Giovanni Battista Celestino Paternoster, conhecido no Brasil como João Paternoster (Masi di Vigo, distrito de Ton, 4 de agosto de 1858 — Caxias do Sul, 5 de junho de 1948), padeiro e hoteleiro de profissão, foi um imigrante italiano ativo em Porto Alegre e mormente em Caxias do Sul, Brasil, onde tornou-se destacada figura pública na primeira metade do século XX.

Membro de uma antiga família do principado de Trento, seu pai Giacomo aparentemente entrou em dificuldades financeiras em meados do século XIX, o que deve ter motivado a transferência para o Brasil, estabelecendo-se em Caxias do Sul em fins de 1876 e trabalhando como professor. O filho João, contudo, teve uma adaptação problemática, mostrou um comportamento turbulento e imoral e acabou sendo banido da colônia. Retornou alguns anos depois, casando-se em 1890 com Maria Sartori. Depois de viúvo casaria outra vez, com Marietina Sartori, prima da outra, tendo seis filhos com a primeira esposa e mais um com a segunda.

Superando sua rebeldia juvenil, veio a ganhar o respeito da comunidade. Foi o primeiro padeiro de Caxias, permanecendo nesta atividade por muitos anos. Atuou também como sub-delegado de polícia, fiscal de obras municipal, secretário de Propaganda da Comissão Municipal Pró-Caxias, foi membro da comissão de obras da Catedral e da Igreja de São Pelegrino, e integrou a diretoria de influentes associações civis, entre elas a Associação dos Comerciantes e a Sociedade Príncipe de Nápoles, das quais foi um dos fundadores, mas sua fama póstuma em Caxias repousa principalmente sobre o hotel que fundou em 1911 e dirigiu até os anos 1940, o Recreio Familiar, um dos preferidos pelos turistas e políticos em viagem à serra gaúcha e sede de grandes bailes e banquetes. Recebeu várias homenagens em vida e postumamente, e hoje seu nome batiza uma rua.

Origens

Os Paternoster são uma antiga família de Romallo, no Trentino, que começa a ser documentada com Antonio Paternoster, nascido em local ignorado, dono terras em Romallo, morto antes de março de 1488. Sua filha Lucia e seu neto, o notário Valentino filho de Vitale, aparecem nos antigos registros com títulos de nobreza, a família teve um brasão, mas logo foram absorvidos na comunidade aldeã dos vicini e nenhum outro membro é citado como nobre. Não obstante, segundo Fabio Giacomoni, foram uma das famílias mais ativas na organização dos estatutos comunais e no Conselho.Giacomoni, Fabio. Carte di regola e statuti delle comunità rurali trentine, Volume 1. Jaca Book, 1991, p. 327 Há várias evidências sugerindo que descendiam dos Paternoster de Girlan, ramo de uma família de ministeriais, cavaleiros e burgraves documentados a partir do século XI no serviço dos condes de Appiano e dos bispos de Trento.

O ramo de João se estabeleceu na vila de Ton em meados do século XVIII, arrendando fazendas dos condes Thun, senhores de Ton, vivendo como homens livres e trabalhando geralmente como agricultores, madeireiros e artesãos. O fundador deste ramo, Giuseppe Paternoster, filho de um grande comerciante de madeira de Romallo, casou-se em 1759 com Anna Catterina Frasnelli, uma parente do superintendente das fazendas dos Thun, iniciando uma aproximação com a família dominante que continuaria até o fim do século XIX, o que deu aos Paternoster estabilidade financeira e a possibilidade de prosperar acima da média dos vicini da época. O casamento ocorreu na capela do castelo dos condes e Giuseppe na década de 1760 viveu no castelo, servindo-os como mestre carpinteiro. Em 1767 recebeu dos seus patrões o direito de exploração por seis anos dos bosques de amoreiras de todas as fazendas Thun salvo a Castelletto, para abastecer sua criação de bichos-da-seda, uma atividade muito lucrativa. Dois anos depois também é citado como coletor dos dízimos de metade das fazendas Thun.

