O cingalêsDicionário AurélioDicionário Houaiss (සිංහල, transl. siṃhalaAlmanaque Abril), também conhecido como sinhala ou singhala, é a língua oficial do Sri Lanka (antigo Ceilão). É a língua budista falada pelo grupo étnico majoritário do país, os cingaleses, e por minorias desse grupo em outros países, como a Índia e a Austrália. Pertence ao ramo das línguas indo-arianas e tem uma forte relação com o divehi, falado nas ilhas Maldivas. O cingalês é falado por cerca de 18 milhões de pessoas, estando 16 milhões concentrados no Sri Lanka e o restante espalhado em diásporas em outros países. Atualmente se encontra em estado potencialmente vulnerável de acordo com a UNESCO.
O idioma cingalês é regulamentado pela organização literária cingalesa, . A documentação dessa língua (e, consequentemente, de sua forma ancestral) é registrada a partir do século III a.C., época na qual se encontraram manuscritos similares aos do já extinto prácrito magadi.
Etimologia miniaturadaimagem|upright=1|Mural nº 17 das Grutas de Ajanta, representando a chegada do príncipe Vijaya, filho de Sīhabāhu, e seus seguidores ao Sri Lanka.
O primeiro elemento do nome do idioma (සිංහ siṁha ou sīha) em cingalês (originalmente, सिंहः em sânscrito) e o termo correspondente em prácrito ou , "sīhala", significa "leão". Segundo a crônica Mahavamsa, Sīhabāhu ("braço do leão") era filho da princesa de e de um leão. Depois de matar seu pai, ele se tornou rei de Vanga. Seu filho Vijaya, após ser banido do reino, migrou para Lanka e se tornou o progenitor dos cingaleses. Com base nesta evidência linguística e mitológica, somada à crença de que a ilha de Sri Lanka tinha uma abundância de leões no passado, pode-se supor que a primeira parte da palavra significa "leão". A tradição local associa o segundo elemento la ou com a raiz sânscrita lā- "agarrar" (traduzindo o nome como "apanhador de leão" ou "matador de leão") ou com o sânscrito loha, cingalês lē "sangue" (traduzindo como "sangue de leão"). Do ponto de vista linguístico, porém, nenhuma das interpretações é definitiva. A única certeza é que o nome "Sinhala" está relacionado com a palavra "leão".
Distribuição esquerda|miniaturadaimagem|Relação do povo cingalês com outros grupos étnicos O cingalês tem uma forte relação com outras línguas indo-arianas, como o Hindi, o Bengali e o Sânscrito. É considerado uma língua budista em virtude da predominância da religião entre seus falantes, tendo sido um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento da escola budista Teravada.Bandaranayake, S.D. Sinhalese Monastic Architecture: The Viháras of Anurádhapura, p. 25. Existe também uma língua diretamente relacionada ao cingalês: a , falada por cerca de 300 pessoas na província de Uva (porém, ainda há debates sobre a classificação do idioma como um dialeto do cingalês ou uma língua crioula independente).
A principal região onde a língua é falada é o país insular de Sri Lanka, onde se concentram mais de 80% dos seus falantes. Além do cingalês "tradicional" (tomado como base no aprendizado na língua e falado na capital do país, Colombo), a língua cingalesa possui algumas variações, ou dialetos, a depender da região da ilha de Sri Lanka: Dialeto Uva, da província de Uva (cidades como Monaragala e Badulla). Uma de suas peculiaridades é a diferença na partícula que indica plural; enquanto nos demais dialetos o plural é indicado por uma troca ou cancelamento de uma vogal, neste dialeto a indicação é através da nasal ṃ ao final da palavra; Dialeto das províncias do sul (cidades como Matara e Galle); Dialeto do interior, ou "up-country variation", em inglês (cidades como Kandy e Matale); Dialeto de Sabaragamu (cidades como Kegalle e Balangoda).miniaturadaimagem|Porto de Colombo, capital do Sri Lanka, em 1992. +Quadro comparativo entre dialetos do cingalêsDialetoExemplo de pronúncia (transl.)Tradução"Tradicional"ayiye heṭa vapuranna enavada?Irmão (mais velho), você vem semear amanhã?Interiorayiyā heṭa vapuranṭa enavada?Sabaragamuayiye heṭa vapuranḍa enavada?Províncias do sulayiye heṭa vapuranna enavai? miniaturadaimagem|Distribuição de falantes do cingalês no Sri Lanka.|520x520px O cingalês também tem minorias (cerca de 2 milhões de falantes) espalhadas por outros países, em especial em países próximos e no Oriente Médio. +Minorias reconhecidas de falantes do cingalês por país ou regiãoPaísFalantesCensoAlemanha258002020Austrália646002016Canadá163002016Catar570002019Chipre71602013Dinamarca70002020Estados Unidos267002015Emirados Árabes Unidos1290002020Líbia164002020Malásia44002021Maldivas25002017Noruega158002021Nova Zelândia52202013Omã357002020Reino Unido147002011Singapura160002018Suécia12502020Tailândia (Bangkok)720002019 Além dessa separação, assim como em outras línguas do sudeste asiático, ocorre o fenômeno da diglossia: há uma diferença fundamental entre o cingalês falado e o cingalês literário. Este é considerado mais culto, geralmente sendo usado por pessoas de castas mais altas e em textos formais, como jornais e documentos oficiais.
