A tartaruga-de-couro (nome científico: Dermochelys coriacea), tartaruga-gigante, tartaruga-de-cerro, tartaruga-de-quilha, tartaruga-de-leste, tartaruga-preta, tartaruga-sete-quilhas, careba-mole ou careba-gigante, é a maior das espécies de tartarugas e é muito diferente das outras tanto em aparência quanto em fisiologia. É a única espécie extante do gênero Dermochelys e da família dos dermoquelídeos (Dermochelyidae). Suas principais características são: crânio muito forte; presença de palato secundário; cabeça parcialmente ou não retrátil; extremidades em forma de nadadeiras não retráteis cobertas por numerosas placas pequenas (com dedos alongados e firmemente presos por tecido conjuntivo); as garras são reduzidas, etc. No mar, tais animais chegam a atingir até 35 quilômetros por hora.

Taxonomia e evolução

Taxonomia Dermochelys coriacea é a única espécie do gênero Dermochelys. O gênero, por sua vez, contém o único membro existente da família dos dermoquelídeos (Dermochelyidae). Domenico Agostino Vandelli nomeou a espécie pela primeira vez em 1761 como Testudo coriacea a partir de um animal capturado em Ostia e doado à Universidade de Pádua pelo Papa Clemente XIII. Em 1816, o zoólogo francês Henri Blainville cunhou o termo Dermochelys. A tartaruga-de-couro foi então reclassificada como Dermochelys coriacea. Em 1843, o zoólogo Leopold Fitzinger colocou o gênero em sua própria família, os dermoquelídeos. Em 1884, o naturalista americano Samuel Garman descreveu a espécie como Sphargis coriacea schlegelii. Os dois foram então unidos em D. coriacea, com cada subespécie recebendo o status de D. c. coriacea e D. c. schlegelii. As subespécies foram posteriormente rotuladas como sinônimos inválidos de D. coriacea.

Tanto o nome popular, quanto o nome científico da espécie vêm da textura de couro e aparência de sua carapaça (Dermochelys coriacea, do latim, significa "Tartaruga de pele encouraçada"). Um nome comum em inglês, lute ("alaúde") , compara as sete cristas que percorrem o comprimento das costas do animal com as sete cordas do instrumento musical de mesmo nome.

Evolução

Ancestrais das tartarugas-de-couro modernas já existiam desde que as primeiras tartarugas marinhas verdadeiras evoluíram há mais de 110 milhões de anos atrás, durante o período Cretáceo. Os dermoquelídeos são parentes da família dos queloniídeos (Cheloniidae), que contém as outras seis espécies de tartarugas marinhas existentes. No entanto, o seu grupo irmão é a extinta família dos protostegídeos (Protostegidae), que incluía outras espécies que não tinham uma carapaça dura.

Descrição Anatomia e morfologia

Dentre as tartarugas marinhas, o corpo da tartarugas-de-couro é o que possui melhor hidrodinâmica, com casco em forma de lágrima. As tartarugas-de-couro locomovem-se pela água fazendo uso de suas longas nadadeiras frontais que, assim como em outras tartarugas marinhas, são achatadas e adaptadas ao nado em mar aberto. Garras estão ausentes de ambos os pares de nadadeiras. As nadadeiras frontais da tartaruga-de-couro são as maiores em relação ao corpo dentre as tartarugas marinhas existentes, podendo atingir até 2,7 metros em espécimes adultos. A tartaruga-de-couro tem várias características que a distinguem de outras tartarugas marinhas. Sua característica mais notável é a falta de uma carapaça óssea. Em vez de escudos, tem uma pele grossa e coriácea com osteodermos minúsculos embutidos. Sete cristas distintas se erguem da carapaça, cruzando da margem cranial para caudal das costas da tartaruga. As tartarugas-de-couro são únicas entre os répteis, pois suas escamas não possuem β-queratina. Toda a superfície dorsal da tartaruga é colorida de cinza escuro a preto, com uma dispersão de manchas e pontos brancos. Demonstrando contrasombreamento, a parte inferior da tartaruga é levemente colorida.

