Marxismo cultural é uma teoria da conspiração antissemita de extrema-direita que reivindica o marxismo ocidental como a base de alegados esforços académicos e intelectuais contínuos para subverter a cultura ocidental. A teoria da conspiração alega que uma elite de teóricos marxistas e intelectuais da Escola de Frankfurt estão a subverter a sociedade ocidental com uma guerra cultural que mina os valores cristãos do conservadorismo tradicionalista e promove os valores culturais do multiculturalismo e contracultura da década de 1960, política progressista e politicalmente correta, falseada como política identitária criada pela teoria crítica.

Com raízes no termo "Bolchevismo Cultural", inventado pela propaganda nazista dos anos 1930, a teoria conspiratória do marxismo cultural assumiu sua atual roupagem a partir da década de 1990, nos Estados Unidos. Embora originalmente encontrada apenas na política marginal de extrema-direita, o termo começou a entrar no discurso mainstream na década de 2010 e encontra-se agora disseminada em abrangência global. A teoria da conspiração de uma guerra cultural marxista é promovida por políticos de direita, líderes religiosos fundamentalistas, comentadores políticos na grande imprensa e televisão, e terroristas supremacistas brancos. A análise académica da teoria da conspiração concluiu que esta não tem, de facto, nenhuma fundamentação.

No Brasil seu principal proponente é Olavo de Carvalho, além de Marcel van Hattem, o Instituto Liberal, Rodrigo Constantino do Instituto Millenium, os proponentes do Escola sem Partido, o padre católico Paulo Ricardo. Jair Bolsonaro e vários membros do seu governo, dentre eles o ex-ministro da educação, Ricardo Vélez Rodríguez e o das relações exteriores, Ernesto Araújo, também acreditam na existência de tal conspiração. Em Portugal, o principal proponente da teoria da conspiração é André Ventura e o partido do qual é líder, bem como o antigo Partido Cidadania e Democracia Cristã, absorvido ao supracitado em 2020.

Aspectos da teoria da conspiração

Pessimismo cultural miniaturadaimagem|Joseph Goebbels vê a exposição "Arte Degenerada". A conspiração do marxismo cultural é frequentemente comparada à propaganda nazista antissemita sobre "bolchevismo cultural" e "arte degenerada". Na dissertação "New Dark Age: The Frankfurt School and 'Political Correctness'" (1992), Michael Minnicino explica a teoria da conspiração do marxismo cultural em nome do Schiller Institute, uma organização política afiliada com o teórico da conspiração Lyndon LaRouche. Minnicino diz que os "intelectuais judeus" da Escola de Frankfurt promoviam arte moderna para tornar pessimismo cultural o espírito da contracultura da década de 1960, que era baseada na contracultura Wandervogel, o movimento de jovens alemão culturalmente liberal cuja comuna suíça Monte Verità foi a predecessora do século XIX para a contracultura ocidental da década de 1960. O historiador Martin Jay notou que o livro do teórico da conspiração Daniel Estulin cita a dissertação de Minnicino como inspiração política para o Free Congress Research and Education Foundation, um "think tank paleoconservador".

Em Fascism and Culture (2003), o historiador Matthew Feldman argumenta que a etimologia do termo "marxismo cultural" é derivada do termo antissemita "Kulturbolschewismus" (bolchevismo cultural), com o qual os nazistas alegavam que a influência cultural judia havia causado degeneração da sociedade alemã sob o regime liberal da República de Weimar (1918–1933) e era a causa da degeneração social no ocidente. Maxime Dafaura faz uma afirmação similar em "The 'Great Meme War': the Alt-Right and its Multifarious Enemies" (2020).

Na dissertação "Cultural Marxism and the Cathedral: Two Alt-Right Perspectives on Critical Theory" (2019), o acadêmico Andrew Woods nota que tais comparações são a forma mais comum de analisar as implicações antissemitas da teoria da conspiração, mas discorda de chamá-la de qualquer coisa além de uma versão moderna do bolchevismo cultural, dizendo que seu antissemitismo é de qualquer forma "profundamente americano". De acordo com o filósofo Slavoj Žižek, o termo "marxismo cultural" "tem o mesmo papel estrutural do 'plano judeu' no antissemitismo: ele projeta (ou melhor, transpõe) o antagonismo iminente da nossa vida socioeconômica a uma causa externa: o que a alt-right conservadora deplora como a desintegração das nossas vidas (feminismo, ataques ao patriarcado, o politicamente correto, etc.) deve ter uma causa externa — porque não pode, para eles, surgir dos antagonismos e tensões da nossa própria sociedade."

Supostos objetivos No artigo do The Wanderer "The Frankfurt School: Conspiracy to Corrupt", de dezembro de 2008, Timothy Matthews diz que a Escola de Frankfurt era "trabalho de Satanás" e a acusou de instigar uma "guerra cultural". O artigo acusou a Escola de Frankfurt de instigar:

A criação de ofensas racistas Mudança contínua para criar confusão O ensino de sexo e homossexualidade para crianças A diminuição da autoridade de escolas e professores A destruição da identidade nacional americana através da imigração A promoção de bebida em excesso Esvaziamento de igrejas Um sistema legal inseguro com parcialidades contra vítimas de crimes Dependência no estado e/ou em um benefícios do estado Controle e emburrecimento da mídia Incentivo à quebra da família

Apesar de nenhuma ligação entre a lista e qualquer movimento acadêmico, teóricos da conspiração usam as alegações infundadas de Matthews para promover a conspiração do marxismo cultural em mídia de direita e direita alternativa bem como em fóruns de discussão de extrema-direita.

