thumb|upright=1.5|Visão geral da rota da seda, não incluindo a rota para o palácio de Caracórum, na Mongólia A Rota da Seda (; ; ; ) foi uma rede de rotas comerciais asiáticas (principalmente de seda chinesa) iniciada durante a Dinastia Han, ativa do século II a.C. até meados do século XV. Com mais de 6 400 km (4 000 milhas) de extensão, caminho de facilitação das interações econômicas, culturais, políticas e religiosas entre o Oriente e o Ocidente. No final do século XIX foi também chamada de "Estrada da Seda".
Os chineses demonstravam grande interesse na segurança de seus produtos comerciais e expandiram a Grande Muralha da China para garantir a proteção da rota.Xinru, Liu (2010). The Silk Road in World History New York: Oxford University Press, p. 11. No século I d.C., a seda chinesa era amplamente desejada em Roma, Egito e Grécia. Outros produtos orientais incluíam: chá, corantes, perfumes e porcelana, enquanto as exportações ocidentais incluíam: cavalos, camelos, mel, vinho e ouro. Além de gerar grande riqueza para as classes mercantis emergentes, a disseminação de mercadorias como papel e pólvora (no século IX) teve um impacto significativo na trajetória da história política em diversas regiões da Eurásia e além.Li, Rongxi (tradutor). 1995. The Great Tang Dynasty Record of the Western Regions.Centro Numata para Tradução e Pesquisa Budista. Berkeley, Califórnia. .
A Rota da Seda foi utilizada durante um período de grandes variações políticas no continente, exemplificado por eventos marcantes como a Peste Negra e as conquistas mongóis. A rede era altamente descentralizada e oferecia pouca segurança; viajantes enfrentavam ameaças constantes de bandidos e invasores nômades, além de vastas extensões de terrenos inóspitos. Assim poucos indivíduos percorriam todo o trajeto da Rota da Seda, utilizando uma sucessão de intermediários estabelecidos em diferentes pontos ao longo do caminho.
Além das mercadorias, a rede facilitou um imenso intercâmbio de ideias religiosas (especialmente o budismo), filosóficas e científicas, muitas das quais foram sincretizadas pelas sociedades ao longo da rota. Da mesma forma, diversas populações utilizaram essa rede comercial, assim doenças como a peste também espalharam-se, possivelmente contribuindo para a Peste Negra na Eurásia (1343-1353).
A partir de 1453, o Império Otomano começou a competir com outros "impérios da pólvora" pelo maior controle das rotas terrestres, o que levou os estados europeus a buscar alternativas enquanto fortaleciam seu poder sobre seus parceiros comerciais. Isso marcou o início da Era dos Descobrimentos, do colonialismo europeu e da intensificação da globalização. No século XXI, o nome "Nova Rota da Seda" é usado para descrever vários grandes projetos de infraestrutura ao longo de muitas das antigas rotas comerciais; entre os mais conhecidos estão a Ponte Terrestre Eurasiática e a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) da China. A UNESCO designou o corredor Chang'an-Tianshan da Rota da Seda como Patrimônio Mundial em 2014 e o Corredor Zarafshan-Karakum em 2023. O Corredor Fergana-Syrdarya, as porções indianas e iranianas, e os demais locais na China permanecem em listas provisórias.
Etimologia A Rota da Seda recebeu esse nome devido ao comércio altamente lucrativo de tecidos de seda, que eram produzidos principalmente na China. A rede começou a se formar com a expansão da Dinastia Han (202 a.C. – 220 d.C.) na Ásia Central por volta de 114 a.C., através das missões e explorações do emissário imperial chinês Zhang Qian, que trouxe a região sob controle unificado.
O nome "Estrada da Seda" foi cunhado no final do século XIX, mas alguns historiadores moderno preferem o termo inicial, pois descreve com mais precisão a complexa rede de rotas terrestres e marítimas que conectavam a Ásia Central, Oriental, Meridional, Sudeste e, Ocidental, bem como o Leste da África e o Sul da Europa.
