A Primeira Liga foi uma competição de futebol unificada em acordo entre clubes, criada para, inicialmente, a organização da Copa Sul-Minas-Rio, que, com a entrada de mais clubes, passou a se chamar Primeira Liga. A união foi criada por clubes descontentes com o público e as rendas dos campeonatos estaduais e com as federações estaduais.

Como não podia proibir a realização de uma liga independente, sem necessidade de sua chancela e amparada por lei, a CBF emitiu nota de que não reconhecia a Primeira Liga como torneio oficial, classificando-a como amistosa para “harmonizar o futebol brasileiro”.

Em 25 de junho de 2019, a Primeira Liga do Brasil anunciou o seu encerramento, alegando falta de espaço no calendário futebolístico brasileiro. Essa competição é popularmente tratada como um torneio sucessor da Copa Sul-Minas e da Copa Sul. Em 2026, foi criada a Copa Sul-Sudeste, que engloba os três estados do Sul e três do Sudeste: Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

História O início O ano turbulento de 2015 nos bastidores do futebol mundial foi igualmente confuso no Brasil. Além das prisões e dos indiciamentos de seus dirigentes, a CBF teve de lidar com outro problema: a criação de uma liga independente de clubes, à revelia das ordens da entidade. A convite do Coritiba, a ideia inicial era reeditar a Copa Sul-Minas, com aval da entidade. Mas logo Flamengo e Fluminense, em pé de guerra com a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), se juntariam ao grupo. Foi fundada a Liga Sul-Minas-Rio na sede do Rubro-Negro carioca, com apoio do presidente da FCF e vice da CBF, Delfim Peixoto, desafeto declarado de Marco Polo.SEDA, Vicente - Site Globoesporte.com - De Sul-Minas a Primeira Liga: como o torneio ganhou contornos de rebelião, página editada em 1 de janeiro de 2016 e disponível em 28 de junho de 2017. O que era o embrião de uma competição regional se tornou o começo de uma “rebelião”.

A Primeira Liga — como o grupo com clubes do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina passou a ser chamado — manteve uma relação cordial com a CBF até uma reunião em outubro. Enfraquecida politicamente, após muita negociação nos bastidores, a CBF estava, a princípio, pronta para incluir a Liga no calendário oficial de competições de 2016 e oficializar o movimento. Uma intervenção da FERJ fez com que a entidade recuasse e exigisse a aprovação em Assembleia Geral. Foi o suficiente para o então diretor-executivo da Liga, Alexandre Kalil, perder a compostura em reunião com o secretário-geral da CBF, Walter Feldman, e outros dirigentes da entidade.

O diálogo se encerrou, e a Liga passou a ser tocada de forma totalmente independente. Chegou a haver tentativa de retomada das conversas entre o presidente da Liga (e do Cruzeiro), Gilvan Tavares e Del Nero, mas não vingou. Nem todos os dirigentes na Liga concordaram com a atitude de Kalil, que passou a balançar, mas foi inicialmente mantido. Mas o clima no grupo já não era o mesmo. Azedou de vez quando, em novembro, em uma reunião no Fluminense, Mario Celso Petraglia, representante do Athletico-PR e aliado de Kalil, foi eleito copresidente, praticamente tirando Gilvan Tavares de cena.

Insatisfeito, o presidente do Cruzeiro resolveu deixar a Liga. Foi convencido a voltar pelo presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello. Dias após confirmado o retorno, Kalil deixou a Liga, mas o grupo confirmou a competição para 2016, conforme o calendário divulgado, com início em 27 de janeiro.

2015

Reedição da Copa Sul-Minas Um grupo de oito clubes começou, no primeiro semestre de 2015, a caminhar para a reedição da Copa Sul-Minas, um torneio regional, no rastro do sucesso da Copa Nordeste — competição incluída no calendário oficial nacional. Ainda não havia definições de cargos ou negociações de contratos, somente conversas sobre formato, parte jurídica e outros detalhes da organização do torneio.

