Alcatrazes é um arquipélago brasileiro, localizado aproximadamente 35 km ao sul de São Sebastião, no litoral norte do Estado de São Paulo, a uma hora de barco, aproximadamente. Em 2023, ganhou o prêmio internacional Blue Park nível ouro pela "excepcional conservação da vida marinha" durante o 5º Congresso Internacional de Áreas Marinhas Protegidas.

O arquipélago é formado por cinco ilhas maiores, sendo a principal denominada Ilha de Alcatrazes (2,5km de extensão e 170 hectares de área) e as demais conhecidas como da Sapata, do Paredão, do Porto (ou do Farol) e do Sul. Há também quatro ilhas menores (ilhotas não nominadas); cinco lajes (Dupla, Singela, do Paredão, do Farol e Negra); e dois parcéis (Nordeste e Sudeste).

Alcatrazes é o maior sítio reprodutivo de aves marinhas da costa brasileira, com uma população que gira em torno de 10 mil aves. Além disso, por conta de sua diversidade de flora e fauna, com mais de 20 espécies endêmicas, o arquipélago é conhecido como "Galápagos do Brasil", e atrai um número cada vez mais alto de pesquisadores. Tem importância ímpar para a biodiversidade marinha brasileira, possuindo mais variedades de peixes do que Fernando de Noronha.

O conjunto é protegido, desde 1967, pela Estação Ecológica Tupinambás, uma Unidade de Conservação Federal de Proteção Integral, e, desde 2016, pelo Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, que é atualmente a segunda maior unidade de conservação integral da Marinha do Brasil depois do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos.

Etimologia alt=Ilha do Farol|miniaturadaimagem|Ilha do Porto, também conhecida como Ilha do Farol O nome do arquipélago vem do pássaro que corresponde à segunda maior população de aves no local, com cerca de 3 mil indivíduos: o atobá-pardo, que também é conhecido como "alcatraz", termo que em árabe (الغطاس) significa "o mergulhador" - devido à sua habilidade para mergulhar no mar e capturar peixes ou lulas.

Geografia Geologia thumb|450px|centro|Reprodução de uma montagem de fotos do arquipélago A geomorfologia de Alcatrazes é caracterizada por sendimentos arenosos com menos silte e argila. O arquipélago consiste em um biotita granito porfirítico.

Acredita-se que as ilhas apresentam o formato dos dias de hoje há pelo menos 2,5 milhões de anos. Contudo, durante o último período glacial (entre 85 mil e 15 mil anos atrás), o mar estava recuado de tal forma que o arquipélago era, na verdade, uma montanha ainda conectada ao continente.

Alcatrazes é formado por cinco ilhas maiores, sendo a principal denominada Ilha de Alcatrazes (2,5km de extensão e 170 hectares de área) e as demais conhecidas como da Sapata, do Paredão, do Porto (ou do Farol) e do Sul. Há também quatro ilhas menores (ilhotas não nominadas); cinco lajes (Dupla, Singela, do Paredão, do Farol e Negra); e dois parcéis (Nordeste e Sudeste). Sua profundidade pode chegar aos 50 m. Sua cobertura oceânica total é de 67 mil hectares.

O ponto culminante do arquipélago é o Pico da Boa Vista (ou dos Alcatrazes), com 316 m de altura. Outro pico é o do Oratório, com 154m. As faces das ilhas são marcadas por paredões rochosos íngremes que podem chegar aos 200 m de altura. Entre os braços sul e leste da ilha principal fica o Saco do Funil, parte mais abrigada da ilha e local onde a marinha brasileira praticava tiros (veja detalhes na seção "História" abaixo).

A Ilha do Porto, também conhecida como Ilha do Farol, é onde fica localizado o farol Alcatrazes (3268), uma torre tronco piramidal quadrangular de concreto armado, branca, com 7m de altura, luz de lampejo branco na altitude de 24 metros com alcance de e setor de visibilidade de 230° (014° a 244°).

