A Ofensiva de Kerensky ocorreu entre junho e julho de 1917 e foi a última ofensiva russa durante a Primeira Guerra Mundial.Feldman (1968), p. 543 Teve como objetivo evitar a passagem das tropas das Potências Centrais à Frente Ocidental antes da chegada das forças estadunidenses, que deveriam dar vantagem à Tríplice Entente, e também retomar a disciplina e o moral das tropas russas, muito debilitadas após a Revolução de Fevereiro e pelas penalidades sofridas na guerra.
O regime czarista havia se comprometido com os Aliados em participar de uma nova ofensiva conjunta em 1917. Inicialmente, esta havia sido planejada para o começo do ano, porém as necessidades militares das forças britânicas e a recusa dos russos em combater no meio do inverno atrasaram as operações até a primavera. Porém, o grande número de baixas, o desânimo das tropas e também as medidas democratizadoras do novo governo que enfraqueceram a antiga disciplina militar levaram à desorganização do exército russo, impedindo seu envolvimento nas operações da primavera. O governo, os comandantes e a maioria dos partidos políticos — incluindo os socialistas moderados que controlavam o Soviete de Petrogrado e a maior parte dos comitês militares das frentes de combate —, convencidos da necessidade de realizar uma nova ofensiva, prepararam esta para o verão, dificultados pela grande oposição dos soldados e operários em realizar novos ataques.
A ofensiva deu-se finalmente no início de julho, e apesar dos êxitos iniciais, logo fracassou por conta da falta de apoio e disciplina dos soldados, os quais se recusaram a participar da ofensiva ou se retiraram após o início das operações. Apesar de estarem em desvantagem bélica e numérica, as Potências Centrais contra-atacaram e conseguiram recuperar o território perdido, avançar até Ternopil e desorganizar todo o frente sudoeste, que era mantido pelos russos com extrema dificuldade. A ofensiva resultou em um fracasso político e militar: não obteve êxito em retomar a ordem e a disciplina do exército, desencadeou uma série de protestos na capital, favoreceu a desagregação das unidades militares, desgastou o pouco prestígio militar da Rússia ante os franceses e os britânicos e resultou em novas perdas de território, além de ter favorecido uma polarização política que desgastou o Governo Provisório e favoreceu os setores extremistas de esquerda e direita.
Antecedentes
Compromisso com os Aliados upright=1.2|Reunião do alto escalão militar russo em 1916|thumb|left Em 18 de dezembro de 1916, os comandantes russos das distintas frentes de combate se reuniram na sede do alto escalão em Mogilev para discutir sobre a próxima ofensiva dos Aliados.Heenan (1987), p. 15 Os militares rejeitaram os planos de uma ofensiva para fevereiro do ano seguinte, embora os representantes russos tenham permitido sua aprovação na conferência aliada em Chantilly, na qual foi decidida a data para o próximo ataque. Segundo os generais russos, o inverno, estação do ano em que se encontravam, fazia com que fosse impossível a realização de uma operação de grande porte na Frente Oriental, e o exército tampouco estava preparado para realizar uma ofensiva. A maioria dos militares russos defendeu o adiamento da ofensiva até maio, quando deveriam chegar as baterias da artilharia britânica, consideradas essenciais para o êxito da campanha; decidiu-se também realizar uma profunda reorganização das unidades militares russas, o que deveria proporcionar uma maior capacidade de manobra para o exército, ainda que isto também impedisse a realização de uma ofensiva imediata. Apesar das exigências dos Aliados, os generais presentes decidiram que suas unidades simplesmente apoiariam uma possível ofensiva em outras frentes mediante operações limitadas e adiariam qualquer operação de grande porte para o verão. Após longas discussões, a frente sudoeste foi escolhida para a realização do ataque principal.
