Vulcão da Serreta designa uma zona de vulcanismo fissural assente sobre a Crista Submarina da Serreta, uma faixa de fundos marinhos elevados em relação às áreas circundantes localizada a oeste da costa da ilha Terceira (Açores), frente à povoação da Serreta (que lhe dá o nome). Nesta região têm ocorrido frequentes erupções submarinas ao longo de linhas de fractura com a direcção geral leste-oeste, parte do sistema radial de fracturas associado ao vulcão de Santa Bárbara. A zona de vulcanismo mais activo localiza-se entre os 9 os 14 km a oeste da Ponta do Queimado (ou Ponta da Serreta), com duas erupções históricas, a primeira das quais em Maio e Junho de 1867, acompanhada por forte sismicidade e pela projecção aérea de cinzas e rochas, e a segunda desde finais de 1998 a meados do ano 2000, acompanhada apenas por microssismos e sem projecção aérea de materiais.Erupção Vulcânica na Crista Submarina da Serreta.

A primeira erupção em tempos históricos teve início, após intensa actividade sísmica no mês anterior, a 1 de Junho de 1867, a profundidades inferiores aos 300 m, projectando grandes colunas de vapor e ejectando cinzas e rochas acima da superfície do mar, tendo deixado um baixio, a Baixa da Serreta, que ainda subsiste. A segunda erupção histórica, ocorrida desde finais de 1998 a meados do ano 2000, ocorreu a profundidade bem maior (500 a 600 m), não provocando sismos sentidos. Nesta última erupção, as rochas atingiam a superfície apenas como "balões" de gás que explodiam e se afundavam de imediato. Poderão ter ocorrido entretanto outras erupções que não foram detectadas dada a profundidade em que ocorreram. Descrição A Crista Submarina da Serreta insere-se no troço oeste do rift da Terceira, correspondendo a um conjunto de fracturas que atravessam a ilha Terceira que atravessam a ilha Terceira de sueste para noroeste,Nicole Métrich et al., Water beneath the Azores: Mantle melting in a transtensional geodynamic setting. prolongando-se depois em direcção à ilha Graciosa. O troço que constitui a Crista Submarina da Serreta está inserido no sopé do vulcão de Santa Bárbara, sendo percorrido pelo sector oeste do sistema radial de fracturas que se desenvolve torno daquele grande estratovulcão.

A orogenia da ilha Terceira é marcada por uma lenta migração de leste para oeste dos principais centros eruptivos, resultado do progressivo afastamento da ilha em relação à Dorsal Mesoatlântica. O vulcão de Santa Bárbara, que constitui o terço ocidental da ilha, é o mais jovem dos grandes centros eruptivos da ilha, tendo sido palco das mais recentes erupções nela verificadas, tendo a última erupção sub-aérea ocorrido no flanco leste da estrutura, naquela que ficou conhecida como a erupção dos Picos Gordos, em abril de 1761. No mar, dada a grande profundidade das águas a oeste da ilha e a baixa sismicidade associada às erupções mais recentes deste vulcão, apenas se conhecem dois eventos eruptivos, um verificado em 1867, com expressão sub-aérea, e outro em 1998-2000, integralmente submarino.

Este enquadramento regional, dominado pela expansão dos fundos oceânicos a oeste da ilha pela acção do rifte da Terceira, leva a que o principal centro eruptivo associado à ilha Terceira tenha migrado para oeste da ilha, situando-se na actualidade nos fundos marinhos que constituem a crista submarina da Serreta, um prolongamento do flanco oeste da Serra de Santa Bárbara. Aquela crista desenvolve-se em águas profundas, estado flanqueada por profundidades que excedem os 700 m, rodeada por encostas que se elevam abruptamente dos fundos circundantes.

