A Fazenda Ibicaba, propriedade do Senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro até sua morte, em 1859, localiza-se no município de Cordeirópolis, emancipado em 1948 de Limeira, Estado de São Paulo, no Brasil. O nome "Ibicaba" significa terra fértil, e vem da língua indígena tupi (ibi = terra; caba = gorda ou fértil).

A fazenda foi aberta em 1817, tendo sido pioneira em várias atividades e eventos importantes para a região e também na história brasileira. A exemplo, podemos citar: na plantação de café da região de Limeira (1828); na imigração subvencionada por particulares no país, ou seja, na contratação de mão-de-obra assalariada estrangeira, quando os trabalhadores rurais do Brasil ainda eram majoritariamente escravos. no uso do arado em terras brasileiras, a partir de 1847 no emprego de maquinários movidos a vapor, iniciada por volta de 1850 A Fazenda Ibicaba se estende por cerca de 222 hectares, uma área pequena se comparada com as grandes propriedades da região, que variam entre 500 e 700 hectares. Hoje seu principal cultivo é cana-de-açúcar, mas as instalações remanescentes do período cafeeiro ainda são exploradas como atração turística, sendo, atualmente, uma das fazendas mais visitadas nas redondezas.

Origem Até o século XVIII, a região onde hoje se encontra Ibicaba era pouco explorada, com mata densa e pouco povoada, sendo os que habitavam o local principalmente posseiros de Minas Gerais, que se estabeleceram ao longo do Picadão de Cuiabá, caminho que partia de São Paulo, passando pela região onde surgiu cidades como Sorocaba, Itu, Piracicaba, Rio Claro, seguindo no sentido de Mato Grosso.

A presença de grandes espécimes de árvore padrão ao longo da estrada deixava clara a presença de terra roxa, um tipo de solo muito fértil. Tendo conhecimento disso, proprietários de terras de cidades vizinhas, dentre elas Piracicaba, Campinas, Itu e São Paulo, pediram ao governo da capitania que cedesse sesmarias na região, para que pudessem explorá-la.

Uma das que mais se destacaram pela produtividade foi a sesmaria de Morro Azul. A região era dividida, e uma parte dela foi arrematada pelo Senador Nicolau Vergueiro em 1817, área em que implantou o Engenho de Ibicaba, destinado à produção de açúcar e aguardente. Ela foi anexada a uma sociedade com o brigadeiro Luís Antônio de Souza, um dos homens mais ricos de seu tempo.

Vale afirmar que, na época, Vergueiro já possuía outras terras, adquiridas com seu sogro, o Capitão José de Andrade e Vasconcellos, pai de sua mulher, Maria Angelica de Vasconcellos, com quem havia casado em 1804. Havia chegado no Brasil apenas um ano antes, em 1803, vindo de Vale da Porca, Portugal, com 25 anos.

Vergueiro trabalhou ainda com advocacia e cargos administrativos na capital da Província até 1816. Assim, já era considerado homem influente no cenário político e econômico de sua época.

Evolução miniaturadaimagem|250px|Fazenda Ibicaba - Autoria Henrique Manzo Assim como o cultivo de terras em sesmarias era tradicionalmente iniciado na época, Vergueiro começou a ocupação com a instalação de engenhos, a vinda de escravos e senhores, e ainda a expulsão de posseiros que frequentavam a área. Para isso, desbravou a mata, e escolheu o sopé do Morro Azul para implantação do núcleo produtivo de seu engenho, ainda em 1817. O espaço ficava em uma área consideravelmente plana, e contava com um grande número de nascentes, extremamente positivo para plantação.

Com a morte do Brigadeiro Luís Antônio, em 1819, a sociedade foi desfeita, e o ainda engenho Ibicaba ficou para Vergueiro.

Aproveitando o alto preço do açúcar no mercado internacional, e a política brasileira voltada ao fomento do cultivo de cana, Vergueiro implantou um engenho nas terras que adquiriu. O engenho teria produzido, em 1820, 600 arrobas de açúcar branco, 400 de redondo (branco de segunda qualidade) e 30 de mascavo.