Fla-Flu se aproximam Eventos no Rio de Janeiro teriam, pouco depois, grande impacto no grupo. Em fevereiro, em meio à polêmica sobre preços de ingressos no Campeonato Carioca, uma reunião na FERJ terminou em discussão e xingamentos. O racha político entre a dupla Fla-Flu e a entidade passou a ser total e declarado. Os clubes, que deixaram muitas vezes até de enviar representantes à entidade, passaram a ser assíduos nos encontros da Liga Sul-Minas, que já estava até com a fórmula de disputa definida.

Diante da impossibilidade de lutar em arbitral contra o bloco comandado pelo presidente da FERJ, Rubens Lopes, e seu maior aliado, o presidente do Vasco, Eurico Miranda, Flamengo e Fluminense ordenaram — e divulgaram a medida — que seus departamentos jurídicos estudassem formas de as equipes não serem obrigadas a disputar o Carioca.

A Sul-Minas, então, passou a ser uma possibilidade atraente e real. A presença dos cariocas também trazia novas possibilidades para o torneio e maior visibilidade. Sem dificuldade, a inclusão da dupla na competição foi aprovada em julho pelos demais integrantes. A Sul-Minas passaria a se chamar Liga Sul-Minas-Rio.

Racha entre Del Nero e Delfim Em junho de 2015, pouco depois da prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marin em Zurique, na Suíça, o que provocou a fuga às pressas de Del Nero da cidade um dia antes da eleição presidencial na FIFA, uma reunião na CBF tornou público o racha entre o presidente da entidade e um dos seus vices, Delfim de Pádua Peixoto, presidente da Federação de Santa Catarina. Nos bastidores, Delfim, aliado de Marin, já não tinha prestígio com Del Nero, mas era o primeiro na linha de sucessão na entidade em caso de renúncia ou suspensão aplicada pela FIFA — perigos que passaram a ser reais para Del Nero com as investigações americanas e do Comitê de Ética da entidade internacional.

A assembleia, somente com presidentes de federações estaduais, foi convocada para aprovar mudanças no estatuto. Del Nero articulava para incluir uma reforma na qual alterava o artigo de sucessão que dá ao vice-presidente mais velho a prerrogativa de assumir o comando no caso de vacância. Delfim saiu vitorioso no embate velado, já que o assunto nem chegou a ir para votação, mas passou a criticar publicamente Del Nero, qualificando a manobra como “golpe”. Em reuniões posteriores na entidade, Delfim fazia questão de perguntar em voz alta o motivo de Del Nero não viajar. — o dirigente não saiu do país depois da prisão de Marin na Suíça. Também foi retirado pela CONMEBOL do Comitê Executivo da FIFA após faltar a vários compromissos.

A fundação No dia 10 de setembro de 2015, em reunião na sede do Flamengo, no Rio de Janeiro, foi oficialmente fundada a Liga Sul-Minas-Rio, com Flamengo, Fluminense, Internacional, Grêmio, Atlético-MG, Cruzeiro, Coritiba, Atlético-PR, Joinville, Chapecoense, Criciúma, Avaí e Figueirense. Na ocasião, o secretário-geral da CBF, Walter Feldman, resumia a posição da entidade dessa forma: “Não estimulamos, nem criticamos. Só observamos.”

A reunião na Gávea serviu também para apontar os mandatários do grupo: o escolhido para presidente da Liga Sul-Minas-Rio foi Gilvan Tavares, do Cruzeiro. Nilton Machado, do Avaí, ficou como vice. O secretário passou a ser Maurício Andrade, diretor-executivo do Coritiba. Foi definida também a necessidade de contratação de um CEO, cargo que ficaria com o ex-presidente do Atlético-MG Alexandre Kalil. O nome ainda mudaria para Primeira Liga, perdendo sua característica regional (veja na tabela abaixo como foram divididos os grupos para a primeira edição do torneio).

Ao assumir, Gilvan Tavares deixou claro que era um passo na direção de organizar os principais campeonatos do país.

