Os zulos ou zulus são um povo do sul da África que vivem na África do Sul, com pequenas comunidades nos países adjacentes, como Lesoto, Essuatíni, Zimbábue e Moçambique. Os zulos foram, no passado, uma nação de guerreiros que lutaram contra a invasão imperialista britânica e bôer no século XIX.

A população de zulus na África do Sul foi estimada em 10 a 12 milhões de pessoas em 2021, correspondendo a 21% da população. Nos restantes países, o número de zulos é estimado em cerca de 400 mil.

A província sul-africana do Cuazulo-Natal é considerada a sua pátria original.

A língua dos zulos é denominada isizulu e nessa língua os zulos são chamados amazulu.Sandra Sanneh, Yale University, Speak Zulu with Us

História Os zulos eram originalmente um grande clã onde hoje é o norte do Cuazulo-Natal. Originalmente estavam localizados mais ao norte da África Austral. O clã foi fundado por Zulo I Camalandela. Em 1816, os zulus formaram um poderoso estado sob liderança de Shaka.

Os zulus possuíam uma mobilidade relativamente grande, contudo, os deslocamentos não ocorriam por simples nomadismo e sim por motivos diversos, como a exaustão da terra, a necessidade de novas áreas de caça, ameaça de inimigos, entre outros. Dessa forma um guerreiro em particular se destacou: Shaka, responsável pela criação de um poderoso estado.

Era dos grandes guerreiros zulos miniaturadaimagem|upright|Inovações militares, como a azagaia, implantadas por Shaka

Nos meados do século XVIII começaram a culminar guerras entre tribos africanas, na região da atual África do Sul, pela posse de terras. Era necessário que as tribos se expandissem para terem espaço suficiente para a pastorícia e agricultura, tal feito ocorreia no estreito corredor entre a cordilheira do Drakensberg e o mar. Os rios que descem da cordilheira formavam fronteiras naturais, por conseguinte formaram-se três grandes grupos de tribos Ngoni. Os suázis, encontravam-se desde o o rio Pongola, comandados por Sobuza; os anduandués entre o rio Pongola e o rio Umfolozi, comandados por Zwide, e; os mtétuas do rio Umfolozi até ao rio Tugela, comandados por Dingiswayo. As lutas entre estas tribos eram muito frequentes e por essa razão começou-se aprimorar a organização militar, articulando exércitos na base de grupos da mesma idade.

Por volta de 1790 nasce na tribo zula Shaka, fruto de uma gravidez antecedente a circuncisão, algo proibido na tribo zula e por isso não era considerado herdeiro do trono. Durante sua adolescência Shaka foi incorporado no exército de Cetshwayo onde tornou-se o guerreiro favorito do rei e passou a comandar um regimento do exército no grupo de sua idade. A posição de Shaka no exército de Cetshwayo fizeram com que o grande chefe expansionista dos mtétuas o ajudasse a tomar o trono pela força, após morte de seu pai em 1816.

Dois anos mais tarde, em 1818, há uma grande batalha entre Cetshwayoe e Zwide, onde o chefe mtétua foi morto, levando Shaka tomar conta do poder e dar início a reformas militares.

Durante o tempo de serventia no exército de Cetshwayo, Shaka observou que as armas usadas já eram ultrapassadas para as novas tácticas de guerra. Assim, ele introduziu o uso do escudo que protegia o corpo inteiro e implantou a substituição da lança que se atirava por uma lança mais curta, a assegai (azagaia), que funcionava como uma espada. Shaka instituiu a técnica de combate "corpo-braço-cabeça" em que o corpo era a grande concentração de esquadrão central e a única que os inimigos podiam ver, e cada esquadrão era distinguido por diferentes cores dos panos de cabeça e pelos couros de gado usados no escudo.