miniaturadaimagem|280px|Disposição das quilhas sobre a carapaça da tartaruga-de-couro. Em preto, a quilha vertebral, em azul, verde e vermelho, as quilhas laterais

Os adultos têm, em média, 1–1,75 metro (3,3–5,7 pés) de comprimento de carapaça curva (CCL), 1,83–2,2 metros (6–7,2 pés) de comprimento total e 250 a 700 quilos (550 a libras) de peso. No Caribe, o tamanho médio dos adultos foi relatado em 384 quilos (847 libras) de peso e 1,55 metro (5,1 pés) no CCL. Da mesma forma, aqueles que nidificam na Guiana Francesa pesavam uma média de 339,3 quilos (748 libras) e mediam 1,54 metros (5,1 pés) em CCL. O maior espécime verificado já encontrado foi descoberto na praia paquistanesa de Sandspit e media 213 centímetros (6,99 pés) de CCL e 650 quilos ( libras) de peso. Um concorrente anterior, a "tartaruga Harlech", tinha supostamente 256,5 centímetros (8,42 pés) de CCL e 916 quilos ( libras) de peso, no entanto, uma inspeção recente de seus restos alojados no Museu Nacional de Cardiff descobriu que seu CCL verdadeiro está mais próximo de 1,5 metro (4,9 pés), lançando dúvidas sobre a precisão do peso reivindicado também. Por outro lado, um artigo científico afirmou que a espécie pode pesar até mil quilos ( libras) sem fornecer detalhes mais verificáveis. A tartaruga-de-couro é pouco maior do que qualquer outra tartaruga marinha após a eclosão, pois mede em média 61,3 milímetros (2,41 polegadas) no comprimento da carapaça e pesa cerca de 46 gramas (1,6 onça) quando recém eclodida.

A tartaruga-de-couro exibe várias características anatômicas que se acredita estarem associadas a uma vida em águas frias, incluindo uma extensa cobertura de tecido adiposo marrom, músculos nadadores independentes da temperatura, trocadores de calor em contracorrente entre as grandes nadadeiras frontais e o núcleo corpo e uma extensa rede de trocadores de calor em contracorrente ao redor da traqueia.

Fisiologia

miniaturadaimagem|esquerda|Esôfago da espécie cheio de protuberâncias pontudas para reter as presas

As tartarugas-de-couro são um dos animais marinhos com mergulhos mais profundos. Indivíduos foram registrados mergulhando em profundidades de até metros. Os mergulhos duram, geralmente, de três a oito minutos, com mergulhos de 30 a 70 minutos ocorrendo com pouca frequência. A tartaruga-de-couro é o único réptil que possui a capacidade de manter sua temperatura corporal usando calor gerado metabolicamente, ou endotermia. Estudos iniciais sobre suas taxas metabólicas revelaram que possuía taxa metabólica basal cerca de três vezes maior do que o esperado para répteis de seu tamanho. Entretanto, estudos recentes comparando tartarugas-de-couro a répteis de tamanho similar, envolvendo todos os estágios da sua ontogenia, descobriram que a taxa metabólica basal uma tartaruga-de-couro grande não é significativamente diferente dos resultados previstos com base na alometria. Ao invés de usar um alto metabolismo basal, as tartarugas-de-couro parecem aproveitar-se de um alto nível de atividade. Estudos em espécimes selvagens descobriram que indivíduos podem passar apenas 0,1% do dia em repouso. Essa natação constante produz calor derivado dos músculos. Em conjunto com seus trocadores de calor em contracorrente, cobertura de gordura isolante e grande tamanho, essa característica provém às tartarugas-de-couro a capacidade de manter diferenças de alta temperatura em comparação com a água circundante. Tartarugas-de-couro adultas foram encontradas com temperaturas corporais 18 °C acima da água em que estavam nadando.

