thumb|350px|Localização da Lícia na Anatólia Lícia (; ) era uma região da antiga Ásia Menor (Anatólia) onde hoje estão localizadas as províncias de Antália e Muğla, na costa sul da moderna Turquia, e de Burdur no interior. O nome apareceu pela primeira vez nos registros do Egito Antigo e do Império Hitita, ainda na Idade do Bronze Tardia. A região era habitada por falantes de línguas do grupo luvita e inscrições em pedra na língua lícia (uma forma posterior do luvita) começaram a aparecer depois que a Lícia foi conquistada pelo Império Aquemênida na Idade do Ferro. Na época (), os falantes do luvita foram dizimados e a Lícia recebeu um grande influxo de falantes do persa.

A Lícia lutou pelos persas nas guerras contra os gregos, mas, depois que eles foram derrotados, o estado lício conseguiu se tornar independente de forma intermitente. Depois de um breve período como membro do Império Ateniense, a Lícia se separou e tornou-se um reino independente, voltou a ficar sob controle persa, revoltou-se novamente, foi conquistada pelo sátrapa Mausolo da Cária, voltou para o controle dos persas e finalmente passou para o domínio da Macedônia quando Alexandre, o Grande, derrotou os persas. Por conta do influxo de falantes do grego e da escassez de falantes do lício, a Lícia foi totalmente helenizada neste período e a língua lícia desapareceu das moedas e das inscrições.

Ao derrotar Antíoco III em , os romanos deram o território da Lícia para Rodes por 20 anos, tomando-o de volta em Neste período tardio da República Romana, a Lícia conseguiu usufruir de uma grande liberdade como um protetorado romano, o que foi referendado oficialmente com a criação da Liga Lícia no mesmo ano. Esta forma de governo local desenvolveu-se como uma federação primitiva com princípios republicanos, características que não escaparam da atenção dos formuladores da Constituição dos Estados Unidos, influenciando suas ideias.

Apesar disso, a Lícia já não era um estado soberano desde que fora derrotada pelos cários. Em , o imperador romano Cláudio dissolveu a Liga e a Lícia foi incorporada ao Império Romano como uma província. Durante o período bizantino, a região foi governada como uma eparquia e continuou a falar o grego mesmo depois da aparição de diversas comunidades de língua turca no início do segundo milênio ( ano 1000). Depois da queda do Império Bizantino em meados do , a Lícia passou para o controle do Império Otomano e foi herdada pela República Turca depois que ele ruiu. Os gregos finalmente partiram quando as fronteiras entre a Grécia e a Turquia foram negociadas em 1923.

Atualmente, a Lícia é uma parte importante da chamada Riviera Turca, não somente pelas atividades recreativas e esportivas, mas por suas belas antiguidades. As ruínas da antiga Lícia estão por toda parte na região que, por razões desconhecidas, não sofreu tanto com a reciclagem de materiais de construção de antigos edifícios quanto outras regiões.

Geografia

As fronteiras da Lícia variaram muito durante a sua história, mas seu centro sempre foi a península de Teke, no sudoeste da Anatólia, que avança no Mar Mediterrâneo na direção norte-sul e é delimitada a oeste pelo golfo de Fethiye e a leste pelo golfo de Antália. A região abrangia o que é atualmente a porção ocidental da província de Antália, a oriental da província de Muğla e a meridional da província de Burdur. Historicamente, as regiões fronteiriças eram, do oeste para o leste, a Cária, a Pisídia e a Panfília, todas tão antigas quanto a Lícia e cada uma falante de sua própria língua do grupo anatólico.

O nome da península de Teke deriva do antigo nome da província de Antália, "Teke", uma homenagem à tribo turca que primeiro se assentou na região.

