right|thumb|390px|As marcas principais de singani: Los Parrales, Casa Real e Rujero Singani é uma aguardente destilada de uvas moscatel de Alexandria brancas. É produzida somente nos Andes bolivianos, sendo considerada a bebida nacional da Bolívia e um patrimônio cultural. Seu caráter e métodos de produção assemelham-se ao eau-de-vie, ainda que seja classificado como brandy para efeitos de comércio internacional. O Singani possui as classificações de "Denominação de Origem" (Denominación de Origen, DO) e de Indicação geográfica pelo governo boliviano.
A produção da bebida ocorre desde o século XVI logo após a chegada dos espanhóis à América do Sul. Os primeiros a destilá-la foram as ordens monásticas que, precisando de vinho para a missa também passaram a destilar a bebida, espalhando-se para a produção nas fazendas. A região dos vales de Cinti, no departamento de Chuquisaca, reivindica a origem e o pioneirismo na produção do singani.
As leis bolivianas nas últimas décadas codificaram o que se praticava há muito e hoje os vinhedos produtores devem estar a altitudes de ou mais. O singani é conhecido como produto de altitude em termos legais, assim como os vinhos e os cultivos de uva.
Etimologia As evidências linguísticas sugerem que a palavra “singani” venha da palavra “siwingani”, oriunda da língua aimará. Em função de a representação dos sons aimarás no alfabeto latino ser aproximada, essa palavra é alternativamente representada como “sivingani”, “siwinkani”, entre outras. Sivinga ou siwinga é a palavra usada para certas plantas da família Cyperaceae (juncos, etc.), de natureza ripária, encontradas nos vales andinos protegidos de extremos climáticos. O sufixo “ni” significa “o lugar de”. Com o advento da colonização, a palavra nativa foi reduzida por síncope para “singani”.
right|thumb|240px|Garrafas de Singani, datadas de 1930
História Baseando-se em estudos genéticos, duas variedades seminais de uva foram introduzidas nas Américas por volta de 1520 por colonos espanhóis, através das Ilhas Canárias, lugar ondes essas variedades estavam bem estabelecidas, sendo elas a moscatel de Alexandria e a misión. Após a chegada da última ao Vice-Reino de Nova Castela (atuais Peru e Bolívia), deu origem às variedades modernas criolla e torrontés, usadas hoje para o singani e os vinhos.
Exploradores espanhóis, sob o comando de Francisco Pizarro, chegaram ao Império Inca em 1528. Eles e as ordens religiosas circularam pelas regiões muito ao sul de Cusco quase em seguida. Por volta de 1538, quando a ocupação do então Baixo Peru (atual Peru) ainda estava incerta devido à guerra, cidades criadas pelos colonizadores, assim como a futura arquidiocese em Sucre foram iniciadas no Alto Peru, no que hoje é a Bolívia. Em 1545, uma grande quantidade de prata foi descoberta próximo a Cerro Rico, Potosí. Em função da importância desse lugar — quase toda a prata na América - fez com que a Coroa Espanhola tivesse especial atenção e, dentre outras medidas, isso resultasse no estabelecimento de missões religiosas nessa área. Nessa mesma época, Potosí tornou-se a Cidade Imperial de Potosí, uma das maiores e mais ricas cidades de todo o mundo e de longe a maior nas Américas. Estes fatores - uma cidade grande sem precedentes e uma profusão de missões a produzirem vinhos - foram o ambiente para o desenvolvimento do singani.
Os vinhedos foram introduzidos na Bolívia pelos missionários espanhóis, que chegaram a partir de 1530, o momento a partir do qual se deu o início da produção de vinho na Bolívia. A necessidade de vinho originava-se dos requisitos para a celebração litúrgica da Eucaristia e onde quer que houvesse uma missão provavelmente haveria uma tentativa de produção de vinho pelos religiosos. A época na qual se deu o início da produção de vinho na Bolívia deu-se entre 1530 e 1550 (pois as videiras levam alguns anos para iniciar a produção), período que corresponde aproximadamente ao da produção vinífera nas regiões que viriam a ser os atuais Peru e Chile. Acredita-se que o singani, enquanto denominação da bebida destilada surgiu na segunda metade do século XVI.