História De acordo com o Mahavamsa, crônica épica cingalesa escrita em Páli, o então príncipe Vijaya migrou para a ilha após o banimento do reino de Vanga. Isso desencadeou uma migração em massa para a ilha, principalmente do leste da Índia, o que gerou um choque linguístico e cultural entre os diversos povos que passaram a habitar a região. miniaturadaimagem|309x309px|Império Pandya (1251-1283), região de onde fluiu a maior parte da migração para o atual Sri Lanka O desenvolvimento (documentado) da língua se deu em quatro momentos na história:
Cingala-Prácrito (séc. III a.C. - séc. IV); Proto-Cingalês (séc. IV - séc. VIII); Cingalês Medieval (séc. VIII - séc. XIII); Cingalês Moderno (séc. XIII - presente).
Influência de outras línguas Além das palavras emprestadas do tâmil e de outras línguas dravídicas, o cingalês é caracterizado por uma forte influência das línguas europeias, em especial o inglês, o neerlandês e o português. Isso se deve ao forte processo de colonização que ocorreu na ilha a partir do século XVI. +Exemplos de palavras originadas em outras línguasCingalêsTranscriçãoOriginalSignificadoදියමන්තියdiyamantiyadiamante (português)diamanteඉස්තිරික්කයistirikkayastrijkijzer (neerlandês)ferroබයිබලයbayibalayaBible (inglês)Bíblia esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Macau, região administrativa especial da China onde é falado o Patuá macaense.
Línguas influenciadas Além da influência substancial na língua Vedda, atrelada ao cingalês desde a sua origem, o cingalês é uma das línguas que influenciou o Patuá macaense, junto ao português, o cantonês e o malaio. Atualmente, a língua crioula se encontra em risco crítico de extinção de acordo com a UNESCO, com sua fala restrita a algumas famílias da região de Macau (as quais somavam cerca de 50 indivíduos em 2000).
A ilha de Sri Lanka é a região onde o cingalês exerce mais influência, tanto cultural quanto economicamente. Isso se espelha nas demais línguas faladas na ilha, como o Vedda, o inglês e o português. Há registro de uma população de aproximadamente 30 indivíduos que falam uma língua crioula de cingalês e português, o indo-português. Esta língua, utilizada originalmente para fins comerciais, também se encontra em estado crítico e está ameaçada de extinção de acordo com a UNESCO.