A relativa ausência de tropas alemãs nessa zona ( de um total de ) e a concentração das tropas russas próximas à frente romena facilitavam o ataque nesta região.Heenan (1987), p. 18 O plano incluía o avanço dos 7º, 8º e 11º exércitos desde Lviv-Sighetu Marmației, reforçados com unidades da frente romena. Para apoiar este ataque e evitar um socorro inimigo, seriam realizados ataques menores em outras frentes: na Frente Ocidental se lançaria uma ofensiva menor até Vilna; na frente setentrional, até Riga; e, na frente romena, até Dobruja. O czar aprovou este plano do chefe do Estado-Maior do Exército Russo, general Mikhail Alekseyev, em 24 de janeiro de 1917.
O comandante da frente sudoeste, general Aleksei Brusilov, reuniu ainda em janeiro os chefes dos três exércitos que participariam da ofensiva para planejar as operações de cada um: o 7º Exército realizaria o ataque principal mediante um avanço em direção ao noroeste até Lviv, o 11º Exército teria o mesmo objetivo, porém avançaria na direção oeste; o Exército Especial continuaria avançando até Vladimir-Volinski e Kovel, enquanto as tropas de assalto do 8º Exército ao longo dos Cárpatos iriam apoiar a frente romena quando esta se unisse ao ataque. Este foi o plano aplicado durante a ofensiva no verão, apesar da exclusão da participação do Exército Especial nas operações.
Na conferência entre os Aliados ocorrida em Petrogrado em fevereiro — a primeira ocorrida em território russo —, foi acordado o adiamento da principal ofensiva aliada para a primavera, devendo ser levada a cabo no mês de abril.Heenan (1987), p. 33 Esta mudança se deu não só pela insistência dos russos em adiar a campanha, mas também pelas necessidades militares dos franceses e britânicos, resultante de alterações nos planos do comandante francês, general Robert Nivelle.
Situação do exército
A disciplina no seio do exército russo havia decaído após a abdicação do czar Nicolau II.Feldman (1968), p. 530 Em parte, a perda da disciplina deu-se por conta da desconfiança das tropas em relação a seus comandantes: a grande quantidade de baixas sofridas pelo exército russo e os fracassos militares ocorridos nos primeiros anos do conflito haviam desprestigiado os oficiais entre as tropas.Heenan (1987), p. 65 Segundo Victor Chernov, líder socialista revolucionário, "quando tornou-se evidente para todos a incapacidade dos comandantes, os soldados passaram a insistir em discutir as ordens, o que minava as próprias bases do exército".
Composição do exército
A grande quantidade de baixas teve outra consequência fundamental: alterou profundamente a composição das forças armadas, tanto das tropas como das oficialidades. Ainda que os soldados continuassem sendo em sua maioria de origem camponesa, as últimas levas de 1916 haviam começado a incluir também homens de meia idade e os novos recrutas enviados à frente de combate recebiam uma instrução ainda menor do que a de seus predecessores. O recrutamento dos trabalhadores rurais, que forçava suas saídas do campo, agravava ainda mais a situação agrária da Rússia. A oficialidade, especialmente entre os escalões mais baixos, também havia mudado radicalmente durante a guerra: o grande número de baixas havia eliminado praticamente todos os antigos oficiaisHeenan (1987), p. 66 e eles acabaram sendo substituídos por novos com visões mais liberais do que as habituais entre os comandantes. Nas patentes inferiores à de capitão, quase todos os oficiais eram provenientes das academias para recrutas criadas durante a guerra, que exigiam apenas quatro anos de escolarização e quatro meses de serviço ativo para o ingresso, sendo que praticamente todos eles também provinham do campesinato ou das classes médias e baixas. Os oficiais do alto escalão queixavam-se da "atitude pouco marcial" dos jovens oficiais, ao mesmo tempo em que os reforços recebidos eram cada vez mais fracos. Além disso, muitos destes novos oficiais se opunham à ofensiva e consideravam que seu fracasso prejudicaria tanto o governo quanto o alto escalão do exército.