Dada a elevada profundidade e baixa sismicidade associada, as erupções submarinas que terão ocorrido ao largo da Serreta, provavelmente recorrentes antes e depois do povoamento da ilha nos finais do século XV, apenas duas estão documentadas: a de maio e junho de 1867 e a de 1998-2000. A erupção de Maio e Junho de 1867 A erupção que se iniciou de forma visível com projecção sub-aérea acima da superfície do mar a 1 de Junho de 1867, é a mais violenta que ocorreu no Vulcão da Serreta desde a colonização das ilhas. Iniciou-se com uma crise sísmica que foi crescendo de intensidade e frequência ao longo dos primeiros meses de 1867. Durante o mês de Maio a intensidade e frequência dos tremores era tal que quase todas as casas das freguesias da Serreta, Raminho e Altares se encontravam arruinadas e os seus habitantes não se atreviam a nelas entrar, dormindo em cafuas feitas de palha e de ramagens de árvore. Nos últimos dias de Maio iniciou-se uma fase de violento tremor contínuo, mais sensível na freguesia do Raminho. A 31 de Maio, a violência do tremor era tal que as populações organizaram uma procissão onde transportavam as coroas do Divino Espírito Santo, que, partindo dos Altares, se dirigiu para oeste, incorporando as do Raminho. Igual cortejo se organizou nas Doze Ribeiras e Serreta, dirigindo-se também para oeste. Reunido o povo no lugar sobranceiro à Ponta do Raminho (onde hoje está o miradouro e o altar que assinala o acontecimento), celebrou-se missa campal. Poucas horas depois rebentou o vulcão no mar frente ao local, desaparecendo o tremor.

São conhecidos vários registos escritos desta erupção pelos quais é possível acompanhar o evoluir da crise sísmica que precedeu o evento, o início da erupção a 1 de junho de 1867, o apoio social que foi prestado à população e algumas expedições científicas visando o seu estudo que foram realizadas nos meses seguintes.SIARAM (Paulo J. M. Barcelos, Associação Os Montanheiros): A erupção submarina da Serreta no seu 150.º aniversário. Entre estes escritos, para além das notícias publicadas na imprensa terceirense coeva, com destaque para os jornais O Angrense e a A Terceira, destaca-se o relato enviada a 6 de junho de 1867 por António de Gouveia Osório, ao tempo governador civil do Distrito de Angra do Heroísmo, ao seu congénere do Distrito da Horta, e o relatório oficial enviado ao Governo por Afonso Joaquim Nogueira Soares, ao tempo Director das Obras Públicas da Terceira, sendo este último a melhor descrição conhecida desta erupção. Apesar de não se conhecer o seu paradeiro actual, conhecendo-se apenas citações feitas por outros autores, foram relevantes os relatos elaborados pelo pároco da Serreta, padre João Guilherme da Costa, que nas palavras de um autor da época estava «colocado melhor do que ninguém para observar de noite e de dia, as diversas fases do fenómeno»Charles Joseph Sainte-Claire Deville & Jules Janssen, «Récit de l’éruption sous-marine qui a eu lieu, le Ier juin 1867, entre les îles de Terceira et de Graciosa, aux Açores» in Compte rendu des séances de l'Académie des sciences, t. LXV, pp. 662-668, julho-dezembro de 1867. e que terá procedido ao registo de alguns dos momentos mais marcantes da atividade sismo-vulcânica associada à erupção.