Ao assumir a presidência, Gilvan Tavares declarou que a criação da liga representava uma mudança necessária para a reorganização do futebol brasileiro, aproximando o país dos modelos de gestão internacionais e ampliando a capacidade de arrecadação dos clubes. O dirigente ressaltou ainda que a adesão gradual das equipes foi uma estratégia para viabilizar o projeto, que teve início com oito participantes e posteriormente atraiu clubes como Flamengo e Fluminense.

Negociações com a CBF Com base na aprovação da Copa Nordeste, os dirigentes da Liga Sul-Minas-Rio passaram a tratar com a CBF da inclusão da competição no calendário oficial já em 2016. Enfraquecida politicamente, com um vice-presidente e ex-presidente que dava nome à sede da entidade preso, e o atual na mira de investigações estrangeiras, a CBF adotou estratégia de aproximação com o grupo. A entidade se mostrava publicamente favorável à Liga, mas, nos bastidores, revelava desconforto. Era, como Gilvan deixou claro, um movimento que poderia no futuro minar o poder da CBF.

Mas as tratativas corriam em tom amigável. Tudo parecia caminhar para a aprovação da competição, a despeito das críticas do presidente da Ferj, Rubens Lopes, inconformado com a participação de dois de seus filiados sem a sua autorização. Os clubes estudaram tabela, regulamento, aprontaram os esboços. Uma reunião na CBF em outubro, envolvendo os dirigentes dos principais departamentos, seria, na visão do CEO da Liga, Kalil, uma mera formalidade para ajustar a tabela e aprovar as regras do torneio.

Sem diálogo, CBF convoca assembleia No dia 19 de outubro, ao contrário da expectativa de Kalil, a reunião na CBF rachou de vez a relação. O episódio foi provocado por um ofício enviado diretamente pelo presidente da Ferj a Del Nero, com cinco páginas dissertando motivos para considerar a Liga ilegal e submetê-la à aprovação de Assembleia Geral, bem como à autorização das respectivas federações para participação de seus filiados no torneio. A CBF decidiu acatar a argumentação, e Kalil deixou a reunião furioso, avisando que a competição seria realizada “de qualquer jeito”.

Participaram do encontro o secretário-geral da CBF, Walter Feldman, e diretores de peso na entidade. A CBF argumentava precisar, para aprovar a competição, cumprir certos ritos burocráticos e demandas de órgãos como o Sindicato dos Jogadores. O ex-presidente do Atlético-MG se viu pela primeira vez na berlinda entre os integrantes da Liga. O apoio ao fim das conversas com a entidade, embora anunciado publicamente, não foi bem digerido por todos de imediato, surgindo as primeiras críticas ao temperamento do diretor-executivo. Kalil também sofreu questionamentos por levar seu filho, João Luiz, para a reunião. Negou que ele fosse ser contratado pela Liga e creditou a divulgação da informação a uma articulação da CBF nos bastidores.

A partir daí, a CBF deixou claro que não pretendia mais conversar com Kalil e convocou uma assembleia com as federações para votar a aprovação da Liga. A Liga foi aprovada, desde que cumprisse todos os estatutos. Rubens Lopes, da Ferj, festejou, e Kalil afirmou que o resultado da assembleia “não interessa". Feldman explicou a posição da entidade.

Na ocasião, a entidade ressaltou que a criação da competição exigia o cumprimento da legislação brasileira e do calendário oficial, argumentando que a organização do torneio precipitadamente não seria viável. Além disso, afirmou que a inclusão do torneio no calendário nacional e sua homologação junto à CBF dependiam do cumprimento de todos os trâmites burocráticos estabelecidos.

Primeiros atritos e “aprovação” da CBF Um dos que mais apoiaram Kalil foi o presidente do Conselho Deliberativo do Atlético-PR, Mario Celso Petraglia, o representante do Furacão no grupo. Petraglia ganhou força, passou a ter influência nas principais decisões com a aproximação de Kalil, e o fortalecimento da dupla começou a incomodar. Gilvan Tavares, presidente da Liga, ficou em segundo plano — e nem um pouco satisfeito. Outros questionavam a posição adotada por Kalil na CBF sem consulta aos demais membros.