Jorge Manuel de Abreu Palma ComIH (Lisboa, 4 de junho de 1950 – 21 de setembro de 2026) foi um músico, cantor, poeta e compositor português.
Biografia 1956–1966 Era filho do profissional de seguros João Manuel Mascarenhas Palma (Sé, Faro, c. 1923 — 10 de maio de 1996) e de Maria Adélia Lopes de Abreu (São Jorge de Arroios, Lisboa, c. 1917), doméstica, casados na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Penha de França, em Lisboa, a 25 de junho de 1947.
Aos seis anos — enquanto aprendia a ler e a escrever — Jorge Palma foi inscrito pela sua mãe na Academia Musical dos Amigos das Crianças, onde iniciou os estudos de piano.
Aos oito anos realizou a sua primeira audição, no Auditório do Conservatório Nacional, numa altura em que tinha como professora Maria Fernanda Chichorro. Aos 12, em Palma de Maiorca, foi premiado com um segundo lugar, com atribuição de uma menção honrosa do júri, no Festival das Juventudes Musicais.
No seu percurso escolar passou pelo Liceu Camões, em Lisboa, o Colégio Infante de Sagres, em Mouriscas, Abrantes, e o Colégio Académico, de novo em Lisboa.
Durante a adolescência e a par da formação erudita, começou a interessar-se pelo rock’n’roll, e, de um modo geral, pela música popular norte-americana e inglesa. Foi por esta altura que descobriu a guitarra. Bob Dylan, Led Zeppelin e Lou Reed tornaram-se as suas maiores influências.
1967–1971 Em 1967, no Algarve, Jorge Palma passou a integrar o grupo Black Boys, tocando não guitarra, mas órgão. Esta primeira experiência, na companhia de músicos de Santarém, durou cerca de seis meses e foi interrompida por uma aparição “oportuna” do seu pai, num dos bares em que o grupo tocava, quando o grupo já se estava a esgotar.
Foi então que o pai o levou para Lisboa e Palma regressou aos estudos secundários.
De 1969 a 1971, enquanto estudava Engenharia na Faculdade de Ciências de Lisboa (numa altura em que «o geral podia-se fazer ou no Técnico ou na Faculdade de Ciências»), passou a integrar o grupo pop rock Sindicato, como teclista e cantor.
Do grupo faziam parte Rão Kyao, Vítor Mamede, Edmundo Falé, Júlio Gomes, João Maló, Rui Cardoso e Ricardo Levi. Para além dos covers de bandas de rock americanas e inglesas (Led Zeppelin, Stephen Stills, Chicago, Blood Sweat and Tears, entre outros), compuseram alguns originais, em língua inglesa. A entrada de uma secção de metais encaminha-os para uma estética de fusão entre o Jazz e o Rock. Em 1971 gravam o single "Smile", que tinha no lado B "SINDIblues Swede CATO'S Shoes", uma versão do standard de rock’n’roll "Blue Suede Shoes", de Carl Perkins.
No mesmo ano, os Sindicato deram o seu último concerto na primeira edição do Festival Vilar de Mouros.
1972–1974 A estreia a solo de Jorge Palma aconteceu com o single The Nine Billion Names of God (1972), título de um conto de Arthur C. Clarke e inspirado também no livro "O Despertar dos Mágicos", de Louis Pauwels e Jacques Bergier.
Por esta altura, inicia uma colaboração com José Carlos Ary dos Santos, que o ajuda a aperfeiçoar a escrita poética, e com quem estabelece uma relação de aprendiz e mestre. “O ano de 1972, 1973, até ao Verão, até setembro, esse ano e meio foi de convívio intenso com o Ary, sobretudo. Quase todas as noites estávamos juntos”. Através de Ary, conheceu igualmente outros homens de letras e politiza-se.
Do contacto com Ary resultou o EP A Última Canção (1973), com quatro composições de Jorge Palma, duas delas sobre letras de Ary dos Santos e outras duas com letra sua.
Ainda em 1972, resolveu abandonar os estudos de Engenharia, e realiza uma viagem transcontinental, passando pelos Estados Unidos, Canadá e Caraíbas.
Em setembro de 1973, recusando cumprir o serviço militar obrigatório, e, consequentemente, ser mobilizado para a Guerra do Ultramar, parte para a Dinamarca com Gisela Branco, sua primeira mulher, onde lhe foi concedido asilo político. Para se sustentar no novo país, trabalhou como empregado num hotel.