Mudanças dos comandos militares miniaturadaimagem|General Brusilov com o Ministro da Guerra Kerensky em 1917. O comando das unidades havia sofrido profundas mudanças após a Revolução de Fevereiro, por conta da substituição de muitos generais e de vários oficiais terem mudado de uma unidade para a outra. Inclusive o Estado Maior havia passado por mudanças notáveis: em 22 de maio, Kerensky havia substituído Alekseyev por Brusilov, que até então havia comandado a frente sudoeste.Heenan (1987), p. 67 Todos os comandantes das diversas frentes e muitos dos oficiais que controlavam distintos corpos do exército foram substituídos.Heenan (1987), p. 68 Na frente sudoeste, considerada a de maior importância para a realização da ofensiva, o novo comandante, general A. E. Gutor, tomou o controle apenas três semanas antes do começo das operações. Os 7º e 11º exércitos também haviam recentemente trocado de comandantes, e no caso do último, em três ocasiões distintas. Toda a oficialidade dessas unidades havia sido nomeada nos três meses que precederam a campanha de verão. O mesmo ocorreu com o 8º Exército, que teria uma tarefa menor nos planos originais, porém acabou desempenhando um papel destacado por conta da direção de seu novo comandante, o general Lavr Kornilov, que tomou o comando da unidade em 12 de maio, substituindo Alexey Kaledin.Heenan (1987), p. 69
As mudanças dos comandos militares não afetaram unicamente a frente sudoeste: Anton Denikin tomou o comando da frente ocidental em 8 de junho, dez dias antes do começo das operações; o general Dragomirov substituiu Ruzski antes de ser ele mesmo substituído pelo general V. N. Klembovski na frente norte; e na frente romena, o general D. G. Shcherbachov substituiu V. V. Sajarov.
O moral das tropas
A Revolução de Fevereiro apenas reforçou a oposição à guerra entre os soldados.Heenan (1987), p. 89 As esperanças de que a revolução traria melhores condições de vida foram se esvaecendo com a ausência de reformas e a continuidade da guerra. O descontentamento dos soldados com a guerra pode ser bem ilustrado com a seguinte carta enviada da frente de combate ao Soviete de Petrogrado:Heenan (1987), p. 97
Nós, soldados, nos sentamos nas trincheiras, entre a lama, onde dezenas de milhares morrem todos os dias, e ansiamos pela paz. Enquanto isso, vocês, os governantes do país, sedentos por sangue, não cansam de nos darem ordens para que sigamos combatendo até a vitória final. O que significa a liberdade para nós, se vocês desejam que continuemos combatendo e repetem os mesmos bordões do antigo governo? Isto não é a liberdade, isto é apenas uma nova grande guerra sangrenta e sem sentido que devora dezenas de milhões de inocentes e enterrará todas as criaturas vivas sem beneficiar a ninguém. Miliukov não escuta, nem Chkheidze, tampouco Kerensky...
Parece-nos que nosso único pequeno raio de esperança é Lenin, mas vocês o consideram um provocador. Bem, pois não é nem um provocador e nem um traidor. Deseja pôr um fim nessa maldita e sangrenta guerra sem sentido, porém vocês querem calá-lo e apagar o nosso bem vindo raio de luz. Se não houvesse Lenin, quem pensaria em nós? Nem Chkeidze, nem Miliukov, nem Keresnky, nem Skobelev o fariam...
Também nossos irmãos soldados que foram eleitos como representantes recitam o mesmo bordão sem sentido: "até a vitória final". Elegemo-nos porque prometeram antes de sua eleição que tentariam trazer a paz, mas eles deixaram as trincheiras e esqueceram de seus leais camaradas. Agora dizem: "Deixe-os morrer, enquanto nós, os delegados, sentamo-nos confortavelmente em nossos comitês". Que maneira de pensar! Assim, vocês somente estão perdendo o exército e condenando-o.