A demonização de oponentes políticos Em "Taking On Hate: One NGO's Strategies" (2009), a cientista política Heidi Beirich disse que a teoria da conspiração do marxismo cultural demoniza os anátemas culturais do conservadorismo como feministas, movimentos sociais LGBT, humanistas seculares, multiculturalistas, educadores sexuais, ambientalistas, imigrantes e nacionalistas negros. Dependendo da narrativa, os judeus também podem fazer parte dessa conspiração que pretende subverter a cultura ocidental. Apesar do cuidado em não se associar com o negacionismo do Holocausto, Lind teria dado uma palestra para um grupo de antissemitas em 2002 segundo o Southern Poverty Law Center.

Os sociólogos Julia Lux e John David Jordan afirmaram que a teoria da conspiração pode ser definida em seus elementos-chave: "antifeminismo misógino, ciência neo-eugênica (definida vagamente como várias formas de determinismo genético), supremacia branca genética e cultural, anti-esquerdismo macartista fixado no pós-modernismo, anti-intelectualismo radical aplicado às ciências sociais e a ideia de que um expurgo é necessário para restaurar a normalidade."

Na Europa, o terrorista norueguês de extrema-direita Anders Behring Breivik citou a conspiração de guerra cultural de Lind em seu manifesto político de 1.500 páginas 2083: A European Declaration of Independence, alegando que a "epidemia de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) na Europa Ocidental é resultado do marxismo cultural"; que "o marxismo cultural define muçulmanos, mulheres feministas, homossexuais e outros grupos minoritários como virtuosos, e eles veem homens europeus cristãos como malignos"; e que o "Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) em Estrasburgo é uma entidade política controlada pelo marxismo cultural."New Statesman - Who are Breivik’s fellow travellers? Daniel Trilling, 18 de Abril de 2011, . Acessado em 06/10/2015.Qantara - Breivik's Call to Arms. Ian Buruma, . Acessado em 06/10/2015. Cerca de 90 minutos antes de matar 77 pessoas nos atentados de 22 de julho de 2011 na Noruega, Breivik enviou seu manifesto e uma cópia de Political Correctness: A Short Story of an Ideology por email para 1.003 pessoas.BBC News - 'Breivik manifesto' details chilling attack preparation. 24 de Julho de 2011, . Acessado em 06/10/2015.

Em "Collectivists, Communists, Labor Bosser, and Treason: The Tea Parties as Right-Wing, Populist Counter-Subversion Panic" (2012), o jornalista Chip Berlet identificou a teoria da conspiração da guerra cultural como uma ideologia basal do movimento Tea Party do Partido Republicano. Como um movimento autodeclarado de direita, o Tea Party alega que estão sofrendo da mesma subversão cultural sofrida por gerações anteriores de nacionalistas brancos. De acordo com Berlet, a retórica populista de elites econômicas regionais encoraja pânicos de contra-subversão, pelos quais uma grande parte das pessoas brancas de classe média são enganadas a alianças políticas desiguais para defender seu lugar na classe média. Além disso, coletivos locais, comunistas, sindicatos, cidadãos não-brancos e imigrantes são culpados pelas falhas do capitalismo de livre mercado com a manipulação de patriotismo, liberalismo econômico, valores cristãos tradicionais e nativismo.Berlet, Chip (Julho 2012). "Collectivists, Communists, Labor Bosses, and Treason: The Tea Parties as Right-Wing Populist Counter-Subversion Panic" . Critical Sociology 38 (4): 565–587. doi:10.1177/0896920511434750.

Em "Cultural Marxism and the Radical Right" (2014) e em "Cultural Marxism: A Survey" (2018), o cientista político Jérôme Jamin se refere ao político conservador Pat Buchanan como o "momentum intelectual" da teoria da conspiração, e a Anders Breivik como o "ímpeto violento". Ambos confiam em William Lind, que editou um trabalho multi-autoral "Political Correctness: A Short History of an Ideology" que Jamin considera o texto basal que "tem sido unanimemente citado como 'a' referência desde 2004." Jamin continua:

Em 2017, foi relatado que o conselheiro Richard Higgins tinha sido demitido do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos por publicar o memorando "POTUS & Political Warfare" que alegava a existência de uma conspiração de esquerda para destruir a presidência de Donald Trump porque "intelectuais americanos públicos do marxismo cultural, islamistas estrangeiros e banqueiros globalistas, a mídia e políticos dos partidos Republicano e Democrata estavam atacando Trump, porque ele represente um perigo existencial aos memes marxistas culturais que dominam a narrativa cultural prevalente nos EUA."

O politicamente correto e libelos antissemitas No discurso The Origins of Political Correctness (2000), o teórico da conspiração William S. Lind estabeleceu a ideologia e etimologia da teoria da conspiração do marxismo cultural. Lind escreveu:

Sobre a violência política real causada pela teoria da conspiração, o professor de direito Samuel Moyn chamou-a de um libelo antissemita no editorial de 2018 "The Alt-Right's Favorite Meme is 100 Years Old". Sobre as origens e história da teoria da conspiração, Moyn escreveu:

De acordo com Moyn, "a discussão mais ampla sobre o marxismo cultural atualmente se parece com o mito [do bolchevismo judeu] atualizado para uma nova era mais do que com qualquer outra coisa." Moyn conclui: "Esse 'marxismo cultural' é uma difamação crua, se referindo a algo que não existe, infelizmente não significa que pessoas reais não estão tendo que pagar o preço como bodes expiatórios, para apaziguar o sentimento crescente de raiva e ansiedade. E por essa razão, o 'marxismo cultural' não é apenas um triste desvio de enquadrar queixas legítimas mas também uma isca perigosa em um momento cada vez mais desequilibrado."

História

Origens