Como afirmou na entrevista a Cristiano Pereira, do Jornal de Notícias de 22 de setembro de 2002: "Com licença, meus amigos, mas para a guerra não vou."
1974–1979 Regressado a Portugal no verão de 1974, na sequência do dia 25 de abril, iniciou um percurso como orquestrador, entre 1974 e 1977, colaborando, paralelamente, como instrumentista, com diversos outros interpretes.
Nessa fase fez arranjos para fonogramas de Amália Rodrigues, Pedro Barroso, Paco Bandeira, Francisco Naia, Rui de Mascarenhas, Tonicha, João Vaz Lopes, Valério Silva, Adelaide Ferreira e dos agrupamentos Intróito e Maranata.
Participou como instrumentista, em concertos e/ou gravações, de José Barata Moura, José Jorge Letria, Fausto Bordalo Dias, Vitorino Salomé ou Sérgio Godinho.
Em 1975 concorreu ao 12º Festival da Canção com dois temas: "O Pecado Capital", uma composição sua em coautoria com Pedro Osório, defendida em dueto com Fernando Girão, e "Viagem", uma composição de Nuno Nazareth Fernandes com letra sua. Ficaram classificadas em 7º e 8º lugares, respectivamente, num total de dez canções concorrentes.
Nesse ano gravou o seu primeiro LP, Com uma Viagem na Palma da Mão, para a Valentim de Carvalho, com canções compostas durante o exílio em Copenhaga.
Depois da gravação do seu segundo trabalho discográfico — 'Té Já (1977) — e de uma digressão ao Brasil como instrumentista junto de Paco Bandeira, partiu, de novo, em viagem. Durante quatro anos Jorge Palma percorreu as ruas de várias cidades espanholas (1977), francesas, italianas e suíças (1978–1981), tendo como estabelecimento principal Paris.
Na rua e nos transportes públicos, interpretou o repertório de autores da música popular francófona, como Charles Aznavour, Léo Ferré e Jacques Brel, e, sobretudo, da música norte-americana, como Bob Dylan, Crosby, Stills and Nash, Leonard Cohen, Neil Young, Simon & Garfunkel, entre outros.
Em 1979, passou alguns meses em Lisboa, morando na Pensão Ninho das Águias, junto ao Castelo de São Jorge.
Grava então Qualquer Coisa Pá Música, o seu terceiro álbum de originais, com membros do grupo acústico O Bando.
Segue-se uma série de atuações a solo e com o referido grupo, uma das quais a abertura do concerto do grupo The Pirates, em Lisboa, no pavilhão do Estádio do Restelo.
1980–1989 miniatura|200px|Jorge Palma em 1982 No início da década de 1980, regressou a Paris com a sua segunda mulher, Graça Lami, voltando a Portugal dois anos mais tarde, em 1982, altura em que grava o álbum duplo Acto Contínuo. Embora previsto para ser gravado ao vivo, acabou por ser gravado em estúdio e num curto período.
Segue-se Asas e Penas (1984), o quinto álbum de originais. Vicente, o seu primeiro filho, nascera em 1983 e a ele dedica a música "Castor", incluída, precisamente, nesse álbum.
Palma realizou diversos concertos em Portugal, França e Itália. Em 1985, ficou marcado pelo lançamento do seu sexto álbum de originais e um dos mais aclamados da sua carreira, O Lado Errado da Noite. O single "Deixa-me Rir" foi dele extraído e teve enorme sucesso. Por este álbum, a que alguns chamaram de “o lado certo de Jorge Palma” ou “Palma de Ouro”, recebeu o “Sete de Ouro” e o “Troféu Nova Gente”.
Realizou uma longa tournée por Portugal e Ilhas, e fez a sua primeira grande apresentação em Lisboa, na Aula Magna (ainda que já tivesse atuado no mesmo local, mas, como contaria, tinha sido "uma primeira Aula Magna, organizada por estudantes e não teve muita gente”).
Os mesmos anos são marcados pela frequência da Escola de Música do extinto Conservatório Nacional — em 1986 concluía o Curso Geral de Piano, seguindo para o Curso Superior, sob a direção da compositora Maria de Lourdes Martins.
Ainda em 1986, gravou o seu sétimo álbum de originais – "Quarto Minguante", marcado por alguns problemas com a editora. O jornal Blitz de 1 de julho de 1986 chegou a falar do projeto "Onde Vais Tu Esta Noite", que seria um misto de documentário e ficção sobre a vida do cantor, mas era uma altura em que esse tipo de trabalhos não tinha tanta visibilidade e apoios.