Geografia física A região é primordialmente montanhosa, com encostas íngremes avançando muitas vezes diretamente sobre o mar. Quatro cadeias de montanhas se estendem do nordeste para o sudoeste, formando, a grosso modo, a extremidade ocidental dos Montes Tauro. A mais ocidental das quatro são os Montes Boncuk (Boncuk Dağlari), que vão de Altinyayla até perto de Oren, ao norte de Fethiye. Trata-se de uma cadeia de pouca altitude, com picos de até m. Para oeste dali, os profundos cânions formados pelo rio Dalaman (Dalaman Çayi), o antigo rio Indus, marcam a fronteira tradicional entre a Lícia e a Cária. O rio, com 229 km de comprimento, deságua no Mediterrâneo a oeste da moderna cidade de Dalaman. Ele está represado em quatro lugares distintos e nasce nas vizinhanças de Sarikavak, na província de Denizli.

A cadeia seguinte indo para o leste são os "Montes Brancos" (Akdağlari), com cerca de 150 km de comprimento e cujo pico mais alto é o Uyluk (Uyluktepe), com m, e que pode ser o antigo monte "Crago". Ao longo de sua face ocidental corre o rio Esen (Eşen Çayi), o antigo rio Xanto, que nasce nos Montes Boncuk e segue para o sul atravessando a longa praia de Patara. O vale do Xanto era a antiga região de Tŗmmis durante a época da Lícia dinástica, de onde se originavam os térmilas ou trêmilas (kragos nas moedas da Lícia grega: "" ou ""). A região da "Lícia ocidental", termo cunhado por Charles Fellows, é uma referência a toda a Lícia a oeste dali.

A próxima cadeia, "Montes do Bei" (Beydağlari), tem seu ponto mais alto no Kizlarsevrisi, com seus m de altura, o ponto mais alto de toda a península de Teke. Ela corresponde, muito provavelmente, à antiga cadeia chamada Masícato. Entre os Montes Bei e os Montes Brancos está um platô elevado, Elmali, onde estava localizada a antiga cidade de Mílias, a m acima do nível do mar. Fellows chamou esta região de "Lícia central".

O rio Akçay ("rio Branco"), antigo Edesa, trazia água das encostas para a planície abaixo, onde ela se acumulava em dois lagos próximos dali, Karagöl e Avlangöl, ambos secos atualmente por causa dos canais de irrigação que levam a água diretamente para os pomares de maçãs (Elmali significa "maçã"). O antigo Edesa antiga corria pela planície formando um abismo a leste e atualmente segue o mesmo caminho, mas está totalmente canalizado e deságua nos reservatórios de Arycanda e Arif. Esforços tem sido feitos para restaurar pelo menos parte das florestas de cedros que existiam na região, totalmente devastadas ainda na Antiguidade.

A mais oriental das quatro cadeias se estende pela costa leste da península de Teke e é chamada geralmente de "Montes Tatali" (Tahtali Dağlari). Seu ponto mais alto é o Pico Tatali, com m de altura, conhecido como "Monte Olimpo" na Antiguidade pelos gregos, uma referência ao Monte Olimpo na Grécia. As encostas dessa cadeia criaram uma linha costeira bastante entrecortada chamada por Fellows de "Lícia oriental". A maior parte dela é atualmente uma reserva natural, "Olimpos Beydağlari Parki", está uma formação rochosa em forma de "U", Yanartaş, nas encostas do Monte Olimpo acima de Cirali, onde gás metano escapa naturalmente das rochas mais abaixo e alimenta uma chama perpétua, um local conhecido antigamente como Monte Quimera.

Através do cul-de-sac formado pelos montes do Bei e Tatali, o rio Alakir (Alakir Çay), o antigo Límara, corre para o sul pelo largo vale da autoestrada D400 perto de Kumluca e atravessa uma praia para desaguar no Mediterrâneo, uma configuração inteiramente distinta da antiga. A Represa de Alakir, no seu alto curso, criou um reservatório urbano e apenas o seu largo leito (seco) dá uma ideia de sua antiga largura. Mais para cima do reservatório o rio atravessa um cânion, ainda inalterado, vindo das encostas dos Montes do Bei. A antiga rota para Antália segue por este vale e atravessa o cul-de-sac, uma vez que a viagem por terra pela costa é impossível. Este vale era o centro da região antiga de Sólimo, terra natal dos sólimos.