Fonologia thumb|upright=1.13| Tabela de vogais cingalesas, de
Consoantes O cingalês tem as chamadas , ou consoantes 'meio nasais'. Uma curta homorgânica nasal ocorre antes de uma consoante oclusiva, sendo mais curta do que uma sequência de consoante nasal mais consoante oclusiva. A nasal é silabada com o início da sílaba seguinte, o que significa que o peso moraico (que influência a tonicidade) da sílaba anterior permanece inalterado. Por exemplo, tam̆ba 'cobre' contrasta com tamba 'ferver'. A língua também conta com um conjunto de consoantes aspiradas, ou seja, com uma leve liberação de ar após a articulação da consoante. Embora essas consoantes sejam frequentemente substituídas pelas respectivas versões não aspiradas no cingalês falado, ainda há um conjunto de grafemas consonantais específico para esses fonemas (miśra). Labial Dental/Alveolar Retroflexa Palatal Velar Glotal Nasal Oclusiva/africada surda sonora aspirada surdapʰtʰʈʰkʰaspirada sonorabɦdɦɖɦgɦ Fricativa (~) () Vibrante Aproximante l /f~ɸ/ e /ʃ/ são restritos a empréstimos, normalmente do inglês ou do sânscrito. Eles são comumente substituídos por /p/ e /s/ respectivamente no discurso coloquial. Alguns falantes usam a surda labiodental fricativa [f], como o "f" do português, e alguns usam a surda bilabial fricativa [ɸ] devido à sua semelhança com a nativa surda bilabial oclusiva /p/.
Vogais Anterior Central Poserior curta longa curta longa curta longa Fechadai u Média () Aberta As vogais do cingalês são dispostas em duplas, com cada vogal tendo uma versão longa e uma versão curta. Uma exceção é o e o , que são alófonos. Neste caso, o /əː/ ("schwa" longo) é restrito a palavras emprestadas do inglês.
Sílabas A estrutura silábica do cingalês é relativamente simples, em especial para o conjunto de palavras naturais do cingalês (නිෂ්පන්න niṣpanna). O caso mais frequente é CV (consoante-vogal); contudo, os casos V, VC e CVC também são possíveis—ou seja, o padrão é (C)V(C), para a maioria das palavras no léxico cingalês.
Prosódia A prosódia na língua cingalesa aborda três temas: sílaba tônica, tons e ritmo de fala. miniaturadaimagem|440x440px|Idakka, um Instrumento musical popular na região do sul da Índia e Ceilão.
Sílaba tônica O padrão de tonicidade é relativamente simples, atendendo a um ou a dois critérios:
No cingalês moderno, é a primeira sílaba que recebe o acento tônico. Por exemplo,
/'kə.rə.nə.va/ "fazer"; /'am.ma/ "mãe"; /'po.tak/ "um livro".
É comum que haja mais de um acento tônico em uma palavra, principalmente com a ocorrência de uma vogal longa. Nesse caso, a vogal longa também recebe acento tônico. Por exemplo,
/'haː.mu.du.ru.'voː/ "monge"; /'maː.li.'gaː.və/ "castelo".
Tons Os tons de fala do cingalês carregam um peso semântico, podendo indicar diferenças de significado e identificar algumas classes de palavras (em especial, os verbos).
A diferença entre particípio finito e não finito se dá através do tom:
/amma gedərə ævilla/ "a mãe chegou em casa". O particípio finito, que caracteriza um verbo cuja ação tem um fim bem definido (no caso, "chegar"), é marcado pelo tom descendente. /amma gedərə ævilla nidaː gatta/ "a mãe chegou em casa e dormiu". O particípio infinito, que caracteriza um verbo sem fim definido (no caso, "dormir"), é marcado pelo tom constante.
A distinção dos verbos no imperativo e no infinitivo (remetendo, respectivamente, ao finito e ao infinito), também é aparente nos tons:
/amma gedərə enḍə/ "mãe, venha para casa" é uma frase falada com um tom descendente, graças verbo "venha" no modo imperativo; /amma gedərə enḍə hadənəva/ "a mãe tenta vir para casa" tem tom constante, pois "tenta vir" é uma locução verbal no modo infinitivo.
Ritmo de fala O ritmo de fala, neste caso, trata da variação de tons ao longo de uma frase inteira, e não apenas de palavras específicas. Nesta categoria, tons diferentes podem indicar conotações diferentes.
Tom descendente: Assim como nos casos anteriores, uma frase que começa com um tom mais alto e termina com um tom grave expressa sentido de finalidade, como em /amma pansal gihilla/ "a mãe foi para o templo";
Tom constante: Também seguindo o mesmo padrão dos exemplos anteriores, a manutenção do tom em uma frase indica que as ações contidas na frase não têm fim definido, como em /amma pansal gihilla baːvənaː kərənəva/ "a mãe foi para o templo e está meditando";