, Facundo. La relación entre el movimiento sans culottes y el jacobinismo. Acuerdos y contradicciones. Buenos Aires: Revista Derecho y Ciencias Sociales, 2010. Ideais e manifestações miniaturadaimagem|273x273px|Representação dos massacres cometidos na prisão da Abadia de 2 a 7 de setembro de 1792. Vários cadáveres são amontoados em frente à prisão sob os olhos da multidão enquanto os sans-culottes brandem uma cabeça na ponta de uma lança. Por Jules-Adolphe Chauvet.miniaturadaimagem|esquerda|301x301px|Marat transportado pela multidão após sua absolvição pelo Tribunal Revolucionário em 24 de abril de 1793. Os ideais dos sans-culottes consistiam no respeito à pequena propriedade privada, numa antipatia às camadas mais ricas da sociedade, bem como em propostas políticas que defendiam o emprego garantido aos homens pelo Estado. Defendiam ainda a elaboração de uma seguridade social aos homens mais pobres e ideais de democracia direta, que entravam em conflitos com os deputados adeptos da democracia representativa.LAFIT, Facundo. 2010.
Os sans-culottes se contrapunham às desigualdades do Antigo Regime e eram contrários à aristocracia. Nesse sentido, possuíam uma visão de mundo mais igualitária do ponto de vista social e educacional.SOBOUL, Albert. 1980 Para conquistar seus objetivos políticos, defenderam a soberania integral do povo em detrimento da monarquia. OLIVEIRA, Josemar Machado de. Robespierre e a “oposição de esquerda”: As contradições da democracia revolucionária. Dimensões, Universidade Federal do Espírito Santo, vol. 13, Jul/Dez, 2001. OLIVEIRA, Josemar Machado de. Governo revolucionário e movimento popular: A contradição entre a democracia representativa e democracia direta durante o ano II. Revista Ágora, n. 29, Vitória, 2019, p. 15.
Devido às diferenças sociais entre os sans-culottes, havia discordâncias internas. Alguns sans-culottes se posicionarem contra a propriedade privada, enquanto outros defendiam apenas uma limitação a ela.LAFIT, Facundo.2010. No período do Terror, alguns chegaram a defender a morte dos homens mais ricos.SOBOUL, Albert. 1980.
Diante dos constantes casos de fome na França Revolucionária, os sans-culottes temiam que se os ricos acumulassem ainda mais riquezas com a liberdade recém garantida pela nova constituição enquanto que a camada mais pobre da sociedade iria continuar sofrendo pela fome. Assim, defendiam que os alimentos fossem igualmente distribuídos a todosSOBOUL, Albert. 1980. e organizaram muitas manifestações, como a mobilização do dia 5 de setembro de 1793, cuja principal reivindicação consistia na luta pelo acesso a alimentos básicos, dentre eles o pão.OLIVEIRA, Josemar Machado de. 2019.
Uma importante influência para os ideais dos sans-culottes foi o filósofo Rousseau, que marcou as pautas deste grupo com as ideias de que o poder absoluto estaria nas mãos do povo. Por meio da ação direta, a população deveria fazer as leis e aplicá-las; da mesma forma que também deveria fiscalizar aqueles que não cumprissem essas ordens e, caso fosse preciso, aplicar castigos.OLIVEIRA, Josemar Machado de. 2001 LAFIT, Facundo. 2010. p.202-214.
Os jacobinos e os sans-culottes miniaturadaimagem|333x333px|Clube dos Jacobinos em 1791.miniaturadaimagem|Após sua absolvição pelo Tribunal Revolucionário em 24 de abril de 1793, Marat foi levado em triunfo pelos sans-culottes. Guache de Jean-Baptiste Lesueur, Paris, Musée Carnavalet, por volta de 1793-1794|esquerdaDurante a Revolução Francesa, existiu uma aliança entre os sans-culottes e a facção mais radicais da Revolução, os jacobinos. Não eram, contudo, grupos homogêneos, Os dois grupos se alinhavam aos fundamentos de Rousseau, defendiam ideias de autonomia do povo e de democracia, mas tinham diferenças importantes quanto ao seu significado. Foi essa aliança entre jacobinos e sans-culottes que possibilitou a exclusão dos girondinos do poder, mas, mais tarde, ocorreram disputas entre as lideranças políticas radicais e o movimento popular.OLIVEIRA,Josemar Machado de 2019SOBOUL,Albert.1980
Dois pontos importantes levaram então ao fim a dessa aliança: a situação da economia francesa e a concepção sobre a democracia e sobre a soberania popular. Enquanto que algumas lideranças jacobinas eram adeptas do liberalismo econômico, os sans-culottes defendiam um programa de controle de preços que combatesse a especulação e de medidas que promovessem a pequena propriedade. SOBOUL, Albert 1980.. Também havia uma forte diferença entre as formas de democracia representativa defendidas pelos líderes da montanha e pela política de ação direta exercida pelo povo de Paris.