Em 1989 editou Bairro do Amor, considerado pelos jornais Público e Diário de Notícias como um dos álbuns do século XX da música portuguesa. Este trabalho marcou a saída da editora EMI — Valentim de Carvalho, que recusou a edição deste álbum (o próprio concordaria que a primeira versão não era a melhor), e a passagem para a PolyGram.
Compondo, escrevendo letras, fazendo arranjos e desempenhando a direção musical nas gravações dos seus fonogramas, Jorge Palma foi sendo acompanhado por músicos oriundos de diversos géneros musicais, do pop rock à MPP, passando por música improvisada, música erudita e jazz, dos quais se salientam Carlos Zíngaro, Edgar Caramelo, Guilherme Inês, Jorge Reis, Júlio Pereira, Rui Veloso, Zé Nabo, José Moz Carrapa, Zé da Ponte e Kalu, entre outros.
1990–1999 Durante a década de 1990, suspendeu a gravação de composições originais para se dedicar à reinterpretação da sua obra, participando regularmente noutros agrupamentos, realizando gravações para intérpretes próximos de si, compondo música para teatro, bem como preconizando inúmeros concertos pelo país, que se traduziram num aumento significativo da sua popularidade, sobretudo junto do público mais jovem.
Em 1991 foi editado Só, um álbum intimista, no qual Jorge Palma revisita temas antigos, a solo e ao piano, e que foi gravado “sem rede”, isto é, voz e piano em simultâneo. Este trabalho foi premiado com um “Sete de Ouro” e o Diário de Notícias considerou-o, uma vez mais, um dos álbuns do século XX.
O álbum Ao Vivo no Johnny Guitar, de 1993, surgiu na sequência da formação do grupo Palma's Gang, que reuniu os músicos Kalu e Zé Pedro (Xutos e Pontapés) e Flak e Alex dos Rádio Macau, e que realizou alguns concertos pelo país. Esta foi uma segunda revisita à sua obra, mas desta vez em formato eléctrico, já que se tratava de um projecto rock. Participou, também, no álbum Sopa, dos Censurados, assinando a letra e emprestando a voz a "Estou Agarrado a Ti".
O ano seguinte ficou marcado por vários concertos, quer a solo, quer com o Palma's Gang, destacando-se os concertos do S. Luís, a 4 e 5 de novembro, que viriam, mais tarde, a ser transmitidos pela RTP.
Durante o ano de 1995 continua a realizar concertos por todo o país, passando também pelo Casino Estoril, num formato solo, e com produção musical de Pedro Osório.
Integrou, como pianista convidado, o Unplugged dos Xutos e Pontapés, na Antena 3. Foi letrista, compositor e músico em Espanta Espíritos, álbum em que participaram vários nomes da MPP e que foi produzido por Manuel Faria (ex-Trovante). Participou com o tema "+1 Comboio" em parceria com Flak.
Também em 1995 nasce o seu segundo filho, Francisco.
Surgia depois no agrupamento Rio Grande, em 1996, formado por Tim (Xutos & Pontapés), João Gil (Ala dos Namorados), Rui Veloso e Vitorino. O grupo gravou dois CDs (o álbum de originais, em 1996, e um álbum ao vivo, em concerto no Coliseu dos Recreios, em 1998). O disco de originais alcançaria o galardão de Disco de Platina, permanecendo na memória do público singles como "Postal dos Correios" e "Dia de Passeio". O álbum do concerto, intitulado Dia de Concerto, contém o original de Jorge Palma Quem És Tu de Novo?, mais tarde incluído no álbum Jorge Palma (2001).
Ainda em 1996, musicou poemas de Regina Guimarães, integrados na peça de Bertolt Brecht "Lux in Tenebris" — levada à cena pela Companhia de Teatro de Braga — e colaborou com Sérgio Godinho, João Peste, Rui Reininho e Al Berto no espectáculo "Filhos de Rimbaud", apresentado no Coliseu dos Recreios de Lisboa.
Foi também diretor musical do espetáculo teatral "Aos que Nasceram Depois de Nós", baseado em textos de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weill, Hans Eisler e do próprio dramaturgo, e que contou com a composição inédita de Palma "Do Pobre B.B.". Participou também no álbum Encontros – Canções de João Lóio.