Embora não tendo presenciado a erupção, são relevantes as comunicações à Academia das Ciências de Paris produzidas pelo geólogo e meteorologista Charles Joseph Sainte-Claire Deville e pelo astrónomo e químico Jules Janssen, que visitaram a ilha Terceira em agosto de 1867, e pelo vulcanólogo e petrologista Ferdinand André Fouqué,Fouqué formou-se em Ciências Naturais (1849-1851) pela École Normale Supérieure onde foi preparador no Laboratório de História Natural (1853). Em 1858 tornou-se Doutor em Medicina e em 1861, após uma visita ao Vesúvio, iniciou as primeiras expedições na área da vulcanologia, uma ciência que abraçou com paixão. Em 1865 foi à Sicília, onde estudou o vulcanismo. Em 1866 obteve o título de Doutor em Ciências Físicas e nesse mesmo ano partiu em missão para Santorini. Em 1867 fez a primeira de duas visitas aos Açores. que esteve na ilha nos meses de setembro e outubro daquele ano.Na página 4 da edição de O Angrense de 2 de outubro de 1867 aparece uma local onde se escreve: «Acha-se entre nós mr. Fouqué, sábio naturalista francês, e que vem fazer aprofundados estudos às nossas ilhas. Às municipalidades cumpre fornecer a mr. Fouqué toda a facilidade para levar a cabo os seus estudos. E para desejar que a digna Câmara de Angra peça a mr. Fouqué para que analise as águas da Serreta e Silveira, facilitando-lhe o acesso a esses lugares.»As comunicações apresentadas na Academia das Ciências de Paris por estes dois cientistas, depois publicadas ou citadas em várias revistas científicas da época, deram notoriedade internacional à erupção vulcânica da Serreta.Na sua edição de 27 de julho de 1867 o jornal O Angrense noticiava: «No vapor Açoriano estavam para vir dois naturalistas franceses, mandados pela Academia Imperial de Paris, para estudarem os fenómenos vulcânicos, que ultimamente tiveram lugar próximo a esta ilha. Um deles é o mr. Saint Clair, nome muito conhecido no mundo científico. É provável que deixassem de vir, e já não venham, por ter acabado a explosão.» Apesar da dúvida o geólogo Charles Joseph Sainte-Claire Deville e o seu companheiro de viagem o astrónomo e químico Pierre Jules César Janssen chegaram à ilha Terceira no mês seguinte, tendo-se demorado na Terceira de 18 a 26 de agosto daquele ano.Fouqué, F., 1867. "Sur les phénomènes volcaniques observés à Terceira (îles Açores). Première Lettre à M. Ch. Sainte-Claire Deville" (Angra, 20 de outubro 1867).Fouqué, F., 1867. Sur le gaz qui se dégagent en mer sur le lieu de l’érupcion qui s’est manifestée aux Açores le 1er Juin 1867 - C. R. Acad. Sc., T. LXV: 674-675. Cronologia da erupção de 1867 A partir desses relatos é possível estabelecer a seguinte cronologia dos eventos: Crise sísmica de dezembro de 1866 a maio de 1867 — A partir do outono de 1866 começaram a ser sentidos alguns pequenos sismos nas povoações do oeste da ilha, com destaque para a Serreta e Raminho (ao tempo curato da freguesia dos Altares). Os primeiros eventos sentidos com intensidade sísmica significativa, assustando as populações daquelas freguesias, ocorreram por volta das 22:00 horas do dia 24 de dezembro de 1866, altura em que se sentiram dois curtos abalos que, apesar de não terem produzido estragos, causaram alarme.Afonso Joaquim Nogueira Soares, Relatório do Director do Serviço de obras Públicas do Distrito de Angra do Heroísmo in Diário de Lisboa, n.º 155, de 15 de julho de 1867 (transcrito em Acúrcio Garcia Ramos, Notícia do Archipelago dos Açores e do que há mais importante na sua historia natural, 1869, pp. 51-54. Esses eventos foram seguidos por quatro sismos sentidos no dia 2 de janeiro de 1867. Dessa data até 15 de março daquele ano a crise sísmica agravou-se, sendo sentidos entre quatro a dez sismos em cada dia. O jornal O Angrense insere, em suplemento à sua edição de 31 de maio, a seguinte notícia: «Desde 2 de janeiro deste ano que se começaram a sentir nas freguesias dos Milagres e Raminho algumas comoções vulcânicas que duraram quase sucessivamente até 6 de março, dia em que suspenderam.»Suplemento ao n.º 14180 de O Angrense de 31 de maio de 1867. Esta «suspensão» ocorrida nos primeiros dias de março foi transitória, pois decorrido cerca de um mês sem sismos sentidos, voltaram a sentir-se abalos fracos nos dias 18 e 21 de abril, tendo a actividade recrudescido nos dias seguintes com entre oito a doze abalos sentidos por dia. A partir do início de maio aumentou a frequência e intensidade dos sismos, contando-se cerca de cinquenta e sete entre as 17:30 e as 24:00 horas do dia 25 de maio. Essa «oscilação constante do solo, ímpetos veementíssimos precedidos de assustadores estampidos subterrâneos, tem sido o estado habitual daquelas infelizes povoações […], mantendo-se de 25 de maio a 1 de junho o solo da Serreta e das paróquias vizinhas […] numa agitação contínua». Por esta altura os sismo sentiam-se na cidade de Angra do Heroísmo, situada cerca de 18 km a sueste da Serreta. Neste suplemento de O Angrense, datado de 31 de maio, são descritos sucintamente os acontecimentos e a destruição ocorrida até àquela data.