Pode-se dizer, então, que as bases que de certa forma ligavam esses grupos foram importantes no começo para formar uma aliança para conduzir a Revolução, mas as diferenças e as contradições que vão aparecendo entre eles, durante o próprio processo revolucionário, colocaram um fim nesta aliança. Isso levou à repressão e execução de diversas lideranças dos sans-culottes entre o final de 1793 e o início de 1794, no movimento que ficou conhecido como à repressão aos exagerados. A perseguição política aos líderes do movimento popular facilitou a reação termidoriana que eliminou os robespierristas, pôs um freio ao Terror e excluiu de vez os sans-culottes do processo revolucionário.
Organização e estratégia miniaturadaimagem|230x230px|Sans-Culottes in arms, gouache de Jean-Baptiste Lesueur, 1793-1794, museu Carnavalet. No auge do movimento sans-culotte, o seu número de adeptos oficiais não contou com mais de dois a três mil revolucionários,HIGONNET, Patrice. 1989. os quais se organizaram nas sessões da Assembleia Geral, com apoio garantido de vinte a trinta sessões.
Com a eliminação da manutenção das Assembleias Gerais e dos comitês seccionais, os sans-culottes, insatisfeitos e a fim de garantir uma autonomia em suas organizações, transformaram as sociedades populares em sociedades seccionais. Dessa forma, a partir de 1791 esse corpo social parisiense fez um papel importante no decorrer da Revolução Francesa.
No ano II, que corresponde a julho e agosto de 1794 conforme o novo calendário revolucionário, as sociedades seccionais afloraram com a fundação do movimento popular: por meio delas, os sans-culottes coordenaram a política seccional, além de administrar os comitês e pressionar as autoridades municipais e governamentais.
Atuação dos sans-culottes na Revolução Francesa miniaturadaimagem|158x158px|A mulher de Sans-Culotte, gravura, museu Carnavalet, c. 1792. Autor: Desconhecido. |esquerda Os sans-culottes atuaram ativamente durante a Revolução Francesa, sendo parte indispensável da força bruta dos manifestantes.HOBSBAWM, Eric John. 2013. p. 112 LAFIT, Facundo. 2010. Em momentos de crises, os sans-culottes mobilizaram milhares de pessoas armadas, entoando canções e arrastando multidões pelas ruas de Paris.SCHAMA, Simon. 2011.
Além das lutas e das ameaças internas, os sans-culottes também se preocuparam com as ameaças vindas de fora da França. No dia 20 de abril de 1792, uma guerra foi declarada contra o Imperador da Áustria,VOVELLE,Michel. 2012. já que este defendia a monarquia representada por Luís XVI e temiam que uma onda revolucionária varresse a Europa. Diante deste cenário, os sans-culottes forjaram alianças com os jacobinos numa tentativa de barrar os contrarrevolucionários. Neste mesmo ano, entre os meses de agosto e setembro, a monarquia foi substituída pelo sistema republicano ─ dando início a um novo calendário secularizado ─ e Luís XVI foi feito prisioneiro, tudo isto devido ao apoio das ações organizadas pelos sans-culottes.
Procurando eliminar as desigualdades sociais e combater a fome que atingia as camadas mais pobres, alguns sans-culottes exigiram o fechamento da bolsa de valores no ano de 1793 e se posicionaram contra a livre circulação de moedas de ouro na França. Além disso, lutaram ativamente pelo direito ao trabalho garantido pelo Estado e pela assistência social àqueles incapacitados a trabalhar, expandindo a pauta da luta às viúvas e aos órfãos.SOBOUL, 1980, p. 01-95,
Atuação dos Sans-Culottes no Terror miniaturadaimagem|200x200px