João nasceu em 4 de agosto de 1858 na frazione (distrito) de Masi di Vigo, e foi batizado como Giovanni Battista Celestino. Era filho de Giacomo Paternoster e Orsola dal Piaz, e teve como irmãos Giacomo Giuseppe, Doratea Teresa, Giuseppe Andrea Bonifacio, Anna Teresa, Giacomo Anselmo, Colomba, Giuditta Cattarina Maria e Anna Angela.Frantz, Ricardo André Longhi. Crônica das famílias Paternoster e Frantz de Caxias do Sul e sua parentela: estórias, história e genealogia - Volume IV - o passado na Europa. Academia.edu, 2025, pp. 78-112 Giacomo, pai de João, recebeu educação superior e quando jovem desempenhou a função de professor público em Flavon, recebendo um atestado do síndico (prefeito) elogiando sua competência e zelo no ofício e seu modo de vida exemplar. Depois foi funcionário do conde Matteo Thun em Ton e chegou à posição de síndico da frazione de Vigo di Ton.Costamilan, Angelo Ricardo. Homens e Mitos na História de Caxias. Pozenato Arte & Cultura, 1989, pp. 97-132 A causa da emigração é incerta. Segundo Ricardo Frantz, aparentemente a família passou a enfrentar sérias dificuldades econômicas em meados do século XIX. Giacomo e seu irmão Andrea haviam feito em 1854 um vultoso empréstimo de mil florins com a Igreja de São Martino de Vervò, da qual seu parente Antonio Paternoster era ecônomo, e dois anos depois a igreja reclamou juros do empréstimo. Não há registro de como o negócio terminou, mas entre 1844 e 1863 Giacomo foi documentado servindo o conde Matteo Thun como escrivão, contabilista e perito agrimensor, cargos de responsabilidade que deviam lhe render um salário substancial. No entanto, o conde logo depois faliu e começou a vender seu patrimônio, e embora não haja notícia certa, provavelmente Giacomo perdeu seu emprego e encontrou dificuldades para manter a família. Uma situação de declínio parece ser confirmada pela imprensa da época, já que entre 1864 e 1870 os irmãos colocaram em leilão mais de trinta propriedades que possuíam em Vigo di Ton e Mezzolombardo. Neste período o Trentino passava por uma grande crise e sua população empobrecida emigrava em massa.

Viajou acompanhado da esposa Orsola e dos filhos Maria, Angela e Giovanni Battista (João), desembarcando no Rio de Janeiro em 29 de novembro de 1876. Ao chegar, munido de uma carta de recomendação fornecida pelo conde Thun e com a ajuda do barão de Teffé, Giacomo obteve do Governo Imperial uma nomeação como professor. Finalmente chegou a Caxias do Sul em 12 de dezembro, instalando-se nos lotes 40 e 41 da Sede Dante, o centro do povoado, onde construiu uma casa e uma pequena escola, a primeira de Caxias.Frantz, Ricardo André Longhi. Crônica das famílias Paternoster e Frantz de Caxias do Sul e sua parentela: estórias, história e genealogia — Volume II. Academia.edu, 2025, pp. 11-26; 78-151