Origens
Viagem continental 300px|miniaturadaimagem|A rota da seda no século I, incluindo rotas marítimas. Quando as técnicas da navegação e da domesticação de bestas de carga foram assimiladas pelo Mundo Antigo, a capacidade de transporte de grandes cargas por longas distâncias foi aperfeiçoada, possibilitando o intercâmbio de culturas e maior rapidez no comércio. Por exemplo, a navegação no Egito pré-dinástico (anterior a 3 100 a.C.) apenas foi estabelecida no , período em que burros e dromedários começaram a ser domesticados. Logo após o camelos bactriano, o cavalo como meio de transporte foi empregado em seguida.
Como as rotas náuticas provêm um meio fácil de transporte entre longas distâncias, largos terrenos do interior como as planícies, que permanecem longe do litoral, não se desenvolveram como as rotas costeiras. Em compensação, dispõem de terreno fértil para pastos e água em abundância para as caravanas, além de fornecer terras para a agricultura. Estes terrenos permitem a passagem de caravanas, mercadores e exércitos sem precisar envolver-se com povos sedentários, também os nômades preferem não ter que atravessar longos descampados.
Enquanto isto, cargas, especiarias e ideias religiosas eram propagadas por todos os cantos, contrapondo a ideia antiga da troca que, provavelmente, conduzia-se somente por uma rota pré-determinada. É improvável que a rota da seda fosse percorrida somente por terra, visto que percorre a África, a Europa, o Cáucaso e a China.
Transporte antigo Os povos antigos do Saara já haviam importado animais domesticados da Ásia desde . Artefatos datados do , encontrados em sítios badarianos do Egito pré-dinástico indicam contato com lugares distantes, como a Síria. Desde o começo do , egípcios antigos de Maadi importam cerâmica e conceitos de construção dos Cananeus.
O comércio de lápis-lazúli provém da única fonte conhecida no mundo antigo, Badaquistão, localizada no noroeste do Afeganistão, localidade distante das grandes culturas, com a Mesopotâmia e o Egito. A partir do , o comércio do lápis-lazúli foi estendido até Harapa e Moenjodaro, ambos no Vale do Indo.
Pensa-se que tenham sido usadas rotas que acompanhavam a Estrada Real Persa (construída por volta do ano ) desde . Existem evidências de que exploradores do Antigo Egito podem ter aberto e protegido novas ramificações da rota da seda. Entre 1979 e 1985, amostras de carvão vegetal foram encontradas nas tumbas de Hieracômpolis, onde eram datadas dos períodos Nacada I e II, identificadas como cedro-do-líbano, originário do Líbano.
Em 1994, escavadores descobriram fragmentos de cerâmica gravada com o símbolo sereque de Narmer, datando de Estudos mineralógicos revelaram que os fragmentos pertenciam a uma jarra de vinho exportado do Vale do Nilo até Israel.
Comércio marítimo egípcio A pedra de Palermo menciona o rei Seneferu da quarta dinastia do Egito enviando navios para importar cedro de alta qualidade no Líbano. Em uma cena no interior da pirâmide do faraó Sahuré, da quinta dinastia, os egípcios surgem retornando com grossos troncos de cedro. O nome de Sahuré é encontrado estampado numa pequena peça de ouro numa cadeira libanesa, e foram encontrados cartuchos da quinta dinastia em recipientes libaneses de pedra; outras cenas em seu templo mostram ursos sírios. A pedra de Palermo também menciona expedições ao Sinai assim como mina de diorito ao noroeste de Abu Simbel.
A mais antiga expedição de que há registo à Terra de Punt foi organizada por Sahuré, aparentemente a procura de mirra, assim como malaquita e eletro. O faraó da décima-segunda Dinastia do Egito, , fez um "Canal de Suez" antigo, ligando o rio Nilo ao mar Vermelho, para a troca direta com Punt. Por volta de , no reino de , um oficial chamado Hennu fez algumas viagens a Punt. Foi conduzida uma expedição muito famosa por Nehsi e pela rainha Hatchepsut a Punt, realizada no , com o intuito de obter mirra; um relato da viagem sobrevive em um pedido de socorro localizado no templo funerário de Hatshetup, em Deir el-Bahari. Muitos de seus sucessores, incluindo , também organizaram viagens a Punt.
