miniaturadaimagem|Interior de uma Igreja Congregacional de 1729 em Boston, Massachusetts. O estilo simples reflete os valores calvinistas dos puritanos.

O nome congregacionalismo é o regime de governo eclesiástico conhecido onde cada congregação local é autônoma e independente. A igreja local possui autonomia para sua própria reflexão teológica, expansão missionária, relação com outras congregações e seleção de seu ministério. Congregacionalismo também pode se referir a uma denominação própria, formada por igrejas enraizados no puritanismo inglês e no Calvinismo, distinguindo-se de outras tradições reformadas, como as igrejas presbiterianas e as Reformadas continentais, que adotam um sistema de governo representativo baseado em concílios e sínodos com autoridade sobre as igrejas locais.

Cada congregação de fiéis, unida pela adoração, observação dos sacramentos e disciplina cristã, é uma Igreja completa, não subordinada em sua administração a qualquer outra autoridade eclesiástica senão a de sua própria assembleia, que é a autoridade decisória final do governo de cada igreja local. Não existe nenhuma outra organização ou entidade maior ou mais extensa do que uma Igreja local a quem pode ser dada prerrogativas eclesiásticas ou ser chamada de Igreja. As igrejas locais estão em comunhão umas com as outras, são interdependentes e estão intercomprometidas no cumprimento de todos os deveres resultantes dessa comunhão. Por isso, se organizam em concílios, sínodos ou associações. Entretanto, essas organizações não são Igrejas, mas são formadas por elas e estão a serviço delas. O congregacionalismo é o regime de governo mais comum em denominações como anabatistas, Igreja Batista, Discípulos de Cristo, Igreja de Cristo no Brasil e obviamente a própria denominação que deu nome ao termo: a Igreja Congregacional.

O Congrecionalismo surge durante a Reforma Inglesa dentro do movimento Puritano, que visava "purificar" a Igreja da Inglaterra de elementos do Catolicismo Romano, uma delas sendo o governo eclesiástico Episcopal que governava a Igreja Anglicana — onde a Igreja é liderada por Bispos que são sujeitos ao Rei da Inglaterra, com parte também rejeitando governo presbiteriano usado na Igreja da Escócia. Uma ala conhecida como os Não conformistas ou Separatistas iam além, sendo contra a própria ideia de uma Igreja estatal e que cada congregação local é autônoma e independente, compartilhando apenas da mesma doutrina. O Congrecionalismo floresceu durante O Protetorado de Oliver Cromwell (1653-1659) mas a Restauração da Monarquia em 1660 resultou na expulsão da maioria do clero puritano-congregacional. Muitos fugiram para a América do Norte, especialmente para a Nova Inglaterra, onde estabeleceram comunidades baseadas nesses princípios. Nos Estados Unidos, o congregacionalismo tornou-se uma das tradições religiosas predominantes no período colonial, influenciando a organização das igrejas locais, a vida comunitária e instituições educacionais (universidades como Harvard, Yale e Dartmouth eram Congregacionais), mantendo como característica central a autonomia de cada congregação. Além disso, diversos novos movimentos religiosos, especialmente surgidos nos Estados Unidos, adotaram essa forma de governo eclesiástico, como os Batistas, que preservam o princípio da autonomia congregacional.

Congregacionalismo na Inglaterra

Puritanos conformistas e dissidentes As origens do congregacionalismo estão no movimento puritano conformista e dissidente.

As reformas introduzidas na Igreja Anglicana a partir do reinado de Henrique VIII eram consideradas por muitos como insuficientes e em certos setores havia um claro sentimento de insatisfação e inconformismo e um desejo que a Igreja experimentasse uma reforma mais profunda, se tornar-se mais pura em sua vida, doutrina, governo e liturgia. Foram nessas circunstâncias que surgiram os puritanos, que queriam reformar a Igreja da Inglaterra, tornando-a mais pura, sem contudo deixá-la. Diferentemente dos puritanos conformistas, alguns grupos puritanos chamados de dissidentes começaram a formar organizações separadas da Igreja da Inglaterra.

As primeiras manifestações históricas de comunidades organizadas sob o regime de governo congregacional surgem entre os dissidentes. Em 1561, apareceu uma confissão de fé com uma Exortação à Reforma da Igreja, defendendo que no governo que Jesus Cristo estabeleceu, com pastores, superintendes e diáconos, todos os verdadeiros pastores têm igual poder e autoridade, e por isso nenhuma igreja deve exercer qualquer autoridade ou governo sobre outras, e ninguém deveria exercer autoridade na Igreja se isso não lhe fosse conferido por meio de eleição. Richard Fytz é considerado o primeiro pastor de uma igreja desse tipo, entre os anos de 1567 e 1568, na cidade de Londres. Por volta de 1570 ele publicou um manifesto intitulado "As Verdadeiras Marcas da Igreja de Cristo".

Em 1580, Robert Browne, um clérigo anglicano que tornou-se um puritano dissidente, junto com o leigo Robert Harrison organizaram em Norwich uma congregação cujo sistema era congregacionalista. Browne é tido como o primeiro teórico do congregacionalismo.

Alguns dissidentes que se destacam no período foram Henry Barrowe, John Greenwood e John Penry. Um marco importante no período foi a formação da Igreja de Scrooby, uma vila próximo à Londres. A igreja localizava-se na propriedade de William Brewster, após os líderes terem sido excomungados pela Corte de Alta Comissão Eclesiástica. Devido à perseguição, exilaram-se, assim como muitos outros puritanos, para os Países Baixos, e estabeleceram-se na cidade de Leyden, e escolheram John Robinson como seu ministro. Foi dessa congregação que partiram os Pais Peregrinos, que iniciaram a colonização da Nova Inglaterra.

