thumb|300px|Lenhadores da Costa Oeste dos Estados Unidos serrando um grande exemplar de , 1910.

Desflorestação, desflorestamento, desmate ou desmatamento é o processo de desaparecimento completo e permanente de florestas, atualmente causado em sua maior parte por atividades humanas. Embora o conceito se aplique em senso estrito à perda de florestas, formações vegetais cujo principal componente são as árvores, muitas vezes ele é aplicado às perdas de cobertura vegetal de formações naturalmente esparsas, arbustivas ou rasteiras, como as savanas, as pradarias e o cerrado, significando, em seu sentido lato, a perda permanente de todo tipo de cobertura vegetal original em determinada área. Áreas desflorestadas historicamente mas que por qualquer razão recuperaram sua cobertura não entram no cômputo atual da desflorestação.Chadwick, Oliver D.; Boydak, Melih; Sedjo, Roger. "Deforestation". In: Goudie, Andrew & Cuff, David (eds.). The Oxford Companion to Global Change. Oxford University Press, 2008, pp. 159-163 A desflorestação, que é uma perda quantitativa de superfície florestada, se distingue da degradação florestal, que é uma perda qualitativa em biodiversidade, estrutura ou função de uma floresta.

A desflorestação não é um fenômeno recente, e há evidências de que em tempos pré-históricos ele já estava em andamento em vários locais do mundo, mas sua extensão e ritmo naquela época remota são difíceis de estimar. O que se sabe é que no início da Revolução Industrial, em meados do século XVIII, grande parte das florestas temperadas do Hemisfério Norte já havia desaparecido, e no século XX o processo se intensificou de maneira acelerada nas florestas tropicais.Comissão das Comunidades Europeias. Comunicação da Comissão ao Parlamento Europeu, ao Conselho, ao Comité Económico e Social Europeu e ao Comité das Regiões: Enfrentar os desafios da desflorestação e da degradação florestal para combater as alterações climáticas e a perda de biodiversidade. {SEC(2008) 2618} {SEC(2008) 2619} {SEC(2008) 2620} / COM/2008/0645 final. Bruxelas, 17/10/2008

As florestas são ecossistemas de enorme importância ambiental por uma variedade de razões, e historicamente sempre foram uma das principais bases do florescimento das civilizações. São fontes de inúmeros produtos úteis para o ser humano, como madeira, substâncias medicinais, frutos e fibras, além de vários serviços ambientais. Cerca de 1,6 bilhões de pessoas hoje ganham a vida em alguma atividade ligada às florestas, e cerca de 60 milhões de indígenas em todo o mundo dependem exclusivamente delas para sua subsistência. Elas preservam e purificam as águas doces, impedem a erosão do solo, produzem boa parte do oxigênio da atmosfera e reciclam o gás carbônico, contribuem na regulação do clima e do regime de chuvas, entre muitos outros efeitos benéficos para a manutenção do equilíbrio ecológico da Terra, do qual o bem-estar e mesmo a sobrevivência do homem também dependem diretamente. As florestas tropicais em particular estão entre os ecossistemas com maiores índices de biodiversidade do mundo. Desta forma, como é lógico, o desaparecimento das matas desencadeia inúmeros efeitos negativos sobre o equilíbrio do ambiente global e também sobre a vida humana, em aspectos econômicos, sociais, culturais e mesmo biológicos, afetando virtualmente todas as pessoas do mundo, direta ou indiretamente. thumb|300px|Madeira de origem ilegal no Brasil, 2008.

Cerca de 31% da superfície terrestre do globo ainda são cobertos por florestas em vários graus de conservação,FAO, p. 9 com aproximadamente 22% delas ainda em condições intocadas. Apesar da significativa cobertura sobrevivente, calcula-se que metade das florestas do mundo já tenha desaparecido, embora por incertezas acerca dos métodos de mensuração e pela dificuldade de definição do que se entende por "floresta" haja discordância nos números exatos.The Regents of the University of Michigan. Global Deforestation . University of Michigan, 01/04/2010Olander, Lydia P. et al. Data and Methods to Estimate National Historical Deforestation Baselines in Support of UNFCCC REDD. Nicholas Institute for Environmental Policy Solutions, Duke University, julho de 2007 Segundo uma estimativa da FAO, entre 2000 e 2010 o mundo perdeu 130 milhões de hectares de florestas, mas ganhou de volta 78 milhões de hectares em reflorestamentos naturais ou induzidos, com uma média total de perdas de cerca de 5,2 milhões de hectares a cada ano. Quase a totalidade das perdas recentes ocorre nas regiões tropicais, e entre suas causas imediatas estão o clareamento do solo para a agricultura, a pecuária e a urbanização, e a retirada de madeira. De todas, a expansão agrícola é de longe a causa mais importante, respondendo por 80% da desflorestação mundial.