Estanho britânico A Grã-Bretanha possui grandes reservas de estanho nas regiões da Cornualha e de Devon, no sudoeste da Inglaterra. Por volta de , o sudoeste da Bretanha experimentou uma explosão comercial, onde o estanho britânico era comercializado por boa parte da Europa (veja também Britânia pré-histórica). Quando a era do Bronze foi substituída pela Idade do Ferro, a navegação baseada em peças de estanho (concentrada no Mediterrâneo) declinou entre e . No entanto, não foi encontrada nenhuma rota terrestre entre a Bretanha antiga e as civilizações do Mediterrâneo.
Contatos de chineses e centro-asiáticos Desde o , os minerais nefrita e jade são extraídas de minas das regiões de Iarcanda e Hotan, ambas na China, para serem comercializadas. Curiosamente, estas minas não estão muito longe das minas de lápis-lazúli e espinélio de Badaquistão (Afeganistão e Tajiquistão), e apesar de estarem separadas pelos montes Pamir, muitas estradas cruzam as montanhas, algumas desde tempos muito longínquos.
thumb|Placas de jade e pedra-sabão chinesas, no estilo artístico cita para animais das estepes; , Museu Britânico
As múmias de Tarim, múmias chinesas de um tipo indo-europeu, foram encontradas na bacia do Tarim (região de Xinjiang), como as da área de Loulan, localizada na rota da seda, a 200 km a leste de Yingpan, que datam de e sugerem uma linha de comunicação muito antiga entre ocidente e oriente. Pode-se supor que estes restos mumificados devem ter sido feitos por ancestrais dos Tocários, cuja língua indo-europeia permaneceu em uso em bacia do Tarim até ao
Muitas sobras do que parece ser seda chinesa foram encontradas no Egito, datando de cerca de . Ainda que a origem seja suficientemente confiável, a seda degrada-se facilmente e os especialistas não puderam verificar com precisão se a seda era cultivada (muito provavelmente terá vindo da China) ou se era um tipo de seda "selvagem", que pensam vir da região mediterrânea ou do Médio Oriente.
Contatos próximos da China metropolitana com nômades fronteiriços dos territórios oeste e noroeste no permitiram a introdução do ouro da Ásia Central no território chinês. Assim sendo, os escultores de jade chineses começaram a imitar as estepes em suas obras (devido à adoção do estilo artístico cita para animais das estepes, onde os animais eram retratados em combate). Este estilo refletiu-se particularmente nos cintos de placas retangulares, feitos em ouro e bronze, com versões alternadas de jade e pedra-sabão.
Estrada Real Persa miniaturadaimagem|As principais rotas da "estrada da seda". No tempo de Heródoto, a Estrada Real Persa percorria 2857 quilômetros da cidade de Susa, no baixo Tigre até o porto de Esmirna no mar Egeu. Era mantida e protegida pelo império Aquemênida, e possuía estações postais e estalagens a intervalos regulares. Com cavalos descansados e viajantes prontos a cada estalagem, mensageiros reais podiam carregar mensagens em até nove dias, ao contrário de mensageiros normais que demoravam cerca de três meses. A Estrada Real era conectada a outras rotas. Muitas delas, como as rotas indianas e centro-asiáticas, também eram protegidas por Aquemênidas, que mantinha contato regular com a Índia, a Mesopotâmia e o Mediterrâneo. Existem registros em Ester de despachos feitos em Susa para províncias indianas e para o Cuxe durante o reinado de Xerxes I.
Conquistas helenísticas O primeiro grande passo para a abertura da rota da seda entre este e este veio da expansão de Alexandre o Grande no interior da Ásia Central. Alexandre chegou a Fergana, às fronteiras de Xinjiang (região chinesa, onde ele fundou em um assentamento grego na cidade de Alexandria Eschate - Alexandria, a distante), e Khujand (agora Leninabad), no Tajiquistão.