As bebidas destiladas produzidas nas colônias da Espanha em geral era denominadas aguardiente, vindo a ter os nomes atuais somente a partir do século XVII ou posteriormente. Três fatores combinar-se-iam para persuadir os produtores e comerciantes de bebidas bolivianos a intitular o produto: para aqueles que poderiam controlá-lo, o mercado massivo, relevante e gerador de riqueza da vizinha Potosi; a chegada de outras aguardientes do Baixo Peru; e uma marca de confiança — singani — pela qual a sua aguardente de uva pudesse ser comprada e vendida.
As três áreas mais prováveis nas quais o singani começou estendem-se ao longo de um arco que vai de Potosí à estrada real espanhola que ligava Lima a Buenos Aires (parcialmente baseada nas rotas criadas pelo Império Inca). A região de Sivingani na província de Mizque foi uma missão religiosa pioneira e produtora de vinhos na década de 1540. Um assentamento nativo chamado Sivingani, junto ao Rio Uruchini, no município de San Lucas, situado na província de Nor Cinti numa área conhecida como Cintis, que se acredita ter produzido vinho e destilados tão inicialmente quanto a década de 1550. Outra área inclui assentamentos no vale do Rio T'uruchipa, the Vicchoca valley, e Santiago de Cotagaita. Missões agostinianas estavam em atividade nessas regiões por volta de 1550 e estão entre as localidades mais próximas ao centro minerador de Potosí, grande consumidor da singani naquela época.
Após a fundação de Potosí em 1545, os colonizadores espanhóis deslocavam-se à região de Cinti sazonalmente, dados o frio e a turbulência social de Potosí. Isto criou uma conexão inicial entre a região vinífera e a cidade imperial. Subsequentemente, os residentes de Potosi que enriqueceram fundaram vilas nos vales de Cinti. Por volta de 1585 esta área se tornou o maior centro de produção de vinho e singani, com o início os primeiros cultivos e das primeiras empresas não ligadas às missões religiosas. Durante o século XVI, Turuchipa foi listada como produtora de vinhos de baixo teor alcoólico para Potosí, enquanto Cinti produzia vinho e destilados. Naquela época, os domicílios de Potosí em geral tinham oito a dez cântaros de bebidas alcoólicas. Isto, somado às estimativas populacionais que indicavam entre a habitantes, permitem vislumbrar a demanda geral por vinho, chicha, e destilados da região nessa época.
No século XVII a região boliviana de Tarija tornou-se uma das fornecedoras das uvas para a indústria do singani. Por sua vez, já no século XX, Tarija tornou-se a maior produtora de uvas, ao passo que os fabricantes de vinho e singani começaram a estabelecer e a consolidar seus negócios na região. Por exemplo, a empresa Kuhlmann mudou suas operações de Cinti para Tarija em 1973, sendo uma das primeiras a fazê-lo. Os produtores em Tarija modernizaram seus métodos, com a utilização de equipamento europeu e logo ganharam supremacia sobre as demais regiões produtoras. Atualmente, a maior parte da viticultura, da vinicultura e da produção de singani na Bolívia estão concentradas na região de Tarija; não obstante, desde a década de 2000 houve a retomada de interesse pela região de Cinti, na qual pequenos produtores estão revigorando antigas marcas.
Com o tempo, conforme a indústria amadurecia, os maiores produtores de singani fixaram-se em apenas uma variedade de uva para o produto e isto, mais a altitude mínima de produção, foram as primeiras bases para a regulação da produção da bebida.
right|thumb|upright=1.4|Bolívia: regiões produtoras de vinho e singani. Vermelho: as zonas geográficas de domínio do singani; Amarelo: a produção durante o período colonial; Azul: a produção de vinho e singani na atualidade; Verde: a área aproximada dos vinhedos coloniais, correspondendo essencialmente ao flanco oriental da Cordilheira dos Andes.
