A Declaração conjunta do Papa Francisco e do Patriarca Cirilo teve lugar no dia 12 de fevereiro de 2016 durante o encontro entre o papa Francisco, líder da Igreja Católica Apostólica Romana; e Cirilo, Patriarca de Moscovo e de toda a Rússia, o primado da Igreja Ortodoxa Russa. Foi a primeira vez que um papa e um patriarca moscovita encontraram-se. Nas notícias o encontro foi concebido como um evento simbólico no processo do estreitamento de relações entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa, que se separaram durante o Grande Cisma de 1054.
O encontro e a declaração de trinta pontos foram cobertos pelos media, especialmente na Rússia, realçando a chamada conjunta dos dois líderes para o fim da perseguição dos cristãos no Oriente Próximo e as guerras na região. A declaração também expressou a esperança dos signatários de que esse ato ajudasse a contribuir no re-establecimento da união da Cristandade e das duas igrejas. Também outros assuntos foram mencionados na declaração, incluindo o ateísmo, o secularismo, o consumismo, os refugiados, o aborto, a eutanásia e a importância da família e do matrimónio. O documento não resolveu nenhuma das diferenças doutrinais e eclesiásticas persistentes entre as duas igrejas, mas contém um compromisso na união na linha da Declaração de Balamand mas também sobre o conflito na Ucrânia. A Igreja Greco-Católica ucraniana e outras na Ucrânia criticaram-na posteriormente.
Contexto histórico
O Grande Cisma de 1054 deixou dividido o mundo cristão entre o leste grego e o oeste latino. Foram feitas tentativas nos séculos seguintes para dar fim à divisão, tais como o Segundo Concílio de Lyon em 1274 e o Concílio de Florença de 1439, mas ambos fracassaram. Tentativas mais recentes para aproximar as igrejas incluíram a Declaração Conjunta Católica-Ortodoxa de 1965, após o encontro de 1964 entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Ecuménico Atenágoras I de Constantinopla, em Jerusalém. Depois desse encontro e dessa declaração, vários encontros, visitas e eventos simbólicos ocorreram envolvendo líderes católicos e ortodoxos (incluindo as visitas do Papa João Paulo II, e Bartolomeu I de Constantinopla), mas jamais um encontro entre um Papa e um líder da Igreja Ortodoxa russa. A primeira vez que um Papa visitou um país de maioria ortodoxa de leste foi em 1999 quando João Paulo II visitou a Roménia.
Dentro da comunhão das igrejas locais (nacionais) autocéfalas (administrativamente independentes) da Ortodoxia, o Patriarca Ecuménico de Constantinopla — estabelecido no que hoje é Istambul, na Turquia — é reconhecido como o bispo que desfruta do estatuto de primus inter pares, embora não tenha poderes administrativos diretos sobre as outras igrejas ortodoxas. A Igreja Ortodoxa Russa (Patriarcado de Moscovo), que se tornou autocéfala perto do final do século XVI, é considerada a maior denominação entre as igrejas ortodoxas locais; ela tem laços estreitos com o estado russo, atribuindo assim um significado geopolítico ao encontro do seu Patriarca com o Papa. A natureza descentralizada da Ortodoxia significa que tal encontro pode não ter influência direta nos assuntos da ortodoxia em geral. Duas semanas antes, os líderes das igrejas ortodoxas, incluindo Cirilo, encontraram-se em Chambésy na Suíça, para combinar os preparativos finais para o Grande e Santo Concílio da Igreja Ortodoxa, programado para junho de 2016.
