Leonardo Felipe, mais conhecido como Leo Felipe (Porto Alegre, 27 de agosto de 1973), é um escritor brasileiro. É o autor da novela de não-ficção A história universal do after (2019) que, através de diferentes formas textuais em primeira pessoa, documenta a experiência junto a coletivos político-identitários promovendo festas de música eletrônica no Brasil dos anos 2010. Atuou também como jornalista, músico, DJ e curador de arte.
Ganhou notoriedade inicialmente como empresário da noite em Porto Alegre, tendo sido um dos fundadores do bar Garagem Hermética, reduto da contracultura porto-alegrense nos anos 1990. Em 2014, lançou A fantástica fábrica, um relato em tons ficcionais sobre a alucinada história do bar.Feix, Daniel. "Garagem Hermética é tema de livro de Leo Felipe". Zero Hora, 19/05/2014
O interesse pela contracultura se expressou também no ambiente acadêmico. Em 2013 obteve o Mestrado em História, Teoria e Crítica de Arte pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com a dissertação Rock My Art, ou O Novo Esteticismo de "Por que Choras?", ou O dia em que Edu K entrou para a História da Arte,Teló, Luiz Paulo. "A Franqueza de Leo Felipe". Culturíssima, 24/05/2015 que analisa a performance Por que Choras?, realizada por Telmo Lanes e Rogério Nazari, em 1985, com trilha sonora executada ao vivo pela banda DeFalla. O estudo aponta "momentos do século XX em que o campo das artes visuais foi cruzado com o da cultura popular massiva representada pelo rock" e propõe questionamentos "acerca do fazer da própria História da Arte". Sua pesquisa o levou a eventos acadêmicos internacionais, como KISMIF Conference (Universidade do Porto, Portugal, 2018); Tropical Underground Revolutions of Anthropology and Cinema (Deutsches Filmmuseum, Frankfurt, Alemanha, 2018); II Historical Fictions Research Network Conference (National Maritime Museum, Londres, Reino Unido, 2017); Artists’ Publications: Revision of Multiples and Conceptual Photography c. 1970 (Nova York, EUA, 2016); 18 Conference of the Austrian Society of Art Historians: Newest Art History (Universidade de Viena, Áustria, 2015). Felipe, Leonardo Azevedo. Rock My Art, ou O Novo Esteticismo de "Por que Choras?", ou O dia em que Edu K entrou para a História da Arte. Dissertação de Mestrado. UFRGS, 2013
Foi diretor e apresentador por muitos anos de um popular programa musical na TV Educativa de Porto Alegre, entre diversos outros projetos.
Garagem Hermética miniaturadaimagem|332x332px|Leo Felipe Iniciou a vida do trabalho com cerca de 15 anos como bancário, mas desde jovem gostava de arte, rock e literatura underground. Logo o ambiente formal do escritório o deixou insatisfeito. Com 19 anos conheceu Ricardo Kudla, e com ele fundou, em 1992, o bar Garagem Hermética, instalado em um casarão antigo e decadente da rua Barros Cassal, quase na esquina com a avenida Independência. A princípio o bar apareceu como uma simples forma de extravasar as pressões que sentiam vir da cultura mainstream, onde pudessem, reunindo amigos de ideias semelhantes, tocar as músicas de que gostavam com as bandas alternativas que integravam.Silveira, Fabrício. "Rock gaúcho, cultura urbana e cenas musicais em Porto Alegre. Um exercício metodológico". In: Cadernos da Escola de Comunicação, 2014; (12):35-48
A despeito desta origem despretensiosa, pela postura libertária e valorização dos artistas locais, o Garagem Hermética desempenhou um papel vital para o desenvolvimento do rock independente e autoral sulino na última década do século XX, tornando-se um centro de revelação de novos talentos e uma espécie de refúgio da contracultura de Porto Alegre, criando um rico folclore em seu redor.Feix, Daniel. "Garagem Hermética é tema de livro de Leo Felipe". Zero Hora, 19/05/2014"Em comunicado no Facebook, Garagem Hermética anuncia fechamento". Zero Hora, 20/02/2013Oliveira, Samir. "Fim do Garagem Hermética deixa órfão rock autoral em Porto Alegre". Sul 21, 02/03/2013Silveira, Fabrício. "Garagem Hermética". Grupo CultPop - UNISINOS, 08/09/2014 Fernando Rosa, editor da revista Senhor F, disse que o bar foi "uma das lendas urbanas do rock porto-alegrense e, mesmo, do rock nacional"."A história do lendário Garagem Hermética por um de seus fundadores" . Senhor F, s/d. Segundo Daniel Feix, em matéria para a Zero Hora, "as memórias do 'Velho Garagem' envolvem sexo, drogas e bebedeiras vivenciadas por pelo menos duas gerações de jovens cheios daquela energia que [Leo] sintetiza simplesmente como 'roquenrol'. [...] Artistas, cineastas, músicos, estudantes e quem mais tivesse um dedinho do pé no underground, na Porto Alegre da década de 1990, tem alguma história envolvendo o casarão da Barros Cassal". Para o escritor Daniel Galera, o bar era...
"[...] uma sala de estar que nos recebia noite adentro e madrugada afora. [...] Uma espécie de casa para onde se ia não apenas na esperança de viver experiências limítrofes, terminar a noite 'indo pra casa' de alguém, injetar rock e super-8 no pescoço e extravasar nossa alegria e desespero, mas para simplesmente estar. Era barato, era imprevisível e nos fazia sentir, mesmo nas noites mais geladas e fracassadas, que a vida estava acontecendo e que valia a pena. [...] A gente lotava aquela joça, bebia pra caralho e amava aquele lugar. Ficamos tristes, muito tristes, quando acabou. [...] Eis algo que aconteceu. Foi bem assim. Um bar inventado por dois malucos que eram 'punks e não sabiam' para ser 'o nosso próprio bar na falta de outro melhor' e que se tornou o melhor bar que muita gente já viu. Uma história que marcou centenas de vidas, algumas gerações e uma cidade que nunca tinha visto um lugar parecido e continua órfã dele".Galera, Daniel. "O melhor bar que muita gente já viu". Livraria Cultura.
Em seu apogeu ali surgiriam ou fariam importantes shows bandas que se destacaram na cena sulina, como Cachorro Grande, Júpiter Maçã, Graforréia Xilarmônica, Ultramen e Space Rave,Lerina, Roger. "Memórias herméticas". Zero Hora, 03/05/2014 e foram lançados a fita demo da Aristóteles de Ananias Jr.,"Gomes, Marco Pinho. "A maluquice do Aristóteles em K-7". Zero Hora, 28/09/1993 e o disco A Sétima Efervescência, de Júpiter Maçã, um dos mais emblemáticos álbuns do rock gaúcho e incluído na lista dos 100 melhores discos da música brasileira da revista Rolling Stone,"Os 100 maiores discos da música brasileira". Rolling Stone, s/d. que segundo o autor foi concebido exatamente em função do bar: "Eu estava muito entusiasmado e contagiado pelo clima do early Garagem Hermética e pelas garotas, pela simpatia dos rapazes. Acabei me tornando uma espécie de ícone pra aquela turma. Posso dizer que praticamente fiz o disco para aquela turma".Bonfim, Leonardo. "Entrevista – Júpiter Maçã passa a carreira a limpor". Noize, 21/08/20099
Além de promover a música alheia, Leo Felipe envolveu-se diretamente na criação musical como vocalista de bandas como os Minimaus.Avila, Alisson; Bastos, Cristiano; Muller, Eduardo. Gauleses Irredutíveis: causos e atitudes do rock gaúcho. Buqui, 2012 Ele e Ricardo Kudla comandaram o bar até 2000, quando o venderam. Foi então reformado, e permaneceu em atividade até 2013, mas nesta segunda etapa ele já havia perdido boa parte do seu antigo apelo.
Jornalismo, festa e arte Pouco antes de vender o bar, ingressou no curso de Jornalismo na UFRGS, graduando-se em 2003, e desde então tem escrito sobre música, arte, cinema, festa e outros temas.Felipe, Leo. "HEROISEMQUERER". In: Noize, 2014; 64 (7):30-38Felipe, Leo. "Coluna | O resumo dos últimos capítulos: Anna Pavlova e Thurston Moore". Noize, 20/04/2012 Por muitos anos foi DJ e produtor de festas, dentre elas, a Pulp, realizada no Bar Ocidente, espaço tradicional da noite porto-alegrense."Sábado tem Pulp Friction no Ocidente" . Mais Porto Alegre, 11/07/2014Brigatti, Gustavo. "Baladas se firmam na noite de Porto Alegre com personalidade e público fiel". Zero Hora, 06/09/2013 Por quase uma década apresentou o programa Radar da TVE do Rio Grande do Sul, tendo dirigindo-o por por oito anos. Transmitido ao vivo de segunda à sexta, o programa dava espaço na televisão pública para a produção emergente e alternativa da cena cultural gaúcha. Entre 2006 e 2009 foi curador do projeto República do Rock promovido pela Coordenação de Música da Secretaria Municipal de Cultura.Fundação Ecarta. Leo Felipe .