Biodiversidade thumb|direita|Jararaca-de-alcatrazes, uma das espécies endêmicas do arquipélago Possui rica fauna e flora; em dezembro de 2019, 1,3 mil espécies haviam sido registradas no local, sendo 93 consideradas ameaçadas de extinção e 20 possuindo status de espécies endêmicas, incluindo a jararaca-de-alcatrazes, a perereca-de-alcatrazes e a rã Cycloramphus faustoi. Dentre as plantas endêmicas, há o Anthurium alcatrazensis, a Begonia venosa e a Sinningia insularis (endêmica também do Morro do Recife, em São Sebastião), além da Begonia larorum, coletada somente uma vez e nunca mais encontrada no local, sendo considerada extinta.

Acredita-se que haja outras espécies endêmicas no local que ainda não foram catalogadas, incluindo uma espécie de cobra-coral cujos dois únicos exemplares conhecidos foram destruídos durante o incêndio de 2010 no Instituto Butantan.

Tal característica levou o arquipélago a ser conhecido como "a Galápagos do Brasil" por alguns cientistas, que acreditam que Charles Darwin teria chegado às mesmas conclusões que chegou no arquipélago equatoriano se tivesse estudado a fauna de Alcatrazes. Conforme descrito na subseção "Geologia" acima, a ilha foi por dezenas de milhares de anos ligada ao continente, o que permitiu que diversas espécies terrestres tivessem fácil acesso ao local. Conforme o nível do mar subiu e voltou a isolar o arquipélago, a fauna que ali permaneceu ou se extinguiu ou se adaptou e evoluiu, dando origem às espécies únicas que resultaram de 11 mil anos de isolamento genético.

Na ilha principal pode ser encontrado o maior ninhal de fragatas do mundo, agrupando 6 mil espécimes. Um total de cerca de 10 a 20 mil aves habita o arquipélago, onde já foram avistadas mais de 100 espécies (outra fonte fala em 92), incluindo algumas sob risco de extinção, como o pirupiru e o trinta-réis-de-bico-vermelho. A expedição colonizadora de Martim Afonso de Sousa entre 1530-1532 já registrava avistamento de aves no local, e a de Luederwaldt & Fonseca em 1920 catalogou 39 espécies, das quais 17 foram consideradas residentes. Entre os anos 1990 e 2000, as expedições do Projeto Alcatrazes ampliaram ambas as cifras para 103 e 37, respectivamente. 11 são consideradas ameaçadas.

Em suas águas, diversas espécies convivem em meio aos corais-cérebro, incluindo 400 espécies de invertebrados e um número de espécies de peixes (entre 200 e 250, sendo cerca de 40 consideradas ameaçadas; outra fonte fala em exatas 160 espécies catalogadas (em 2017) e outra fonte do mesmo ano fala em 259, estando 47 sob algum grau de ameaça) superior a qualquer outro lugar do Brasil, incluindo o arquipélago de Fernando de Noronha, que é bem maior que Alcatrazes, mas abriga 150 espécies. O local também é visitado por tartarugas-verdes e tartarugas-de-pente e por cetáceos, incluindo golfinhos, baleias-de-bryde, baleias-jubarte e baleias-francas. A distância nem muito grande, nem muito pequena da ilha em relação ao continente e o fato de estar situada numa zona de transição entre águas tropicais quentes e águas subtropicais mais frias contribui para a diversidade de peixes.

Há outras espécies de corais na região, incluindo a Ceriantheomorphe brasiliensis, considerada ameaçada.

Foram registradas 18 espécies de borboletas e 48 de aranhas, dez espécies de esponjas (incluindo a espécie Latrunculia janeirensis, que anteiormente se acreditava endêmica das Ilhas Cagarras), 60 espécies de moluscos, 59 espécies de poliquetas (incluindo a ameaçada Eurythoe complanata),, 50 espécies de crustáceos (número referente a toda a ESEC Tupinambás, que inclui áreas próximas à Ilha Anchieta),, 20 espécies de equinodermes (sendo seis ameaçadas),, 10 espécies de briozoários e 24 espécies de ascídias.

