Rainha do grito (em inglês scream queen) é uma atriz que se tornou associada ao cinema de terror por interpretar uma personagem feminina importante que fica amedrontada ou é atacada. São artistas que destacaram-se no gênero por aparecerem como protagonistas de produções notáveis ou por desempenharem papéis recorrentes. Jamie Lee Curtis é apontada como uma das mais proeminentes rainhas do grito por sua atuação em vários filmes da franquia Halloween. Outros exemplos notáveis incluem Barbara Steele, Sandra Peabody, Linda Blair, Olivia Hussey, Marilyn Burns, Daria Nicolodi, Dee Wallace, Heather Langenkamp e Linnea Quigley. Mais recentemente, o termo rei do grito (scream king) passou a ser usado para se denominar o equivalente masculino.

Definição O termo scream queen, um jogo de palavras com a expressão screen queen (rainha da tela), refere-se tradicionalmente à protagonista de um filme de terror. As rainhas do grito costumam ter suas imagens destacadas em materiais de divulgação e têm bastante tempo de tela nos filmes. Quando não são as protagonistas, interpretam papéis centrais e, às vezes, até vilãs. A expressão é usada para se referir mais especificamente a "jovens e atraentes donzelas em perigo", personagens que costumam aparecer em várias produções do gênero. Lloyd Kaufman, cofundador da Troma Entertainment, observou que ser uma rainha do grito é "mais do que só chorar e ter ketchup jogado em você. Não basta apenas ser atraente, você também precisa ter um grande cérebro. Você tem que ter medo, você tem que ser triste, você tem que ser romântica".

Debbie Rochom, muitas vezes descrita como rainha do grito, escreveu num artigo publicado na GC Magazine que "uma verdadeira rainha do grito não é a mulher perfeita. Ela é sexy, sedutora e, o mais importante, 'atingível' para o indivíduo médio. Ou pelo menos assim parece". Embora as primeiras rainhas do grito representassem uma mulher que "só precisava ser bonita e gritar muito até que o herói do filme fosse salvá-la", as representantes posteriores mostravam-se como "mulheres preocupadas com algo diferente de um cara... a menos que esse cara esteja tentando matá-las", com algumas delas "fazendo vingança" ao derrotar o vilão. Essa mudança se relaciona ao surgimento, na década de 1970, do conceito de final girl, que é a ideia de que a personagem principal de um filme de terror poderia agir para a salvar a si mesma e aos outros do mal.

História Primórdios miniatura|150px|As primeiras rainhas do grito costumavam interpretar jovens belas e indefesas como, por exemplo, a personagem de Janet Leigh no filme Psycho (1960). O destaque de mulheres em filmes de terror remonta à era do cinema mudo, com obras como Das Cabinet des Dr. Caligari (1920) e Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens (1922). Nessas produções observa-se o estereótipo da protagonista que grita e desmaia diante do horror, rendendo-se ao vilão. George Feltenstein, historiador de cinema e vice-presidente sênior de marketing do catálogo cinematográfico da Warner Home Video, afirmou: "Mulheres gritando de terror têm sido um dos pilares de Hollywood — mesmo quando os filmes eram mudos". Segundo o historiador de cinema Brad Weismann, a primeira rainha do grito foi Mary Philbin, intérprete de Christine Daae em The Phantom of the Opera (1925). Contudo, o título scream queen só veio a surgir na década seguinte, como um apelido pejorativo que Fray Way recebeu por "gritar demais" no longa-metragem King Kong (1933). Segundo Weismann, Way tornou-se a rainha do grito mais popular da era clássica de Hollywood.

Durante décadas, obras relacionadas ao gênero mantiveram a ideia de uma protagonista fraca, destacando-se Marion Crane, interpretada por Janet Leigh no suspense Psycho (1960), dirigido por Alfred Hitchcock. Incapaz de revidar, a personagem é esfaqueada por Norman Bates, o assassino do filme, e termina morta e nua no chuveiro. Barbara Steele foi referida como a "rainha de todas as rainhas do grito" devido às suas aparições constantes como protagonista em diversas produções no auge do horror gótico no cinema italiano. Ela é mais lembrada por sua atuação em La maschera del demonio (1960), longa de Mario Bava em que desempenhou os papéis de uma bruxa malvada (Asa Vadja) e de uma princesa virginal (Katia Vadja). Com uma presença tida como estranha e inconstante, Steele especializou-se em interpretar tanto a vítima inocente como o monstro, sendo procurada por cineastas como Roger Corman, David Cronenberg, Jonathan Demme e Ryan Gosling.

