thumb|upright=1.7|alt=Pintura de ondas estilizadas.|Tem-se na arte uma das mais dominantes formas de manifestação cultural nas quais o mar figura enquanto temática.Uma das pinturas de "ondas em fúria" por Hokusai,

A presença do mar na cultura é manifesta desde tempos pré-históricos, com as sociedades a experienciá-lo, interpretá-lo e reproduzi-lo de forma dualista, como algo tão poderoso quanto sereno ou tão belo quanto perigoso. No decorrer dos séculos, povos de diferentes culturas têm retratado o mar em formas de expressão artística como desenho, pintura, literatura, música, teatro e cinema, das gravuras rupestres às marinhas do século de ouro dos Países Baixos e aos filmes blockbusters da contemporaneidade.

No simbolismo tradicional, o mar era visto como um ambiente hostil habitado por criaturas fantásticas, tais quais o Leviatã da Bíblia, a Isonade do imaginário japonês e o Kraken da mitologia nórdica. Já na psiquiatria, Carl Jung o defendia enquanto símbolo do inconsciente individual e coletivo na interpretação dos sonhos. As mais antigas representações pictóricas de embarcações, demonstrativos primitivos da sua influência na vida humana, datam de quarenta mil anos. Com o aprimoramento das técnicas de composição e execução visual, o mar passou a ser tema recorrente de trabalhos figurativistas de paisagem. O artista Hokusai, por exemplo, tornou-se conhecido por suas pinturas e xilogravuras coloridas em que exibe os diferentes aspectos marítimos, destacando-se entre elas A Grande Onda de Kanagawa.

Na literatura, o mar aparece em constância desde Homero, no século XVIII a.C, cujo poema épico Odisseia descreve a jornada do herói grego Ulisses a navegar e enfrentar ameaças marinhas durante uma década. Na Idade Média, ele passou a aparecer em romances como o da lenda de Tristão, sendo abordado junto a elementos, cenários e eventos como ilhas místicas, inundações, naufrágios e peregrinações. Obras literárias contemporâneas inspiradas no mar foram concebidas por nomes como Joseph Conrad, Herman Melville, Samuel Taylor Coleridge e Rudyard Kipling, por exemplo.

Tal corpo de água também tem sido inspirador à música, entre folclóricas canções de bordo entoadas por marinheiros e célebres peças como o Holandês Voador de Richard Wagner e a La mer de Claude Debussy, alem de outras produções que se estendem pela composição clássica, ópera, música popular e outros gêneros. De forte influência no ritualismo, o mar serve de ambiente para a realização de funerais e sepultamentos, praticados de maneiras diversas em diferentes nações ao redor do mundo desde as antigas civilizações do Egito, Grécia e Roma, tendo-se na cerimônia viquingue um dos mais conhecidos e complexos exemplos do ato.

Humanidade e o mar Os saberes e entendimentos humanos acerca do mar podem ser encontrados não somente nas artes, mas também em âmbitos como os da mitologia, religião e interpretação psicoterapêutica dos sonhos. Sua importância para nações marítimas foi e é visível na intensidade com que penetra no cotidiano e na cultura dessas populações; na presença em crenças e fábulas; na menção em provérbios e canções populares; na significância em celebrações, cerimônias de iniciação e ritos mortuários, além da utilização de embarcações em oferendas votivas; na influência presente desde o início da vida humana, refletida no uso de miniaturas de barcos como brinquedos por crianças; na reunião de multidões para a inauguração de navios e à partida deles nos portos, ao início de viagens; entre outros costumes, comportamentos e tradições. O comércio e o intercâmbio marítimo internacional são alguns dos meios pelos quais as nações e civilizações se desenvolvem e evoluem. Esse tipo de prática aconteceu largamente entre os povos antigos que viviam em terras próximas ao Mediterrâneo, assim como na Índia, China e outros países do sudeste asiático, por exemplo, sendo na contemporaneidade um dos itens basilares das relações internacionais.