Ao deixar a TVE em 2011, foi convidado pela Fundação Ecarta para assumir a gerência e a curadoria da sua galeria de arte, imediatamente expandindo suas atividades e projetando o nome do espaço, que, em 2012, recebeu o Prêmio Açorianos na categoria Destaque Espaço Institucional de Divulgação Cultural."Ecarta ganha Prêmio Açorianos como espaço institucional". SINPRO/RS, 09/05/2012"Premiados no VI Açorianos de Artes Plásticas". Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre Na Ecarta, realizou inúmeras exposições de arte, com destaque para Um firme e vibrante NÃO, co-curada com Jorge Bucksdricker (2014-2015), eleita melhor Mostra Coletiva no Prêmio Açorianos de 2014; X (2015); The dance party, co-curada com Gabriel Cevallos (2016), e Os teóricos artrópodes: metodologias e práticas de pesquisa em campo avançado (ou Uma noite na Ilha dos Museus) (2016), projeto colaborativo com participação de, dentre outros, Chico Machado, Alexandre Navarro Moreira e Giancarlo Lorenci, vencedor na categoria Performance do 10º Prêmio Açorianos de Artes Visuais. Por sua atuação frente à Galeria Ecarta foi agraciado com o prêmio Reconhecimento no 11º Açorianos de Artes Visuais.
Integrou em 2011 o conselho curatorial da Casa M, projeto da 8ª Bienal do Mercosul; fez parte da comissão de seleção do Prêmio IEAVI, mantido pelo Instituto Estadual de Artes Visuais, a convite do qual também realizou o projeto de perfomance e instalação colaborativo de Alexandre Navarro Moreira AUTACOM, em duas ocasiões: no Espaço Maurício Rosenblat, da Casa de Cultura Mario Quintana, em 2013, e durante a Semana da Cultura SUL/SUR, no Espacio de Arte Contemporaneo, em Montevidéu, Uruguai, em 2014.Bienal Mercosul. Leo Felipe ."Eduardo Veras, Léo Felipe e Ana Baldisserotto assinam curadoria do IEAVi". Assessoria de Comunicação da Casa de Cultura Mario Quintana, 24/09/2013 Foi diretor da rádio Mínima FM, onde apresentou o programa Elefante, voltado a música e entrevistas. No mesmo período, ministrou palestras, participou de congressos e seminários, realizou curadorias de arte, entre outros projetos.Maya, Bruno. "Leo Felipe ministra o quinto seminário do CEN 2011". Cine Esquema Novo, 2011"Projeto URBE na Casa de Cultura Mário Quintana". Mundo Cult, 25/09/2014"Diego Medina (ex-Video Hits) leva seu mundo psicodélico ao Museu do Trabalho" . Rock Gaúcho, 19/02/2015Galeria Arte&Fato. "O Texto de Leo Felipe". Disponível em [http://artefatogaleria.blogspot.com.br/2015/04/o-texto-de-leo-felipe.html]"Batepapo Caminhos do Rock, com os jornalistas Daniel Soares e Leo Felipe Projeto República do Rock Especial Dia Mundial do Rock". Feest, jul/2013Sarau Elétrico. Edições anteriores.
Mudou-se para São Paulo em 2018. Trabalhou como curador do Pivô, entre 2019 e 2021. Ministrou o curso O que foi a Contracultura? Ainda é? E como será? no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, em 2019, propondo um exame sobre o contexto histórico da contracultura e considerando suas reverberações na contemporaneidade. No ano seguinte, promoveu a oficina O método cut-up, no museu Casa Guilherme de Almeida. Foi diretor artístico e curador da Sé Galeria entre 2021 e 2023, tendo curado, dentre outras, as coletivas Papel aceita tudo e Baobá no asfalto. Curou exposições no espaço independente Delirium 2000, dentre elas, a individual GOOD, de Gustavo Torres, em 2022. Atualmente, é coordenador de Comunicação na galeria Luisa Strina.
Literatura