O desflorestamento é um dos maiores desafios ambientais da atualidadeThe Vital Forest Graphics. Vital Forest Full Report. UNEP/FAO/UNFF, 2009, p. 4 e tem sido objeto de inúmeros estudos científicos, mas ainda é motivo de grande controvérsia a respeito de sua verdadeira extensão, de suas causas profundas, dos mecanismos naturais associados e dos meios de prevenção necessários.The Vital Forest Graphics, pp. 10; 23; 31; 46; 57 Muitos países e organizações internacionais têm elaborado e executado programas e leis para conter seu avanço,The Vital Forest Graphics, pp. 7-8; 17FAO, pp. 2-6 mas os seus resultados práticos têm sido pobresFAO, pp. 17; 21; 24-25 e muitas são as dificuldades ainda encontradas para que tais medidas surtam efeito, pois os impactos negativos deste processo até agora poucas vezes são levados em conta nos planos de desenvolvimento das nações, que permanecem presas principalmente a interesses econômicos e políticos mais imediatos, e continuam negligenciados pela sociedade em geral, que ainda não está consciente da gravidade e das vastas implicações da situação ou não se mostra disposta a agir decididamente para reverter esse quadro.

Definições

Existem em uso no mundo mais de oitocentas definições do que é uma floresta, dificultando a avaliação do desflorestamento. Para fins práticos, no ano de 2000 a FAO definiu "floresta" como uma área de pelo menos 0,5 hectares, com árvores de pelo menos 5 metros de altura, e com uma canópia (o dossel de copas que geram sombra no solo) cobrindo pelo menos 10% desta área. Parques urbanos, pomares e monoculturas arbóreas são excluídos desta definição.The Vital Forest Graphics, pp. 6-7 thumb|esquerda|Floresta de coníferas nos Estados Unidos, um exemplo de floresta densa

Mesmo assim, muitos países não adotam este conceito, ou adotam vários ao mesmo tempo, ou não possuem técnicas adequadas de mapeamento, tornando a situação bastante complexa e dando margem a muita discussão.The Vital Forest Graphics, pp. 7-9 A FAO utiliza dados oficiais fornecidos pelos países, cujo nível de exatidão é desigual. Mesmo quando um único conceito é adotado, os resultados podem variar de acordo com a metodologia empregada. Por exemplo, o rastreio via satélite pode fornecer dados diferentes daquele feito em terra ou por avião, e pode incorrer em detecções falso-positivas e falso-negativas. Novas técnicas vêm sendo desenvolvidas para minimizar esses problemas. Outro problema é que a definição da FAO, embora distinga as florestas abertas das fechadas ou densas (com uma canópia de pelo menos 40%), não distingue entre florestas primárias, florestas secundárias, florestas degradadas ou doentes e florestas recompostas pelo homem, complicando a avaliação dos impactos do desflorestamento. Áreas reflorestadas natural e artificialmente costumam divergir muito em suas características e nos serviços ambientais que oferecem. Os reflorestamentos humanos geralmente ficam muito longe de recompor integralmente a biodiversidade primitiva, especialmente no caso das tropicais, e florestas jovens, mesmo recuperadas naturalmente, são muito distintas em relação às maduras em termos de composição e densidade vegetal, e também de biodiversidade.

Por desflorestação entende-se a eliminação total e permanente de áreas florestadas. Já a degradação florestal não envolve quantidade de área perdida, mas significa um decréscimo qualitativo na biodiversidade e na integridade estrutural e funcional das florestas.Lanly, Jean-Paul. "Deforestation and Forest Degradation Factors". In: XII World Forestry Congress, Québec, 2003

História Da Pré-história à Idade Moderna thumb|Reconstrução de parte da flora do Carbonífero

Desflorestamentos por causas naturais já ocorreram várias vezes na história da Terra. Um exemplo de largas proporções ocorreu no período Carbonífero, conhecido como o colapso das florestas pluviais do Carbonífero, que levou à extinção inúmeras formas de vida, e que é a origem de grande parte dos depósitos de carvão existentes.Sahney, S., Benton, M.J. & Falcon-Lang, H.J. "Rainforest collapse triggered Pennsylvanian tetrapod diversification in Euramerica". In: Geology, 2010; 38(12):1079–1082. Ao longo das sucessivas glaciações também a área de florestas variou muito, diminuindo e aumentando várias vezes em vista de mudanças climáticas e de alterações no nível do mar e na extensão da superfície terrestre coberta por gelo.

No que toca ao desflorestamento antropogênico, aquele causado pelo homem, diz Michael Williams ser possível que tenha iniciado há meio milhão de anos atrás, coincidindo com o aparecimento do Homo erectus e com o domínio do fogo, mas o conhecimento atual do processo ainda é muito incompleto e a interpretação das evidências é difícil. As florestas atuais se formaram há milhões de anos, sofrendo várias oscilações em composição e extensão durante as sucessivas glaciações. Após a última glaciação, em torno de 10 mil anos atrás, elas cobriam possivelmente 6 bilhões de hectares, mas desde então sofreram outras modificações por causas naturais e com a crescente influência da ação humana.Williams, Michael. "Dark ages and dark areas: global deforestation in the deep past". In: Journal of Historical Geography, 2000; 26(01):28–46 O botânico e paleoecologista Knut Fægri pensa que a interferência humana nas paisagens do mundo desde aquela época pode ter sido tão intensiva que o conceito de "floresta virgem" possivelmente não passa de uma ficção cultural, com a vasta maioria das espécies vegetais modernas sofrendo alguma modificação direta ou indireta pela ação humana, e com a maioria das atuais áreas consideradas "virgens" sendo de fato florestas recuperadas após intervenção humana.Faegri, K. "Preface". In Birks, H. H. et al. (eds). The Cultural Landscape: Past, Present and Future. Cambridge University Press, 1988, pp. 1–2 thumb|Machados de pedra do período Neolítico encontrados em Chipre