Foi graças a esta organização militar de Shaka que os zulos conseguiram conquistar e derrotar numerosas outras tribos, levando o título de Grandes Guerreiros. Ele fez todos os membros da sociedade participarem na guerra, dividindo com precisão as funções. Todos os homens de 16 a 60 anos serviam no exército. Era proibido aos jovens guerreiros casar-se e o casamento só era autorizado como pagamento de serviços militares. As mulheres e as crianças serviam também no exército, seguindo o exército com o gado, cozinhando e carregando comida, os homens de outras tribos que eram feitos prisioneiros tornavam-se escravos e se eram novos e fortes faziam parte do exército.

Reino Zulo miniaturadaimagem|Localização do Reino Zulu

A ascensão do Reino Zulo dá-se pela vitória sobre o exército anduandué que recebe o nome de Batalha de Gokoli. O reino cresceu para dominar grande parte do que hoje é o Cuazulo-Natal e a África Austral.

Após conflitos envolvendo a tribo dos anduandués, sendo informado que Sikuniana planejava o atacar, Shaka ordena um grande exército à combate dos anduandués, dando origem a um grande massacre e cerca de 40 mil anduandués são mortos, levando os poucos que restaram acolher-se junto de Mzilikazi e Soshangane. A tribo dos anduandués deixou de existir de forma independente.

Falecimento de Shaka Shaka, que não tinha descendentes que pudessem suceder-lhe, iniciou um processo de purga indiscriminada que abalou toda a estrutura do reino Zulo. A mortalidade gratuita se espalhou pelo reino. No dia 22 de setembro de 1828 Shaka foi morto por uma tia e seus dois meio irmãos, terminava assim a era do homem que impulsionou a nação zula.

Guerra Anglo-Zula O reino entra em conflito com o Império Britânico na década de 1870 durante a Guerra Anglo-Zula. Em 11 de dezembro de 1878, os britânicos entregaram um ultimato aos onze chefes representados por Cetshwayo kaMpande. Os termos incluíam a rendição de seu exército e aceitar a autoridade britânica. Cetshwayo recusou e a guerra começou em 1879.

Inicialmente, os britânicos sofreram uma pesada derrota na Batalha de Isandlwana em 22 de janeiro de 1879 quando o exército zulo mata mais de mil soldados britânicos em um único dia. O desdobramento zulo em Isandlwana mostrou o sistema tático militar bem organizado que tornou o reino Zulo bem sucedido por muitas décadas. Este acontecimento constituiu a pior derrota que o exército britânico já havia sofrido nas mãos de uma força de combate africana nativa. A derrota provocou um redirecionamento do esforço de guerra, e os britânicos, embora em menor número, começaram a ganhar vitórias, a virada dos britânicos veio com a batalha em Rorke's Drift e sua vitória veio com a Batalha de Ulundi em 4 de Julho e a subsequente derrota do Reino Zulo.

Após as derrotas militares, já no bojo da Conferência de Berlim (1885), as terras dos zulos foram absorvidas pela Colônia de Natal e mais tarde se tornaram parte da União Sul-Africana.

Cultura Língua Dentro do mosaico cultural e linguístico africano há várias línguas independentes, onde os falantes são considerados até mesmo bilíngues devido à existência de formações dialéticas. Uma das várias línguas derivadas de autóctones regionais é a zula, uma língua banta falada na parte sudeste da África do Sul, bem como em Moçambique, Joanesburgo, regiões do Zimbábue e Zâmbia. A ordem gramatical dessa língua é semelhante ao português: sujeito-verbo-objeto.

Dança As danças zulas são um marco cultural da África, presentes em zonas rurais, periféricas (townships) e centros culturais e empregadas em diferentes contextos — como em casamentos, funerais, guerras e nascimentos. Para alguns pesquisadores essas danças estão ligadas diretamente com os papéis de gênero exercendo força de padrões sociais no que diz respeito em ser homem e ser mulher dentro da comunidade zula.