Dentro do movimento puritano, os que defendiam o princípio da autonomia e independência das igrejas locais eram chamados de "independentes" (mais tarde, "congregacionais"). Henry Jacob é um dos primeiros puritanos independentes de que se há notícia. No ano de 1616, após retornar dos Países Baixos, fundou uma congregação em Southwark.

No ano de 1658, os puritanos independentes ingleses, inspirados na Confissão de Fé de Westminster, produziram a Declaração de Savoy sobre Fé e Ordem. Declaração afirmava os princípios congregacionais de autonomia da Igreja local bem como a necessidade de relações fraternas entre essas igrejas locais. Vemos isso em trechos como os abaixo:

Após o Ato de Uniformidade de 1662, que obrigava o uso de Livro de Oração Comum e exigia a ordenação episcopal dos clérigos, cerca de ministros puritanos, presbiterianos, congregacionais e batistas, se viram forçados a deixar a Igreja da Inglaterra. A partir de então os puritanos independentes formaram várias igrejas chamadas congregacionais.

A União Congregacional da Inglaterra e do País de Gales miniaturadaimagem|Albion Church em Manchester, exemplo de Igreja Congregacional na Inglaterra Durante o século XIX, discutiu-se a formação de uma associação entre as igrejas congregacionais a fim de promover cooperação em áreas como a evangelização. Por isso, em 1831 foi formada a União Congregacional da Inglaterra e País de Gales. Com o passar do tempo, a estrutura da União Congregacional foi se tornando mais centralizadora, até que em 1967 foi formada a Igreja Congregacional da Inglaterra e do País de Gales, expressão que foi considerada por muitos como uma verdadeira contradição dos princípios congregacionalistas, pois, no congregacionalismo não há uma Igreja nacional, mas a igreja local é a uma igreja plena, independente de todas as outras igrejas, no seu trabalho e administração.

Algumas igrejas locais, não concordando com essa suposta distorção do congregacionalismo, formaram a Fraternidade Evangélica de Igrejas Congregacionais (Evangelical Fellowship of Congregational Churches - EFCC, em inglês), que reúne atualmente cerca de 125 igrejas no Reino Unido.

A formação da Igreja Reformada Unida A Igreja Congregacional da Inglaterra e País de Gales manteve conversações com a Igreja Presbiteriana, até que em 1972 essas duas denominações se fundiram e formaram a Igreja Reformada Unida da Inglaterra. No mesmo ano foi formado o órgão chamado Federação Congregacional (Congregational Federation - CF, em inglês), reunindo igrejas locais que não aderiram à fusão com a Igreja Presbiteriana. Hoje, a CF conta com cerca de 312 igrejas no Reino Unido.

Atualmente, além da EFCC e da CF há várias igrejas congregacionais que não estão filiadas a nenhum órgão associativo.

Congregacionalismo nos Estados Unidos

miniaturadaimagem|Pilgrims Going to Church (Peregrinos indo a Igreja) de George Henry Boughton, 1867, mostrando puritanos no começo do período colonial americano A história do congregacionalismo norte-americano começou no ano de 1620, com a chegada à Baía de Massachussets dos 102 colonos que partiram da Inglaterra embarcados no navio Mayflower e fundaram a colônia de Plymouth. Dos 102 passageiros do navio, 35 eram membros da Igreja de exilados de Leyden (Holanda), pastoreada por John Robinson. Eles fundaram a primeira igreja do tipo congregacionalista na América.

Pouco tempo depois dos peregrinos do Mayflower chegarem ao Novo Mundo, a situação na Inglaterra piorou. Charles I assumiu o trono e o novo arcebispo era William Laud. A perseguição contra os puritanos na Inglaterra aumentou e, por volta de 1640, aproximadamente 20 mil puritanos haviam partido para a América, por causa da liberdade religiosa. Na Inglaterra, eles eram uma parte da Igreja da Inglaterra, mas no Novo Mundo eles estabeleceram congregações independentes, sob a forma de governo congregacionalista.

O congregacionalismo na América cresceu em sua influência. As primeiras universidades dos Estados Unidos, como Harvard e Yale, foram estabelecidas para treinar pastores Congregacionais. Dartmouth foi estabelecida para treinar missionários Congregacionais, a fim de que pudessem evangelizar os índios. miniaturadaimagem|Interior da Igreja Old Ship, Hingham, Massachusetts construída em 1681 Por volta de 1734, houve um avivamento na região da Nova Inglaterra liderado por Jonathan Edwards, pastor de uma igreja Congregacional em Northampton. Esse avivamento, que ficou conhecido como Primeiro Grande Despertamento, se espalhou por toda a região, mas também levantou a resistência de alguns opositores. miniaturadaimagem|Exterior da Igreja Old Ship, Hingham, Massachusetts construída em 1681 Como não havia instituições superiores que assegurassem uma uniformidade doutrinária entre as congregações, as igrejas congregacionais se tornaram diversificadas do que outras igrejas reformadas. Nos séculos XVIII e XIX, muitos pastores e igrejas congregacionais tornaram-se unitarianos, negando a doutrina da Trindade. O unitarianismo, que fora intorduzido em Boston por volta de 1776, em 1815 já havia sido adotado por 12 das 14 igrejas congregacionais da cidade. O mesmo aconteceu com o resto de Massachussets, onde 96 igrejas se passaram para o novo credo e muitas outras, diminuídas de seus membros, tiveram que reiniciar suas atividades com os poucos que restaram. As igrejas foram divididas em evangélicas (ou conservadora) e liberais. As igrejas mais liberais mudaram-se rapidamente para o unitarianismo.