Egito romano é o nome utilizado para fazer referência ao período no qual a região do Egito esteve sob o controle do Império Romano e de seu sucessor, o Império Bizantino. Neste período, a província do Egito (; ) passou por diversas transformações. Ela foi criada em depois que Otaviano (o futuro imperador Augusto) derrotou Marco Antônio e depôs sua esposa, a poderosa rainha Cleópatra, do trono do Egito e anexou suas terras, encerrando definitivamente o reino ptolemaico do Egito. A província abrangia a maior parte do território do moderno estado do Egito, com exceção da península do Sinai, que seria conquistada por Trajano.
O Egito fazia fronteira com as províncias de Creta e Cirene para o oeste e com a Judeia para o leste quando foi criada. Mesmo antes de tornar-se uma província, o Egito era um dos grandes fornecedores de alimento para o Império Romano.
Divisão administrativa
Primeira província O Egito era governado por um prefeito do Egito e não por um tradicional vigário de status senatorial como as outras províncias. Ele tinha status equestre e era nomeado pelo imperador. O primeiro prefeito do Egito, Caio Cornélio Galo, subjugou a região à força e criou um protetorado na fronteira sul, que havia sido abandonada pelos últimos ptolemeus.
O segundo prefeito, Élio Galo, tentou sem sucesso conquistar a Arábia Pétrea e até mesmo a Arábia Feliz. Ele também não controlava a costa do Mar Vermelho, que só foi conquistada no reinado de Cláudio. O terceiro, Caio Petrônio, desobstruiu os abandonados canais de irrigação, o que estimulou um renascimento da agricultura na região.
A partir do reinado de Nero, o Egito passou por uma era de prosperidade que duraria um século. Muitos problemas ainda ocorriam por causa dos conflitos religiosos entre gregos e judeus, particularmente em Alexandria, que, depois da destruição de Jerusalém em 70, tornou-se o centro da religião e cultura judaicas. Sob Trajano, irrompeu uma revolta judaica que resultou na supressão dos judeus de Alexandria e a perda de todos os privilégios que eles detinham (uma decisão que duraria pouco tempo). Adriano visitou duas vezes o Egito e fundou a cidade de Antinoópolis em homenagem ao seu amante, Antínoo, que morreu afogado no local. A partir de seu reinado, edifícios greco-romanos foram erigidos por toda a região.
No reinado de Antonino Pio, os altos impostos provocaram uma revolta dos egípcios nativos em 139, que só pôde ser sufocada depois de muitos anos de luta. Chamada de Guerra Bucólica, os rebeldes eram liderados por Isidoro e provocaram um enorme dano à economia egípcia, o que pôs em marcha os eventos que levariam ao declínio da província. Avídio Cássio, que liderou as forças romanas, declarou-se imperador em 175 e foi reconhecido pelos exércitos da Síria e do Egito.
Conforme Marco Aurélio se aproximava, Cássio foi deposto e morto; e apenas a clemência do imperador garantiu depois a restauração da paz. Uma revolta similar irrompeu em 193, quando Pescênio Níger foi proclamado imperador depois que Pertinax morreu.
Caracala concedeu a cidadania romana para todos os egípcios, costume que já era praticado em outras províncias. Porém, o movimento teve o intuito apenas de aumentar a arrecadação para custear a necessidade urgente dos imperadores por mais fontes de renda, que era também cada vez maior.
Houve uma série de revoltas - civis e militares - durante o . Sob Décio (250), os cristãos novamente foram perseguidos, mas o cristianismo continuava se alastrando rapidamente. O prefeito do Egito em 260, Mússio Emiliano, primeiro apoiou o golpe de Macriano Maior e seus filhos (Macriano Menor e Quieto) contra Galiano mas, em 261, tentou ele próprio tomar o trono para si, mas terminou derrotado pelo imperador.
Zenóbia, a rainha de Palmira, tomou o Egito dos romanos ao conquistar a região em 269 e declarar-se "rainha do Egito". Ela alegou que o Egito era sua terra ancestral por causa de seu parentesco com Cleópatra. Bem educada e conhecedora da cultura, religião e da língua egípcias, Zenóbia não teve dificuldades em se consolidar e ela só perdeu o controle quando o imperador Aureliano rompeu as relações amigáveis que vinha mantendo com ela até então e retomou o Egito em 274: depois de um fracassado cerco de quatro meses, ele conseguiu vencer esperando que os suprimentos de Zenóbia se acabassem.