Demografia As fontes antigas mencionam por volta de setenta povoações na Lícia. Elas estavam todas ou ao longo da faixa costeira em enseadas protegidas ou nas encostas e colinas das cadeias montanhosas. Elas são geralmente de difícil acesso, o que, na Antiguidade, era uma característica defensiva. A costa recortada favorecia a construção de portos bem defendidos de onde, em tempos difíceis, partiam as frotas piratas da Lícia.

As principais cidades eram Xanto, Patara, Mira, Pinara, Tlos e Olimpos (cada uma com direito a três votos na Liga Lícia) e Fáselis. Cidades como Telmesso e Krya apareciam ora como lícias ora como cárias nas fontes antigas.

Características e pontos de interesse Embora o diálogo do chamado "Erōtes" tenha se referido às cidades lícia como sendo "mais interessantes pela história do que pelos seus monumentos, uma vez que eles não preservaram nada de seu antigo esplendor", muitas relíquias dos antigos lícios ainda podem ser vistas atualmente. Entre elas estão as características tumbas esculpidas na rocha nas encostas das montanhas da região. Letoon, um importante centro religioso durante o período helênico dedicado à deusa Leto e aos seus dois filhos gêmeos, Apolo e Ártemis, e a vizinha Xanto, a antiga capital da Lícia, são considerados patrimônios mundiais pela UNESCO.

O Museu Britânico, em Londres, abriga uma das melhores coleções de artefatos lícios do mundo.

O Caminho da Lícia, uma rota de longa distância para os praticantes do waymarking, segue ao longo da costa da região e sua criação é parte do plano de tornar a região um pólo recreativo na Turquia. A Lícia é hoje parte da chamada Riviera Turca (ou "Costa Turquesa") e têm longas praias arenosas com na base de suas falésias e pequenas vilas abrigadas em enseadas.

Língua antiga thumb|esquerda|200px|Alfabeto lício no Obelisco de Xanto, na cidade de Xanto

Os epônimos habitantes da Lícia, os lícios, falavam o lício, uma língua do ramo luvita das línguas anatólicas, uma sub-família das línguas indo-europeias. O lício aparece apenas num curto período entre 500 e , escrito num alfabeto único criado para isto com base no alfabeto grego de Rodes. Porém, as línguas luvitas são muito mais antigas e se originaram na Anatólia por volta de A região era conhecida como Luca na época e estava sob controle hitita. Portanto, este intervalo certamente não é por conta da inexistência da língua e sim no uso da tardio da escrita pelos lícios.

Por volta de , antes da primeira aparição do lício, o Império Aquemênida conquistou a Lícia. Apesar da resistência, que resultou na aniquilação da população de Xanto, a região acabou incorporada ao Império Aquemênida. As primeiras moedas com letras lícias apareceram não muito antes de . A Lícia então prosperou sob a liderança de uma monarquia estabelecida pelos persas e, a partir daí, o lício floresceu em inscrições memoriais, históricas e governamentais em pedra. Nem todas elas foram inteiramente compreendidas, principalmente por conta da falta de compreensão sobre a língua em si. O termo "período dinástico" é utilizado para fazer referência a esta época.

A Lícia já abrigava um pequeno enclave de gregos dórios, Dóris, havia alguns séculos e Rodes era habitada por dórios. Depois da derrota dos persas pelos gregos, a Lícia recebeu ainda mais imigrantes gregos e as inscrições em lício declinaram, enquanto as grego se multiplicaram. A completa assimilação do grego ocorreu no , depois que a Lícia passou para o domínio de Alexandre, o Grande, da Macedônia. Não existe ainda um acordo sobre qual é a última inscrição lícia, mas nenhuma data posterior a foi proposta até o momento.

Depois que os macedônios foram derrotados pela República Romana - que permitiu os lícios uma grande autonomia - a região continuou falante do grego, situação que perdurou até os tempos bizantinos. A partir do ano 1000, a Anatólia passou a receber um grande influxo de colonos falantes do turco, mas eles jamais foram muito numerosos na Lícia. Depois da queda do Império Bizantino em meados do , a Lícia passou para o controle do Império Otomano, período no qual povoações falantes do grego e do turco coexistiram lado-a-lado.