Em 1825, Vergueiro passa a morar em Ibicaba, em um casarão recém-construído, ano em que começou um processo de modernização e dinamização da propriedade. Levou um tempo, mas o engenho passou a ser um dos maiores da região.

Já em 1828, porém, Vergueiro se voltou para a plantação de café. Plantou neste ano os primeiros 6000 pés de café, utilizando trabalho escravo para isso. Foi a primeira plantação do tipo na região de Limeira, e o seu início foi um tipo de teste com o novo fruto. Foi o ano, inclusive, em que se tornou senador de Minas Gerais, cargo vitalício que manteve por 31 anos, de 1828 até 1859, data de sua morte.

O cultivo de café não acabou de uma vez com o de cana de açúcar, que foi gradativamente sendo substituído pelo novo produto. Assim, a plantação de ambos foi comum durante um período de reorganização dos espaços de produção da economia mundial. Mas a lucratividade com o plantio de café cresceu rapidamente, e aos poucos o cultivo da cana foi dando lugar a nova cultura.

Foi nesse momento que a propriedade começou a perder a importância como engenho, e passou a ser cada vez mais conhecida como fazenda Ibicaba. Seu sucesso com o novo produto, inclusive, influenciou proprietários vizinhos a começarem o plantio de café, principalmente a partir de 1840, época em que o açúcar perdia seu valor comercial como produto de exportação.

Mão de obra assalariada thumb|250px|Cafezal da Fazenda Ibicaba (1850), óleo sobre tela de Henrique Manzo, Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Mesmo tendo iniciado em 1828 o plantio de café, a produção da fazenda Ibicaba ainda era limita pelo pequeno número de escravos que Vergueiro possuia, que ainda era o principal motor do sistema produtivo no Brasil.

A mão de obra escrava, porém, se tornava cada vez mais dispendiosa. Fatores como restrição ao comércio negreiro, e também à expansão de fazendas no interior de São Paulo diminuíam a oferta e aumentavam a procura de trabalhadores servis, que se tornaram mais caros.

Diante desse cenário, Vergueiro decidiu contratar famílias imigrantes assalariadas para trabalhar em seus assentamentos. Para isso, criou a empresa Casa Vergueiro & Cia, em 1846, que seria responsável por recrutar trabalhadores de seus países de origem, pelo transporte e pelo agenciamento deles na fazenda. O acordo criado foi chamado sistema de parceria, similar ao endividamento, sistema praticado nos Estados Unidos.

O contrato de parceria era firmado antes da família embarcar para o Brasil. Ele estipulava que o agricultor e sua família deveriam cultivar certa extensão de pés de café na fazenda que os acolhesse. O pagamento seria uma porcentagem do lucro líquido anual de venda do produto gerado, e seria feito parte em espécie, parte em dinheiro. A família imigrante podia plantar produtos para sua subsistência em alguns espaços dos cafezais, e caso obtivesse excessos e os comerciasse com outras famílias, vilas e cidades, deveria destinar ao fazendeiro a metade do lucro obtido na venda.

Assim, o fazendeiro, no caso Vergueiro, entrou com o capital, ou seja, as terras, as plantações. Já as famílias entraram com seu trabalho, ferramentas, cultivo, limpeza das terras e colheitas. O valor recebido pela família deveria saldar os gastos feitos em seu benefício, como a viagem marítima, adiantamentos para compra de alimentos e subsistência e compras realizadas nos armazéns da própria sede da fazenda, sendo cobradas com juros na hora do pagamento. Isso fazia com que restasse muito pouco, ou quase nenhum dinheiro ao colono imigrante.

Após o início com Vergueiro, o sistema de parceria foi aplicado em várias outras fazendas cafeeiras do interior de São Paulo.

Primeiros colonos em Ibicaba O seu início se deu em 1840, com a contratação de 80 ou 90 famílias portuguesas oriundas da região Minho, em Portugal. Assim foi fundada a colônia Senador Vergueiro, na fazenda Ibicaba.