thumb|esquerda|Francisco e Bartolomeu na Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém em 2014
Tinham tido lugar tentativas para realizar o encontro entre o Papa e o Patriarca russo, mas não tiveram sucesso. Desde a queda do comunismo as tensões entre as igrejas aumentaram porque começaram "a mexer as peças". Houve negociações nos anos 90 para um possível encontro entre o Patriarca Aleixo II de Moscovo e o Papa João Paulo II. De acordo com o Bureau of Democracy, Human Rights, and Labor, as duas igrejas estabeleceram um grupo de trabalho conjunto, que reuniu-se em maio e setembro de 2004 para discutir temas específicos. Os representantes de ambas as igrejas disseram que o grupo de trabalho contribuiu para uma melhor atmosfera. Num gesto de reconciliação em agosto de 2004, João Paulo II presenteou uma cópia do do ícone da Nossa Senhora de Cazã a Aleixo II. Em Maio, o naquela altura metropolita Cirilo encontrou-se com o Papa Bento XVI no Vaticano e eles decidiram comprometer-se intensivamente a trabalhar de forma cooperativa. A possibilidade do encontro entre Cirilo (eleito Patriarca em 2009) com Bento XVI foi explorada antes da abdicação de Bento em março de 2013, e Bento XVI conheceu o futuro Patriarca Cirilo em Roma em 2006 quando Cirilo era o Porta-voz do Departamento das Relações Externas da Igreja pelo Patriarcado de Moscovo.
Encontro thumb|Sala VIP no Aeroporto da Havana Foram precisos anos de planificação secreta e meses de negociações detalhadas para tornar realidade um encontro entre o Papa e o Patriarca russo. O Papa estava à espera para ter o encontro com o Patriarca, tendo dito em novembro de 2014: "Eu irei onde você quiser. Você chama-me e eu irei lá". O acordo do lado russo ortodoxo foi mais complicado porque essa igreja mantém laços estreitos com o governo russo.
O anúncio prévio do encontro emitido pelo Patriarcado de Moscovo afirmou que eles concordaram em "deixar de lado as diferenças internas" para focar-se no facto dos cristãos estarem a ser perseguidos. Cuba, um local significativo para ambos os lados, forneceu os requisitos para um local de encontro neutro, já que nem Roma nem Moscovo seriam adequados. O encontro foi possível graças à sincronização das visitas dos dois líderes na região, sendo anunciada uma semana antes, no dia 5 de fevereiro de 2016.
O encontro decorreu o 12 de fevereiro de 2016 numa sala VIP no Aeroporto Internacional José Martí em Havana, Cuba. O Papa chegou às 14 horas (hora local), e os dois líderes abraçaram-se e beijaram-se. Um encontro de duas horas foi sucedido pela assinatura da declaração conjunta, a qual foi preparada antecipadamente. O Patriarca Cirilo esteve em Havana numa vista oficial como parte de uma visita à região, tendo feito visitas ao Brasil e ao Paraguai. O Papa Francisco chegou ao aeroporto por avião no caminho de volta da sua visita ao México.
Assistiram à ocasião representantes cubanos tais como o presidente Raúl Castro, o cardeal Jaime Lucas Ortega y Alamino (arcebispo da Arquidiocese de São Cristóvão da Havana) e o arcebispo Dionisio Garcia Ibanez (da Arquidiocese de Santigo de Cuba). O encontro decorreu numa sala privada e estiveram lá tradutores e os acompanhantes dos dois líderes — também estiveram o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e o teólogo russo Hilarion Alfeyev, porta-voz do Departamento de Relações Externas pelo Patriarcado moscovita da Igreja Ortodoxa russa.
No final do encontro houve uma troca de presentes. O Papa Francisco deu ao Patriarca um cálice e também uma relíquia do de Santo Cirilo (enterrado em Roma). O Patriarca Cirilo deu ao Papa uma cópia do ícone da Virgem de Cazã. Outros presentes trocados foram uma tradução castelhana do livro do Patriarca Cirilo Liberdade e Responsabilidade (2011) e uma tradução russa da encíclica do Papa Francisco Laudato si' (2015).
Declaração conjunta A declaração conjunta foi publicada pelo Vaticano em italiano, russo, inglês, alemão, francês, castelhano, português e árabe. A Igreja Ortodoxa russa publicou-a em russo, inglês, italiano, francês, castelhano e ucraniano. Está constituída por trinta seções numeradas por tópicos.
A primeira seção da declaração agradece por este encontro, "o primeiro da história", e se refere aos líderes como "irmãos na fé cristã". As seções 2 e 3 referem-se ao ponto de encontro em Cuba como "a encruzilhada do Norte e do Sul, do Leste e do Oeste", e expressam alegria pelo crescimento do cristianismo na América Latina. As seções 4 a 6 falam sobre as suas visões acerca da sua tradição espiritual comum ("o primeiro milénio do cristianismo") e os seus desejos de que o seu encontro "possa contribuir para o restabelecimento desta unidade querida por Deus".