Mal terminada sua instalação, a filha Angela faleceu. Giacomo passou a dar aulas particulares em sua escola, ensinando em italiano, sendo o primeiro professor profissional atestado em atividade no local, ajudado por sua filha Maria.Adami, João Spadari. História de Caxias do Sul. Tomo III – Educação: 1877 a 1967. EST, 1981, p. 96 Em 1879 foi contratado pelo Governo do Estado, sendo o primeiro professor público de Caxias.Luchese, Terciane Ângela. "Leggere, Scrivere, Calcolare. Escolas comunitárias étnicas em Caxias do Sul”. In: Anais do VI Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação: percursos e desafios da pesquisa e do ensino de História da Educação. Uberlândia, 17-20/04/2006, pp. 1422-1430 Giacomo faleceu em data que se ignora, provavelmente em 1888. Neste ano sua esposa passou a viver na Casa Canônica, servindo como governanta e colaborando na escola paroquial, falecendo em 29 de agosto de 1899. A filha Maria foi a primeira professora documentada na sede urbana, depois casou com o ferreiro Carlin Fabris e foi morar na zona rural. A filha Doratea Teresa, mais conhecida como Teresa, chegou em 1888, já casada com Felice Rossi. Era também professora mas ficou mais conhecida nos meios religiosos e beneficentes, sendo uma das fundadoras e conselheira da Associação Damas de Caridade e apoiadora da Escola Normal São José, lembrada por Gardelin & Costa como "benemérita e inesquecível", elogio repetido por Adami.Gardelin, Mário & Costa, Rovílio. Colônia Caxias: Origens. EST, 1993

Vida em Caxias do Sul

Mocidade e primeiro casamento

thumb|João Paternoster em torno de 1896.

João tinha 18 anos ao viajar e já trabalhava há algum tempo, adquirindo experiência como padeiro e confeiteiro e chegando ao Brasil com atestados de proficiência profissional emitidos pelo síndico de Vigo e pelo capitão do navio onde viajara. Logo após ajudar o pai na construção da sua casa e escola, passou a trabalhar como ajudante do major Augusto de Miranda na Diretoria de Terras e Colonização. Em 1877 envolveu-se em uma briga, ocorrida durante um baile e provocada por soldados bêbados, que resultou na morte da moça que lhe fazia par, alvejada com um tiro nas costas.Kirst, Marcos. "Ecos do Passado: Raio-X dos primeiros empreendedores”. Revista Acontece Sul, 30/08/2013 Um depoimento de sua filha Graciema Paternoster ao Arquivo Histórico Municipal refere que o pai em sua juventude era dado a festas e a arranjar confusões, tendo um bandônio com o qual “deixou todo mundo louco aqui em Caxias, [...] porque ele fazia farra dia e noite com aquele bandônio. Ele fazia uma revolução aqui em Caxias. [...] Ele era da folia, imagina com bandônio”.Pieruccini, Graciema Paternoster & Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami. “Memória: De cor”. Pioneiro, 11/05/1985 Pouco depois, em 1880, foi expulso da colônia pelo prazo de um ano, "por vagabundo, e por falta com a ordem e com a moralidade pública".Corrêa, Marcelo Armellini. Dos Alpes do Tirol à Serra Gaúcha: a questão da identidade dos imigrantes trentinos no Rio Grande do Sul (1875-1918). Dissertação de Mestrado. UNISINOS, 2014, p. 87

Retirando-se da colônia, passou algum tempo em local desconhecido. Uma carta escrita por seu pai à filha Teresa em 1884 sugere que João já havia retornado, dizendo que o irmão lhe enviava felicitações. Seguramente estava em Caxias em 1º de janeiro de 1887, participando da fundação da Sociedade Príncipe de Nápoles,"O Aniversário da Sociedade Caxiense M. S. Príncipe de Nápoles". A Época, 17/11/1940 a principal associação de mútuo socorro criada pelos imigrantes. Machado, Maria Abel & Herédia, Vania Beatriz Merlotti. "Associação dos Comerciantes: uma forma de organização dos imigrantes europeus nas colônias agrícolas no Sul do Brasil". In: Scripta Nova — Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, 2001; 94 (28). Número extraordinario dedicado al III Coloquio Internacional de Geocrítica (Actas del Coloquio).Luchese, Terciane Angela. “As Sociedades de Mútuo Socorro e suas Escolas Étnicas Italianas: a circulação de saberes e as conformações identitárias”. In: Anais do 17º Congresso de Leitura do Brasil. Campinas, Unicamp, 20-24/07/2009 Mais tarde seria conselheiro da Sociedade."Sociedade Príncipe de Nápoles", O Brazil, 15/11/1913