O mar em volta das ilhas não recebia muita atenção até os anos 1990, pois o mergulho ainda não era visto como um instrumento de pesquisa científica até então no Brasil. Foi no arquipélago que esta realidade começou a mudar.

Além dos próprios exercícios militares da Marinha, outra ameaça ao ecossistema local é a poluição do mar, tanto na forma de resíduos químicos (que contaminam o plâncton e, consequentemente, toda a cadeia alimentar que o envolve) quanto lixo indevidamente descartado. Os corais-sol, espécie invasora, representam também um risco para a fauna nativa. Foram detectados primeiramente em 2011 e, desde então, vêm sendo monitorados e removidos para que não se tornem uma praga, embora a erradicação seja considerada impossível de se atingir. A espécie, originária do Indo-Pacífico, chegou ao Brasil em 1990. Na ilha próxima de Búzios, pertencente ao município de Ilhabela, o coral invasor já causou significativos danos.

A vegetação das ilhas é essencialmente de Mata Atlântica, mais especiicamente caracterizada por floresta ombrófila densa, mas vai se assemelhando ao cerrado nas partes mais altas. Registra-se 130 espécies de plantas no local, incluindo quatro endêmicas: duas begônias, um antúrio e uma gloxínia, esta última conhecida como "rainha-do-abismo", pois floresce à beira de penhascos.

Clima Sob influência do Anticiclone do Atlântico Sul, o arquipélago passa por verões quentes e úmidos e invernos mais secos e amenos.

Oceanografia As águas em torno do arquipélago apresentam composição química que favorece o ecossistema local na zona eufótica.

História Há 2,5 milhões de anos, Alcatrazes era uma montanha coberta de Mata Atlântica no meio de uma floresta, e não uma ilha. Segundo o geólogo Paulo César Giannini, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, durante aproximadamente 65 mil anos foi possível caminhar em terra firme de onde hoje é São Sebastião até Alcatrazes.

Por conta disso, vestígios arqueológicos mostram que Alcatrazes era visitada por povos pré-colombianos.oeco.org.br/ Alcatrazes: 23 anos esperando pelo parque nacional Seus primeiros frequentadores conhecidos, os índios tupinambás, batizaram o local de "Uraritã" (terra de aves, numa tradução livre, segundo o idioma da tribo). Há cinco sítios arqueológicos na ilha, contemplando desde vestígios pré-coloniais até ruínas do início do século XX, que restaram de edificações de apoio a faroleiros do local. Estas tentativas de ocupação da ilha produziram os primeiros impactos significativos na flora local, que lentamente se recupera nos espaços outrora roçados para construção de casas e plantio de subsistência.

Com o fim da última era do gelo, o nível do mar voltou a subir e rodear Alcatrazes, isolando-a do continente.

Na História, Alcatrazes aparece primeiro em 1530, no diário de Pero Lopes de Souza, um dos líderes da primeira expedição portuguesa para tomar posse da nova colônia. O grupo usou o local para coletar peixes e madeira antes de seguir viagem para o sul do país.

Já no Século XVIII, de acordo com Kodja et al., (2012), a ilha principal foi usada por pescadores e caiçaras como área de pesca, abrigo e extração do guano depositado pelas aves marinhas, adubo valioso antes dos fertilizantes industriais serem inventados.Kodja, G.; Gibran, F. Z.; Leite, K. L.; Moura, R.L. & Francini-Filho, R. B. 2012. Alcatrazes. Cultura Sub, São Paulo. 208 p. Esta exploração foi detectada também nos anos 1950.

A primeira e única edificação do local é uma casa possivelmente erguida no início do século XX para abrigar um zelador do arquipélago. Uma das primeiras expedições científicas ao local ocorreu em 1915, por parte da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo. Em 1920 ou 1922, outra visita, liderada por Luederwaldt & Fonseca (do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo), aconteceu, em parceria com o Instituto Butantan. Em sua visita, Luederwaldt registrou roças, plantações e dois pequenos portos para desembarque de pescadores. Dentre os alimentos cultivados, encontravam-se abacate, aipim, bananas, batata-doce, feijão-de-lima, milho,