Distribuição geográfica

250px|miniaturadaimagem|Tartaruga-de-couro cobrindo seus ovos na Praia da Tartaruga, em Tobago miniaturadaimagem|250px|Filhotes se arrastando para o mar

A tartaruga-de-couro é uma espécie cosmopolita, podendo ser encontrada em todos os oceanos tropicais e subtropicais. De todas as tartarugas existentes, é a que possui distribuição mais ampla, habitando desde regiões próximas ao Círculo Polar Ártico, ao norte, até a Nova Zelândia, ao sul. As três maiores populações geneticamente distintas ocorrem nos oceanos Atlântico, Pacífico Ocidental e Pacífico Oriental. Embora praias de nidificação tenham sido encontradas também no Oceano Índico, as populações de tartaruga-de-couro nessa região ainda carecem de avaliação científica. Estimativas recentes indicam que, atualmente, 26 a 43 mil fêmeas fazem ninho em praias todos os anos, representando um declínio notável quando comparado à estimativa de 115 mil fêmeas fazendo ninhos, realizada em 1980.

População do Atlântico

A população de tartarugas-de-couro no Oceano Atlântico se estende por toda a região, sendo encontradas desde o Mar do Norte, ao norte, até o Cabo das Agulhas, ao sul. Ao contrário de outras tartarugas marinhas, as áreas de alimentação da tartaruga-de-couro estão em águas mais frias, onde suas presas, águas vivas, são encontradas em abundância. No entanto, apesar de sua ampla distribuição, apenas algumas praias dos dois lados do Atlântico são utilizadas como locais de nidificação.

Os locais de desova mais importantes do Atlântico oeste são localizados na costa nordeste da América do Sul, em Suriname, Guiana e Guiana Francesa, onde algumas poucas praias selecionadas são locais de nidificação primários de várias espécies de tartarugas marinhas, sendo a maioria delas de couro. Além disso, algumas centenas de fêmeas de tartaruga-de-couro fazem ninhos anualmente na costa leste da Flórida, e na Costa Rica, as praias de Gandoca e Parismina fornecem áreas de nidificação. Já no Atlântico leste, as praias do , na costa do Gabão, África Central, recebem o maior evento de nidificação do continente africano e possivelmente de todo o mundo, com cerca de 30 mil tartarugas visitando suas praias a cada ano entre outubro e abril.

Subpopulação do Pacífico As tartarugas-de-couro do Pacífico dividem-se em duas populações. Uma população nidifica em praias em Papua, Indonésia e Ilhas Salomão, e forrageia em todo o Pacífico no Hemisfério Norte, ao longo das costas da Califórnia, Oregão e Washington na América do Norte. A população do Pacífico oriental forrageia no Hemisfério Sul, nas águas ao longo da costa oeste da América do Sul, nidificando no México, Panamá, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica, bem como no leste da Austrália.

Os Estados Unidos continentais apresentam duas grandes áreas de alimentação. Uma área bem estudada fica na costa noroeste, perto da foz do rio Colúmbia, com outra área situada na Califórnia. Mais ao norte, na costa do Pacífico do Canadá, as tartarugas-de-couro visitam as praias da Colúmbia Britânica. As estimativas do World Wide Fund for Nature (WWF) sugerem que apenas fêmeas adultas da tartaruga-de-couro do Pacífico ainda existam, tornando-a a subpopulação de tartarugas marinhas mais ameaçada.

Subpopulação do Mar da China Meridional Uma terceira possível subpopulação do Pacífico foi proposta, aquelas que nidificam na Malásia. Essa subpopulação, no entanto, está praticamente erradicada. A praia de Rantau Abangue em Trenganu, Malásia, já teve a maior população nidificante do mundo, abrigando dez mil ninhos por ano. A principal causa do declínio foi o consumo de ovos por humanos. Os esforços de conservação iniciados na década de 1960 foram ineficazes porque envolviam escavar e incubar ovos em locais artificiais que inadvertidamente expunham os ovos a altas temperaturas. Só na década de 1980 ficou conhecido que as tartarugas marinhas sofrem determinação sexual dependente da temperatura; suspeita-se que quase todos os filhotes incubados artificialmente eram fêmeas.

Subpopulação do Oceano Índico Embora pouca pesquisa tenha sido feita sobre as populações de tartarugas-de-couro no Índico, populações nidificantes são conhecidas no Seri Lanca e nas ilhas Nicobar. Essas tartarugas formam uma subpopulação separada e geneticamente distinta, típica do Índico.

Ecologia

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