História antiga thumb|esquerda|Arte assíria em relevo, do reino de Senaqueribe, Nínive, , mostrando peixes e caranguejos próximos a um birreme.

A recorrência do mar como influência ou em presença na cultura das civilizações acontece desde a pré-história, tido como um ambiente, e às vezes até mesmo um ser, tão poderoso quanto sereno ou tão belo quanto perigoso. Petróglifos retratando barcos feitos de papiro estão entre as formas de arte rupestre que remontam quarenta mil anos de história, às margens do mar Cáspio. James Hornell, ao estudar embarcações tradicionais indígenas, considerou a importância dos oculi, ou olhos, pintados nas proas dos barcos, que podem ter representado a visão atenta de um deus ou deusa a proteger a nau. Os viquingues retratavam ferozes cabeças de boca aberta e olhos esbugalhados na dianteira e na popa do dracar, uma espécie de grande canoa, na intenção de afastar os maus espíritos, e as carrancas nas proas de grandes embarcações à vela eram vistas com apreço por marinheiros, pois representariam a esperança de que o navio encontrasse o seu caminho. Os egípcios inseriam figuras de pássaros sagrados na dianteira, enquanto os fenícios usavam cavalos, que simbolizariam a velocidade. Os gregos antigos costumavam acrescentar imagens de cabeças de javali, que exprimiriam o olhar aguçado e a ferocidade, e esculturas de centurião eram muitas vezes montadas nos barcos romanos na busca por representar o valor em batalha. No norte da Europa, figuras de serpentes, touros, golfinhos e dragões eram habitualmente usadas para decorar proas de navios e, por volta do século XIII, a do cisne passou a ser comumente usada para conotar a graça e a mobilidade.

Simbolismo, mitos e lendas

Ao longo da história, o mar foi entendido simbolicamente como um hostil e perigoso ambiente povoado por criaturas fantásticas. O Leviatã na Bíblia, a Isonade no imaginário japonês e o Kraken na mitologia nórdica são exemplos registrados disso. Nas lendas gregas, ele abriga um complexo panteão de deuses e criaturas sobrenaturais. O deus do mar, Poseidon, é acompanhado por sua esposa, Anfitrite, que é uma das cinquenta nereidas, ninfas filhas de Nereu e Dóris. Os tritões, filhos de Poseidon, foram por diversas vezes representados com caudas de peixe ou de cavalo-marinho, formando a comitiva do deus dos mares juntamente com as nereidas. Esse oceano mítico teria sido também povoado por monstros marinhos, tais como a Cila.

Nessas lendas, o próprio Poseidon é responsável por muito do caráter inconstante do mar, além de deter o comando adicional dos terremotos, tempestades e cavalos. Netuno ocupa uma posição equivalente na mitologia romana. Outro deus grego marítimo, Proteu, incorpora especificamente o domínio sobre a mutação do mar, tendo a forma adjetiva "proteano" o significado de "mutável" ou "multiforme" em decorrência da capacidade dessa deidade de assumir diferentes fisionomias. Shakespeare fez uso disso em Henry VI, Part 3, obra na qual Ricardo III se vangloria ao falar "I can add colors to the chameleon, Change shapes with Proteus for advantages".Shakespeare, William. Henry VI, Part Three, Ato III, Cena ii. 1591.

No sudeste asiático, a importância do mar deu origem a muitas narrativas alegóricas de viagens oceânicas épicas, princesas em ilhas distantes e monstros e peixes mágicos à espreita nas profundezas. No norte da Europa, por vezes eram dados aos reis enterros marítimos, com seus corpos sendo colocados em embarcações, cercados por tesouros, e deixados à deriva. Na América do Norte, alguns mitos de origem da vida giram em torno de criaturas a mergulhar ao fundo do mar e trazer a lama a partir da qual a terra teria sido formada. No imaginário sírio, Atargatis é tida como uma "sereia-deusa", já Sedna é a deidade do mar e dos animais marinhos na mitologia inuíte. Na imaginação lendária nórdica, conhece-se Aegir como a entidade suprema dos oceanos, tendo Ran como esposa, enquanto que Njord é o deus das viagens marítimas.