Década de 1970 miniatura|150px|esquerda|Sandra Peabody, aqui em cena de The Last House on the Left (1972), tornou-se conhecida por atuar em filmes de terror. O título "rainha do grito" ganhou popularidade, sobretudo, durante os anos 1970. Nessa década, quatro atrizes tornaram-se exemplos seminais e influentes de rainhas do grito: Sandra Peabody, que interpretou Mari Collingwood em The Last House on the Left (1972), Marilyn Burns, que desempenhou o papel de Sally Hardesty em The Texas Chain Saw Massacre (1974), Olivia Hussey, intérprete de Jess Bradford em Black Christmas (1974), e Jamie Lee Curtis, que deu vida a Laurie Strode em Halloween (1978). Depois de The Last House on the Left, Peabody apareceu nos filmes de terror Voices of Desire (1972), Case of the Full Moon Murders (1972), Massage Parlor Murders! (1973) e Teenage Hitchhikers (1975). Burns, por sua vez, seguiu atuando em produções como Helter Skelter (1976) e Eaten Alive (1977).

miniatura|125px|Jamie Lee Curtis, considerada a "rainha do grito definitiva".Em Halloween, Jamie Lee Curtis, filha de Janet Leigh, teve seu primeiro papel no cinema. Interpretando Laurie Strode, uma jovem babá perseguida pelo assassino Michael Myers, Curtis estabeleceu-se como a "rainha do grito definitiva" e foi mesmo referenciada como tal no terror Scream (1996), por meio de uma fala do personagem Randy Meeks. Curtis estrelou vários outros filmes de terror nos anos seguintes, incluindo Prom Night (1980), Terror Train (1980) e Halloween II (1981); em The Fog (1980) e Halloween H20: 20 Years Later (1998) ela aparece junto com Leigh.

Em 1977, Jessica Harper destacou-se como a atriz principal de Suspiria, um clássico giallo dirigido por Dario Argento. No mesmo ano, Dee Wallace estrelou The Hills Have Eyes, um dos primeiros filmes da carreira de Wes Craven; Wallace se estabeleceria como rainha de grito na década de 1980, aparecendo em The Howling (1981), Cujo (1983) e Critters (1986). Após atuar em Profondo rosso (1975), de Argento, e Schock (1977), de Mario Bava, Daria Nicolodi desempenhou o papel de rainha do grito em vários outros filmes de Argento, entre os quais Inferno (1980), Tenebrae (1982), Phenomena (1985) e Terror at the Opera (1987). Veronica Cartwright, que começou a interpretar esse tipo de papel em The Birds (1963), de Hitchcock, também foi uma rainha do grito proeminente na década de 1970, aparecendo na refilmagem de Invasion of the Body Snatchers (1978) e em Alien (1979).

Década de 1980 O sucesso de Halloween reviveu os filmes slasher durante o final dos anos 1970 e ao longo da década seguinte, inspirando muitas produções similares e a consolidação de novas rainhas do grito. Entre os exemplos, destacam-se Friday the 13th (1980), que apresentou tanto uma protagonista (Adrienne King) quanto uma antagonista (Betsy Palmer) do sexo feminino, ambas referidas como rainhas do grito; e A Nightmare on Elm Street (1984), considerado um clássico do slasher, que introduziu o assassino sobrenatural Freddy Krueger e cuja atriz principal, Heather Langenkamp, foi considerada rainha do grito e se tornou uma das mais influentes.