Considerações legais Diferentemente do pisco, cuja produção estende-se por mais de um país, o singani sempre foi produzido em território boliviano, inexistindo qualquer discussão acerca de sua denominação de origem. Um produto exclusivamente regional por mais quatro séculos, somente nas últimas décadas a Bolívia fez leis para a regulação da bebida e a proteção de interesses. Parte dessa motivação foi o estabelecimento de padrões, de modo que nenhuma bebida ilegalmente produzida fosse chamada de singani. Outro ímpeto foi solidificar o controle do nome singani, os problemas referentes ao pisco e da tequila, que podem ser exportados a granel e engarrafados sob rotulagem estrangeira.
O decreto boliviano 21948, de 1988, declara o singani como produto exclusivo e nativo do país, de modo que esse nome não pode ser modificado para uso ou usado com outro propósito. A lei nacional 1334, de 1992 estabelece a classificação da denominação de origem e a indicação geográfica, listando as regiões de produção. Supreme Decree 24777 (1997) establishes general controls over the DO and prohibited practices. O decreto 25569, de 1999, estabelece o "Certificado de Origem" que acompanha o singani, determinando a altitude mínima de sobre o nível do mar para as bebidas de altitude, dentre elas os vinhos e o singani. Supreme Decree 27113 (2003) describes international enforcement of intellectual property, including the DO and the GI for singani. A norma NB324001 vai além, definindo e controlando o processo de produção do singani, descrevendo as práticas proibidas, reforça a altitude mínima para produção e estabelece os padrões de pureza e rotulagem.
Em função dos tratados internacionais com os Estados Unidos e outros países, bebidas nacionais como o pisco (tratado com o Chile), cachaça (tratado com o Brasil) e a tequila (tratado com o México) estão listadas pelo Departamento de Impostos e Comércio de Álcool e Tabaco sob os próprios títulos de tipo/classe e podem ser comercializados nos EUA com a própria denominação. Não há acordo nesse sentido com a Bolívia e nos EUA o singani deve ser comercializado no país sob a classe TTB mais próxima, que é o brandy. De forma similar às outras nações, entretanto, a Bolívia considera o singani como sendo não apenas a bebida nacional, mas como um produto único e um patrimônio cultural.
A área de produção do singani cobre por volta de de terreno montanhoso, comparados aos destinados à produção do cognac e os acres or so for champagne. A maior parte da produção de singani desde a década de 1980 está concentrada no departamento de Tarija, nas regiões de Arce, Avilés e Méndez.
As agências responsáveis pelo controle e supervisão do processo de produção do singani são: IBNORCA (Instituto Boliviano de Normatização e Qualidade): publica as regulações; SENASAG (Serviço Nacional de Saúde Agropecuária e Inocuidade Alimentar): faz cumprir as regulações; CENAVIT (Centro Nacional Vitivinícola): laboratório nacional, analisa e investiga o produto; FAUTAPO (Fundação FAUTAPO - Educação para o Desenvolvimento): fonte de estudo, educação, promoção e desenvolvimento na produção vitivinicultora na Bolívia.
Zonas geográficas As zonas legalmente definidas para os vinhedos e destilarias que produzem o singani incluem províncias em quatro dos nove departamentos da Bolívia. Nem todo o território dessas províncias é adequado à viticultura. Nas províncias da região de La Paz o terreno é extremamente inclinado e o clima é semitropical. Nas províncias de Potosí, o terreno possui altitude muito grande (por volta de , além de ser frio, ventoso e árido. Estas condições limitam o cultivo a pequenos municípios em algumas dessas regiões.
As zonas de produção do singani com denominação de origem são: La Paz: províncias de Loayza e Pedro Domingo Murillo; municípios de Luribay e Sapahaqui. Chuquisaca: províncias de Nor Cinti e Sud Cinti. Tarija: províncias de José María Avilés, Eustaquio Méndez e Aniceto Arce. Potosí: