thumb|Aspecto de um trecho da linha férrea abandonada|300x300px A linha férrea da Petite Ceinture (Pequena linha circular) é uma antiga linha ferroviária de via dupla, com 32 km de comprimento (excluindo conexões) que fazia a volta em torno da cidade de Paris, na França, por toda sua borda periférica. Inaugurada por se(c)ções, entre 1852 e 1869, era inicialmente dedicada exclusivamente ao tráfego de mercadorias, antes de ser aberta aos passageiros.

Abandonada pelos parisienses por causa da crescente concorrência do metrô, a linha foi fechada ao tráfego de passageiros em 23 de julho de 1934. O tráfego de mercadorias desapareceu desde o início da década de 1990. A linha encontra-se atualmente abandonada e amputada em boa parte do seu comprimento, mas não totalmente desmantelada. Muitos entusiastas de ferrovias e associações francesas de preservação gostariam que o restante da linha e as estações remanescentes fossem preservados e protegidos como parte da herança nacional.

História thumb|300x300px|Gare de Saint-Lazare, representada por Claude Monet no século XIX, uma das grandes estações que ligavam Paris a outras cidades francesas. Antes da Petite Ceinture Em 1848, o governo da Monarquia de Julho, cujo regente era Luís Filipe I, era dominado por ricos burgueses e antigos oficiais de Bonaparte. Este governo decide que todo o desenvolvimento ferroviário francês de então, deveria ser centralizados sob Paris. A cidade tornou-se o centro e o local de confluência de todas as estradas de ferro de então.

Paris possuía cinco grandes estações ferroviárias (Gares, em francês) situadas em terrenos à época periféricos, ainda quase virgens de edificações, e que serviam cada uma como terminal de sua própria linha férrea, ligando Paris a outras cidades da França, como por exemplo Lyon, Estrasburgo, Sceaux, Ruão, as cidades da fronteira com a Bélgica pelo norte. Cada linha existia de maneira independente, sem qualquer intersecção entre elas. Além disso, cada uma das cincos rotas era administrada por cinco grandes empresas distintas: Companhia de Rouen, Companhia d'Orléans, Companhia de Strasbourg, Companhia du Nord e Companhia de Lyon. As estações ferroviárias que serviam à estas linhas eram: Gare Saint-Lazare (1837); Gare Montparnasse (1840); Gare d'Austerlitz (1840); Gare de la Barrière d'Enfer (atualmente Gare de Denfert-Rochereau, 1846); Gare de Lyon (1849); Gare de Strasbourg (atualmente Gare de l'Est) (1849).

Estas empresas estavam convencidas de que a criação de interconexões entre as linhas poderia colocar em risco o monopólio regional de cada uma delas. Desta maneira, a conexão de passageiros e a transferência de cargas entre estas estações, por dentro da cidade de Paris, eram longas, caóticas e custosas, através de ruas congestionadas, por vezes ainda não completamente construídas. Este isolamento entre as estações era especialmente frustrante para os militares, pois lhes faltava a velocidade e a eficiência de um serviço que pudesse distribuir tropas e suprimentos por toda a França. O próprio governo da Segunda República incentivava que estas companhias fizessem acordos privados de fusão entre elas, assim como construíssem uma linha de ferro circular em Paris, cujo traçado fosse no interior das fortificações da cidade, que na época era cercada pelas muralhas de Thiers.

Instauração A Petite Ceinture foi construída pouco à pouco, segmento por segmento, entre 1852 e 1869. Em dezembro de 1851, um decreto declara de utilidade pública a construção de uma linha férrea circular a ser estabelecida no bordo periférico da cidade, do lado interior das fortificações de Thiers, ligando entre si as estações Gare du Nord, Gare Saint Lazare, Gare Montparnasse, Gare de l'Est, Gare de Lyon e a Gare d'Austerlitz.Bulletin des lois de la République Française, Paris, Imprimerie Nationale, série X, vol. 8, no 470, 1851, p. 1105 - 1112 Esta linha foi 80% construída às custas do estado francês, e 20 % às custas das cinco grandes companhias (de Rouen, d'Orléans, de Strasbourg, du Nord et de Lyon) detentoras das rotas e das grandes estações. Todavia, as companhias deveriam doravante se reunir em sindicato para explorarem de forma comum as linhas férreas da junção. Simultaneamente, pelo mesmo decreto, uma outra junção entre as localidades de La Chapelle e La Villette, que dobraria a extensão da "ceinture", é concedida apenas às companhias du Nord e de Strasbourg.Bulletin des lois de la République Française, Paris, Imprimerie Nationale, série X, vol. 8, no 469, 1851, p. 1075 - 1076 Finalmente, em 1855, as cinco companhias se fundem em apenas uma, sob o nome de Compagnie des chemins de fer de l'Ouest.Bulletin des lois de l'Empire français, Paris, Imprimerie Impériale, série XI, vol. 6, no 313,‎ 1855, p. 57 - 58

thumb|300x300px|Esquema da rede em 1859. Nota-se em vermelho os muros de Thiers. Em laranja a primeira parte da rede a ser construída. Em verde a linha de Auteuil. Faltava ainda a construção do trecho ligando esta última à Gare d'Orleans, e o contorno estaria fechado. Uma vez que este primeiro trecho satisfez o desejo estatal de reunir todas as estações de trens da capital, um novo prolongamento veio se somar ao trajeto primitivo da petite ceinture em 1852. Trata-se da Linha de Auteuil, que ligaria a estação de Saint-Lazare com a afluente comunidade de Auteuil-Boulogne. Esta linha, ao contrário do restante da petite ceinture, era exclusiva para passageiros. Como um esforço para evitar perturbações no tráfico da cidade, a linha foi construída de forma entrincheirada na maior parte de seus 9 quilômetros, requerendo a construção de 14 pontes.