Também se destacaram na época as atrizes Linnea Quigley, que apareceu especificamente em filmes considerados clássicos cult e de baixo orçamento, tais como Graduation Day (1981), Silent Night, Deadly Night (1984), The Return of the Living Dead (1985) e Night of the Demons (1988); Felissa Rose, com seu primeiro e mais conhecido papel em Sleepaway Camp (1983); Barbara Crampton, que estrelou Re-Animator (1985) e From Beyond (1986); e a britânica Catriona MacColl, que participou de três filmes de terror italianos dirigidos por Lucio Fulci: Paura nella città dei morti viventi (1980), L'aldilà (1981) e Quella villa accanto al cimitero (1981), os quais se tornaram produções cult. Mark Patton, que protagonizou A Nightmare on Elm Street 2: Freddy's Revenge (1985), passou a ser apontado décadas depois em convenções de terror como a primeira "rainha do grito masculina" do horror mainstream. Bruce Campbell, ator principal da franquia Evil Dead, foi considerado o "rei do grito definitivo".

Após ser nomeada ao Prêmio Saturno por Exorcist II: The Heretic (1977), Linda Blair, indicada ao Oscar e vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante por seu papel de Regan MacNeil em The Exorcist (1973), participou de várias obras de terror durante os anos 1980, incluindo Hell Night, Witchery, Grotesque e The Chilling. Ela continuou atuando em filmes do gênero na década de 1990, incluindo uma participação especial em Scream, de Wes Craven, e o papel principal em Dead Sleep, um suspense australiano. Em 2008, no Festival de Cinema Fantástico da Universidade de Málaga, a atriz recebeu um prêmio pelo conjunto de sua obra por seu trabalho no cinema de terror. Após vários anos afastada do gênero, Blair retornou com os suspenses independentes All Is Normal (2008) e Landfill (2023).

Décadas de 1990 e 2000 miniatura|140px|Neve Campbell notabilizou-se por interpretar Sidney Prescott, protagonista da franquia Scream. Durante os anos 1990, Debbie Rochon estrelou dezenas de filmes de terror da produtora Troma e foi eleita pela revista Draculina como a "rainha do grito da década". Sheryl Lee interpretou as vítimas de assassinato Laura Palmer e Maddy Ferguson na telessérie Twin Peaks (1990-91) e no filme derivado Twin Peaks: Fire Walk with Me (1992); ela foi descrita como uma rainha do grito particularmente por sua atuação em cenas que se passam em Black Lodge, um cenário de dimensão paralela visto na série. O primeiro longa-metragem americano da atriz canadense Neve Campbell foi o horror cult The Craft (1996). Ela seguiu atuando no gênero, conseguindo o trabalho de maior sucesso de sua carreira ao estrelar como Sidney Prescott, o principal alvo de Ghostface na cinessérie Scream, uma criação de Wes Craven e Kevin Williamson.

Jennifer Love Hewitt foi rotulada como rainha do grito por sua participação nos longas I Know What You Did Last Summer (1997) e I Still Know What You Did Last Summer (1998). O primeiro filme dessa trilogia também foi protagonizado por Sarah Michelle Gellar, que começou sua carreira na televisão interpretando Buffy Summers, uma caçadora de vampiros, na série de drama sobrenatural Buffy the Vampire Slayer, trabalho pelo qual foi indicada a um Globo de Ouro e venceu o Prêmio Saturno de melhor atriz de televisão. Gellar passou a aparecer em outros filmes de terror feitos durante a década de 1990 e no novo milênio, incluindo Scream 2 (1997), The Grudge (2004) e The Grudge 2 (2006).

Entre 2000 e 2004, Katharine Isabelle protagonizou a trilogia Ginger Snaps no papel de uma adolescente que se transforma em licantropo. Ela estabeleceu sua fama de rainha do grito aparecendo em outros filmes de terror posteriores, incluindo o papel principal em American Mary (2012), um filme de estupro e vingança. Mary Elizabeth Winstead foi nomeada rainha do grito por sua atuação em produções como Monster Island (2004), The Ring Two (2005), Black Christmas (2006) e Final Destination 3 (2006); em 2011, ela interpretou a protagonista de The Thing, pré-sequência do filme homônimo de John Carpenter de 1982. Em 2005, Shauna Macdonald estrelou o horror britânico The Descent, que a estabeleceu como uma rainha do grito e lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Saturno de melhor atriz.