A tentativa, porém, não obteve êxito, mas devido a motivos políticos. Vergueiro envolveu-se na Revolução Liberal de 1842, derrotada pelo Governo Nacional, sendo obrigado a afastar-se da fazenda nesse período. O senador Vergueiro foi então preso em São Paulo, e durante sua ausência, boa parte daquelas famílias de imigrantes deixou a fazenda Ibicaba.

O transtorno teria impedido por certo tempo a vinda de mais famílias de imigrantes para trabalhar na fazenda, sendo retomada somente em 1846, com a criação da Casa Vergueiro & Cia, em sociedade com seus filhos José e Luiz.

Em julho de 1847, Vergueiro promoveu a vinda de 423 agricultores ou 64 famílias da Alemanha, mais especificamente imigrantes prussianos, bávaros e renanos, além de camponeses do Holstein. De Santos até a Fazenda Ibicaba, levaram catorze dias pois os meios de transportes da época eram bem rudimentares. Chegando na fazenda, eles se juntaram a 215 escravos e ainda sete famílias portuguesas remanescentes da leva de 1840, formando novamente a Colônia Senador Vergueiro. A contratação dos imigrantes germânicos foi possível graças ao auxílio de um empréstimo por três anos do governo provincial.

Auge Para atingir o sucesso, era necessário que os colonos compensassem os investimentos feitos por Vergueiro. Por isso o contrato de parceria firmado entre senhor e colono teve papel chave. Ele obrigava o fazendeiro a arcar com a passagem marítima da Europa até Santos, assim como o transporte posterior para a fazenda. Assim, a Vergueiro & Cia financiava os dois trajetos, que deveriam ser posteriormente pagos pela família imigrante, com juros de 6% ao ano, sendo que em alguns casos eles chegavam a 12%.

Com o contrato e com a liderança de Vergueiro e seu filho José, o sistema obteve êxito tanto em lucratividade quanto em fazer que as famílias permanecessem na fazenda. O sucesso da propriedade tornou-se conhecida nacionalmente, e outras fazendas começaram a considerar a troca do trabalho escravo pela mão-de-obra assalariada. Os serviços da Vergueiro & Cia, inclusive, passaram a ser contratados por outros fazendeiros da região, para obtenção de mão-de-obra sob sistema de parceria.

A fazenda de Ibicaba, após as levas de 1840 e 1846, recebeu mais famílias em 1847, 1849, 1852, 1853, 1854, 1855, 1856, 1857 e 1862, sendo a maioria deles de origem germânica. Eles se dedicavam ao cultivo do café, enquanto os escravos se ocupavam com cana e outras culturas. Muitos deles eram artífices, ferreiros ou carpinteiros, o que auxiliou no crescimento da fazenda.

Com seu desenvolvimento, novas ferramentas começaram a ser usadas em Ibicaba. Em 1847, o arado foi usado pela primeira vez na cultura de café; os carros de boi, com rodas presas ao eixo, foram substituídas pelo carro de eixo fixo, mais leve e rápido. Vergueiro inventou ainda um descascador de café, que limpava cerca de 1000 arrobas por dia.

A fazenda Ibicaba passou então a fabricar e fornecer instrumentos agrícolas para outras fazendas, e se transformou num modelo para as demais, com enorme estrutura e expressiva produção cafeeira. Na década de 1860, já possuía a maior plantação de café no Brasil, com 1,25 milhão de cafeeiros e um terreiro para secagem do produto de 60 mil metros quadrados (seis hectares). Em seu auge, chegou a ter 700 famílias, ou mais de três mil pessoas, entre escravos e imigrantes.

A Revolta dos Parceiros

Com o sistema de parceria se caracterizando por abusos por parte dos fazendeiros, e desentendimentos ocorridos devido a choques de cultura, ambos os lados, imigrante e fazendeiros, começaram a apresentar sinais de descontentamento.

Instalações precárias foram um dos motivos. Os imigrantes, quando chegavam, eram acomodados provisoriamente em galpões, antes de serem levados às suas casas, que tinham chão de terra batida e não possuíam janelas, contando apenas com uma porta de entrada. Também não tinham divisões internas, e reformas ficavam por conta dos colonos. Era cobrada ainda uma anuidade de moradia.