Dois generais baseados no Egito, Probo e Domício Domiciano, lideraram revoltas vitoriosas e chegaram ao trono. Diocleciano capturou Alexandria de Domício em 298 e reorganizou a província completamente. Seu édito de 303 contra os cristãos deu início à mais infame das perseguições aos cristãos e também marcou a última tentativa séria de extirpar o cristianismo do Egito.
Governadores
Diocese do Egito
A Diocese do Egito abrangia as províncias do Egito e Cirenaica, estava subordinada à prefeitura pretoriana do Oriente e sua capital era Alexandria. Originalmente parte da Diocese do Oriente, o Egito foi separado em 381 e assim permaneceu até a década de 530, quando a diocese foi abolida por Justiniano.
A região do Egito propriamente dito foi dividida em três províncias: Egito Jupiteriano (Aegyptus Iovia), rebatizada posteriormente somente Egito, abrangia a região a oeste do delta do Nilo. Alexandria era a capital. Egito Hercúleo (Aegyptus Herculia), rebatizada posteriormente Augustâmica (Augustamnica), abrangia a região a leste do delta e Pelúsio era a capital. Tebais (ou Tebaida), cuja fronteira sul era a primeira catarata do Nilo. Sua capital era Ptolemaida Hérmia.
Em 535, Justiniano aboliu as dioceses e criou diversos ducados regionais. Nesta época, a província do Egito foi novamente dividida em Egito I e Egito II, com ambas sob o comando do duque e augustal do Egito (dux et augustalis Aegypti).
Sés episcopais As sés episcopais da província e que aparecem no Annuario Pontificio como sés titulares são:Annuario Pontificio 2013 (Libreria Editrice Vaticana 2013 ISBN 978-88-209-9070-1), "Sedi titolari", pp. 819-1013
Egito I Agno' Andrópolis (Kherbeta) Buto (Perto de Desuq? Com-Casir?) Cleópatris (Sersina) Copritis (Cabrit, Cobrit) Hermópolis Parva Letópolis Fatano (El-Batanu, El-Batnu) Mariotes (Lago Mareotis) Menelaite (Idku) Metelis (Kom el-Ghoraf) Náucratis Nício (Ibshadi) Egito II Busíris Cabasa (Chahbas-Esch-Choada) Cinópolis no Egito (Banâm Benâ) Dióspolis Inferior (Tell el-Balamun) Fragonis (Tell-El-Faraïn, Côm-Faraïn)
História Egito cristão ( – Séc. IV) thumb|esquerda|Atanásio e Cirilo, dois dos maiores expoentes do cristianismo em Alexandria.Iluminura do Menológio de Basílio II
Os cristãos egípcios acreditavam que o Patriarcado de Alexandria havia sido fundado pelo evangelista Marcos por volta de 33, mas pouco se sabe sobre como o cristianismo de fato penetrou no Egito. O historiador Helmut Koester defende, com base em algumas evidências, que originalmente os cristãos no Egito foram predominantemente influenciados pelo gnosticismo, o que só teria mudado a partir dos esforços de Demétrio de Alexandria, quando, gradualmente, as crenças majoritárias na região passaram a se alinhar com as do restante da cristandade. Apesar de o embaraço provocado por essas origens possa explicar a falta de detalhes sobre o período, há muitas lacunas nesta teoria para se supor que a nossa ignorância nesta situação seja apenas um caso especial.
A antiga religião egípcia surpreendentemente não resistiu muito ao avanço do cristianismo. Possivelmente, a colaboração ativa dos líderes religiosos com os conquistadores gregos e romanos já havia erodido sua autoridade na época. Outra explicação é que a religião nativa tenha começado a perder seu apelo entre as classes mais baixas conforme os impostos e serviços litúrgicos instituídos pelos romanos reduziram ainda mais a qualidade de vida.