Nos estudos do psiquiatra Carl Jung, o mar simboliza o inconsciente pessoal e coletivo na interpretação dos sonhos:

Artes figurativas

thumb|Tempestade no Mar da Galileia.Tela de Rembrandt, 1633

Nos registros da história da arte, mares e embarcações têm sido retratados em trabalhos figurativos que vão dos primitivos desenhos nas paredes de cabanas e sítios arqueológicos em Lamu às paisagens marítimas de William Turner e à produção contemporânea. A arte marinha enquanto gênero tornou-se especialmente notória a partir das pinturas que surgiram durante o século de ouro dos Países Baixos, que buscavam exibir a náutica holandesa no auge de seu poderio militar. Artistas como Jan Porcellis, Simon de Vlieger, Jan van de Cappelle, Hendrick Dubbels, Willem van de Velde, o Velho, Ludolf Bakhuizen e Reinier Nooms criaram pinturas retratando o mar em ampla variedade de estilos. O artista japonês Hokusai gravou e pintou impressões a cores dos aspectos marítimos, sendo seu mais famoso conjunto de trabalhos as Trinta e seis vistas do monte Fuji, no qual procurou evidenciar a força destruidora desse corpo de água e sua beleza em constante mudança.

Literatura e cinema Idade Antiga O mar tem aparecido na literatura pelo menos desde os tempos do grego Homero, que o descrevia com o epíteto "de um escuro vermelho-vinho" (οἶνοψ πόντος). Em seu poema épico Odisseia, escrito no século VIII a.C, ele descreve a jornada de dez anos do herói grego Ulisses, que luta para voltar para casa cruzando os mares depois da Guerra de Troia de Ilíada. Sua viagem errante o leva de uma terra estranha e perigosa para outra, experimentando, entre outros perigos e pelejas, o naufrágio, monstros marinhos, o Caríbdis, a ilha Ogígia e a ninfa Calipso.

O soldado Xenofonte, em sua Anábase, conta como testemunhou o percurso dos Dez Mil, perdidos em território inimigo, vendo o mar Negro a partir de uma montanha, depois de participarem da marcha derrotada de Ciro contra o império persa em 401 a.C. Os Dez Mil teriam esbravejado alegremente "Thálatta! Thálatta!" () — "O mar! O mar!" Outros expoentes exemplos da presença do mar na poesia são os haikus de Matsuo Basho (松尾芭蕉) no século XVII.

thumb|esquerda|Reconstrução do mapa do mundo de Ptolemeu.Da obra Geografia, de Ptolemeu

Ptolomeu, escrevendo em seu Geografia por volta de 150 d.C., explicou como o oceano Atlântico e o Índico seriam grandes mares fechados e seus motivos para acreditar que um navio a se aventurar no Atlântico em pouco tempo chegaria aos territórios das nações do Oriente. Seu mapa do até então conhecido mundo era notavelmente preciso. A partir do século IV, entretanto, a civilização sofreu de um recesso científico nas mãos de invasores bárbaros e o conhecimento da geografia se estagnou. No século VII, Isidoro de Sevilha produziu um "mapa redondo" em que Ásia, África e Europa foram dispostos como segmentos numa laranja, separados por "Mare Mediterranean", "Nilus" e "Tanais" e cercados por "Oceanus". No século XV, as projeções de Ptolomeu voltaram a ser usadas e Henrique, o Navegador, de Portugal, iniciou explorações e pesquisas relacionadas ao mar. Encorajados por ele, navegantes portugueses desbravaram, mapearam e cartografaram a costa oeste da África e o Atlântico Oriental, tendo esse conhecimento preparado o caminho para as grandes viagens de exploração que vieram em tempos seguintes.

Idade Média thumb|esquerda|São Brandão sobre a baleia. Manuscrito de autor desconhecido,