A estação principal da linha de Auteuil era a Gare Saint-Lazare, que também servia a outras linhas. A partir dela, seguindo-se em direção à Auteuil seguiam-se cinco estações: Pont-Cardinet (ainda existente como estação da SNCF), Courcelles (hoje estação Pereire - Levallois do RER C), Neuilly-Porte Maillot, Avenue de l'Impératrice (hoje Avenue Foch), Passy, e o terminal Auteuil (hoje abandonado). A linha foi inaugurada em 2 de Maio de 1854, e conceitualmente funcionava como um proto-metrô, pois promovia a mobilidade de passageiros dentro de uma área urbanaBulletin des lois de la République Française, Paris, Imprimerie Nationale, série X, vol. 10, no 573,‎ 1852, p. 447 - 450.

Em 1861, um novo prolongamento, ligando a estação de Auteuil até a Gare d'Orleans (atualmente Gare d'Austerlitz), é aprovado por decreto de utilidade publica, somando-se então um longo e importante novo trecho à rede.Bulletin des lois de l'Empire Français, Paris, Imprimerie Impériale, série XI, vol. 18, no 953,‎ 1861, p. 253 - 254. O último trecho da via é aberto em 1869, entre Clichy e Courcelles (linha de Auteuil). O círculo estava então completo.

Funcionamento thumb|300x300px|Aspecto de uma estação de carga, durante os primórdios da rede. A Gare de Gobelins era responsável pelo abastecimento de carvão, produto absolutamente essencial para o funcionamento da cidade na época. thumb|300x300px|Locomotiva da Petite Ceinture em ação A primeira seção da Ceinture entrou em serviço em 11 de dezembro de 1852. O trafico da via cresceu progressivamente. No início transportava-se apenas mercadorias e militares, e o serviço estava restrito ao dia. Em 1857 começou o serviço noturno. Apenas no ano de 1863 os transportes foram estendidos aos passageiros, bagagens e serviços de mensagens, no conjunto da linha (Auteuil funcionava como trem de passageiros desde 1854). A frequência era de dois trens por hora no verão, e um por hora no inverno. A única classe disponível até 1864 foi a segunda classe, quando foi instaurada uma primeira classe. Progressivamente foram sendo instaurados trens matinais para levar os trabalhadores até o emprego, e nos domingos e feriados, trens vespertinos à cada trinta minutos.

Em 1870, durante a Guerra Franco-Prussiana, a linha transportou um total de 800 mil homens de pelotão.Jacques Reda, Marc Soriano (textos), Pierre Pitrou, Bernard Tardien (fotografias), 1851-1981 : le Chemin de fer de Petite Ceinture de Paris, Pierre Fanlac éditeur, 1981. Entretanto, a guerra evidenciou a capacidade insuficiente da via para fins militares (tal constatação levaria à criação de uma Grande Ceinture, distante 15 km da borda da cidade de Paris, que seria aberta em 1877, levando à redução progressiva do tráfico de mercadorias, e abrindo novos horários de trens de serviço para passageiros). Em 1871, mesmo durante toda a agitação política e a Comuna de Paris, a linha esteve fechada apenas durante uma semana do mês de maio.

Em 1878, durante a Exposição Universal de Paris daquele ano, a linha atinge um pico de seis trens por hora. Porém na Exposição de 1900, todos os recordes foram quebrados, e o sistema transportou até 90 mil passageiros por dia. Para suportar tamanho movimento a rede contava com 29 estações e um trem à cada dez minutos em ambas as direções. Para compensar a afluência, também a velocidade dos trens aumentou. Uma volta completa em torno de Paris durava uma hora e meia até então, tendo sido reduzida para uma hora e vinte minutos na ocasião da exposição.Moynet Georges, Le Chemin de fer de Ceinture de Paris, La Science Illustrée, n°872, 13 août 1904, pp 167-170. Em 1903, locomotivas mais potentes reduzem o tempo do trajeto para uma hora e três minutos, o que corresponde à velocidade média de 29 km/h, o que era equivalente à performance do metrô que iniciava as atividades na mesma época.J. Kœchlin, Les locomotives 51-65 du Chemin de fer de la Petite Ceinture, Revue Générale des Chemins de fer, mai 1904, pp 334-350.

thumb|300x300px|Locomotiva de um trem de Mercadorias da Ceinture Cada trem da linha comportava uma locomotiva a vapor, que tracionava cinco carros de segunda classe e apenas um de primeira classe. Além disso, havia dois carros-furgões na extremidade do trem, dedicados ao transporte de encomendas, bagagens e de cães. A tarifação levava em conta o número de estações a serem cobertas pelo viajante.

Além do transporte de passageiros e de mercadorias, a Petite Ceinture foi também utilizada de 1864 a 1989, como via de circulação para os trens de grandes linhas, a fim de evitar o transbordamento da capacidade funcional das grandes estações parisienses. Estes trens eram conhecidos como "trens de junção".

Lista de Estações A linha da Petite Ceinture chegou a contar com mais de 30 estações desde a abertura dos primeiros trechos em 1854, até seu fechamento para passageiros em 1934. A maior parte acolhia passageiros, mas outras eram reservadas ao transporte de mercadorias. Diversas estações da antiga linha de Auteuil, no oeste de Paris, são atualmente reutilizadas pela linha C do RER.