No ano 200, Alexandria já despontava claramente como um dos grandes centros cristãos. Os apologistas Clemente de Alexandria e Orígenes viveram parte ou toda a vida ali.
Com a publicação do Édito de Milão em 313, Constantino encerrou definitivamente as perseguições aos cristãos. No decurso do , o paganismo foi suprimido e perdeu seus fieis, como o poeta Paládio notou amargamente. Ele ainda existiu clandestinamente por muitos anos: apesar do édito final proibindo as práticas pagãs ter sido publicado em 435, grafito em Filas, no Alto Egito, provam que a devoção a Ísis persistiu nos templos da deusa até o . Muitos judeus egípcios também se converteram, mas muitos mais se recusaram a fazê-lo e passaram a formar a única minoria importante numa região inteiramente cristianizada.
Tão logo se libertou e se consolidou, a igreja egípcia teve que enfrentar um cisma e um prolongado conflito que, em algumas ocasiões, chegou às vias de uma guerra civil. Alexandria tornou-se o centro da primeira grande divisão no mundo cristão, entre arianos, chamados assim por causa do sacerdote alexandrino Ário, e seus adversários, representados por Atanásio, que tornou-se bispo de Alexandria em 326 depois que o Concílio de Niceia rejeitou as ideias de Ário como heréticas. A controvérsia ariana provocou tumultos e revoltas por todo o em diversas regiões do império. Numa delas, o Templo de Serápis, o último bastião do paganismo em Alexandria, foi destruído. Atanásio foi deposto e reinstalado como patriarca em Alexandria entre cinco e sete vezes conforme imperadores simpáticos ou ao arianismo ou à fé nicena se alternavam no poder.
O Egito já era famoso por sua tradição no campo da especulação religiosa, o que era um terreno fértil para diversos pontos de vista controversos. Não apenas o arianismo encontrou muitos seguidores ali, mas outras doutrinas consideradas heréticas, como o gnosticismo e o maniqueísmo, também. Outra criação do Egito romano foi o monasticismo representado pelos Padres do Deserto, que pregava a renúncia ao mundo material em prol de uma vida isolada de pobreza absoluta. Os cristãos egípcios adotaram-no com tal entusiasmo que o imperador Valente teve que restringir o número de homens que podiam tornar-se monges. Porém, mesmo assim, o costume acabou se disseminado por todo o império.
Outro desenvolvimento do período foi a língua copta, uma forma da língua egípcia antiga escrita com o alfabeto grego suplementado com diversos sinais para representar os sons presentes no egípcio e ausentes no grego. Ela foi criada para assegurar a correta pronúncia de palavras e nomes mágicos em textos não cristãos, os chamados "Papiros Mágicos", e foi rapidamente adotada pelos primeiros cristãos, que a utilizaram para pregar entre os egípcios. O copta acabou se tornando a língua litúrgica do cristianismo egípcio e é utilizado até hoje.
Período tardio (Séculos IV-VI) thumb|esquerda|300px|Coluna de Pompeu, erguido no lugar onde antes estava o Serapeu de Alexandria, o mais importante templo pagão ainda existente no , destruído por Teófilo de Alexandria
O reinado de Constantino foi marcado pela fundação de Constantinopla como a nova capital do Império Romano e, durante o , o império foi dividido em dois, com o Egito fazendo parte do Império Romano do Oriente. O uso do latim, porém, que jamais se consolidou no Egito, declinou rapidamente e o grego continuou a ser a língua dominante no governo e entre os estudiosos. Durante os séculos V e VI, o Império Romano do Oriente, chamado hoje em dia Império Bizantino, gradualmente se transformou num estado completamente cristão cuja cultura diferia significativamente de seu passado pagão.
A queda do Império Romano do Ocidente no isolou os romanos egípcios ainda mais da cultura de Roma e acelerou a ascensão do cristianismo. O triunfo da nova religião levou ao abandono completo das tradições faraônicas: com o desaparecimento dos sacerdotes e sacerdotisas egípcias que serviam nos templos, ninguém mais conseguia ler os hieróglifos do Antigo Egito e seus templos acabaram ou abandonados no deserto ou convertidos em igrejas.