Os movimentos da dança mudam conforme a modalidade, entretanto existem passos comuns e emblemáticos, como: o ato de correr para a frente e para trás, erguer as pernas tentando formar ângulos de 180º. A presença de instrumentos não é forte, às vezes há tambores, mas em suma os sons vibrantes são produzidos pelo próprio povo.

miniaturadaimagem|Dança de casamento zulo

Existem cinco modalidades de danças zulas:

Ingoma (isizingilli): participação de homens e mulheres e sem a presença de instrumento representando a veracidade masculina e a fertilidade feminina; Ingoma (isishamew): também com a participação de ambos os sexos e harmonia de cantos. Enquanto as mulheres dançam os homens batem palmas e vice-versa; Indlamu: apresenta ritmo frenético e é dançada apenas por homens trajados de pele de animais e escudos com intuito de representar a força dos guerreiros zulos; Imvunulo: apenas um participante, podendo ser homem ou mulher, a intenção é exibir o traje tradicional do povo; Isicathamiya: esta chama bastante atenção por tratar de assuntos contemporâneos apesar de a melodia ser antiga. Dançada apenas por homens que com os chocalhos nos pés cantam sobre trabalhadores, imigrantes, proliferação da AIDS e crimes.

As danças zulas e os festivais que as acompanham — como o festival da virgindade — passaram a atrair vários turistas e serem vistas pelo governo local como forma de movimentar a economia.

Vestuário miniaturadaimagem|Danças zulas numa cerimónia Umemulo

Depois de anos reprimidos pelo apartheid as roupas para o povo zulo representa um mecanismo de reafirmação de identidade. Nas aldeias, o povo mantém as vestimentas típicas, trabalhadas com peles de cabra ou vaca. As meninas usam normalmente somente saias, e também aventais feitos de miçangas cruzado na frente do corpo, sem mais nada por baixo, além dos braceletes grossos no pescoço, nos braços e nas pernas. Na dança há a substituição dos aventais por saias de lã, chocalhos no tornozelo para auxiliar no momento de levantar as pernas e peitos sempre despidos.

O isicholo, um dos adereços mais famosos do povo zulo, é um chapéu usado por mulheres mais velhas e quase exclusivamente em contextos cerimoniais e competitivos.

Além de vestimentas o cabelo é algo símbolo cultural importante para esse povo — principalmente entre mulheres. São conferidos aos cabelos aspectos comunicativos que falam dos movimentos mais cotidianos, mostrando status social e diferenças de áreas rurais para as cidades.

Religião e crenças A crença zula era em espíritos ancestrais (amaThongo ou amaDlozi), que tinham o poder de intervir na vida das pessoas, para o bem ou para o mal. Tradicionalmente, os zulos reconhecem vários elementos para estarem presentes em um ser humano: o corpo físico (inyama yomzimba ou umzimba); a respiração ou força vital (umoya womphefumulo ou umoia); e a "sombra", prestígio ou personalidade (isithunzi). Uma vez que o umoya deixa o corpo, o isithunzi pode viver como um espírito ancestral (idlozi) somente se certas condições forem satisfeitas na vida. Demonstrar respeito e generosidade para com os outros, aumenta a posição moral ou o prestígio da comunidade, a isithunzi. Em contraste, agir de maneira negativa em relação aos outros pode reduzir o isithunzi, e é possível que o isithunzi desapareça completamente.

Para atrair o mundo espiritual, um adivinho (sangoma) deve invocar os ancestrais através de processos de adivinhação. Então, um fitoterapeuta (inyanga) prepara uma mistura (muthi) para ser consumida a fim de influenciar os ancestrais. Como tal, adivinhos e fitoterapeutas desempenham um papel importante na vida cotidiana do povo zulo. No entanto, é feita uma distinção entre o muthi branco (umuthi omhlope), que tem efeitos positivos, como a cura ou a prevenção ou reversão do infortúnio, e o muthi negro (umuthi omnyama), que pode causar doença ou morte a outras pessoas ou doenças. Usuários de muthi negros são considerados bruxos e evitados pela sociedade.

Mitologia