As seções 7 a 21 tratam dos "desafios do mundo contemporâneo". Além disso também incluem a perseguição aos cristãos no Oriente Próximo e no Norte de África; o impacto da guerra civil, o caos e a violência terrorista; o êxodo dos cristãos da Síria e do Iraque; e o sofrimento experimentado pela radicalização de outras tradições religiosas. A declaração prega a renovação da fé cristã na Rússia e na Europa de Leste e a quebra das "cadeias do ateísmo militante", a ascensão do secularismo, o consumismo, a desigualdade, os imigrantes e dos refugiados e o lugar do cristianismo no processo europeu de integração. Outras seções mais deram ênfase à importância da família, do matrimónio, no concerne ao aborto, à eutanásia e às "tecnologias reprodutivas biomédicas".
As consequências do cisma na comunidade ortodoxa na Ucrânia, o conflito entre os católicos ucranianos e os ortodoxos, a situação política na Ucrânia foram tratados nas seções 25 a 27.
As seções finais convidam os católicos e os ortodoxos a "colaborar fraternalmente no anúncio da Boa Nova da salvação" e a dar "testemunho do Espírito de verdade nestes tempos difíceis".
A declaração termina com uma oração a Maria, a qual foi invocada pelos nomes de "bem-aventurada Virgem Maria" e também como "Santa Mãe de Deus".
Comentários e reações O encontro foi caracterizado pelos comentadores dos média — que em grande parte desconheciam os factos fundamentais sobre a história do cristianismo na Rússia e tendiam para o sensacionalismo — como sendo "histórico", "fortemente simbólico" e como o "encontro do milénio". Alguns deles também acharam que o encontro tinha uma dimensão geopolítica, sendo sobre rivalidades entre os líderes ortodoxos, tensões de longa data com a ortodoxia ucraniana, e sobre o presidente russo Vladimir Putin a reafirmar a influência da Rússia no mundo, motivado pelas suas ações na Síria e na Ucrânia. Por isso, não se esperava que o encontro "levasse a qualquer reaproximação imediata entre as igrejas do oriente e do ocidente".
Cirilo é criticado pelas suas políticas que levaram a Igreja Ortodoxa russa a estar mais próxima do governo russo. Nas eleições presidenciais russas de 2012 ele apoiou Vladimir Putin, dizendo que a presidência de Putin é "um milagre de Deus". Yury Avvakumov, professor assistente de teologia na Universidade de Notre Dame, descreveu o Patriarcado de Moscovo como um "instrumento da política internacional russa [e] um efetivo transmissor mundial dos interesses políticos dos governantes russos pelo mundo". A visão de que o encontro foi motivado por políticas internas ortodoxas foi partilhada também por George Demacopoulos, presidente greco-ortodoxo de estudos cristãos ortodoxos na Universidade de Fordham de Nova Iorque: "Isto não é benevolência. Isto não é um passo para a unidade cristã […] isto é na maioria (Cirilo) a tentar apresentar-se a si próprio como o líder da ortodoxia".
Pontos de vista similares foram expressados por Borys Gudziak (eparca católico ucraniano de Paris), o qual afirmou que "os dois protagonistas deste drama entram em cena trazendo consigo legados distintos. Francisco é o líder de um milhar de milhões de católicos e é a única autoridade moral respeitada no mundo. Cirilo é a cabeça da Igreja Ortodoxa russa, a qual ainda está a recuperar-se de um século de perseguição e ainda está a cuidar pela sua voz moral na sociedade russa pós-soviética". Gudziak também realçou as tensões internas na ortodoxia, e que uma Igreja Ortodoxa ucraniana iria gradualmente reduzir o poder da Igreja Ortodoxa russa. Ele apontou as tensões que ameaçam a realização do concílio pan-ortodoxo em junho, o primeiro a ser realizado em séculos. Além disto, o Patriarca Cirilo deve fazer frente às oposições dos grupos conservadores na Igreja Ortodoxa russa opostos a ter relações estreitas com a Igreja Católica Romana.